O ser humano é capaz de grandes imbecilidades quando mal intencionado; porém, quando bem intencionado, nada supera sua belíssima capacidade de construir saber e justiça. A BBC noticia uma pesquisa que associa a exposição generalizada de conteúdo sexual à imaturidade afetiva de adultos e à precocidade sexual infantil. Nada que nós não conheçamos muito bem não é verdade? Cada dia mais os adultos agem como crianças, assim como as crianças agem como adultos. É comum vermos adultos comportando-se de modo infantilizado, incapazes de estabilidade em seus relacionamentos. Da mesma forma nota-se que os pré-adolescentes cada vez mais se esforçam por parecer devassos. Isso mesmo, a criançada "legal" adora ridicularizar os amiguinhos inocentes, aqueles que não têm malícia e despudor sexuais. Da forma como vejo, não se trata apenas de desastre e implosão morais, mas da construção de uma sociedade infeliz, o que, no meu entender, é muito mais grave que simples transgressões. O relacionamento dos adultos é cada vez mais marcado pelo descompromisso ativo. Ou seja, busca-se deliberadamente uma falsa liberdade, por isso tantos relacionamentos "liberais" onde não há um vínculo formal. O resultado não poderia ser outro: consultórios de psiquiatras e psicólogos lotados.
A solução? Oras, vocês sabem! Todo mundo sabe. Compromisso, fidelidade, honestidade, maturidade, responsabilidade, etc. O problema real está na vontade livre das pessoas. Ainda que nossa consciência aponte com clareza que todos esses valores são extremamente necessários para uma vida afetiva normal e completa, a crise moral instalada em nosso meio sugere que eles levam à uma existência chata. Estou dizendo com clareza que as pessoas aprendem a calar a voz de suas consciências para viver um esquema de falsa liberdade que sacrifica suas reais emoções. É um sacrifício deliberado que a maioria faz para não ser tachada de retrógrada e moralista. Por consequência, muitas moças acabam vivendo uma sexualidade que só as faz infeliz para que suas amigas não as vejam como atrasadas. Os homens, por sua vez, parecem viver esse esquema há mais tempo, fruto direto do machismo que os proibe de ter emoções. É um círculo vicioso que só é interrompido pela luz! Não à toa associa-se o saber à iluminação. Sugiro que os leitores do blog leiam com atenção a reportagem da BBC que segue abaixo. Também sugiro que não leiam as reportagens de sexualidade dos atuais jornais, pois são mera repetição dos absurdos que Marta Suplicy ensinou às mulheres na década de 80: segundo este ser abjeto, a liberdade está em viver a sexualidade conforme os naturais impusos corpóreos.
O problema é que isso não é em absoluto uma vivência sadia da sexualidade humana! Por favor, não sejam imbecis! Desculpem-me, mas não há outra maneira para se referir àqueles que consideram que o impulso sexual deve ser vivido de uma forma animalesca. Fosse isso verdade, por consequência lógica o estupro deveria ser descriminalizado, afinal, qual a expressão mais animalesca da nossa sexualidade que o sexo conquistado à força? É um imperativo a humanização de tudo o que se relaciona conosco. Não podemos fugir à esta verdade, senão ela nos massacra. Ou tudo que tocamos é humanizado pela nossa presença ou não somos dignos de sermos chamados humanos, pois um reles um macaco só é digno do nome porque "macaquiza" tudo ao seu redor. Você deve, pois, desconfiar de todo falso saber que trata a sexualidade humana como algo meramente animal - para ser humana, ela precisa ser humanizada, ou seja, compreender todos os fenômenos que nos cercam, dentre os quais deve-se destacar nossa vida emocional, a maior prejudicada (como demonstrado pela pesquisa) por um comportamento sexual desregrado e animalizado. O que acharíamos de um glutão que gostasse de folhear revistas com fotos de suculentos pernis para, com isso, excitar-se? Não seria ridículo? Por que então se estimula o mesmo comportamento em relação à sexualidade?
Oras, fico até um pouco irritado por sentir-me obrigado em escrever a resposta correta. Isso demonstra o generalizado grau de imbecilidade completa que nos cerca. O motivo é grana! A gênese da sexualidade desregrada está em um impulso mercadológico, capitalista. Todo mundo sabe como sexo é uma questão sensível, que só a muito custo se consegue tratar com temperança e justiça. Portanto, pergunto, a quem você prefere dar crédito: àqueles que procuram ganhar dinheiro com a sua sexualidade ou àqueles que te ensinam a humanizá-la? Não estou de modo algum defendendo um estilo de vida puritano, que reprima o corpo como algo naturalmente imoral. Isso é coisa de protestante, não de católico. Quero tão somente reafirmar os valores humanos citados no início do texto como reais norteadores do impulso sexual. A humanização do sexo não é, pois, algo complicado: basta deixar o compromisso, a fidelidade, a honestidade, a maturidade e a responsabilidade falarem mais alto. Trata-se de uma questão de justiça, pois são essas as instâncias da consciência que devem ser consultadas antes de se decidir ir para cama com alguém. O real saber sobre a sexualidade humana só é possuido por aqueles que consideram com carinho nossas reais necessidades afetivas de complementaridade e aceitação.
Se você, pelo contrário, preferir dar ouvidos à Hugh Hefner (dono do complexo de comunicação da Playboy), tem o direito de saber que está escravizando sua sexualidade à vontade um velho tarado que se tornou bilionário por promover um estilo de vida que decretou guerra aos reais valores humanos. Em lugar da sadia liberdade humana, cujo objetivo maior é a felicidade, você estará privilegiando uma visão de mundo que considera o seu corpo uma mercadoria. Por sinal que a reportagem da BBC avisa que um dos mais importantes aspectos da pesquisa é a demonstração de que a mercantilização do corpo torna as pessoas infelizes em relação a si próprias, porque propõe inatingíveis padrões de beleza. Uma pessoa em são juízo jamais abraça este estilo de vida. Trata-se, porém, de um estilo de vida equivocado tão difundido que não sei se somente a leitura de uma simples reportagem irá convencer os leitores adeptos dessa filosofia a abandonarem-na. Complemento com outra sugestão de leitura: a ed. Quadrante oferece excelentes artigos sobre esta questão em seu website. Estão subdivididos em dois temas: valores e virtudes (link aqui) e família (link aqui). Em ambos você encontrará a defesa de um estilo de vida verdadeiramente humano e justo, conforme a sua própria sede de amor e verdade aconselha.
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SEXO NA MÍDIA ESTIMULA VIOLÊNCIA CONTRA MULHER, DIZ PESQUISA
Estudo relaciona o excesso de conteúdo sexual na mídia à posição da mulher como objeto.
(Da BBC Brasil, original aqui).
Um estudo divulgado nesta sexta-feira afirma que a exposição de crianças e adolescentes a conteúdo sexual na mídia vem reforçando a ideia da mulher como objeto de desejo e alvo de violência doméstica.
O relatório Sexualização dos Jovens, da psicóloga Linda Papadopoulos, encomendado pelo Ministério do Interior britânico, diz que os jovens estão cada vez mais expostos a conteúdo relacionado à sexualidade por meio de revistas, televisão, internet e aparelhos de celular, sem que os pais consigam controlar isso.
Segundo ela, esse conteúdo está "legitimando a ideia de que as mulheres existem para serem usadas e de que os homens existem para usá-las".
Nesse contexto, a pesquisadora entende que a posição da mulher como alvo de violência doméstica acaba virando comum e até aceitável.
Da sexualidade à violência
O estudo diz que as crianças estão sendo cada vez mais retratadas como adultos, enquanto adultos são infantilizados, o que confunde as noções de maturidade e imaturidade sexual.
Além disso, tanto mulheres quanto homens são levados pela mídia a buscar um ideal de aparência física "fora da realidade", o que resulta em "insatisfação com o próprio corpo, um reconhecido fator de risco para a autoestima, para depressão e distúrbios alimentares".
"Um tema dominante em revistas parece ser a necessidade das garotas de se apresentarem como sexualmente desejáveis para atrair a atenção masculina", diz o estudo.
Seguindo esse mesmo raciocínio de subserviência feminina, a violência contra as mulheres acaba sendo banalizada.
O relatório aponta que, desde 2004, a exibição na TV de cenas de violência contra a mulher cresceu 120%, enquanto as de agressão contra adolescentes aumentou 400% no período. Além disso, no cinema, 75% dos personagens e 83% dos narradores são homens.
Papel dos pais e da escola
Papadopoulos entende que essa lógica explica os resultados de uma pesquisa do Ministério do Interior britânico divulgada neste mês.
A análise revelou que 36% dos britânicos acreditam que, em caso de estupro, a mulher deve ser parcialmente responsabilizada se estiver bêbada, e 26% pensam assim no caso de a vítima estar usando roupas sensuais.
A psicóloga cita ainda o dado de que uma em cada três garotas britânicas entre 13 e 17 anos já teve de fazer sexo contra a sua vontade, enquanto 25% delas já sofreram algum tipo de violência física.
Para reverter esse quadro, o relatório defende que os pais acompanhem mais de perto como seus filhos usam a internet e seus celulares e que o Estado tome medidas para coibir a banalização da sexualidade.
A pesquisadora também recomenda que as escolas tragam essa discussão sobre a igualdade de gênero para as salas de aula.
Pesquisa aponta que exposição ao sexo leva à violência doméstica e infantilização
Marcadores: Ciência, Individualidade, Jornalismo irresponsável, Processo social do saber, Retrocessos morais 9 comentáriosPostado por Henrique Rossi às 07:33
No banho, considerações sobre o ateísmo
Marcadores: Processo social do saber, Religião, Richard Dawkins 1 comentários
Mais um texto pós-voto de silêncio (por essas e muitas outras percebi que não tinha vocação religiosa). Fiquei inquieto em ver o marcador Richard Dawkins novamente isolado na última posição. Caramba. Apesar de parecer que escrevo bastante sobre ele, seu marcador teima em ficar na última posição. Essa é uma injustiça que eu sempre gosto de reparar, mas estava determinado em não me importar por deixá-lo isolado na última posição; mesmo assim não pude evitá-lo. Estava tomando uma ducha gelada (verão tropical, europeus) quando comecei a pensar na ignorância dos ateus em geral em antropologia. Tive toda uma sorte de ideias diferentes, difíceis de somar. O centro dos meus raciocínios foi (preparem-se): sentem-se os ateus tão distantes das pessoas comuns por deliberadamente negar reverência a qualquer ente externo que, em virtude deste isolamento auto-imposto, sentem-se vítimas de uma grande injustiça. Bem, esta é uma daquelas frases um pouco batatudas, com muita substância intelectual. Vamos tentar simplificá-la. Ela afirma que a maioria das pessoas tem algo que se pode chamar de centro de reverência, algo que elas direcionam a algum ente externo a elas próprias, talvez (quem sabe?) tenhamos esta característica como espécie pelo mecanismo de seleção natural. De modo muito sucinto, ateu é aquele que nega direcionar o seu centro de reverência a qualquer ente externo, seja ele Deus, nirvana, ou ainda o Monstro de Espagueti Voador (retratado acima). A princípio, essa negação deliberada não me causava a menor surpresa; considerava-a uma manifestação legítima da individualidade. Ainda penso assim, o problema foi quando percebi as consequências geradas por tal ato. Não dispondo de um "canal" sobre o qual despejar sua sede de infinito (necessidade não-física da consciência), o ateu direciona o seu centro de reverência sobre ele mesmo! Assim, ele faz sua própria consciência de Deus, ou seja, diviniza-se de uma forma que qualquer religião condena. Afinal, ainda que a divinização do homem seja a maior ambição do impulso religioso, quando ela ocorre como simples influxo egoísta é imediatamente considerada grave desvio. Pois então, aos poucos me fui convencendo disto: ser ateu não é legal. O que antes não me causava impressão alguma, hoje gera aversão. Até acredito que há ateus razoáveis, com os quais se pode conversar de maneira desapaixonada, mas depois de certas experiências pessoais comecei a duvidar. A mais séria delas surgiu a partir de uma reflexão sobre o meu próprio eu.
No passado dificilmente se encontraria sujeito mais anti-religioso do que eu. Perguntem aos meus tios do lado paterno. Alguns devem se lembrar do dia em que desafiei minha pobre avó, falecida há uns seis meses, uma mulher que rezava o rosário todos os dias (pra quem não sabe, o rosário inteiro são três terços). Disse-lhe que Deus era uma fantasia e que serviria Satanás com excelente disposição pelo resto de minha vida caso existisse. Aguentaria de bom grado as penas infernais. A pobrezinha não se turvou, tampouco demonstrou sentir-se ofendida. De certa forma, ainda que eu não gostasse de admitir para mim mesmo, aquele episódio deixou-me envergonhado, afinal, pra quê? O que eu ganhei com aquilo? Como se deu a metamorfose que me transformou em quem sou hoje é assunto bastante extenso mas, em resumo, posso dizer que foi obra daquele Clauze, o tal professor de psicologia que já mencionei algumas vezes. Ele rachou todas as minhas antigas certezas demonstrando a artificialidade de todo o pensamento. Esse processo também não foi legal, nem fácil, mas aprendi, e muito! Vi que a consciência cria a realidade ao nosso redor. Já escrevi sobre isso algumas vezes e foram, devo alertar, os textos mais difíceis do blog. Não há nada de natural no modo como enxergamos a realidade. Não há uma evolução necessária do pensamento, como disse Marx. O que é ocorre a construção ativa do pensamento. As pessoas deliberadamente constróem a realidade a partir tão somente dos seus desejos. Assim, não é absurdo supor que talvez haja algum dia quem divinize o Monstro do Espagueti Voador. A tradição judaico-cristã afirma que há um só Deus imaterial, senhor de toda a realidade, que se manifestou na história. Creia quem quiser, mas o pensamento de que as coisas se dão assim cria na consciência da pessoa esse Deus. Ele existe de fato como imagem mental. A pessoa passa a viver conforme os seus ensinamentos, pois está convencida que ele existe. Todavia, se ele existe como afirmado por esta tradição em uma realidade imaterial anterior à história é algo que, felizmente, dá margem a saudáveis questionamentos. E qual o problema de haver margem para maus-entendidos? Justamente aí se torna manifesta a nossa liberdade de modo escancaradamente exagerado. Penso eu que é através de uma atuação discreta que Deus procura ver como realmente somos. Estivesse ele manifesto a todos de maneira inequívoca não teríamos liberdade para negá-lo (olha que nunca falei dos milagres incontestes que só o catolicismo tem).
Retomando, pois, o raciocínio central. Excluindo a reverência a algum ente externo ao próprio eu, os ateus subvertem o natural rumo empreendido pelo nosso sistema de crenças automático, deusificando-se a si próprios (tornando o ateu capaz de "gracejos" como os que direcionei à minha avó). A consequência mais funesta é a arrogância, que se encontra manifesta em toda uma ampla série de vícios de nomes nada bonitos: jactância, egoísmo, prepotência, vaidade, presunção e, para terminar, vanglória. Pensei muito neste último termo durante aquela ducha. É uma composição por justaposição de vã e glória, ou seja, dar-se uma glória imerecida, uma glória passageira, uma glória vã. Por derivação imprópria surgiu até mesmo um verbo com este sentido: vangloriar-se. Não tendo a quem servir, o ateu serve-se tão somente a si mesmo. Não tendo em quem acreditar, o ateu crê somente na própria capacidade. Alguns leitores poderiam contra-argumentar: "Mas Henrique, se Deus não é manifesto diretamente em nossas vidas porque atribuir a ele coisas que conquistamos por nosso próprio mérito?" Oras, isso está erradíssimo. De modo algum se pode falar em próprio mérito. Ainda que o Deus cristão fosse uma fantasia, a realização pessoal não seria algo que dependeria unicamente de nossos próprios esforços. É toda uma longa série de eventos que, combinados, dão-nos as oportunidades. A própria sorte precisa ser conquistada, é certo, mas dentro dos limites pré-estalecidos de possibilidades. Quem isso percebe é mais justo, pois leva em conta a grande variedade de ocorrências externas das quais pode se beneficiar. Não se atribui, portanto, uma importância que de fato não possui, que sabe não estar nele mesmo. É evidente que há religiosos que são pessoas arrogantes, mas são exceções. Não atribuimos esse comportamento às pessoas religiosas, pois geralmente são afáveis e dóceis. Também não temos problema nenhum em atribuir com grande justiça essa característica à pessoa auto-suficiente, e quem mais auto-suficiente que o ateu? Aqui também há exceções, como já mencionei anteriormente. O problema é a regra. Há matizes que enriquecem a questão, felizmente. O problema é a percepção generalizada de que o ateísmo leva à arrogância, ou ainda, de que o arrongante, incapaz de se reconhecer como um humano qualquer, sonega-se o gesto tão natural de crer, afinal, se há algo para o qual o ser humano não precisa de muito esforço é à capacidade de crer. A falta de naturalidade está em não crer. Meu balanço final é um lamento, pois considero triste esta condição de endeusar-se. Impossível não se tornar alguém de temperamento muito difícil com a imposição de um tal auto-isolamento tão radical.
Postado por Henrique Rossi às 10:03
Escravos da imoralidade capitalista
Marcadores: Combate ao politicamente correto, Publicidade, Retrocessos morais 0 comentários
Os muitos leitores quotidianos deste blog sabem que tenho escrito bem menos que o de costume. Hoje, porém, este já é o segunto texto que escrevo. Sim, há outro texto novo abaixo deste. Mas não se trata de ataque criativo. O texto anterior a este foi escrito porque considerei um tanto hipócrita a tentativa do Conar de bloquear a propaganda da cerveja Devassa Bem Loura, recém-lançada. Acho que no dia em que esse pessoal do Conar resolver combater indecências na publicidade de cerveja deveriam censurar a infinidade de moças de biquínis, bem menos pudicas que a Paris Hilton de vestidinho preto que estão criticando.
O problema de se criticar quaisquer tentativas de moralização na sociedade contemporânea é que logo você se vê forçado a defendê-las, pois o mundo atual sabe como nenhum outro adulterar os reais valores humanos. Ou seja, mal estava eu falando do Conar criticando vestidinhos curtos soube de uma campanha publicitária altamente indecente. Por certo esta vida é algo um tanto irônico, pois bastou o "moralista" aqui criticar uma tentativa desnecessária de censura para outra um tanto necessária chegar ao meu conhecimento. A publicidade em questão é de uma tal forma grosseira e baixa que não vou sequer dizer de que país ela vem, não é do Brasil.
Um órgão de combate ao fumo elaborou uma campanha para revistas que compara o hábito de fumar à escravidão sexual. Para tanto, ela faz uma montagem que sobrepõe um fumante com cigarro na boca ao quadril de um senhor em pé, de modo que se subentenda um ato sexual. Isto foi notícia em alguns telejornais. Um ministro do país em questão entrou imediatamente na luta pela retirada de circulação da campanha. Achei isto muito triste. Além de não dizer de qual país se trata (pois ainda que vocês sejam adultos não desejo que vejam algo tão degradante), também não publico a reportagem que assisti (pois contém imagens da campanha).
É simples o estado de nossa situação: a desesperada necessidade de lucro apela para nossos mais vis impulsos como retórica da qual não se pode escapar. Que órgãos como o Conar estejam desempenhando com cuidado um excelente trabalho de auto-regulamentação é algo de se elogiar, não criticar, ainda que pequenas imperfeições possam ocorrer enquanto a sociedade como um todo estiver desajustada de valores humanos em favor de valores financeiros. De fato, é a sociedade que sobrepõe sua humanidade pelo gosto das riquezas materiais que realmente escraviza, desvirtuando qualquer beleza e decoro.
Postado por Henrique Rossi às 03:04
Uma devassa puritana e respeitável
Marcadores: Combate ao politicamente correto, Publicidade, Televisão 0 comentários
Faço agora mais uma pequena pausa para outro texto inadiável! Estou um tanto surpreso que o Conar, órgão que regulamenta a publicidade no Brasil, abriu três processos contra a campanha de lançamento da nova cerveja do grupo Schincariol, a Devassa Bem Loura (reportagem aqui). Qual a surpresa? Não achei a propaganda devassa (sem trocadilhos). Admito que há exploração sexista do corpo da mulher, mas em comparação com outras cervejas, a campanha da Devassa é tímida. O vestido de Paris Hilton, a socialite bilionária que protagoniza a campanha, é equivalente àquele que escandalizou os alunos da Uniban ano passado, porém, é bem mais comportado do que qualquer bíquini utilizado pelas mil garotas gostosas que estrelam campanhas de cerveja na praia. Oras, se é para se coibir o uso materialista da imagem do corpo feminino o que se deve combater são os bíquinis, não vestidos curtinhos. Talvez o efeito sensual seja potencializado pelo nome da nova cerveja, porque, convenhamos, devassa não é "sexy girl" como Hilton afirmou durante sua passagem pelo carnaval carioca. Devassa está mais para "bitch" mesmo.
Adiciono o vídeo da campanha para os corajosos que não assistem televisão no Brasil e para os vários estrangeiros que dia após dia continuam visitando o blog, ainda que eu esteja publicando bem menos que o de costume (estou cumprindo a promessa de um texto por semana!).
UPDATE: noticia o G1 que a Schincariol decidiu retirar a campanha do ar em função dos processos abertos no Conar (reportagem aqui).
Postado por Henrique Rossi às 02:15
A nova geração de professores de história
Marcadores: Combate à causa revolucionária, Política 2 comentários
Um excelente programa da GloboNews força a interrupção do meu prazeroso silêncio. Não me entendam mal. Amei cada segundo em que estive trabalhando em textos para o blog. Mas estava aplicando muita energia pessoal aqui. Até voltaria a escrever com regularidade, contanto que houvesse uma contrapartida financeira. Se você conhece o dono de algum portal que pudesse se interessar pelo blog avise-o: estou disponível. De fato, tive várias ideias interessantes todos estes dias em que estive afastado. Anotei breves rascunhos que poderão algum dia ser trabalhados, mas de graça não o farei. Só venho aqui hoje porque tenho que compartilhar o programa com vocês. Ele por demais corrobora com tudo o que já escrevi nestas páginas.
Lembram-se como eu gostava de dizer que os estudos de história não mais confirmam as verdades fáceis propagadas pelos professores de cursinho? Lembram-se que sempre pedi referências bibliográficas quando alguém vinha falar de história comigo? Oras, tudo isso porque dos anos 70 para cá o estudo de história vem se tornando cada vez mais científico e menos ideológico. Ou seja, os departamentos de história das grandes universidades estão sendo desaparelhados pela antiga escola esquerdista, cujos representantes estão literalmente morrendo de velhice, enquanto empossam jovens estudiosos mais críticos e menos afeitos à mera reprodução de chavões partidários.
O estado anterior que aos poucos está sendo superado sempre foi marcado por notórias injustiças. Imaginem vocês que o atual presidente da UNE é militante do PC do B desde a adolescência e só entrou na Universidade para que o partido o colocasse na presidência da instituição. Qual a representatividade estudantil disso? Pode-se falar com toda a razão que isso é um excelente exemplo de traição, pois aviltou-se com a omissão deste fato escandaloso a confiança de todos aqueles que votaram nesse sujeito. É certo que quanto menos dependente de partidos políticos fosse o estudo de história melhor seria sua qualidade.
Pois então constatamos com muita alegria que as gerações futuras de professores de história serão mais justas e imparciais que as atuais. No meu modo de ver as coisas é a sociedade inteira que ganha com isso, porque conhece-se a si mesma com mais propriedade e pode, assim, combater os erros que levaram às injustiças atuais. A complacência passiva com professores guiados não pelo conhecimento mas por ideais partidários já arrasou mais de uma geração de brasileiros. O vídeo é fantástico porque revela a maravilhosa transformação em curso. Foi por causa dele que quebrei meu delicioso silêncio. Não deixem de assisti-lo.
Postado por Henrique Rossi às 11:59
Este blog, o futuro e você
Marcadores: Cinema, Individualidade 2 comentários
Jamais pensei que teria um blog. Quando essa onda começou eu havia abandonado completamente meu interesse por novidades tecnológicas. Estava cursando comunicação social - cinema na Universidade Federal Fluminense, a melhor do Brasil na área. Durante aqueles anos dediquei-me exclusivamente ao estudo. Arrisco dizer que fui o melhor aluno do departamento de cinema. Não tive apenas notas espetaculares. Todos os bons professores me convidaram ao mestrado e alguns até mesmo ao doutorado, negligenciando, assim, a etapa intermediária. Mas eu queria ser cineasta. Todas as vezes que aqueles excelentes mestres me procuravam com o intuito de fazer de mim um acadêmico eu pensava que não havia procurado aquele curso para dar aula. Cinema era algo que eu queria vivenciar no set de filmagens.
Depois de formado procurei instalar-me no mercado. Não demorou para descobrir que, ao contrário da Academia, o mercado não privilegia o talento nem o mérito. Antes move-se ao sabor de mexericos e politicagens. Eu não podia acreditar, afinal, não estaria o mercado obrigado ao lucro? Essa necessidade de primeira grandeza não o acabaria forçando a procurar com afinco redobrado os melhores profissionais? Foi então que pude ver na prática o desastre causado pelas leis de incentivo. Já que o dinheiro vem fácil, ele é gasto sem maiores preocupações. De fato, quando foi que os cineastas brasileiros começaram a se preocupar com o público? Somente de uns poucos anos para cá. A maioria deles, porém, continua presa ao passado, àquela necessidade retrógrada de fazer filmes de arte. O que, na maioria dos casos, significa fazer filmes que promovam a revolução socialista.
Portanto, ao contrário da Academia, onde me adaptei com perfeição, não me entrosei com os colegas profissionais. A simpatia com que todos me tratavam na Universidade tornou-se pouco caso no mercado. Não adiantava insistir, além do mais, não sou desses tipos que gostam de dar murro em ponta de faca. Escolhi a medicina dentre as profissões conservadoras por ser, de fato, a que mais me agrada. Retardei, assim, o desejo de ser cineasta. Preciso de uma profissão que ponha o pão na mesa. Depois disso, quem sabe?, poderei retomar o sonho juvenil. O blog surgiu, ano passado, como reflexo involuntário da minha intensa vida intelectual pregressa que estava sendo massacrada pela imbecilidade geral. Fiquei escandalizado com a postura indecente dos professores do Anglo Taubaté (que havia procurado para me preparar para o vestibular de medicina). Isso motivou-me a criticar todos os radicalismos e intolerâncias da vida contemporânea.
Hoje não tenho a menor dúvida de que seria capaz de escrever uns três textos de alta qualidade diariamente. Ainda tenho muito a dizer, mas a necessidade de protestar contra tudo de errado que acontece no mundo passou. Além do mais, tenho que levar minha vida adiante. Não posso dedicar duas horas do meu dia ao blog. Ocorre que isto me dói o coração pois me sinto um privilegiado pela enorme audiência que consegui agregar nestas páginas. Nunca imaginei que teria tantos leitores diários, gente que dia após dia retorna a este espaço para ver meu último protesto contra as ideologias que desumanizam a humanidade. Não sei, portanto, o que ocorrerá nos próximos dias. Gostaria muito de poder voltar aqui para um texto ou outro, mas essa possibilidade se torna cada vez menos provável.
Fica, então, o meu agradecimento pela sua visita. Convido-o à leitura dos textos anteriores do blog. Pretendo publicar uma lista dos meus favoritos com a justificativa que me levaram a escolhê-los. Se você não lê este blog desde o seu início, é certo que irá encontrar muita coisa interessante publicada antes da sua visita. Ainda que isto se pareça uma despedida, tenho mais uma coisa a pedir-lhe: se você gosta deste blog não fique mais de uma semana sem visitá-lo. Como já disse, não sei se publicarei sempre, mas seria estranho que eu não tivesse um texto novo ao menos uma vez a cada semana. Ainda que você seja um leitor silencioso (pois assim é a maioria que já esteve aqui), a sua visita é importante para mim, pois sempre me recorda um talento especial que eu possuo e do qual jamais gostaria de esquecer.
Postado por Henrique Rossi às 17:55
O estranho bailado de Aécio Neves explicado
Marcadores: Política 0 comentários
Depois de reclamar um pouco de perda de leitores europeus, o blog vive uma recente explosão de visitas internacionais. Não faço a menor ideia do porquê. Imagino que os não portugueses sejam brasileiros que moram fora. Então, apesar de o meu costume ser discutir aspectos morais e éticos da contemporaneidade, peço licensa aos que não estão inteirados das atuais questões políticas brasileiras para comentar o dilema em que se encontra o governador de Minas Gerais, Aécio Neves.
Aécim, como dizem os mineiros, está sendo praticamente intimado pela liderança nacional do PSDB a entrar como vice na candidatura à presidência de José Serra, o primeiro nas pesquisas. Apesar da insistência estar durando vários meses, Aécio reluta em assumir o posto. Costuma responder que prefere concorrer ao Senado por Minas Gerais. Para mim, esse raciocínio não faz sentido, afinal, quem abriria mão de ser vice-presidente da República, cargo de notável visibilidade, para ser só mais um senador por Minas. Aos que desconhecem a questão mineira, Aécio é extremamente popular lá, portanto, ganha fácil a eleição ao Senado. Aí chegamos ao problema. Aécio reluta em aceitar ser o vice de Serra porque teme pela solidez da campanha diante da gigantesca máquina governista que Lula tem colocado a favor de Dilma Rousseff. Vejam vocês que pensar nos problemas estruturais da sociedade muitas vezes nos torna cegos para problemas bem menos complicados. Até agora eu não tinha me dado conta de que a relutância de Aécio tem uma excelente jusfiticativa. Afinal, pra quê abraçar com unhas e dentes um projeto que nem é seu e que pode mantê-lo afastado da política por quatro anos?
A equação fica gostosamente complicada quando se relembra que o Bolsa-Família comprou o nordeste inteiro para Dilma. Minas, não se esqueçam, é um estado de transição cultural. Seu sul é rico como o resto do sudeste, mas seu norte é tão pobre quanto as mais pobres regiões do país. Ou seja, além de ser o segundo colégio eleitoral do país (depois de São Paulo), Minas é um estado de grande importância estratégica em todas as campanhas presidenciais. Os mineiros são, de certa forma, os "fiéis da balança". Caso Serra tenha ao seu lado o político mais popular deste estado é inegável que sua campanha ganhará enorme fôlego. Nào é à toa, portanto, que a direção nacional do PSDB o está importunando a todo tempo para que assuma logo a candidatura ao lado de Serra. Entenderam a importância do jogo? Serra vai bem, mas não se sabe a que ponto a máquina estatal poderá esmagá-lo. Aécio pode definitivamente alavancar a campanha. O problema é que ele mesmo deve estar um tanto crítico em relação ao seu real poder de fogo. De fato, é um grande imbrólio.
Caso Aécio decida concorrer ao Senado, o PSDB estuda o nome de Tasso Jereissati, do Ceará, para fechar a chapa com Serra. Não é má ideia. Além de ser do nordeste, informa a imprensa que Jereissati tem grande prestígio com o empresariado, que desconfia um pouco de Serra.
O bailado que até agora me parecia estranho revelou-se um jogo político extremamente astuto. Por detrás de declarações aparentemente contraditórias, Aécio empurra o jogo até o momento que lhe é mais favorável. Age, assim, com uma esperteza de fazer inveja. Desculpe-me Aécio. Eu o estava considerando um traíra. Hoje sei que é um político de grande talento. Você não é apenas namorador das mais belas mulheres do Brasil. Com essa astúcia toda, um dia você chegará exatamente lá. Isso, lá mesmo onde você pensou.
Postado por Henrique Rossi às 18:01
A desumanização do homem (Richard Dawkins de novo)
Marcadores: Ciência, Liberdades individuais, Política, Processo social do saber, Richard Dawkins 2 comentários
Estive afastado do blog nos últimos dias por motivos muito nobres. O mais especial deles é minha vida pessoal. Mas li uma notícia interessantíssima que gostaria de compartilhar com vocês. Cientistas britânicos desenvolveram um sistema para conversar com pessoas em coma. Enquanto monitoravam o cérebro dos pacientes, eles lhes pediam que respondessem "sim" ou "não" à diversas perguntas como, por exemplo, se tinham filhos ou se eram casados. A reportagem da BBC (original aqui) termina constatando que a descoberta pode levar a diversos impedimentos éticos. Como se poderia desligar os aparelhos de alguém que pode tomar decisões por si própria? Mas essa é uma falsa questão, pois quem respeita a vida humana jamais desligaria os aparelhos. Evidentemente, isso não significa manter artificialmente viva uma pessoa exposta à tratamentos caríssimos e/ou muito penosos. Neste caso, não há problema algum em reconhecer que não se pode fazer mais nada para ajudá-la. Coisa absolutamente diversa desta é negar comida a alguém, deixando-o morrer por inanição, como no caso absurdo da americana Terry Schiavo, condenada à morte pelo próprio marido com o apoio da justiça.
De fato, é muito injusta a justiça humana que condena à morte seres humanos indefesos e frágeis. Parece que se foi o tempo em que se defendiam os necessitados. A regra da modernidade é aniquilá-los covardemente, como se dissesse: "Eles são um peso para a sociedade. Melhor que morram". Assim dizia o primeiro esboço do projeto de lei de reforma da saúde pública americana de Barack Obama. Sua rival na campanha presidencial, Sarah Palin, disse, com muita propriedade, que aquela lei, se aprovada, daria ao Estado o poder de condenar inválidos à morte, como a sua filha com síndrome de Down. Rapidamente os democratas retiraram aquela cláusula do projeto e começaram a mentir escandalosamente, afirmando que os republicanos estavam fazendo uma análise exagerada da questão. Diferentemente do Brasil, onde se aceitam quaisquer desmandos absurdos das autoridades, os americanos foram às câmaras municipais de suas cidades para protestar. Portanto, não foi surpresa nenhuma para mim quando em pouco menos de um mês a popularidade do presidente desabou de mais de 75% para menos de 50%.
Certamente haverá quem considere esse recuo democrata um lamentável retrocesso. Só posso sentir pena de quem pense assim. Trata-se de alguém que relativiza a importância da vida humana que, para mim e para a maioria, é um bem absoluto, sobre o qual não se pode transigir. Foi com o advento das ideias de Thomas Malthus que se começou a se difundir a crença de que o melhor que se pode fazer para os miseráveis é matá-los. Se a criança vai ser um estorvo para a mãe e, por consequência disso, não receberá o amor necessário para se desenvolver com saúde, é melhor que seja morta. O malthusianismo trata o ser humano como coisa da qual se pode dispor conforme a conveniência, conforme o entedimento de uma minoria. Não é à toa, portanto, que se seguiram a ele os regimes mais genocidas da história. Os assassinos admiradores das ideias pseudo-científicas de Thomas Malthus viam uma grande ameaça em certos grupos étnicos. E, já que estavam convencidos de que o ser humano não é lá grande coisa, afinal, segundo vários cientistas somos somente animais, acreditaram que podiam aniquilá-los pois assim lhes parecia mais conveniente e adequado.
Notem que nos regimes políticos, aqueles onde se exercia a democracia, nunca ocorreram desgraças minimamente comparáveis àquelas acontecidas nos regimes científicos, onde um "sábio" autoritário decidia quem viveria (aqueles com as melhores características) e quem morreria (aqueles com traços genéticos inferiores). Vale lembrar que Darwin sugeriu explicitamente que tais práticas não seriam negativas, pois ele acreditava na seleção artificial dos melhores espécimes humanos. Quando viajou pela costa africana à bordo do HMS Beagle, Darwin ficou horrorizado com a cultura africana. Portanto, foram lágrimas de crocodilo que ele derramou sobre os escravos brasileiros quando esteve no Rio de Janeiro. De fato, ele odiava os negros. Por tudo isso, não é surpreendente que os ditadores científicos não tenham matado apenas judeus e búlgaros, mas também crianças defeituosas e doentes. Qual não foi a surpresa de Adolf Hitler quando o negro Jesse Owens venceu a medalha de ouro em sua presença durante as Olímpiadas de Berlim, em 1936? Se a raça ariana era superior, como poderia ele ser tão bem sucedido? Começou-se, então, a se dizer que os negros são bons fisicamente mas ruins de intelecto.
Alguém pode arguir dizendo que não são os cientistas que pensam assim. Errado! James Watson, um dos maiores cientistas da história, vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1962 por ter descoberto a molécula de DNA, afirmou diversas vezes que os negros são inferiores e que isso era nítido. Segundo ele, todos aqueles que já conviveram com um negro sabem perfeitamente como a inteligência deles é inferior a dos brancos. Não se trata, pois, de fantasia de um blogueiro atormentado. Podem procurar no Google o nome James Watson e vocês verão com seus próprios olhos. À época daquelas declarações quem saiu em sua defesa? Ganha uma bala quem disser Richard Dawkins. Este notável biológo procurou diminuir o impacto das declarações absurdas de Watson quando o correto seria lançar uma moção de censura a ele (artigos que comprovam esta afirmação aqui). Que mal haveria em condenar-lhe aquela absurda declaração? Não será porque, no fundo, Dawkins concorda com ela? Ou talvez ele deve pensar que o correto é disfarçar as tolices dos seus amigos, enquanto que, para denegrir os adversários, não seria incorreto até mesmo atribuir-lhes tolices que nunca disseram. Assim é a moral de Richard Dawkins. Seria melhor o mundo que o seguisse?
Não, seria monstruoso um mundo onde Richard Dawkins tivesse poder de decisão. Não apenas ele, mas todos os que acham que se pode dispor do ser humano como qualquer coisa. Por isso a democracia representativa é tão importante. Quando ela é substituída por um regime onde somente a opinião de poucos é levada em consideração, o resultado sempre foi desastroso. É que a maioria repele genocídios. O mundo ocidental sempre assistiu horrorizado às monstruosidades científicas perpetradas por Stalin, Mao e companhia. É preciso combater duramente o avanço dessas ideologias genocidas no Ocidente. Infelizmente parece que muitos não se têm dado conta de que este é um processo em avançado estágio de evolução. Que é o aborto senão a licensa para matar um ser humano indefeso conforme a conveniência de alguém? A civilização que abraça o aborto flerta com o autortarismo científico. Pergunte a qualquer professor de geografia se o controle da população através do aborto não é positivo. Se você obtiver uma resposta negativa saiba que está diante de uma excessão. Não se pode tolerar afrontas à dignidade humana. O próximo passo dos apologetas do aborto quando este se instala é o genocídio de viés científico.
ATUALIZAÇÃO: Não apenas eu considerei esta notícia fantástica. Também pensou assim a editoria do Jornal Nacional, que tratou sobre o mesmo assunto na primeira reportagem do programa de hoje. Também ali se mencionou a dramática questão ética a respeito da eutásia.
Postado por Henrique Rossi às 15:12
O Big Brother como janela para o mundo
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Perdi alguns leitores europeus nos últimos dois dias. Acho que é por causa dos textos sobre o fenômeno televisivo Big Brother. Talvez eles tenham considerado tolices o que afirmei sobre o programa. Talvez tenham considerado tolice que um blog dado a comentar coisas tão profundas sobre a natureza humana estivesse tratando de um assunto menor. De fato, eu sabia que nada tem menos apelo intelectual que o Big Brother. Mas há algumas considerações importantes a fazer. Primeiro: como qualquer outra atividade humana, o Big Brother envolve nossas paixões, nosso modo de ser, nossa cultura. Segundo: no Brasil, o Big Brother é muitíssimo menos sacana que na Europa. Aqui o programa seria boicotado se houvesse nudez. Os raros palavrões são ocultados pelo som de um apito. Não se trata, pois, da mesma experiência: são coisas diferentes. Reconheço que se o Big Brother fosse no Brasil da mesma forma que é na Europa eu teria motivos fortíssimos para condená-lo da mesma forma que condeno as filosofias pseudo-científicas da segunda metade do séc. XIX.
O que não significa que eu não tenha motivos para condená-lo do jeito que é. Ou seja, apesar dos textos que escrevi, apesar de ser no Brasil muito menos indecente do que é na Europa, há motivos para não considerar o Big Brother um excelente programa. Ainda que a audiência seja um importante fator para avaliarmos a qualidade de uma apresentação televisiva, os programas que se preocupam somente com ela geralmente são muito inferiores àqueles que privilegiam a qualidade. Tenho tranquilidade para afirmá-lo porque meu programa de tv favorito é Sr. Brasil da TV Cultura. Passa quartas à noite. Recomendo. Só não posso deixar de reconhecer, pelas características já elencadas nos outros textos, que o Big Brother, ao menos na forma como é apresentado no Brasil, é uma janela para o entendimento da realidade social. Foi neste sentido que decidi abordá-lo. Não se tratou, pois, de recomendar que fosse assistido. É certo que não sou muito metido a intelectual, ao menos não tanto quanto os meus textos devem transparecer, mas ainda não cheguei a este ponto de leviandade.
Que os leitores do blog estejam, pois, informados que eu continuo apreciando as coisas certas: a alta cultura, a inteligência, a veracidade, a honestidade, etc. Isto apenas não significa que eu esteja fechado em um castelo de maravilhas enquanto a vida corre lá fora. Pelo contrário, é porque estou no meio da vida, familiarizado com os problemas contemporâneos, principalmente com as filosofias que desejam a destruição do homem, que escrevo. Meu desejo é denunciar as tentativas de desnaturalização da nossa essência imutável; aquilo que nos constitui. O que talvez tenha parecido a todos insólito e, de certa forma, até mesmo a mim, é que o Big Brother seria muito útil no diagnóstico desse problema. Com a solicitação de um Big Brother canino pretendi revelar como não podemos deixar de ser humanos em momento algum. Tanto é assim que um Big Brother animal seria ridículo - não teria nenhuma emoção. Abandonados à própria sorte os cães ficariam deitados o dia inteiro, esperando alguma máquina de comida alimentá-los. Não haveria aquela sorte de dispustas que torna o programa em questão emocionante.
São, pois, aquelas características muito humanas (a mentira, a politicagem, a sinceridade, o caráter, etc.) que tornam o programa atraente. Gostem ou não, estejam vocês convencidos ou não de que somos somente animais, fato é que só seres humanos possuem estas qualidades. Somos diferenciados em relação a todo o mais na natureza. A nossa natureza é ser humano. Essas características são partes indissociáveis da nossa essência. São partes constitutivas do nosso ser, daquilo que nos faz humanos. Pretender ignorá-las é um equívoco gigantesco, uma subversão, mau-caratismo ideológico. Portanto, não estejam achando que o nível do blog caiu. Apenas não me negarei a utilizar quaisquer argumentos que por ventura considere adequados à demonstração dessas verdades, ainda que seja algo da profundidade filosófica do Big Brother. Onde quer que haja uma pessoa lá estarão todas as características comuns a todos os homens.
Postado por Henrique Rossi às 18:33
Big Brother Brasil - uma prova de caráter
Marcadores: Combate ao politicamente correto, Processo social do saber, Televisão 4 comentários
Muitos intelectuais metidos a besta gostam de desdenhar do programa Big Brother Brasil. Para eles, somente pessoas muito desqualificadas intelectualmente se interessam por este programa. Gente inteligente como eles não assistiria tamanha bobagem. Admito que também já pensei assim. Enquanto estava na faculdade adorava desdenhar dos colegas que contavam as últimas novidades do BBB. Tanto é assim que só fui assiti-lo na sua quarta edição. Foi como um prazer secretíssimo, o qual jamais revelaria a ninguém, afinal, o que é que poderiam pensar de mim se soubessem que eu estava assistindo o Big Brother Brasil? Então, cresci. Hoje, estou me lixando para a opinião dos outros, especialmente dos intelectualóides de plantão: essa gente sórdida que vive de policiar o pensamento e a opinião dos outros. Tanto é assim que escrevo aqui o que me dá na veneta, e tenho especial predileção por desvendar os intentos totalitários das "pessoas inteligentes". Se fosse por eles teríamos muitas outras guerras mundiais. Por isso odeiam tanto a democracia, por que se há de ouvir a maioria quando somente a opinião dos "inteligentes" basta?
O Big Brother é um fenômeno democrático. As massas acompanham-no com grande interessante. Será que seus espectadores são mesmo uns inúteis a desperdiçar preciosos minutos que deveriam ser investidos em coisas mais úteis como as sinfonias de Mahler? Qual é, pois, o apelo do Big Brother Brasil? Já faz um tempo que gostaria de escrever a minha opinião. Sei, porém, que esta é uma seara complicada, pois muitos intelectuais de renome já procuraram explicá-lo. Sempre que li "textos sérios" a respeito do Big Brother notei que seus autores procuraram ressaltar o aspecto sórdido em preocupar-se conhecer a intimidade alheia. Eles afirmam que é pelo prazer mesquinho de ver os outros sem se saber visto que o Big Brother têm tanta audiência. Não acho em absoluto que seja este o seu maior apelo. Além do mais, que há de mesquinho em querer saber como os outros são? Não é assim que agimos a todo instante? Afinal, é através da observação dos outros que planejamos a forma com a qual agiremos no futuro. Ou somos todos grandes mestres da originalidade? Não há nada de mal em querer ver como outras pessoas agem em determinadas situações. Quem nunca achou graça em ver o que diz um marmanjo atrapalhado quando quer levar ao beijo uma mulher maravilhosa?
O charme do Big Brother se deve, na verdade, a um outro motivo. Antes de revelá-lo, preciso demonstrar que ocorre neste programa o surgimento de um herói. Através de provas e desafios o público vai conhecendo como são cada um de seus participantes. Através de um sistema de eleição, excluem-se aqueles que não são interessantes. O público valoriza características que são universalmente positivas: retidão de caráter, veracidade, honestidade, sinceridade, simplicidade, bom-humor, beleza, etc. Que mal há em se chamarem boas coisas que efetivamente o são? Há, porém um problema: para conhecermos alguém em profundidade, para sabermos se são mesmo boas pessoas, não basta vê-las quando estão alegres. Todo mundo é agradável nestes momentos. Para efetivamente vermos do que uma pessoa é capaz precisamos ver o que ela faz quando sofre. Chegamos ao ponto do real interesse do programa: para se eleger a pessoa mais interessente, aquela que possui os melhores atributos, é preciso que os todos os participantes sejam testados nas mais diversas situações. E que prova é mais complicada que a avaliação de como nos relacionamos com os outros? Não há desafio que melhor revele o caráter das pessoas do que aqueles onde se exige trabalho em equipe e negociação.
Portanto, não é à toa que sempre se procura levar os participantes do Big Brother ao confronto. O que pretendiam os produtores do programa quando obrigaram seus participantes a retirar xingamentos de uma tigela e atribui-los uns aos outros? É evidente que pretendiam levá-los à animosidade. Se quisessem levá-los a um estado de paz e harmonia dariam-lhes uma tigela com elogios carinhosos, mas que audiência isso daria? Será que estaríamos interessados em ver um monte de gente feliz se amando? O que de interessante poderíamos aprender com isso? Não é verdade que se o programa fosse um mar de rosas seria impossível conhecer o caráter dos participantes? É porque só conhecemos as pessoas no meio das dificuldades que o programa precisa incitá-las às disputas e aos confrontamentos. Todo mundo sorri diante de uma ocorrência feliz, porém é mais nobre aquele que sofre com dignidade as provações. É assim que o público toma conhecimento da fibra moral dos participantes do programa. Baseando-se, então, nessa impressão, seja ela falsa ou não, vota-se pela saída dos concorrentes chatos e protege-se os bacanas. A arte de fazer o Big Brother resume-se, portanto, em favorecer disputas e briguinhas entre tipos vaidosos, egocêntricos e estourados. O Big Brother é, de fato, uma janela para as mesquinharias de que o ser humano é capaz.
Postado por Henrique Rossi às 20:19
A estúpida presunção de um psicólogo determinista
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Ouvi algumas vezes de um psicólogo que grande parte dos homens que frequentam seu consultório o fazem em razão de traumas ligados a abuso sexual. Para ele, recém-formado, aquilo era uma grande surpresa, pois nunca imaginou que as queixas de pacientes corriqueiros seriam tão dramáticas. Tivesse ele me dito apenas isso, ainda que muito tristes as razões que levam vários homens ao psicológo, suas frases não seriam mais que produto de uma óbvias constatações. Ocorre que geralmente os psicólogos gostam de exceder o óbvio, emitindo juízos espetaculares sobre a alma humana.
Pois aconteceu, alguns meses depois, de o mesmo profissional me dizer, desta vez de modo bastante apaixonado, que toda a vítima se torna agressor. E que a primeira fonte formadora de abusadores sexuais é o abuso na infância. Ainda que psicólogo, ele demonstra com essas afirmações ser adepto de uma matemática psiquíca um tanto simplista. Como pode um profissional que atende várias vítimas de abuso sexual na infância considerar que todos os abusados se tornam abusadores? Por acaso todos os seus pacientes estupram crianças e ele se esqueceu de me contar? Como é que pode um psicólogo não perceber o imenso absurdo destas afirmações? É óbvio que isso é verdade ainda que todos os abusadores tenham sido abusados, pois nem todos os abusados desenvolvem atração pela maldade. Ou seja, ainda que seja fundamental um histórico de violência sexual na criação de um abusador, nem todas as pessoas abusadas são más ao ponto de se permitirem realizar uma crueldade dessas quando adulto - tanto é assim que procuraram o auxílio de um psicólogo.
Imaginem a falta de generosidade, o raciocínio turvo, estúpido, de um psicólogo que, mesmo tendo vários clientes abusados, se permite a conclusão absurda de que todos os estuprados tornam-se estupradores. Não é de se surpreender que profissionais bem estabelecidos no mercado sejam capazes de dizer absurdos deste tamanho? Pior. Este profissional que estou mencionado é indicado por vários de seus ex-professores. Tivesse sido meu aluno, esse infeliz não receberia uma só indicação de clientes de mim.
Portanto, tomem muito cuidado com psicólogos. Esta história é só para demonstrar o grau de absurdo de que são capazes. Duvide, sim, do seu psicólogo. Questione-o. Procure saber as coisas nas quais ele acredita. Ponha-o à prova. É você que está pagando. Não tenha receio de procurar outro profissional se o que te atende no momento é estúpido. Não se sinta preso às opiniões de uma só pessoa. Quando efetivamente não estão comprometidos com o melhor dos seus pacientes, preocupando-se antes com as próprias opiniões, os psicólogos são capazes dos maiores absurdos. Não seja você vítima da falta de profissionalismo destes covardes que se aproveitam das fragilidades alheias.
Postado por Henrique Rossi às 17:20
Big Brother Brasil 11 - edição canina
Marcadores: Combate ao politicamente correto, Jornalismo irresponsável, Processo social do saber, Publicidade, Televisão 2 comentários
A mídia impressa gosta de comentar o suposto grande apuro no qual se encontra o Boninho, diretor do Big Brother Brasil. Nunca a audiência está boa, o programa vive de uma fórmula esgotada, os participantes são antipáticos - sempre as mesmas críticas. Talvez esta gente se supreenda que o Big Brother esteja em sua décima edição. Afinal, se ele é tão ruim quanto dizem, já deveria ter sido cancelado. Porém, a fórmula que esses jornalistas de meia-tigela consideram batida continua hipnotizando os brasileiros, atraindo, assim, grandes e importantes anunciantes.
Mas imaginemos um cenário hipotético onde eles, os críticos, estivessem certos: o BBB 10 naufragando porque os espectadores já lhe desvendaram completamente a fórmula. Fosse esta a realidade gostaria de dar o seguinte conselho ao Boninho e sua equipe: façam uma edição canina do BBB 11. Isso mesmo. Substituam as saradas e os fortões por schnausers e pit-bulls. Coloquem alguns yorkshires para deixar o programa mais "colorido" e voilà! Imaginem o sucesso que este programa faria! Estou empolgado enquanto escrevo este texto. A edição canina do BBB seria um tremendo sucesso!
Imaginem as intrigas, as fofocas, os conluios, as traições e, sobretudo, a tristeza do pobre eliminado enquanto é conduzido para fora do canil mais famoso do Brasil por ter sido o mais votado no "paredão". Imaginem como o coitadinho uivará melancolicamente por ter perdido a empolgante disputa por um milhão de ossinhos. Realmente é uma tragédia que eu não tenha percebido antes como os cães são parecidos conosco. Só mesmo alguém tão retrógrado e reacionário como eu para não ter se dado conta antes de que um cachorro é quase um ser humano.
Agora sim estou convencido de que o ser humano é mesmo um animal como outro qualquer. Prova disso serão os estratosféricos índices de audiência do BBB 11 - edição canina. As famílias todas se colocarão diantes dos televisores. Os telefones não pararão de tocar. A adrenalina correrá a mil. Será o show mais empolgante da história da televisão brasileira. Imaginem a emoção de espiar em primeira mão aquela fungadinha esperta no rabo da coleguinha? Anotem aí o que estou falando. O BBB 11 - edição canina levará todos às lágrimas com seus grandes e eletrizantes acontecimentos. A TV mundial nunca mais será a mesma.
Postado por Henrique Rossi às 00:11
A evolução de um personagem e o seu desmascaramento
Marcadores: Arte, Televisão 0 comentários
Fiquei impressionado com a profundidade psicológica dos personagens da série House quando a conheci ano passado. Naquele momento, o Universal Channel Brasil transmitia os episódios da quinta temporada com um pequeno atraso em relação aos EUA. O texto escrito para House estava absolutamente impecável. Quando vi Hugh Laurie interpretando-o mal percebi o trabalho do ator. Quem já viu um set de filmagens sabe que há aparelhos de iluminação para todos os lados. Além disso, só ao redor dos aparatos de captação, ou seja, da câmera, costuma haver umas quinze pessoas. Isso em toda e qualquer filmagem. Imaginem uma grande série americana de orçamento de muitos milhões de dólares. Aquele hospital da série é montado todo em estúdio, nos mínimos detalhes. Nada ali é real. Ainda que médicos colaborem durante a redação dos roteiros, não há médico algum no momento das filmagens - pelo menos é o que se informa nos créditos finais. Para dificultar ainda mais o trabalho do ator (se é que sua performance já não fosse extremamente atrapalhada pela multidão que o cerca e pelo imenso aparato técnico) cada uma das cenas são feitas separadamente. Ou seja, de acordo com a disponibilidade de atores, figurantes, equipamentos, etc., filmam-se as cenas de modo não linear. Isso significa que é feita a gravação de cenas do fim do episódio junto a cenas do seu início. É impressionante que, apesar dessa grande confusão logística, certos atores consigam atingir as raias da genialidade em sua arte.
Porém, sempre sofri com a dúvida em relação à qualidade da primeira temporada. Como cineasta, soube perceber que aquela qualidade que eu estava observando na quinta temporada era resultado de um longo processo, ainda mais porque se trata de televisão. Para que a construção do personagem House estivesse tão afinada (utilizo o termo com quase o mesmo sentido com que é utilizado em música) foi necessário que o texto sofresse alterações EM FUNÇÃO DA INTERPRETAÇÃO DO ATOR, ou seja, em função do modo particular com que Hugh Laurie o encarava. Era evidente, portanto, que na primeira temporada os talentos ainda não estariam "azeitados" entre si: o texto não se encaixaria com perfeição à forma e ao tom que Laurie estava dando ao personagem. Estou dizendo que, por se tratar de uma série de longa duração, foi possível os seus produtores e roteiristas adaptarem-na de modo que a interpreção de Laurie fosse ainda mais verossímil - é o que se testemunha na quinta temporada da série. O mesmo ocorre nas telenovelas brasileiras: adapta-se o texto de um personagem conforme o tom que o ator lhe confere. No cinema as coisas se dão de forma completamente diversa: quando se iniciam as filmagens já se sabe com exatidão o que deverá ser captado para o início, meio e fim do filme. Ou seja, nunca se altera o texto de um personagem em função da interpretação do ator, salvo, evidentemente, as raríssimas excessões (geralmente comédias que, por serem mais leves, comportam mais improvisações).
Dito e feito. Tomei um grande susto quando assisti à primeira temporada da série. Hugh Laurie parece enrijecido. Apesar de ele ser um excelente ator, como sabemos com exatidão pela quinta temporada como é a personalidade de House, a sua depedência de um texto ainda pouco maleável faz com que sua interpretação fique endurecida - isto se revela até mesmo fisicamente: sua postura corporal, seus traquejos de mãos, seu pescoço, está tudo duro, como se ele ainda estivesse pouco à vontade no papel. Evidente que jamais perceberíamos isso se não houvesse a quinta temporada. É justamente porque a forma como se encarava o personagem House evoluiu que podemos perceber como ele ainda estava em fase embrionária durante as gravações da primeira temporada.
Percebi então uma coisa da mais alta importância enquanto assista à primeira temporada. Já que estava evidente como todos os personagens ainda não haviam chegado ao seu correto grau de maturação, ficou mais fácil a identificação de uma das mais sérias observações feitas pelos estudiosos das obras audio-visuais: a participação do público espectador na criação mesma da obra. Já escrevi isto em algum outro texto do qual não me lembro agora: sempre que assistimos um filme é como se ativamente mergulhássemos na ilusão que foi para nós preparada. O cineasta russo Serguei Eisenstein sempre gostava de ressaltar que, através da montagem, é possível criar a ilusão mental de um terceiro elemento que não está nem no primeiro plano, nem no plano seguinte. Ou seja, a mente do espectador cria um símbolo mental entre diferentes planos. Conforme as diferentes mentes, serão diferentes entre si as imagens mentais criadas por cada um. Portanto, quanto maior a profundidade da ilusão, maior o susto sentido quando a mesma é quebrada. Porque na quinta temporada tudo estava tão perfeito foi possível perceber melhor os truques utilizados quando a série ainda estava se estabelecendo. Em cinema e televisão nada é o parece.
Postado por Henrique Rossi às 16:16
Nascimento e uso da hipérbole
Marcadores: Ciência, Processo social do saber, Religião, Retrocessos morais, Richard Dawkins 6 comentáriosInfelizmente este é um blog onde, de vez em quando, faz-se necessário o uso do dicionário. Imagino estar escrevendo para pessoas inteligentes. Que graça teria escrever para pessoas que mal pudessem compreender um vocábulo um pouco mais sofisticado? Utilizo palavras de maior erudição sem grandes preocupações, pois espero que os leitores sejam daquele tipo antigo de gente que ainda tem dicionário em casa. Tudo isso para justificar a escrita de uma palavra como hipérbole sem que me doa a consciência. Para os preguiçosos, desta vez farei uma exceção. Hipérbole, segundo a rubrica Estudos de Linguagem do Aurélio, é o seguinte: "Figura que engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas; exageração, auxese." Conforme afirmado no texto anterior, até mesmo o tradutor de Nietzsche para a Companhia das Letras concorda que ele é um grande exagerado. Para mim, ele o é porque, tendo relativizado o conceito de verdade, acredita-se no poder de escrevê-la conforme bem lhe parecer. Recorre à hipérbole como alguém profundamente desesperado, possuído por um destempero e um desequilíbrio ímpares. Será que o fez porque sabia que argumentos eram inúteis para vencer a disputa que tanto procurou travar?
Parece-me que sim. Nietzsche sabia perfeitamente que seria impossível demolir mais de dois mil anos de filosofia com argumentos, simplesmente porque o edifício sobre o qual ela se assenta é deveras sólido. Portanto, ele não teria argumentos capazes de superar a questão metafísica, como ninguém mais os têm. Para se superá-la é preciso negá-la por completo. Portanto, ele foi extremamente esperto em refutar toda a razão e ciência. Dado que ambas são resultados dos questionamentos anteriores, negá-las era fundamental para a superação dos seus paradigmas. Não é à toa que pessoas razoáveis e sábias não sejam afetadas pela sua retórica. Ele fala aos desesperados que não podem suportar o mundo. De fato, seu discurso mirava a todos e a ninguém, como ele próprio admitiu. Aliás, não existe autor mais ressentido por ser ignorado que Nietzsche. Como ele mesmo escreveu, sua intenção era tornar-se um novo Cristo, fundador de uma nova humanidade, assentada somente sobre as necessidades imediatas e que refutasse qualquer premeditação e qualquer além. Muito contraditoriamente ele admitiu que o homem sofre porque está entre o animal e o além-homem.
Não sei bem se antecederam-se a Nietzsche muitos outros autores conhecidamente desequilibrados que se tornaram notáveis. De qualquer modo, parece-me que ele foi o melhor tradutor do espírito romântico decadente do fim do séc. XIX. Sua influência neste particular parece enorme. É da mente nietzschiana que parece ter saido o recente costume ocidental que considera gritinhos histéricos a mais eficaz arma retórica. Combatendo a filosofia da cabeça, Nietzsche inaugurou uma filosofia do estômago - não nos surpreende, pois, o seu "produto". Brota da sua mente o estilo que culmina nas análises bíblicas de Richard Dawkins. A este basta chamar o Deus do Antigo Testamento de assassino da pior espécie para considerar o seu ponto de vista bem defendido. Sim, ambos se encontram na superficialidade argumentativa do exagero desequilibrado e louco. Que mais se pode dizer de um estudioso que ignore por completo o que está dizendo? Oras, se não é louco é imbecil. Tanto Nietzsche quanto Dawkins são espíritos atormentados pelas verdades que desesperadamente tentam negar. Dawkins, porém, ainda tem um grande caminho a percorrer até atingir a "eficácia" nietzschiana. Por enquanto, ele só sabe imitar com perfeição os gritinhos afetados de horror.
A hipérbole nasce, pois, de uma insatisfação muito grande, de uma repulsa a tudo o que existe ao redor daquele que a utiliza com frequência. Argumentos não servem a quem odeia tudo o que o circunda. O insatisfeito, o revoltado, precisa de gritos. Palavras não lhe são suficientes. Em seu desespero, seu desejo não é convencer alguém de coisa alguma. Antes deseja agarrar-nos pelo pescoço e sacudir-nos com o seu arrazoado sem juízo. Conforme afirmei no texto anterior, só caem nessa aqueles muito despreparados e ingênuos, cujas mentes fracas são facilmente moldadas pela gente mal-intencionada. O reflexo imediato da gente normal, bem formada, é dar um empurrão no infeliz que aperta nossa garganta. Infelizmente parece indício muito sério de desequílibrio de ideias a utilização excessiva desta figura de linguagem. Quanto mais ela é utilizada, e quanto maior for a intensidade de suas colocações, mais certos podemos estar do destempero de quem a utiliza. Neste particular, é evidente que Nietzsche é muito mais louco que Dawkins, mas isto não livra a cara do biólogo em absoluto. Falta-lhe o impossível para demonstrar estar certo: induzir todos a uma exegese irregular e incompleta dos textos bíblicos, coisa que nem Nietzsche pretendeu - só assim para se convencer de que o desejo de Deus é a guerra, a morte e a destruição.
A crítica nietzschiana aos textos sacros é radicalmente oposta a de Dawkins, pois considera faltar-lhe sangue e sobrar covardia da parte dos israelistas. Nietzsche odeia que David tenha orado pelo seu inimigo séculos antes de Cristo - o arrependimento do grande rei por ter assassinado um general do seu exército para desposar sua esposa, então, é considerado por ele o ato mais degenerado da Bíblia. Para Nietzsche esta é a maior degradação do ser humano: a preocupação com os outros - esta seria a maior forma de auto-destruição disponível. Ele só considera plenamente humanas as preocupações com a própria sobrevivência. Estranho é que, apesar disso, o cristianismo se tenha tornado o maior sistema religioso da humanidade - afinal, se é "contrário à vida", se tudo a que se presta é a "corrupção do humano" como é que possui tantos adeptos, e em seu interior se tenha gestado a mais avançada civilização já testemunhada por este mundo? Se era "contrário à vida" deveria, antes, ter destruído os seus seguidores. Como Nietzsche não tem resposta a isto, é forçado a dizer que o cristianismo mata o homem por dentro - se é que isso signifique alguma coisa. De fato, é triste perceber que o exagero e a afetação são as únicas armas linguísticas que restam àqueles que insistem em negar as verdades elementares.
Postado por Henrique Rossi às 22:03
A vaidade intelectual de um tradutor consciente
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Caiu-me às mãos um exemplar de Além do bem e do mal, de Friedrich Nietzsche. Jamais gastaria meu precioso (e pouco) dinheiro numa besteira dessas, mas, de graça, até Código da Vinci já li. É que sou contra dar dinheiro à gente que fica disseminando estes enganos que tanto mal causam. Curioso que sou, comecei a ler o livro. Há na edição a que tive acesso diversas notas do tradutor, Paulo César de Souza, um professor doutorado pela USP, marcadas pelo conhecido recurso numerativo. Acabei considerando suas notas de tanto valor que logo li o seu posfácio, onde procura explicar o que o livro lhe parece. Suas colocações pareceram-me muito mais interessantes que o texto nietzschiano, a cujos recursos linguísticos e argumentativos já estou familiarizado. Com grande frieza, ele destrincha a principal figura de estilo utilizada por Nietzsche, a hipérbole:
Há uma certa distância - exemplificando - entre afirmar que viver implica necessariamente enxergar a realidade de uma perspectiva, privilegiando ou excluindo partes dela, e dizer que "fantasiamos a maior parte da vivência e [...] somos, até a medula e desde o começo, habituados a mentir". Uma coisa é enfatizar que afetos como ódio, inveja, cupidez e ânsia de domínio pertencem irrevogavelmente à vida psíquica, e outra concluir que devem ser realçados, "se a vida é para ser realçada".
Isso mesmo, o tradutor afirma que Nietzsche defende que o ódio, a inveja, a cupidez e a ânsia de domínio devam ser realçados pelo simples fato de que existem. Perdê-los seria como perder uma parte "importante" da vida. Por essas vocês podem começar a intuir como seria o mundo idealizado por este lunático. Para minha grande surpresa o tradutor faz afirmações ainda mais surpreendentes sobre o livro:
Certas páginas dele constituem o mais veemente libelo contra tudo o que nos habituamos a ver como privilégios e conquistas da modernidade: a democracia liberal, o senso histórico, a objetividade científica, a igualdade de direitos, a igualdade entre os sexos.
Nada muito diferente do que costuma aparecer nas páginas deste blog - estas são constatações apenas óbvias. O problema é que Nietzsche é tão romantizado pelos seus admiradores que geralmente os que não o compreendem acham se tratar de um gênio mal compreendido. Por conta disso, muitos são inocentemente induzidos à leitura de sua obra quando o sensato seria ignorá-la por completo. Procurar lê-lo sem iniciamento filosófico é, portanto, obra de imaturos e ingênuos, gente naif, cujas mentes são facilmente lideradas pelas doces palavras de efeito dos "formadores de opinião". Nietzsche é um homem terrível, uma pessoa que acreditava no mal, tanto é que procurava incentivá-lo nos outros. Não sem motivos, precisava induzir à falsa conclusão de que não há verdade alguma.
Sendo este o estado da situação, por que alguém se daria ao trabalho de traduzi-lo? Ainda mais alguém ciente de que se trata de obra puramente retórica? Desconfio que por prestígio. Quem não gosta de saber-se capaz de traduzir do alemão para o português alguns dos textos mais intricados disponíveis? Ou seja, a responsável é a vaidade intelectual. Fosse mais aguda a percepção do tradutor, estivesse ele mais ciente do mal que a leitura de Nietzsche costuma provocar não se dedicaria à tão árdua tarefa. Ao menos foi honesto em reconhecer que nada do que vai ali se baseia na sã razão ou mesmo em algum justo juízo da realidade, mas quê é isso diante da perspectiva de ganhar alguns trocados?
Postado por Henrique Rossi às 20:06
Ainda sobre as tentações totalitárias
Marcadores: Arte, Ciência, Combate à causa revolucionária, Individualidade, Processo social do saber, Retrocessos morais, Richard Dawkins 0 comentáriosO texto imediatamente anterior a este, A maçã-do-amor e o cientista, é, provavelmente, o mais importante publicado até agora neste blog. Através de um pequeno exercício de futurismo (a suposição de que uma perfeita máquina medidora de emoções pudesse ser inventada) demonstrei que a importância que damos as coisas está um juízo da realidade que nada tem de material. São em atos de pura vontade, independentes de determinismos de quaisquer tipos, que o homem manifesta com maior propriedade as suas qualidades e idiossincrasias. Com ele, pretendi respondidas certas suposições levantadas em alguns círculos intelectuais de que a mente humana nada mais é que um subproduto da evolução das espécies. Assim fosse, é razoável supor que não haveria mais sobre a terra um só psicanalista, pois caso a mente humana fosse um apenas um emaranhado de interrelações cognitivas, a psicanálise como um todo estaria descartada - não somente não haveria o inconsciente tal como descrito por Freud, como também a vontade estaria determinada por experiências anteriores. Ou seja, aquele texto demonstra o equívoco em se negar a existência da mente, que, ao invés de conduzir nossas atitudes como uma intrincada resposta matemática independente de uma vontade, é operada livremente conforme a consciência e o juízo moral de cada um.
O ponto de vista de que a mente humana depende exclusivamente de estímulos anteriores em cada uma de suas resoluções é inconciliável com a psicanálise e as psicologias modernas, que acreditam em liberdade nas operações mentais. Analisando a questão específica da psicanálise, caso a ideologia de que a mente é apenas o resultado de uma conjungação de átomos prevaleça, não sobraria pedra sobre pedra do seu gigantesco edifício, pois um dos seus mais importantes pilares é a premissa de que, em nosso interior, há uma vontade libérrima, consciente e autônoma, dependente unica e exclusivamente de um eu solitário, insondável e absoluto. Tanto é assim que a única psicologia auto-proclamada científica, a comportamental, refuta as considerações freudianas chamando-as mentalistas, dado que ela sequer trabalha com a hipótese de que a mente exista. Para a psicologia comportal as sinapses e os neuro-transmissores sozinhos são capazes da criação de um intelecto, tanto é que um de seus fundadores, Watson, gostava de repetir a seguinte frase retórica: "Dê-me uma glândula, um músculo e um nervo, e eu te darei um espírito."
O problema é que não somente a psicanálise como também as várias outras psicologias mentalistas gozam de farta saúde no momento. Não convém nos esquecermos de que a psicanálise é o primeiro grande sistema científico para a compreensão da mente humana - não se baseia, portanto, em ideias religiosas e/ou supersticiosas infantis. Se todas as nossas operações são respostas imediatas e impulsivas aos estímulos baseados em experiências anteriores a vontade livre não existe. Há que se mencionar que nem a psicologia comportamental acredita nisto. De fato, o único grupo de intelectuais que considera a mente o resultado de certas configurações entre átomos é o dos darwinistas, para quem toda a experiência humana se resume a arranjos moleculares, como se isto já não fosse uma ideia, ou seja, algo imaterial criado pelo intelecto. Não estou pretendendo negar com estas afirmações que várias de nossas atitudes sejam reflexos menos complexos ligados, de certa forma, à padrões cerebrais menos evoluídos - ninguém faz o próprio coração bater. É certo que diversas das nossas atitudes são reflexos involuntários, ou seja, resquícios animalescos - mas não todas as nossas atitudes. Tanto é assim que nossos batimentos cardíacos podem ser acelerados com a emoção despertada por uma obra de arte.
Para existir plenamente, a vontade humana tem de ser livre para se contradizer, para contrariar os primeiros impulsos criando coisas originais, que jamais existiram - coisas que tiveram uma existência mental anterior ao seu posterior desenvolvimento material. Se não existissem antes na mente como é que poderiam ser desenvolvidas posteriormente? Oras, como algo pode surgir na mente? Por essas dificuldades todas não incorro em injustiça alguma ao dizer que aqueles que ignoram a mente humana não passam de charlatões ignorantes e prepotentes. Como já afirmei tantas vezes, ao se colocar o ser humano como objeto de um estudo é necessário levar em consideração todas as suas faculdades. Lembrar-se de algumas e esquecer outras não passa de estupidez, ou ser-vergonhice mesmo. Quando se privilegiam certos aspectos humanos em detrimento de outros o que geralmente se pretende é conduzir o leitor ao erro, empurrando-o na direção de uma ideologia incompleta. Trata-se, portante de uma coisa de gente mal-intencionada e, por que não dizê-lo?, cafajeste. Notem que posso afirmar tudo isso sem adicionar sequer um novo conceito em relação ao texto anterior. Estou me limitando a explicá-lo em toda a sua profundidade argumentativa.
Somos nós os únicos a dar profundidade e sentido aos acontecimentos ao nosso redor, julgando-os, categorizando-os, explicando-os e, infelizmente, até mesmo negando-os, pois somos livres para utilizar o nosso pensamento com a intenção deliberada de negá-lo, diminuindo-nos, com isso, ao grau dos seres irracionais. O ponto de vista segundo o qual o homem não passa de uma animal qualquer é, portanto, ideologia barata pseudo-científica - já que procura explicar certos fenômenos ignorando todas as suas variáveis. Serão verdadeiramente científicas as tentativas que considerem todos os fenômenos humanos em toda a sua extensão. Afinal, que dizer de uma fórmula que ignore uma variável? Seu destino é merecidamente a lata do lixo. Só continua resistindo a tentativa de rebaixamento do homem ao grau animalesco porque se pretende, com isso, justificar o irracionalismo - como se não tivesse sido a razão a legar-nos o mundo espetacular em que vivemos. Não é de se surpreender que até mesmo a arte seja influenciada - bem o demonstram as maluquices do séc. XX que ainda hoje nos deixam perplexos. Ou seja, a arte moderna é reflexo do estado de confusão mental criado pelas ideologias que pretendem desumanizar o homem, reduzindo o verdadeiro alcance de todas as suas experiências.
Por tudo isso, imaginem, pois, a estupidez de um sujeito que, apesar de desconhecer por completo a psicologia, arvore-se em doutor da mente humana apenas porque aprendeu no ensino médio as pressupostos da seleção natural. Qualquer coisa que alguém com tão parca formação humana escreva sobre o pensamento será um arrazoado imbecil, lamentável e vergonhoso - um vexame do qual deveria ter se poupado. O problema é que os piores tipos, os mais virulentos e arrogantes, se aferram à teoria darwiniana como um modelo completo de compreensão da vida. Por tudo escrito neste e em outros textos, não nego que se possa aprender muitas coisas úteis com os escritos de Charles Darwin. O erro colossal está em querer utilizá-la na explicação de fenômenos que ela claramente não comporta. O que a mim mais impressiona é o ódio que essa gente destila por hábito. Nunca vi tipos piores que estes. Trata-se das pessoas mais abomináveis que jamais conheci - os tipos mais obtusos, estúpidos e odiosos. Portanto, não é coincidência que em nome de interpretações absurdas da teoria de Darwin se tenha pretendido a aniquilação completa de diversos grupos étnicos. Estou dizendo claramente que todos aqueles que negam o humano em toda a sua profundidade são assassinos potenciais, pois, relativizando a vida humana, diminuindo-a à condição animal, consideram possível se dispor dela como bem entender.
A ideia de que a vida humana é nobre e precisa, consequentemente, ser preservada, é privilégio de todos os que a analisam em toda a sua extensão. Não é, em absoluto, um fenômeno restrito àqueles que professam alguma fé religiosa. Essa é só mais uma das mentiras que os darwinistas contam para trazer para o seu lado da disputa os não-religiosos pois, estando a defesa da vida restrita aqueles que têm religião, todo o mais estaria obrigado a relativizar o ser humano aderindo, assim, à ideologia que pretende relativizá-lo dispondo dele conforme as necessidades de cada circunstância. É inevitável a percepção de que muitos dos leitores do biólogo Richard Dawkins se encaixam perfeitamente nesta descrição. Mais uma vez não é coincidência alguma que, em sua grande maioria, eles sejam adeptos da ideologia abortista e revolucionária. Quando não se acredita que o ser humano é importante, logo imagina-se poder se dispor dele de qualquer forma pois, anulando-se qualquer absoluto, restam-se apenas relativismos. Reafirmar, pois, a nobreza do homem, seu estado superior na natureza, faz-se extremamente necessário nos dias atuais. Ainda que não possamos compreender com exatidão o porquê somos diferentes de todo o mais não podemos negar este dado evidente. Trata-se de um grave insulto à verdade, uma desnaturalização, pois, se somos efetivamente humanos, reduzir-nos nada mais é que negar a nossa natureza.
Já escrevi isto tantas vezes neste blog que é decepcionante precisar repeti-lo até mesmo para seus leitores habituais (sim, há leitores que preferem se manifestar por e-mail do que por comentários): um animal não poder negar a sua própria natureza - um cão, por exemplo, não pode ser mais cão ou menos cão que o indicado pela sua natureza. Já o homem é o único ser que pode negar a própria natureza, seja reduzindo-a àquilo que ela não é ou elevando-a àquilo que ela nunca poderá ser. De fato, há maleabilidade no homem, como bem o demonstram as variadas culturas. Apenas continua sendo um erro colossal negar que o homem tem uma própria natureza segundo a qual estão estabelecidas as suas faculdades. O grande erro dos sistemas ideológicos do fim do séc. XIX é a pretensão de ter descoberto efetivamente o que o homem é, como se tudo o que fora afirmado até então estivesse errado, ou como se ainda não houvesse muito por descobrir. É contra essas tentativas ridículas de negar ou subverter a natureza humana que eu gosto de escrever - para que possamos começar a entrever o homem real em sua totalidade, ainda que muitas sejam as dificuldades em se tentar fazê-lo: essa é, de fato, uma proposição verdadeiramente científica, inclusiva e justa.
Postado por Henrique Rossi às 13:14
A maçã-do-amor e o cientista
Marcadores: Ciência, Individualidade, Liberdades individuais, Processo social do saber 14 comentários
Existe uma forte tendência no pensamento contemporâneo em achar que o homem é um animal como um outro qualquer. Já escrevi várias vezes neste blog que apesar de nossos corpos serem reféns do universo físico-químico a experiência humana como um todo o transcende. Para justificar este ponto de vista disse, àquelas ocasiões, que a dor é algo que não pode ser quantificada. À ela unem-se todas as outras emoções: alegria, medo, felicidade, senso de justiça, desespero, etc., nenhuma delas pode ser quantificada. O que, para uma pessoa materialista, não deixa de ser esquisito, afinal, pensam elas que todas as coisas do mundo podem ser medidas. Como pode existir algo que não pode ser medido? Uma mente que se gabe de ser exclusivamente científica terá problemas em responder esta pergunta. Essa gente não gosta de reconhecer que há uma infinidade de assuntos que a ciência nunca poderá estudar porque é incapaz de medi-los, pois a ciência se limita a ser a faculdade humana de medir. Se não pode ser mesurado não pode ser objeto de estudo científico.
A tudo isto um "amante da ciência" (como se toda a humanidade não o fosse) poderá reclamar: "Você está equivocado e é simples demonstrar. Sua suposição se baseia numa premissa falsa, dado que você não pode afirmar que a ciência jamais será capaz de produzir um medidor de emoções. Talvez seja criado, no futuro, um aparelho que seja capaz de ler nossas sinapses e toda a nossa bioquímica cerebral e, com base em um padrão a ser determinado, ele emitiria um resuldado matemático que permitiria, por exemplo, a comparação da dor de diferentes indivíduos. A sua hipótese é, portanto, facilmente refutável." Dito assim, o raciocínio pareceria muito bonito, afinal, se tal equipamento for mesmo criado algum dia existirá, de fato, uma forma de aferir numericamente as emoções.
Porém, uma tal máquina terá certos problemas insolúveis, infelizmente, pois as emoções se misturam. Ninguém fica somente triste, ou somente alegre. O medo despertado por um conto aterrorizante pode ser menor em alguém que é naturalmente mais feliz que a média das pessoas, por exemplo. O problema de subtrair uma emoção da outra para que não sejam medidas juntas parece insolúvel. Para que fosse possível medir e comparar a dor de duas pessoas seria necessário que ambas tivessem eliminado de todo o seu aparelho psíquico todas as outras emoções no momento da medição. Só assim não se poderá confundi-la com o medo, por exemplo, que pode ser maior em uma delas - afinal, dor e medo estão relativamente próximas na escala de sentimos negativos. Tendo essa dificuldade em vista, o máximo que talvez seja possível desenvolver seria um medidor de apenas dois sentimentos: o positivo, e o negativo. Esse aparelho congregaria em seus pólos todas as emoções contraditórias. Tanto a dor quanto o desespero estariam no lado dos sentimentos negativos, ainda que sejam bastantes diferentes entre si. Da mesma forma, seriam agregadas como emoções positivas movimentos psíquicos tão diversos quanto a felicidade e o alívio.
Para demonstrar como meu ponto de vista continua justificado ainda que tal aparelho seja inventado com perfeição proponho que negligenciemos a dificuldade em se separar os sentimentos. Imaginemos um aparelho ideal que consiga separar com exatidão milimétrica a dor sentida por uma pessoa razoavelmente feliz que por ventura tenha sofrido um procedimento cirúrgico urgente sem anestesia. Logo percebemos que a dor sentida será tremenda, praticamente incomparável a qualquer outra dor. No entanto, como a pessoa do nosso exercício é bastante feliz no demais, a sua dor pode ser menor do que aquela sentida por uma pessoa costumeiramente infeliz. Ou seja, muito provavelmente a dor da pessoa que é naturalmente menos feliz será maior que a dor da pessoa que costuma estar muito bem. É de se imaginar que a atitude da pessoa perante as dificuldades será bastante influente na "quantidade de dor" que o aparelho irá marcar. Portanto, ainda que haja um aparelho que meça as emoções perfeitamente, o juízo ou opinião de alguém, impulsos psíquicos absolutamente subjetivos, irá influenciar como o organismo físico-químico irá reagir. Ou seja, a atitude moral da pessoa continuará a determinar a quantidade de neurotransmissores que seu cérebro irá descarregar.
Mas eu gosto de problemas ainda mais difíceis. Imaginemos, por exemplo, um sujeito muito feliz com uma doença crônica que lhe cause dores terríveis, capazes de atingir os ápices normativos para dor de nosso aparelho ideal. Ou seja, apesar da sua tremenda dor, capaz de desafiar os padrões medidores, ele é muito feliz. Argumentarão vários que, de fato, ainda que a dor dele seja tremenda, como o aparelho ideal demonstra com perfeição., ela é, em verdade, bem menor que a dor aferida em uma mãe que acaba de perder seu filho. Não importará, portanto, que o aparelho demonstre que dor do sujeito chegue a 100 unidades enquanto a dor da mãe chegue a 60 unidades. Apesar dessa verdade numérica, dado o fato de nosso sujeito hipotético ser feliz apesar de sua dor tremenda, a dor da mãe será considerada maior. Portanto, não adianta querer reduzir a experiência humana a quantificações científicas, pois sempre se chegará ao momento em que elas desfalecerão diante de juízos morais, que são, no fundo, o que realmente importa, e que realmente determinam a nossa maneira de interagir com o mundo.
As coisas que de fato importam não poderão jamais ser medidas. Como demonstrado, ainda que se invente um aparelho que consiga separar perfeitamente as diferentes emoções entre si, sempre se chegará a um momento em que a decisão da vontade se fará mais importante. A verdade numérica desaparece diante da verdade moral que é, de fato, muito superior, dado que é ela que verdadeiramente determina o que se pensa e o que se vive. Portanto, o mundo não verá o dia em que a ciência será mais importante que a livre e espontânea decisão dos sujeitos. A vontade da criança de experimentar uma simples maçã-do-amor num parque de diversões é algo que diz respeito a ela somente: a única pessoa no mundo que verdadeiramente conhece a intensidade desse desejo é ela mesma. Qualquer evento acontecido na cabeça de qualquer pessoa é algo que só ela experimenta em totalidade.
As experiências sentidas por se estar vivo, todavia, não são algo que não possa ser transmitido. De fato, o gênio humano já inventou algo muito mais eficaz que qualquer aparelho científico jamais será capaz de fazer: a palavra. Apegam-se à um racionalismo excessivo, infrutífero e frio somente as pessoas incapazes de compreender um simples poema de colegial. Por isso a humanidade jamais descambará inteira na direção do cientificismo pois, para se sentir plena e realizada, ela precisa de coração, de verdade - precisa experimetar uma resposta existencial. Precisa sentir a sua razão correspondida, ou seja, uma resposta àquilo tudo que ela viveu. Um encontro de experiências verdadeiramente satisfatório - uma retribuição completa: algo para o qual faltam palavras, pois, de tão verdeiro, excede-as, transcende-as, supera-as. Algo mais forte que a morte. O momento em que se vive mais plenamente pois se respira o universo em toda a sua imensidão.
Sem dúvida alguma, esse sentimento transcendental é algo que somente pessoas insensíveis podem negar. Sou extremamente crítico, porém, em admitir que haja alguém de fato insensível. Não acredito, portanto, que essa dimensão transcendental possa ser negada. Ela de fato existe, e os que se dizem insensíveis são provavelmente os tipos mais sensíveis que existem. Apenas se fecham numa atitude ranzinza e desafiadora porque não se sentem correspondidos. Não viveram a experiência de se sentir amado. O que se afirma insensível é apenas um rabugento infeliz que não gosta de admitir ter sentimentos como qualquer outra pessoa. No fundo, são pessoas que se tornam viciadas em negar as coisas positivas da vida. Apaixonam-se por desgraças. Têm aos olhos lentes que aumentam os desastres e diminuem os amores. Perdoem-me a sinceridade: só sabem olhar para o próprio vômito. Não digeriram o mundo, se recusam a fazê-lo. Se não lhes aparece alguém que os ajude, alguém com quem possam de fato se identificar, viverão a mais triste das condições humanas, que aparelho algum jamais será capaz de descrever.
Postado por Henrique Rossi às 00:56
Aletheia - da construção da verdade à sua implosão
Marcadores: Ciência, Individualidade, Processo social do saber 0 comentários
Convém aprofundar-nos um pouco mais na questão da diferença entre verdade universal e falsas verdades particulares. Não é recente a crítica ao conceito de verdade universal. Sem muito equívoco, pode-se atribuir a Immanuel Kant o título de primeiro relativizador da verdade. Ele não concluiu, porém, que ela não existisse, mas sua crítica é de que seria muito difícil, quase impossível, verificá-la. Começou assim o relativismo que levou ao cataclismo dos dias atuais. Seguiram-se a Kant toda uma sorte de relativistas, dentre os quais deve-se destacar o alemão Friedrich Nietzsche. Já escrevi sobre essa mentesinha perturbada neste blog antes. Recomenda-se aos que o desconhecem a leitura do texto, disponível neste link. Hoje, porém, falarei dele mais superficialmente. Ocorre que Nietzsche é o maior crítico de tudo o que existe. Ninguém teve a mesma influência que ele sobre as gerações seguintes. Como demonstrado no texto supra-citado, a obra de Nietzsche foi muito mais retórica do que efetivamente argumentativa. A História acabou sendo cruel com Nietzsche. Seu prestígio minguou enormemente durante o séc. XX. Os seus admiradores inquietaram-se diante do eminente desaparecimento do mestre. Então, empenharam-se em fundamentar as suas loucuras. Tem-se tentado demonstrar, caso a caso, como Nietzsche estava certo em sua crítica.
A tentativa de reavivamento mais interessante que conheci foi a de Marcel Detienne, autor de Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Nesta obra, o autor faz uma historiografia do termo verdade na Grécia Antiga. Para tanto, ele compara o conceito de verdade disponível na Ilíada, de Homero, e o sentido que o termo ganhou até o século de Péricles, na academia de Platão. No primeiro caso, Detienne procura demonstrar que o conceito de verdade era muito próximo da mitologia grega. O sentido do termo confunde-se com a própria noção da divindade que o nomeia: Aletheia. Acreditava-se, naquela época, que a verdade era um privilégio da deusa. Os que a desconsideravam, estavam, portanto, destratando a divindade. Ainda não havia o conceito de apuração da verdade ao nível humano. Detienne demonstra, através da narrativa da Ilíada, como isso pareceria tolice aos contemporâneos de Homero, a quem deveria-se apelar diretamente a divindade caso a verdade estivesse em questão. Desse período da Grécia chamada Arcaica até o período Clássico houve uma transformação no sentido da palavra. De mero conceito religioso, verdade passou a designar o resuldado de uma apuração humana, ou seja, a verdade deixa de ser privilégio divino e passa a ser uma característica humana. Ocorre algo que pode se chamar de incorporação do conceito, que antes estava restrito à esfera mitológica. Esse processo de transição ocorreu com o advento da ciência. Os que gostam de relativizar a verdade devem saber que essa atitude é anti-científica, pois é com o nascimento da ciência que surge a compreensão de que a verdade é algo que pode ser verificada pelos seres humanos através de provas e contra-provas. A ideia de verdade está, portanto, desde o seu nascimento, ligada à ideia de ciência, ou seja, de apuração da verdade. Notem que esse sentido do termo verdade inexistia antes dos gregos o criarem. A verdade é, portanto, uma ideia, uma invenção humana. Algo que pode ser rastreado ao longo da história.
Todo este esforço é decorrência da necessidade de se justificar a ridícula crítica nietzchiana à metafísica platônica. Nietzsche abominava Platão assim como abominava São Paulo. Para combatê-los, ao invés de argumentos, Nietzsche se utilizava de uma retórica apaixonada que se orgulha de ser irracionalista. Quem lê-lo poderá verificar por si próprio. Nietszche odiava a razão. Para ele a razão é uma excrecência platônico-cristã que precisa ser combatida. Consequentemente, Nietzsche abominava também a ciência. Ele a considerava uma excrecência burguesa. No lugar do ocidente cristão, segundo o "filósofo", deve ser instaurado algo que se pode chamar de Reino de Loucura, já que se limita à licensa de se fazer sempre o que quiser como bem entender, se utilizando de quaisquer meios para tanto. O que não fosse exatamente isso precisaria ser duramente combatido. Nietzsche advoga o tempo todo a favor da destruição completa do Ocidente. Tudo era ruim para ele porque tudo está assentado sobre esse conceito, para ele ridículo, da razão. Em seu texto, Nietzsche se utiliza de ataques infantis e xingamentos baratos, como muitos outros "autores" contemporâneos. Como já disse, sua argumentação é paupérrima. Por conta disso, a preocupação máxima de seus admiradores é resgatar a sua obra demonstrando que, por detrás da aparente loucura, existe supostamente um grande pensador. A historiografia da verdade da Grécia Clássica foi feita por Marcel Detienne exatamente com este intuito: impedir que o prestígio de Friedrich Nietzsche se desfizesse por completo através da demonstração de que a verdade é um conceito criado pelos homens e, como tal, pode ser remodelado com se bem entender.
Oras, ainda que o conceito de verdade tenha a sua História, afinal, a humanidade também a possuiu, isso não significa que as conclusões a que chegaram os primeiros cientistas pré-socráticos e os filósofos clássicos estejam erradas. Como já demonstrei diversas vezes neste blog tudo tem História, porque tudo é entendido pelo ser humano, um ser histórico, ao contrário dos animais, que não a possuem. A tentativa de manutenção do prestígio Nietzschiano não é obra de um só autor. Detienne nem é o mais célebre deles. O acadêmico niezschiano mais notável é o francês Michel Foucault que, em seu tremendo esforço pelo resgate de Nietzsche, acabou sendo, pelo menos na minha opinião, muito mais inteligente e perspicaz que o mestre. Foucault não é um bebezão neurótico, suas ideias são muito mais respeitáveis. Nem é por acaso que ele é o acadêmico mais citado mundialmente nas pesquisas das áreas humanas. Não pretendo, porém, ser tomado como grande admirador do francês. Apenos quero deixar claro que ele é razoável. Muitos de seus argumentos são válidos e evidentes. A crítica foucaultiana ao marxismo e a psicanálise parecem-me de enorme qualidade. Ele é também um observador muito inteligente da realidade contemporânea. Com grande propriedade ele demonstra como o puritanismo da Era Vitoriana foi incorporado pela burguesia ocidental. Para ele, esse é o grande movimento fundador da contemporaneidade. Concordo com isso. Só tenho minhas reservas quanto à licenciosidade que ele toma em relação à verdade, pois ele também é um sofista - o que, no seu caso, parece-me contraditório pois como podem ser verdadeiras as suas colocações a respeito da Era Vitoriana se ele próprio não acredita em verdade? Pena que ele não foi intelectualmente honesto em admitir que há sim verdade e que se pode sim atingi-la através do estudo da realidade ao nosso redor. Nietzchiano que é, não poderia deixar de ter sua cota de bobagens a preencher.
Postado por Henrique Rossi às 10:09