Certa vez, ouvi de um padre
conhecido uma frase que me causou um grande impacto, ressoando por anos a fio: “Quando os homens querem,
eles fazem!” Esta sentença surgiu no meio de uma palestra dada por este
simpático padre, que espero estar hoje tão bem quanto estava naquele dia. Dado
o contexto da palestra, o sentido da frase era claro: a consciência humana,
quando verdadeiramente convicta a respeito de algo, é capaz de fazer qualquer
coisa, independente das dificuldades. Lembro-me ainda que, para defender esta
idéia, ele narrou aos presentes a habilidade de um motorista de ônibus que,
para não perder um jogo da Copa do Mundo, dirigiu em alta velocidade com grande
perícia, sem assustar os poucos passageiros, dentre os quais o próprio padre.
De fato, é bastante cristã a proposta
de que, quando há convicção verdadeira, as pessoas fazem mesmo coisas bastante
difíceis. Esta idéia é importante para o cristianismo em função das suas
grandes exigências, como, por exemplo, a castidade pela continência antes do
matrimônio. No mundo atual, como instruir um adolescente a seguir esta rígida
moral se, entre os colegas, ele será constantemente cobrado para ter um
comportamento muito diferente?
Alguns intelectuais sugerem que a
suposta liberação sexual da década de 60 foi um golpe muito forte no cristianismo.
Talvez tenha sido, não sei. Mas a história dá várias provas de que o
cristianismo passou incólume por dificuldades muito maiores. Neste sentido a
revolução que remodelou a sexualidade ocidental nos anos 60 configura mais uma
dificuldade adicional do que um golpe irreversível.
Assim, a maioria das denominações
cristãs não está impossibilitada de ensinar a moral cristã tradicional. Aliás,
mesmo em tempos de internet e rápido fluxo de informação, diversas igrejas
evangélicas têm conseguido ensinar uma moral ainda mais rígida para seus fiéis,
aconselhando-os a vestirem-se de modo demasiado recatado (em vários casos até
as canelas e até os punhos). Ou seja, a informação livre não tem atrapalhado os
cristãos e suas exigentes doutrinas.
Ocorre que os profetas do fim do
cristianismo sempre se esquecem de analisar e compreender os ensinamentos
cristãos, fundamentados, sobretudo, na noção de fazer o bem e evitar o mal. A
noção do bem é mais sedutora do que eles supõem. E a aversão ao mal é mais
forte do que eles gostariam.
Nosso simpático amigo sacerdote
apelava a este bem quando nos ensinava a fazer tudo o que verdadeiramente
queríamos. Na visão dele, se um sujeito estiver 100% convencido a respeito das
verdades cristãs, ou seja, do bem, ele certamente quererá (e conseguirá) agir conforme os
rígidos ensinamentos cristãos. No fim, seguir ou não os ensinamentos da Igreja
dependeria puramente da vontade de fazê-lo. Se alguém tiver uma vontade imensa
poderia seguir mesmo as mais rígidas doutrinas.
Mas aqui eu começo a discordar do
meu amigo. Não que eu o considere errado, mas acredito que esta noção do bem
possível precisa ser melhor trabalhada. Ao contrário dele, não acredito que o
bem seja uma questão de pura vontade, mesmo da mais forte vontade. O mal é uma
força que não pode ser ignorada, porque o bem só existe quando prevalece sobre
o mal. Em outras palavras, o bem só é possível no coração do homem quando o
desejo de praticá-lo é maior que a neurose que leva à prática do mal.
Infelizmente, o mal não é uma realidade que se vence magicamente, com varinhas de
condão. O mal, tal como o bem, tem uma história. Prevalecer sobre o mal, ou
seja, fazer o bem possível, exige a compreensão dos fatores que nos levaram ao
mal, para que, assim, numa visão aprofundada, possamos erradicá-lo de verdade.
Talvez uma pequena metáfora nos ajude. Imagine um belo campo gramado. Quem
já cuidou de um deles, sabe que muitas ervas (as tais ervas daninhas) crescem
arruinando a beleza e a graça do cenário. Agora imaginemos um sujeito que,
irritado pela presença das ervas, resolva arrancar todas elas rapidamente,
puxando o maior número possível para fora da terra. Se o belo campo gramado em
questão for tão grande quanto a nossa alma, ele não apenas nunca terminará o
trabalho; o seu procedimento de arrancar as ervas o mais rapidamente possível
não as arrancará por inteiro; a raiz delas permanecerá no solo, e, em pouco
tempo, seu campo estará ainda mais tomado que antes.
Ainda nesta mesma metáfora,
imaginemos um sujeito com atitude oposta, menos desesperada. Talvez ele saiba
que o campo nunca ficará perfeito, mas fará a escolha de melhorá-lo de modo
mais verdadeiro e profundo. Para tanto, buscará arrancar cada erva por
completo, de um modo que ela saia da terra com
sua raiz. Seu trabalho será bem mais eficaz, também porque, ao arrancar as
ervas com calma, não espalhará tanto as suas sementes.
No mundo, o bem possível sempre será
diferente do bem idealizado.
Assim, o problema com o raciocínio
do meu amigo padre é a visão de que a simples vontade de um momento é capaz de
qualquer coisa, se forte o bastante. Decerto coisas menores podem ser feitas assim,
como dirigir com pressa e habilidade ao mesmo tempo. Mas coisas maiores, como
reparar profundos traumas familiares, por exemplo, geralmente exigem uma
transformação lenta, pois, se a doença teve a sua história, a cura também
haverá de ter a sua. Do mesmo modo, vícios longamente adquiridos não são fáceis
de expurgar. O tabagista que o diga. É lindo acreditar que temos poder. O
problema é que não temos. Querer não é poder.
O mal enraizado ao longo de décadas
na alma de uma pessoa não é eliminado com uma bela frase retórica. Se o mal
levou anos para se instalar, também levará anos para sair. O bem possível, ou
seja, aquele bem acessível à vontade humana em um determinado momento, sempre
será aquela semente que a pessoa planta em sua alma à medida que retira as
ervas daninhas que a prejudicavam. O bem possível é um bem de cuidado, não é um
bem mágico, é um bem quotidiano, de exercício lento, contínuo e persistente. O
bem não é uma decisão de um instante. O bem verdadeiro só pode ser um bem tenaz,
que luta em função do bem sem desanimar com as imperfeições tão freqüentes na
maioria das vezes.
Deste modo, o querer que transforma
não é aquele que apenas leva às atitudes apaixonadas. O querer verdadeiro
reconhece a fraqueza humana e tenta melhorar a personalidade aos poucos, na medida
do possível humano. Como cristão, não nego que Deus possa qualquer impossível,
mas Ele parece preferir lembrar-nos da nossa pequenez. Deus não nos quer
amando-O um momento apenas. Talvez por isso nos dê grandes problemas, que
requeiram muitos anos de querer verdadeiro, para que O amemos sempre, querendo e
fazendo com muito amor, imperfeitamente, o bem possível.