Apesar da generalidade com que se apresenta, sinto lá certa atração pela figura de Marina Silva, a Rainha das Selvas, defensora da flora e da fauna nacionais. Ascendente das camadas mais pobres do país, Marina alfabetizou-se adulta e, engajando-se posteriormente na política, firmou-se como filiada do PT acreano, pelo qual elejeu-se senadora diversas vezes. Foi Ministra do Meio Ambiente do governo Lula, do qual se desvinculou por considerá-lo desenvolvimentista demais, aderindo então ao PV, do qual é lançada à sua primeira disputa presidencial. Dos três candidatos principais, Marina tem-se destacado pela ausência de propostas concretas e pela fartura de intenções maravilhosas ou mirabolantes, fazendo-se, assim, uma espécia de Obama brasileira de saias. Muitas das vezes ela soa apenas vaga nas suas promessas fantásticas, outras vezes, comentando aspectos um pouco mais diretos de nossa realidade política, ela revela pensamentos um tanto incomuns e, em alguns casos, inaceitáveis.
Como não estranhar, por exemplo, que Marine defenda a atuação armada nos anos 60 e 70 da candidata Dilma Rousseff, a escolhida do presidente Lula? Em sabatina hoje ao portal Terra, Marina criticou que se considerasse a luta armada de Dilma e seus camaradas como terrorista (reportagem aqui), e não ficou só nisso. Disse também que a luta de Dilma era pela democracia. Ora, há aí um equívoco absurdo. Todos os documentos dos grupos armados dos quais Dilma perteceu, e que estão ao alcance da imprensa, demostram claramente o seu inequívoco aspecto terrorista. Trata-se de colocação absolutamente incompreensível da parte de Marina. A luta de Dilma era pela substituição do regime miltar por uma ditadura de extrema esquerda. Que Marina esteja escondendo a inspiração extremista dos movimentos de luta armada das décadas de 60 e 70 não apenas surpreende como escandaliza, pois ela, como candidata ao Palácio do Planalto, deveria ser uma das primeiras a zelar pela verdade dos fatos a respeito da nossa recente história política.
Infelizmente, Marina Silva não se limitou a ignorar a clara inspiração ditatorial dos movimentos de guerrilha urbana dos quais Dilma Rousseff participou. Numa declaração sem precedentes, ela também defendeu a permanência no Brasil do terrorista italiano Cesare Battisti (reportagem aqui), condenado em seu país à prisão perpétua pelo assassinato cruel de quatro pessoas. O filho de uma das pessoas assassinadas também foi baleado e tornou-se paraplégico. Ele tinha 13 anos de idade quando Battisti atentou contra sua vida. Este terrorista cruel está no Brasil desde 2004, tendo sido preso em 2009 por solicitação da Itália que, posteriormente, solicitou sua extradição. O ministro da justição de então era o petista Tarso Genro, que começou a batalhar nos bastidores pela permanência de Battisti no Brasil sob a justificativa de que o terrorista político sofria perseguição em seu país por causa de seus ideiais esquerdistas. Que Marina Silva secunde esta injustificável violência à nossa Constituição é um absurdo sem igual.
Pior ainda foram os motivos dados pela candidata do PV à permanência de Battisti no Brasil: "O Brasil já deu abrigo até a ditadores. Por que com ele seria diferente? Aí o Brasil tem uma tradição. Se o princípio é dar apoio e suporte, mantêm-se os princípios". Será mesmo que eu entendi bem? Segundo Marina, o Brasil tem de zelar pela tradição de apoiar ditadores e terroristas? Ora, o correto não seria garantir que terroristas e ditadores respondessem à Justiça dos países onde cometeram seus crimes? Não é assim que procedem os países sérios, cumpridores de suas respectivas constituições e tratados de extradição? A verdade é que Marina Silva está defendendo que o Brasil descumpra sua Constituição e os tratados de extradição que assinamos com diversas nações amigas. Será mesmo este o seu papel como candidata à Presidência da República? Como brasileiro que ama seu país, afirmo que, a menos que Marina Silva volte atrás nestas afirmações absurdas, ela tanto não terá meu voto quanto faz-me assumir comigo mesmo a promesa de combater a todo custo a sua eleição.
Para mim, esta é uma decisão triste e custosa. Ainda que José Serra esteja tendo um desempenho irrepreensível como candidato, acho que ele não seria minha opção de voto no primeiro turno das eleições deste ano. Honestamente, preferia Marina Silva. Até bem pouco tempo atrás, ela era a única candidata a se posicionar contra o aborto. José Serra, por sua vez, emitiu umas portarias um tanto ambiguas a este respeito quando foi Ministro da Saúde do governo FHC, razão pela qual ele nunca foi meu favorito. Porém, semana passada ele colocou-se contra a reformulação da lei que pune o aborto como crime, o que o favorece deveras em minha opinião. Diante deste novo fato e das absurdas colocações que Marina Silva fez hoje, estou cada vez mais obrigado a votar em José Serra já no primeiro turno das eleições. Devo fazê-lo não apenas para zelar pela coerência de minhas opiniões. Se José Serra é o único candidato a opor-se ao aborto e lutar pela nossa segurança institucional ao mesmo tempo, ele torna-se a única opção possível às pessoas que amam o Brasil.
Infelizmente, Marina Silva, a 'Obama' brasileira, já era
Marcadores: Política 4 comentáriosPostado por Henrique Rossi às 18:18
Os meandros da mente no cinema
Marcadores: Arte, Cinema, Ciência, Liberdades individuais, Medicina/saúde mental 0 comentários
Tenho escrito continuamente que o pensamento é capaz de criar qualquer coisa. Também tenho dito que é o pensamento que cria a realidade objetiva e material à nossa volta, pois sem ele não saberiamos o que é um carro, o que é uma televisão, o que é barra de chocolate. Sem o pensamento não teríamos autonomia nenhuma. Sem o pensamento não poderíamos dizer não à comida quando temos fome. Com o pensamento somos capazes de jejuar por enormes períodos de tempo pelos mais variados motivos. Sem o pensamento defecaríamos e urinaríamos em qualquer lugar. Com o pensamento somos capazes de reconhecer as necessitades do nosso organismo e adequá-las aos nossos padrões culturais. Sem o pensamento não aceitaríamos tomar injeções, tampouco aceitaríamos tomar remédios, quanto mais na hora certa! Com o pensamento aceitamos a dor da injeção. Tomamos remédios na hora certa. Somos capazes até mesmo de permitir que nos amputem um membro sem anestesia caso isto se faça necessário para nos salvar a vida. É o pensamento, pois, que nos humaniza. O entendimento do mundo passa necessariamente pela razão. Sem ela seríamos animais e o mundo não existiria. O céu colorido não está lá porque pensamos, mas sem o pensamento não poderíamos apreciá-lo.
Nem só psicólogos e psiquiatras acham esta questão interessante. Também os artistas se dão a considerá-la, e não é de hoje. Com o advento da psicanálise, a arte ficou indelevelmente marcada pelos questionamentos sobre a mente e seu funcionamento. Afinal, ninguém melhor do que a arte para tentar desvendá-la. Neste particular, mesmo a medicina precisa reconhecer humildemente sua incapacidade, pois ela só é capaz de conhecer o quê os neurônios fazem, sendo a arte o campo que procura compreender os porquês dos neurônios pois, sendo autônomos e capazes de nos auto-determinarnos conforme a livre vontade, nossos movimentos não podem ser previstos. Somos capazes de nos convencer de que somos Napoleão Bonaparte. Somos capazes de, mesmos vestidos, sermos convencidos de que estamos nus. A elasticidade de nossa mente é tamanha que podemos nos induzir à crença de que somos um bule de chá. Um cachorro não é capaz disso. Extraem-se todas as capacidades dele com um pedaço de carne. Por nossa vez, podemos nos recusar a sair da cama ainda que tenhamos o mundo aos nossos pés, como a Imperatriz do Japão, a "princesa triste". Ou ainda, podemos acordar alegres e bem dispostos mesmo que não tenhamos nada.
De fato, o século XX foi riquíssimo de questionamentos sobre a mente humana nas artes. Também o cinema tem-na questionado desde o seu nascimento. Filmes como O Gabinete do Dr. Caligari, ou Limite, demonstram como os meandros das nossas faculdades mentais tanto intrigaram os artistas. Na atualidade, temos um cineasta talentosíssimo como Christopher Nolan dedicando-se à continuidade desta tradição. Nolan, inclusive, teve seu primeiro sucesso cinematográfico com Amnésia que versa sobre o mesmo tema. Com o extremo sucesso da nova franquia de Batman, Nolan habilitou-se a realizar filmes menos convencionais como o estranho, porém fascinante, A Origem, que estreiou sexta-feira passada nos Estados Unidos liderando as bilheterias deste seu primeiro fim de semana de exibição (reportagem aqui). Em sua mais nova empreitada, Nolan colocou Leonardo DiCaprio no curioso papel de "ladrão de pensamentos". Não sei o que isto significa. Tampouco os críticos e a maioria dos espectadores que, apesar de não terem compreendido minimamente do que se trata o filme, consideraram-no uma grande realização cinematográfica. Nolan sabe aproveitar muito bem os mistérios da mente.
A mente é, de fato, um grande mistério a ser desvendado. Tudo que lhe diz respeito, ainda que muito difícil de compreender, fascina instantâneamente a todos, pois a todos é comum em sua estranheza e inexplicabilidade. Nada nos faz tão humanos quanto ela, pois somente seres que a possuam são capazes das operações da razão, mesmo as mais rudimentares. Aproveitá-la em obras de arte não apenas tem enriquecido a fruição que fazemos das criações inusitadas dos artistas, como também nos tem ajudado a depreender um pedaço de nós mesmos ao qual estávamos alheios. Isso é especialmente perceptível no cinema, que é uma janela instantânea para quaisquer universos que se podem imaginar. Portanto, revelar o que estava oculto não é objetivo apenas das ciências, pois tudo que torna o homem mais ciente de si próprio enriquece sua percepção da realidade, ampliando o escopo de sua visão. De fato, como somos capazes de criar a realidade através do pensamento, todas as atividades humanas são oportunidades para se conhecer mais a respeito de nós mesmos. As artes são um espaço privilegiado apenas porque este parece ser seu papel na sociedade organizada. Mas não esqueçamos que todos nós o temos feito, queiramos ou não.
Postado por Henrique Rossi às 23:24
A perversa obsessão dos neo-ateus por religião
Marcadores: Arte, Ciência, Liberdades individuais, Processo social do saber, Publicidade, Religião, Richard Dawkins 5 comentáriosTalvez você já tenha ouvido falar dos neo-ateus. Trata-se de um grupo que gosta de fazer bastante barulho contra as religiões em geral. Para o movimento neo-ateu, todos os frutos das religiões são sórdidos e malignos. O mundo ideal deles não inclue nenhum tipo de crença em quaisquer entidades sobrenaturais. Para um neo-ateu, só se pode acreditar em algo que possa ser cientificamente demonstrado. O mais é abominação e perda de tempo. Um dos neo-ateus mais proeminentes é o biólogo britânico Richard Dawkins para quem a crença em Deus é um delírio. Dawkins escreve livros e dá palestras no esforço de desmerecer completamente a crença em Deus. Um de seus livros em especial, Deus - um delírio, esteve por vários meses na lista dos best-sellers. Dawkins também deu o seu aval à campanha londrina do "ônibus ateu", que expôs em vários destes veículos a mensagem "Provavelmente não há Deus. Pare de se preocupar e curta a vida". Não sei que resposta eles esperavam da parte dos religiosos, mas o curioso é que as grandes religiões organizadas, aquelas com vários séculos de existência, não deram a menor importância ao "ônibus ateu" e tampouco se preocupam com o movimento neo-ateu como um todo. Pelo contrário. Os clérigos das denominações cristãs mais tradicionais, como o catolicismo, o anglicanismo ou o luteranismo, citaram diversas vezes que a campanha atéia nos ônibus londrinos rendeu muitos bons frutos espirituais. Segundo eles, muitas pessoas que andavam indiferentes à religião na qual foram educadas sensibilizaram-se pela campanha, que serviu como uma eficaz "sacudida" espiritual, talvez mais eficaz que um belo sermão muito correto que cause sono. De fato, se há uma coisa que atrapalhe o sono é o barulho. Ou seja, ao trazer o assunto religião para o centro de um acalorado debate, tudo o que a campanha atéia fez foi despertar para a religião pessoas que andavam um tanto indiferentes à ela. Já escrevi sobre este assunto aqui no blog, mas hoje gostaria de desenvolver esta mesma idéia aprofundando-me um pouco mais em certos aspectos.
Façamos uma breve comparação com o universo das artes. Todos os que já frequentaram o ensino médio devem ter ouvido, em algum momento, que os movimentos artísticos se sucederam uns ao outros. Em língua portuguesa, a totalidade dos primeiros registros foram classificados como pertencentes à escola trovadoresca. Sucedeu-lhe a tradição humanista que, posteriormente, foi substituída pelos ideais renascentistas. E, prosseguindo, tivemos ainda os movimentos barroco, árcade, romântico, realista e, por fim, a escola moderna, da qual ainda sentimos fortes influências. Essa mobilidade toda de estilos demonstra a inquietação do ser humano e sua sede de saber pois, quando uma tradição não conseguia mais dar vazão ao espírito de sua época, era preciso substituí-la por uma nova estética, que conseguisse traduzir com maior fidedignidade as idéias que se desejavam transmitir. Vejamos, por exemplo, a transição do romantismo para o realismo. O primeiro é marcado por todo um excesso de sentimentalismo. O universo romântico é voltado quase que completamente para o interior do artista, suas inquietações e seu imaginário próprio. Para um romântico, mais interessante que os problemas da atualidade eram tempos remotos, que ele idealizava em seu egocêntrismo radical. Porém, as radicais transformações sociais e tecnológicas do séc. XIX fizeram emergir uma nova mentalidade, que desse mais atenção à realidade imediata e trabalhasse pelo seu progresso. Começava, assim, a sair de cena a burguesa mentalidade romântica, pois o realismo reformou toda a estética. Fossem nas artes plásticas, ou na literatura, importava comentar a realidade do homem no mundo, suas contradições, seus desafios e sua natureza física e psicológica. Percebam que a substituição de um paradigma pelo outro não se limitou à crítica ao padrão antigo. Os artistas do realismo, ao invés de dedicarem sua energia à demonstração de que o romantismo estava errado, preferiram ocupar-se da nova estética. Ou seja, o centro de seus esforços não estava em demonstrar que o paradigma anterior estava errado mas sim em demonstrar que a nova proposta era melhor.
Pensemos agora no universo das ciências. Os primeiros registros de questionamentos científicos na civilização ocidental datam da Grécia Antiga, onde muitos pré-socráticos procuraram explicações racionais para os fenômenos da natureza. À exceção da matemática, que nunca precisou comprovar nada materialmente, a ciência pouco avançou até Newton, que foi o autor de uma radical guinada de paradigma. As considerações de Newton sobre os fenômenos naturais são de uma tal qualidade que permaneceram praticamente inalteradas até o séc. XX, quando as ciências, com a física em especial, sofreram outra e radical mudança de paradigmas. Substituiu-se a mecânica clássica newtoniana pelo modelo quântico. Não foi uma mudança simples, tanto que seu maior responsável, Albert Einstein, apesar do tanto que fez a física avançar, não conseguiu admitir em plenitude a nova proposta. Einstein passou o fim de sua vida procurando um modelo que conseguisse aliar as propriedas quânticas às gravitacionais, explicadas por Newton. Um esforço tremendo que não se traduziu em nada, visto que os cientistas em peso aceitaram o modelo quântico como superior, demonstrando, assim, pouco caso das inquietações teóricas de um dos maiores físicos de todos os tempos. Percebam que, mais uma vez, quando há a substituição de um paradigma por outro, esta mudança não se dá apenas pela falta de qualidade do paradigma anterior, mas pelo excesso de virtude do paradigma novo. A física clássica de Newton foi substituída como o mais bem acabado modelo de entendimento da natureza não porque estivesse recheada de erros infantis ou imbecilidades, mas sim porque o novo modelo explica com maior riqueza de detalhes fenômenos que o modelo anterior não conseguia demonstrar. Ou seja, tanto na arte, quanto na ciência, a adoção de um novo padrão depende mais de suas qualidades do que dos defeitos do padrão antigo. Esta é uma lei que vale para todos os saberes humanos. Não há sobre a terra uma população sequer que abra mão de seus conhecimentos adquiridos e comprovados por séculos de experiência em favor de um modelo novo do qual se duvida.
Ou seja, a emergência de um novo paradigma em qualquer área do conhecimento exige a superação do paradigma anterior não apenas pela sinalização de sua ineficácia, ou insuficiência, mas pela demonstração de um novo modelo mais satisfatório, seja porque mais completo ou verdadeiro. Só diante de uma tal apresentação as pessoas abrem mão das coisas em que acreditam para adotar algo novo. Uma troca deste tipo não se faz apenas porque há pessoas irritadas com os padrões atuais. Não importa, por exemplo, que haja gente irritada com as atuais regras do futebol, por exemplo. Só se adotarão outras regras se ficar claro para a entidade que regula este esporte, a FIFA, que a substituição das regras atuais irá favorecer a expansão do mesmo. Como exemplo, diga-se que a FIFA se recusa a adotar a averiguação de lances polêmicos por vídeo porque acha que este procedimento levaria à uma elitização do futebol, um esporte notadamente popular por causa de sua simplicidade, o que arruinaria a sua espontaneidade e imprevisibilidade. Portanto, pode-se dizer que assim como nas artes, nas ciências, nos esportes, e no que quer mais que seja, a troca de paradigmas só ocorre quando o novo modelo suplanta definitivamente o antigo por suas virtudes. Assim também na religião, onde só há uma troca de paradigmas quando o modelo novo demonstra ser mais eficaz que o antigo. Tanto é assim que a história relata conversões maciças de diversos povos. Os romanos, por exemplo, abriram mão de suas crenças milenares porque o cristianismo lhes pareceu mais virtuoso, não porque suas crenças fossem péssimas. O mesmo se deu na América, onde o cristianismo se espalhou com velocidade avassaladora apesar do mau exemplo de muitos dos conquistadores. Da mesma forma, os árabes politeístas abriram mão de seus deuses pela pregação de Maomé, pois assim lhes pareceu melhor. Ou seja, o cristianismo é hoje a religião da maior parte da humanidade porque ainda não apareceu outra que lhe fosse mais satisfatória. Se alguém deseja substituí-lo por qualquer outra coisa, terá não apenas de criticá-lo, mas sim propor algo melhor para por em seu lugar.
No que chegamos ao equívoco central das tentativas dos neo-ateus de superação da religião. Eles não apenas não têm nada para colocar em seu lugar como, por limitarem-se a criticá-la, mantém o foco da questão sobre ela. Trata-se de uma atitude completamente contraproducente. Um verdadeiro tiro no pé. Quisessem os neo-ateus verdadeiramente aniquilar a religião da vida das pessoas (como se propõem verbalmente a fazer) seu foco central deveria estar no sistema ideológico que a suplantaria definitivamente. Como demonstrado, falar de religião apenas atrai a opinião das pessoas que estavam afastadas de Deus sobre o assunto, mantendo a crença religiosa no centro da discussão. Isto acaba despertando as pessoas de sua indiferença sobre o tema. Como resultado disto, elas procurarão se informar sobre os dois lados, afinal, imagino que queiram decidir bem, não é? Ora, isto será oportunidade para muitas conversões, como os clérigos das principais religiões têm relatado. Parece que dizer que Jesus é um zumbi, que a transubstanciação é um delírio, que a Virgem Maria não poderia ter concebido sem uma relação sexual, não são argumentos suficientes para a maioria das pessoas. Elas precisam sentir verdadeiramente a superioridade do sistema do ateísmo antes de decidirem-se pelo abandono de quaisquer crenças. Se há algo que o movimento neo-ateu precisa aprender é que frases de efeito não são argumentos. Eu até preferiria que o ateísmo tivesse proposições efetivas para o ser humano. Acredito que isto colaboraria com o progresso das religiões. Mas enquanto o máximo que um neo-ateu puder fazer for criticar as religiões, o movimento ateu como um todo estará fadado à insignificância histórica que tão bem o tem assinalado ao longo das eras. Ou seja, ou os ateus melhoram suas propostas, demonstrando efetivamente que a ausência da crença em Deus favorece uma vida melhor constituída e realizada ou eles continuarão o que sempre foram: os patinhos feios das ideologias, zombados e ridicularizados por todas as gerações históricas.
Senão, o quê têm eles ensinado? Qual é o centro de sua visão de mundo? O que eles têm de efetivo para convencer as pessoas de que a mentalidade religiosa como um todo não se justifica? Ora, qualquer um que já ouviu Richard Dawkins falando ou leu um de seus livros sabe que, além das críticas às religiões, ele não tem mais nada a oferecer. Suas colocações a respeito da vida sem religião são extremamente vagas. Não há um corpo de idéias minimamente capaz de parar em pé por si só. Há apenas um monte de generalidades ocas, sem nenhuma substância intelectual. Dizer que a vida de quem não crê é mais legal que a vida de quem crê não convence ninguém, pois as pessoas que têm religião acham sua vida ótima. Além do mais, Dawkins é obrigado a reconhecer que, como os ateus são geralmente pessoas de personalidade muito forte, é muito raro que cheguem a um consenso sobre o que quer que seja - tanto que há um capítulo inteiro de Deus - um delírio para analisar a questão de que uma reunião de ateus equivale a um saco cheio de gatos. Como não conseguem se unir para propor uma visão do mundo sem religião, a atitude atual deles de pretender a superação da mentalidade religiosa sem sugerir nada para colocar no seu lugar equivale a exigir da FIFA e dos torcedores dos clubes de futebol a destruição deste esporte. Ou ainda equivaleria a exigir dos físicos a destituição completa dos princípios quânticos visto que eles ainda não explicam nem como o universo existe nem porquê. Ora, essas não seriam atitudes risíveis, ridículas pelo seu enorme grau de infantilidade e neurose? Também o seriam (como o são) em relação à religião. Já que não conseguem uma mínima união sobre o que quer que seja, o esforço obsessivo dos neo-ateus contra as religiões mantém o centro dos seus esforços na religião, o que acaba tornando-os seus porta-vozes ainda que de modo indireto. Para que nada disso fosse verdade, bastaria que o centro dos esforços dos ateus estivesse no novo paradigma. Se ao menos eles tivessem algo para mostrar, algo que se pudesse conhecer e avaliar, as pessoas poderiam então dar-se ao trabalho de considerar se valeria a pena mudar de lado.
Podemos, então, perguntar-nos se os neo-ateus são verdadeiramente livres de religião. Afinal, ninguém mais do que eles se afirma independente de quaisquer princípios religiosos que sejam. Segundo eles mesmos, em suas cabeças há lugar apenas para coisas que podem ser verificadas racionalmente. Mas acho que, mais uma vez, eles estão gravemente equivocados. Percebam que só somos livres de assuntos que desconhecemos por completo. Eu, por exemplo, sou radicalmente livre das engenharias e da astronomia. Sei apenas localizar o Cruzeiro do Sul e nada mais. Tampouco faço a menor idéia de como se começa a construir uma ponte ou um edifício. Ignoro completamente estes assuntos. Nunca penso neles. Este é um exemplo correto de independência verdadeira. Da mesma forma, para ser livre de Deus e de religiões, a pessoa deve nunca pensar nestes assuntos, como, por exemplo, no caso de quem se dedica exclusivamente a juntar dinheiro. Se, todavia, a pessoa tem a destruição das religiões como principal objetivo de sua vida, ela é tudo menos livre de religiões, pois ainda que as negue, elas dominam completamente o seu imaginário e o seu quotidiano. Portanto, o movimento neo-ateu, ainda que lute dia e noite para negar todo pensamento religioso, nada mais faz que orbitar ao redor do assunto religião, com a diferença de que orbitam olhando para fora, enquanto os que se professam religiosos orbitam-no olhando para dentro. Ou seja, o referencial deles é a religião. Por isso os neo-ateus não assustam os clérigos das principais religiões, pois, para estes estudiosos, perigosa mesmo é a atitude de quem passa a vida sem pensar em religião, como no caso já citado de pessoas que dedicam todos os seus esforços para ganhar dinheiro, por exemplo, e nunca param para avaliar se o que fazem está correto. Segundo eles, esta é uma atitude verdadeiramente daninha, tanto que falam continuamente nela, tentando alertar os fiéis a nunca adotarem este estilo de vida que se esquece completamente de Deus. Um neo-ateu pode até se esquecer de si mesmo, mas de Deus ele não se esquece jamais - Deus é o centro absoluto da sua vida.
Postado por Henrique Rossi às 20:11
Um terra nova para pensar
Marcadores: Individualidade 0 comentáriosLembra-se daquela grande decepção que você causou?
Aquela que entristeceu tanto os seus pais e,
Principalmente, você mesmo?
Aquela que você fez tanto esforço para esquecer,
Aquela que você odeia quando os outros mencionam,
Convulsionando, assim, secretamente o seu eu ferido que,
Impotente, não consegue superar por si só?
Acredite-me,
Você só não sabia.
Ninguém havia lhe dito que aquilo não se fazia,
Ou que se deveria fazê-lo de outra forma.
Como você saberia
Se, criança, não houvera alguém que lhe ensinasse?
A importância destes eventos é muito relativa.
Não vale a pena carregar o peso de coisas que já passaram.
Deixe-as para a ficção, esqueça-as.
Você precisa dar novo sentido ao que lhe ocorreu
Entendendo de fato a impossibilidade de outra forma.
Apesar de não gostar de respostas prontas, para você, farei exceção:
O que não tem remédio, remediado está.
Eu sei que é fácil falar para mim, que estou de fora,
Se você diz que dói tanto esta ferida, acredito,
Mas veja que você precisa prosseguir.
Tente levar a vida assim mesmo.
Veja como é possível viver apesar deste desconforto.
Se você ficar histericamente olhando a lesão,
Garanto que a dor será maior.
Você precisa focar em outras coisas
Arejando sua percepção do mundo.
Faça outras coisas!
Fechar-se não é solução,
Porque os horizontes são infinitos.
Esquecer não é apenas deixar de lembrar.
Esquecer é não sofrer quando lembrar.
Quem quer realizar, precisar olhar além,
Precisa ver que as dores do mundo não estão todas em si,
E decidir-se pelo melhor.
Tomar a firme decisão de fazer, de encarar, de batalhar.
Ficar o tempo todo remoendo dores passadas não ajuda.
Pelo contrário, atrapalha muito.
Deixar de avançar porque algo não aconteceu como se desejava
É uma atitude de derrota certa.
Caminhe, faça, encontre, vive.
Ficar ensimesmado não é solução.
Quem quer fazer crê.
Crê contra toda suposição, contra toda fofoca.
Crê contra todo preconceito, contra toda malícia.
Aceito que você não sabia, entendo perfeitamente.
Sei que as coisas teriam sido diferentes se você soubesse.
Respeito sua dor. Acredito sim que deve haver um tempo de luto,
Para chorar, para sofrer, para aceitar, para recusar.
Só não aceito dramalhão,
Pois há também um tempo de renascer e, assim, tornar a fazer.
Sei que você não sabia,
Mas, hoje, que você já sabe,
Depois de tantas lágrimas derramadas,
Depois de tanta energia gasta inutilmente,
Talvez tenha chegado a hora de se levantar.
Abrace a parte que lhe cabe, fazendo acontecer.
Seja o que tiver de ser.
Aceite apenas a vitória.
E se você perceber que vai precisar de uma força extraordinária
Saiba que está pelo caminho certo,
Pois você precisa mesmo de toda a ajuda que encontrar.
O que você talvez não saiba é que esta força já está dentro de você,
Agindo agora mesmo,
Impelindo seus pensamentos para uma terra nova,
Apontando para a coragem apenas,
Despertando o seu eu da sombra que lhe era estranhamente conveniente,
Sugerindo uma nova e absurda dimensão,
Oonde você pode e realiza tudo o que quiser,
Pois, lá, o impossível é ficção.
Creia e avance.
Está dentro de ti.
P.S. Você talvez esteja se perguntando exatamente o que é a tal resignificação. Como se poderiam superar eventos traumáticos com a simples força de vontade? Talvez minhas indicações pareçam um pouco exigentes demais frente à alguns problemas terríveis. Como se poderia dizer, por exemplo, a algum sobrevivente do Holocausto que resignifiquer a brutalidade vivida em um campo de concentração? Não é certo que um sobrevivente de um campo de extermínio está irremediavelmente ferido? Não é certo que ele, caso supere a dor sofrida, tenha sua superação limitada até certo ponto que ele jamais poderia ultrapassar? Ou seja, não é certo que uma dor profunda sempre continuará existindo? Não seria utopia demais da minha parte imaginar que é possível uma resignificação plena e completa de todos os traumas? Não será que penso assim apenas porque sou incorrigivelmente ingênuo? Ora, se a resposta a qualquer uma destas perguntas fosse positiva, tudo o que escrevi no texto acima seria a mais pura bobagem. De fato, seria necessário demonstrar que uma tal resignificação é efetivamente possível. Que tal, então, um videozinho que mostra um senhor sobrevivente de Auschwitz dançando "I Will Survive" em frente aos prédios onde mataram seus pais e amigos? Pois é. É possível resignificar até mesmo os mais traumáticos eventos, dando-lhes uma nova percepção, classificando-os em nossa mente de uma maneira que não nos paralize. À medida que se progride nesta arte inexata, percebe-se que é possível cada vez mais libertar-se de tudo de ruim que sofremos, seja a vergonha por nossos equívocos, seja o mal que nos fizeram. De fato, quem quiser ser verdadeiramente livre tem de tornar-se hábil na arte de resignificar os eventos, dando-lhes o melhor sentido possível. No caso de um sobrevivente do Holocausto, que sentido pode ser melhor do que dizer ao mundo, em alto som, que, apesar de todas as barbaridades sofridas, foi possível sobreviver e, assim, continuar permitindo-se ser exatamente quem se é? Aprendam com este velhinho e dancem diante das tragédias, pois é isto que elas mais odeiam: serem ridicularizadas. As tragédias esperam de você respeito e admiração. Mas se você quer superá-las você precisa desrespeitá-las com todas as suas forças, olhando-as no fundo dos seus olhos ardis e dizendo: "Não sigo suas ordens!"
Postado por Henrique Rossi às 00:25
O desastre da facilitação do divórcio pelo Senado
Marcadores: Individualidade, Retrocessos morais, Sexo bizarro da modernidade 4 comentários
Qual é geralmente o resultado de nossas decisões tomadas de "cabeça quente"? Não é verdade que erramos na enorme maioria de nossas decisões apressadas? Basta comparar seu resultado àquele das decisões ponderadas e refletidas com tranquilidade. A decisão considerada sem estresse é geralmente convicta e justificada. Sabemos o porquê de a tê-la escolhido, conseguimos explicá-la em seus mínimos detalhes para nós mesmos, os maiores interessados. O mesmo não se pode dizer da decisão apressada. Não a compreendemos totalmente, não conseguimos justificá-la com clareza para ninguém, muito menos para nós mesmos. Se temos de fazê-lo, somos obrigados a vomitar um arrazoado estranho, confuso, contraditório, que não convence ninguém, pois não é possível discernir uma lógica clara, um princípio delineador, na decisão que tomamos sem o tempo necessário. De fato, os frutos da decisão apressada, se não são uma desgraça completa, certamente estão muito aquém daqueles da decisão ponderada.
E que decisão poderia ser mais importante em nossas vidas que optar pelo divórcio? Não há decisão mais importante e relevante que esta. Não há decisão que se aproxime a esta em dramaticidade e potencial negativo. Pois, com o divórcio, decreta-se o fim de uma família, de uma instituição que deve zelar, sobretudo, pelo bem das próximas gerações, pois é na família que crescemos e começamos a nos relacionar com o mundo. O espaço privilegiado onde começamos a nos tornar nós mesmos é a família. Quantos não se ressentem pelo fato de seus pais terem se separado! Quantas cabecinhas infantis irremediavelmente confusas e quantos corações infantis indelevelmente marcados! Tanta desgraça na vida de tantas pessoas apenas porque dois adultos que se amam recusam-se a conversar como pessoas equilibradas! Tanto sofrimento psíquico e tantas almas devastadas porque alguns deixaram o egoísmo falar mais alto. E pensar que tantos divórcios são decisões passionais e irrefletidas!
Pensando justamente nisso, visando o bem da instituição familiar, sua estabilidade e segurança, os constituentes de 1988 preveram um tempo mínimo de dois anos para que alguém possa casar-se novamente após um divórcio. A constituição prevê, portanto, instrumentos jurídicos que retardam a separação definitiva de um casal, dando aos conjuges o tempo necessário para chegarem a uma decisão madura, na qual tenham considerado com cuidado a decisão mais importante das suas vidas. É justamente para que esta decisão não seja tomada de "cabeça cheia", em meio aos devaneios infantis das paixões, que existem estes mecanismos jurídicos tão prudentes quanto justificados. Porém, esta salvaguarda tão importante está ameaçada. Aprovou-se ontem, no Senado, por quorum mínimo, uma proposta de emenda constitucional de autoria do senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, que permite às pessoas casarem-se novamente no dia seguinte ao divórcio.
Caso esta proposta seja definitivamente aprovada, as decisões irrefletidas e apaixonadas, que tanto mal causam e que sempre precisam ser combatidas, receberão enorme fomento. Muitos casais não terão a chance de ponderar esta decisão tão importante com a cabeça fria. Imaginem o mal que esta facilitação do divórcio causará. Como não terão tido tempo suficiente para refletir, muitos divorciados arrumarão parceiros apenas para enciumar a outra parte, casarão com amantes com o intuito deliberado de magoar, de ferir o pai, ou a mãe, de seus filhos. Alguém precisa avisar ao senador Demóstenes Torres que conjuge não é roupa íntima, que se usa e depois se descarta. Casamento é coisa seriíssima, envolve as emoções mais profundas do psiquismo humano, a formação da personalidade, a visão de mundo, o conceito de si e dos outros. O Estado deve dar ao casal a chance de refletir esta decisão dramática de uma maneira ponderada, visando o bem próprio e dos filhos.
Esta visão de que casamento é coisa que se pode fazer e desfazer de qualquer forma nasce de uma visão instrumentalista do ser humano, que considera mais a sua dimensão material em detrimento de sua dimensão subjetiva. É o mundo do consumo que quer destruir a família. É a atitude de que só o prazer imediato deve existir que combate a ponderação desta decisão. Fomenta-se, assim, uma atitude consumista diante do matrimônio. Descarta-se o "produto ruim" para por-se logo a procurar o "produto bom". Ora, esta atitude apenas posterga o problema emocional para a segunda união, pois o divórcio geralmente ocorre por imaturidade emocional e afetiva. Se as partes não são capazes de desenvolver uma conversa minimamente adulta com uma pessoa que evidentemente amam, por que o serão capazes de fazer isto em uma segunda união se não precisaram amadurecer antes sua afetividade? Não é evidente que o problema está apenas sendo postergado?
As leis tem de favorecer um ambiente de segurança institucional. A sociedade não pode ter reforçados os seus impulsos apaixonados. Trata-se de defender um estado de tranquilidade e estabilidade para as pessoas poderem decidir de maneira mais racional. Trata-se de evitar mais e mais corações despedaçados. Um mundo mais sorridente não pode surgir da intrumentalização do ser humano, mas certamente passa por um profundo respeito pelo seu desenvolvimento pleno. Pelo bem de todos, não se pode corroborar com paixõezinhas adolescentes. Deve-se favorecer o amadurecimento afetivo e a reflexão. Vou além. A casais em processo de divórcio deveria ser oferecida psicoterapia gratuita, pois um mundo melhor exige pessoas bem constituídas, de personalidade menos vacilante. Vejam, se aconselhamos um amigo a ponderar melhor uma compra (ou venda) decidida de última hora, como não fazer o mesmo quando ele decide divorciar-se?
A vida humana não pode ser objeto de consumo, não é qualquer bem, do qual se pode dispor conforme a última vontade que dá na cabeça, pois a vida humana é o sumo bem! Tudo o que concerne as pessoas tem de ser ponderado com carinho, refletido diante de um espelho iluminado. Não se pode favorecer decisões apressadas e apaixonadas que dirá esta! Sei que parece exigente demais esperar que pessoas com raiva uma da outra tenham frieza para decidir algo como o divórcio com racionalidade. Mas não se pode esperar o pior do ser humano! Não podemos desconfiar de cada uma das suas decisões. Para que ele faça o que é certo e bom deve-se esperar o máximo dele, deve-se ter bem claro essa capacidade que só ele possui. Um mundo melhor começa por uma atitude de confiança na capacidade das pessoas. A descrença no ser humano apenas reforça os piores preconceitos.
Se acreditamos verdadeiramente que as pessoas são capazes de fazer o que é certo devemos dar a elas a chance de poderem resolver seus problemas da melhor maneira possível. Isto é crer verdadeiramente nas capacidades do ser humano. Esta é uma atitude positiva e confiante. Imaginar que se pode confiar na qualidade de decisões apaixonadas ou é ignorância ou é má fé. Ora, como se pode achar que o divórcio é algo que se pode decidir de qualquer forma? Qual outra decisão exige mais cautela e ponderação que ele? Não podemos corroborar com a instrumentalização do homem, com o ponto de vista segundo o qual ele é apenas algo de que se pode dispor conforme as conveniências. Devemos repudiar sua transformação em mero objeto de prazer. Devemos ser generosos com as pessoas, sempre. Devemos confiar em suas capacidades. E esta confiança certamente está manifesta no reforço às decisões ponderadas e maduras e no combate às decisões apressadas que tanto mal causam ao mundo.
Postado por Henrique Rossi às 11:47
O vórtice maldito e o goleiro do Flamengo
Marcadores: Criminalidade, Individualidade, Sexo bizarro da modernidade 2 comentários
Vejam o caso do goleiro Bruno, do Flamengo, um dos maiores clubes de futebol do Brasil. Talentoso, ele tinha um futuro luminoso diante de si. Já se discutia há algum tempo sua venda para o futebol europeu. Agora, diante da ameaça bastante concreta de que ele teria colaborado diretamente no assassinato de uma amante, tudo se esvanece. A menos que surja algum fato novo a seu favor, de indiscutível valor jurídico, sua carreira está destruída. Alguns meses atrás, Bruno ganhou o noticiário por sua declaração absurda, em apoio a um colega em problemas conjugais, segundo a qual não haveria homem que nunca precisou agredir fisicamente sua parceira e que, portanto, ninguém deveria se meter em briga de marido e mulher. Vê-se hoje do que uma pessoa com tal mentalidade é capaz. A moça desaparecida, Eliza Samudio, estava com um processo contra Bruno, solicitando o reconhecimento da paternidade de seu primeiro filho, do qual, à época, estava grávida. Segundo ela, este processo enfureceu o goleiro do Flamengo, que passou a obrigá-la a fazer um aborto. Eliza chegou a fazer um boletim de ocorrência no qual acusa Bruno de forçá-la a beber um líquido amargo. Àquela ocasião, colheu-se urina para aferição do que ela havia ingerido. Com o resultado do exame, sabe-se hoje que era, de fato, um abortivo. Felizmente, ela não perdeu o bebê, que está hoje em poder do avô. Eliza chegou a alertar seus familiares e amigos de que corria perigo. Apesar disso, continou procurando Bruno, tentando conversar com ele. Essa inocência custou-lhe a vida.
De fato, trata-se de uma história horrível, tornada possível pela indiferença, ou mesmo insensibilidade, diante do mal. Quando se tem apenas o próprio umbigo para satisfazer, o ser humano é capaz de tudo. Bruno é um homem casado. Além de manter diversas amantes, promovia orgias para si próprio e seus camaradas no sítio onde, agora, a polícia procura o corpo de Eliza. Infelizmente, a serem reais os dados das delegacias das mulheres que os jornais repercutem com grande alarido, casos como este não são exceções. Além do mais, todos nós conhecemos homens que confundem virilidade com libertinagem, como se eles julgassem a própria masculinidade conforme o número de mulheres que possuíram. Ora, se eles precisam possuir muitas mulheres para se sentirem seguros de si, é certamente porque não se sentem viris por natureza. Ou seja, o homem desesperado por manter relações com o maior número possível de mulheres é um tipo pouco viril, porque, sentindo-se fraco e inferior aos demais homens, precisa provar a si e aos outros que é tão ou mais homem que eles. Ora, não é evidente que o homem naturalmente viril não se preocupa com o que hão de fofocar a seu respeito? Afinal de contas, ele há de se avaliar por parâmetros mais firmes e confiáveis que a opinião de quem se presta a falar dos outros pelas costas. Uma pessoa que se deixe pautar pela opinião alheia acaba por destruir sua auto-imagem, pois, ressentida do sucesso alheio, a maioria não economiza veneno para desvalorizar quem se destaca. Portanto, saibam disso, a pessoa bem constituída não se deixa guiar pelos comentários de comadres fofoqueiras que não têm mais o que fazer, sejam elas velhinhas interioranas à janela ou jogadores profissionais de futebol.
Quem deseja ser aceito a qualquer custo não é dono do próprio nariz. E este é o maior mal que um ser humano pode se fazer: trair sua vocação verdadeira, aquela que lhe aponta o caminho da luz e da beleza. Não podemos deixar de trilhar a estrada que nos leva à concretização dos nossos sonhos, senão nós perdemos nossa individualidade e nos tornamos meros objetos de vontades alheias. Deixar-se pautar por comentários baratos é sonegar-se a autonomia que deve constituir uma personalidade bem-formada. Ou seja, é algo que não cabe na vida de um adulto. Mesmo na adolescência, a dependência do que os outros irão pensar não é algo positivo. O jovem escravo da opinião de seus colegas nunca irá amadurecer. Aos poucos sua personalidade estará deformada de uma tal maneira que só caberá nela as ordens da maioria. Ou seja, onde deveria haver todo um universo pessoal intransferível de individualidade, haverá apenas uma alma desesperada por reconhecimento e atenção. Quem se entrega a este estilo de vida torna-se capaz dos feitos mais hediondos, pois não há limites para seu desejo de aceitação. Esta é uma sede verdadeiramente insaciável. O homem que não se permite ser ele mesmo para agradar os outros é capaz de se metamorfosear em qualquer coisa. E, já que a falta de autenticidade é uma algo verdadeiramente ruim, a maior parte de seus frutos terá de ser podre, pois não há semente ruim que dê fruto bom. Ou seja, à medida que a escravidão pela opinião alheia progride na personalidade imatura, mais e mais ela se torna dependente dos menores gestos de afeição. A pessoa entra em um redemoinho que a destrói por completo, sobrando apenas um rastro negro do egoísmo mais abjeto que se possa imaginar. Onde deveria haver um ser vocacionado para a luz, há somente uma vaga lembrança do que ele deveria ser. Seus traços se tornam indistinguíveis, pois sombras e vórtices infernais os devoraram por completo.
Os que gostam de referências poéticas poderão se lembrar da Odisséia, de Homero, na qual o rei de Ítaca, Ulisses, no retorno à sua pátria após a guerra de Tróia, ao navegar por certos mares, é avisado da presença de sereias devoradoras de homens, cujo canto maravilhoso os atrai para a desgraça. Ulisses e seus acompanhantes deveriam usar uma cera mágica no ouvido para não serem atraiçoados pelos seres de encanto diabólico. Impressionado pelo aviso, e muito curioso por conhecer o canto das sereis, Ulisses recusou-se a usar a proteção e, para prevenir-se da destruição, pediu para ter seu corpo inteiro amarrado ao mastro central do navio. Avisou seus companheiros para não soltá-lo em hipótese alguma enquanto atravessassem aquelas águas traiçoeiras. Assim que adentraram na região de perigo, Ulisses começou a ouvir o canto das sereias. Imediatamente ele se põs a gritar em desespero, exigindo que fosse libertado. E neste estado ele continou até que tivessem saído daquela região e não fosse mais possível escutar o canto de beleza incomparável. Só mesmo completamente imobilizado para não sucumbir à sedução que o mundo exerce sobre nós. Se não nos guiamos a nós mesmos como pessoas autônomas, se não estamos surdos para o canto sedutor das coisas deste mundo, em pouco estaremos como Ulisses, gritando pela própria ruína, pois são muitas as armadilhas com que o mal pretende nos aniquilar. Ser livre exige, pois, um constante exercício de auto-domínio. Se não nos dedicarmos a este objetivo, jamais iremos incorporá-lo, pois, ao contrário dos animais, que nascem sabendo o que fazer, nós precisamos de um esforço constante para aprender qualquer coisa que seja, pois nascemos completamente incapazes. Tanto o conhecimento do que é bom quanto a sua prática necessitam de uma abnegação constante. Só assim podemos nos tornar verdadeiramente livres.
Se nós nos permitirmos a concretização de todas as nossas vontades, especialmente as mais superficiais e irrelevantes, não teremos liberdade alguma. Para nos tornarmos pessoas capazes de realizar alguma coisa, precisamos de um esforço contínuo de autonomia. Não podemos ser pessoas que se deixam guiar pelas sensações que momentaneamente acometem qualquer um. Se quisermos ser pessoas de princípios precisamos cultivá-los. Caso contrário, seremos como borboletas arrastadas para cá e para lá pelo vento, sem nenhuma constância, sem nenhuma segurança, sem nenhuma regularidade. Por fim, se não formos minimamente capazes de nos disciplinarmos, podemos nos tornar escravos dos piores instintos, pois os caminhos frequentes deste mundo não parecem ser os melhores. Recusar o mal não é apenas evitá-lo. A pessoa fiel à sua vocação original para o bem deve incentivar-se no caminho das coisas boas, constantes por natureza e disciplinadoras das nossas vontades arredias. Para concluir, relembro a alegoria do cavaleiro na biga, de Platão. Não podemos ser, segundo este filósofo, libertinos enlouquecidos que conduzem sua carruagem de maneira violenta, seguindo apenas os impulsos imediatos, pois acabaríamos por nos acidentar. Tampouco devemos nos ensimesmar em nossos objetivos (o que seria apenas uma outra face do egoísmo) agindo como o cavaleiro que puxa o cabresto do cavalo violentamente, impendindo-o de sair de seu lugar, pois a covardia, ainda que menos daninha, é só a outra face da libertinagem. O correto é avançar com moderação e auto-domínio, coisas um tanto fora de moda num mundo que prega todo tipo de excesso. Não se enganem. Este é o caminho dos que fogem do canto da sereia e, agindo assim, preservam-se das ameaças das paixões. O caminho bom está no centro, como sempre. Se nos dedicarmos com afinco à nossa vocação de seres de luz, o mal não terá poder algum sobre nós.
Postado por Henrique Rossi às 18:31
Os espólios da guerra
Marcadores: Medicina/saúde mental, Processo social do saber 0 comentáriosA julgar pelas fotos que a imprensa está repercutindo, a torcida argentina sofreu mais a desclassificação do seu time da Copa do Mundo do que a torcida brasileira. Minha atenção sentiu-se especialmente atraída pela foto acima, sugestiva de uma enorme desilução. Em primeiro plano, um trompetista que só consigo imaginar desafinado e melancólico. Atrás dele, um homem segura o nariz, como se estivesse contendo o choro, sugerindo o sangramento de uma ferida de guerra. Mais ao fundo está outra pessoa sentada no asfalto, acabrunhada e encolhida. Em ambos os lados passam transeuntes contra a luz, escuros como a morte, decapitados como figuras mal assombradas. Um cenário de pesadelo à luz do dia. Orgulhosamente dramáticos, os argentinos fizeram uma tragédia grega de sua derrota para a Alemanha. Inclue-se aí a fantástica intuição do fotográfo que percebeu a intensidade da cena e capturou-a para nós, imortalizando, assim, a dor deste momento.
Reparem como a rua transfigura-se em campo de guerra após uma batalha selvagem. Há pedaços de argentinos para todos os lados. Suas almas foram cruelmente despedaçadas, rasgadas pelo talento de um artilheiro genial ou, melhor dizendo, de um general talentosíssimo - Miroslav Klose - que, de alemão, só possui a camisa. Polaco de nascimento, Klose se aproxima a passos largos do recorde de Ronaldo que, se superado, fará dele o maior goleador das Copas do Mundo. Sob a firmeza de sua atuação impecável, a Argentina foi atropelada impiedosamente, para imensa satisfação de muitos brasileiros. Aqui na minha cidade, por exemplo, estouraram rojões a cada gol alemão. Da minha parte, pode parecer atentado de lesa-pátria, mas preferia uma nação sul-americana nas semi-finais no lugar de uma européia. Resta-me torcer pelo Uruguai, que se classificou ontem jogando contra Gana, ou ainda pelo Paraguai, que joga neste momento contra a Espanha.
De fato, considero notável o fenômeno da Copa do Mundo. Apesar disso, esperava que esta edição fosse menos agitada que as anteriores. Isto não apenas não aconteceu como ainda testemunhamos uma participação popular ainda maior em nações que tradicionalmente não se importam com esta competição, como os Estados Unidos, onde os índices de audiência dos jogos bateram todos os recordes. Seria difícil de acreditar que no mundo descentralizado do Twitter ainda haveria espaço para manifestações exageradas como as dos argentinos. Parece que se deu o oposto. As redes sociais serviram para ecoar com intensidade ainda maior os impulsos despertados pela atuação das diversas seleções. Testemunha-se, de fato, um momento de comunhão global, no qual a humanidade parece especialmente unida em torno da atuação daqueles jovens (e milionários) desportistas. Não deixa de surpreender que seja o futebol a prática sobre a qual se projetem todas estas expectativas.
Imaginem, então, a alegria do time campeão. Aquele que será, após o Brasil, o segundo a levantar a taça de campeão fora de seu continente, pois não há mais nenhuma nação africana participando do campeonato atual. O mundo acompanhará com inveja sem igual o momento de triunfo máximo: a elevação do troféu pelo capitão do time vencedor. Somente os torcedores desta equipe venturosa estarão radiantes, tomados pelo espírito oposto ao que arrasou Buenos Aires hoje. Serão deles os espólios da guerra, as heranças das nações. Pois cabe ao vencedor escolher o que lhe pertence após a destruição do adversário. A Copa do Mundo é, de certa forma, uma rifa da alma, um contrato em que se apostam a honra e o destino nacionais, ou seja, uma brincadeira muito séria, que somente loucos assinam, indiscutivelmente. O que estamos testemunhando é isto: a loucura alçada a estado de espírito planetário enquanto esta competição não acabar, e feridos pelas ruas, aos milhares.
Postado por Henrique Rossi às 14:40
O desespero é mau conselheiro
Marcadores: Política, Processo social do saber 4 comentários
Tudo ia bem no jogo da seleção contra a Holanda. Pouco depois do gol em impedimento, Robinho abriu o placar num lance fantástico. Os holandeses, receosos da eliminação, começaram a fazer diversas faltas desleais que o incompetente juiz japonês teimava em não premiar com os cartões amarelos tão necessários. Apesar disso, tudo ia bem. Mas a equipe brasileira, a começar pelo seu técnico, desesperou-se. Dunga esmurrou o vidro de sua cabine enquanto resmungava os palavrões de sempre. Robinho começou a fazer faltas descabidas. O jogo cresceu enormemente em tensão. A seleção parecia estar perdendo a partida quando, na verdade, estava-a vencendo. No momento em que a frieza fazia-se necessária, falou mais alto a paixão. Seja pelo medo, seja pela insegurança, começou a prevalecer o desespero.
Após o intervalo, o Brasil sofreu o gol de empate. Desestruturado diante da realidade, abatido pela frustração de ver a partida ganha escorrendo pelas mãos, os jogadores brasileiros começaram a cometer ainda mais faltas. Esqueceu-se o futebol, cuja regra não poderia ser mais clara: "quem não faz, leva". E o Brasil sofreu a virada. A partida que estava ganha converteu-se em derrota amaríssima. Felipe Melo, com a gentileza de sempre, obteve a merecida expulsão. A seleção não jogou mais um só instante como no primeiro tempo. As poucas ameaças de gol não representaram um perigo real para o time holandês. A alegria de ver o caminho ao Hexa facilitado deu lugar ao desequilíbrio e à irregularidade. O Brasil acabou eliminado. Sua derrota, porém, começara no desespero de resolver o que já estava resolvido.
O time de Dunga demonstrou não conhecer que a pior ameaça é aquela que não existe, é aquela que acontece apenas na mente de quem sente muito medo. A derrota começa justamente aí, na atitude derrotista e desesperada. Enquanto vitoriosos, os jogadores brasileiros começaram a sofrer enormemente em função de um receio que não se confirmava. Então, quando surgiram reais motivos para se preocupar, o time não soube se posicionar positivamente diante do adversário. A derrota na vitória custou a vitória da derrota. Quem sofre por antecipação entrega o jogo, pois permitir-se um medo irreal demais é o mesmo que invocá-lo, ou trabalhar pela sua concretização. Ou seja, o Brasil chamou a derrota, enamorou-se dela quando deveria combatê-la com todas as suas forças.
Agora é esperar por 2014. Há muito que se fazer até lá. A começar pela eleição do próximo Presidente da República que, esperamos, seja alguém à altura do cargo. A nação pode se divertir com o futebol, pode torcer pela sua seleção. Mas que não perca o foco de sua real razão de ser, de seus objetivos mais nobres, dentre os quais pode-se destacar a superação de séculos de cruel exploração econômica sobre os menos favorecidos e a melhoria nos serviços oferecidos pelo Estado, seja pela instalação de procedimentos mais eficazes, através do combate à burocracia e ao fisiologismo, seja pela decidida luta contra a corrupção. A pior derrota brasileira seria fazer pouco caso diante dos diversos favorecimentos ilícitos tão habituais no cenário político nacional.
Isso tudo nós podemos, e devemos, fazer. Nada disso depende de algum inimigo externo, seja holandês ou argentino. Depende tão somente de nós mesmos. Aproveitemos a derrota da seleção e foquemos em coisas que realmente importam. Devemos avançar com coragem, sem ceder espaço ao derrotismo dos que acham que não há jeito para o país, nem ao desespero alarmista dos que creem não ter havido melhoria alguma, pois nenhuma destas coisas ocorreu. Nem a nação vai tão mal que não haja conserto, nem o seu mal é tão grande que não possa ser resolvido. Façamos o possível a cada instante, com carinho e determinação. Isso é concreto e real. Podemos estar unidos nos objetivos verdadeiramente importantes. Só depende de nós, da nossa coragem e da nossa força de vontade.
Postado por Henrique Rossi às 14:04
Uma importante questão em Freud e Foucault
Marcadores: Ciência, Individualidade, Liberdades individuais, Medicina/saúde mental, Processo social do saber 4 comentários
Este será um breve texto especulativo. Pretendo apenas ressaltar um questionamento de importância central para o reto entendimento do que é o homem segundo dois pensadores extremamente influentes da contemporaneidade: Freud e Foucault. Não entrarei agora em particularidades e detalhes. Apenas traçarei linhas gerais que me permitirão um aprofundamento posterior. O assunto que irei abordar é também de enorme importância para o pensamento de ambos. Trata-se da efetiva noção de liberdade individual.
Para Freud, estamos indefinidamente presos numa intricada trama de neuroses (somatizações de conflitos emocionais) decorrentes de nossos relacionamentos familiares mais próximos. Segundo o pai da psicanálise, estas neuroses aprofundam-se tanto que se tornam parte constitutiva do nosso ser, a tal ponto que não se pode mais separá-la de um eu pretensamente livre. Freud acreditava que não se podia dissociar a neurose do eu sem destruí-lo por completo. Atentem para o profundo pessimismo desta idéia, tão revelador de uma profunda descrença no homem.
Já Foucault era mais instruído em filosofia. Esse conhecimento poupou-o de algumas asneiras freudianas. Foucault sabia que o homem se faz a si mesmo como quiser, ou seja, não é determinado por nenhuma experiência anterior, pode-se construir como lhe parecer mais adequado. Através de profundas análises históricas, o francês demonstrou a evolução das idéias, o que revela o seu caráter de criação. Portanto, Foucault não caia na ingenuidade de achar que o homem é natural, ou seja, sabia que o homem é uma construção de si.
Pelo que disse até agora, parece que Freud é um determinista e Foucault é um radical mentalista. Isso não estaria propriamente correto, pois, ainda que estas breves frases revelem em síntese o que Foucault pensava, Freud está mal representado nelas, pois ele acreditava que o homem se pode transformar a si mesmo. Freud apenas não compartilhava da idéia de que há liberdade total no processo, por isso acreditava que o homem não consegue se libertar totalmente das neuroses. Uma pena, porque os filósofos clássicos já tinham demonstrado a liberdade total há milênios.
Por sua vez, Foucault também não está plenamente correto, pois a infância marca impressões profundas na mente humana. Pode-se demonstrá-lo através dos padrões de comportamento adquiridos, comprovados pelas neurociências. Caso uma pessoa seja educada de maneira muito disfuncional em sua infância, a reparação dos danos levará tempo e exigirá muita paciência e determinação. Porém, ao contrário do que Freud ensina, ainda que nunca nos tornemos perfeitos, é possível uma superação efetiva das neuroses, com evidente melhora na qualidade de vida.
Isso só é possível porque as interconexões entre nossos neurônios podem ser remodeladas conforme um treinamento que podemos nos impor. Aí se vê como a liberdade é total, pois podemos modificar absolutamente tudo em nossa personalidade. Não importa que tenhamos sido, por exemplo, educados dentro do protestantismo mais radical. Podemos nos fazer o mais corrosivo tipo de ateu, como Marx ou Nietzsche, ambos filhos de pastores. Tampouco importa a lascívia que tenhamos vivido. Podemos nos converter como Santo Agostinho ou São Francisco.
Portanto, percebam que estou bem mais próximo de Foucault do que de Freud, pois, como afirmado, não apenas a filosofia clássica afirma a completa construção das crenças humanas, mas também a medicina têm demonstrado que o homem pode se fazer como quiser. O interessante é que, mais uma vez, a melhor solução do problema parece estar no meio-termo. Só não se pode corroborar com o erro grosseiro de que o homem é determinado pelas suas experiências anteriores, pois nem Freud concordava com isso. Essa idéia é defendida apenas por pessoas ignorantes em filosofia e psicologia.
Tenho a sensação de que este texto simples e despretensioso me ajudará a organizar certos raciocínios. Pretendo desenvolver maiores detalhes aos poucos, entrando nas várias particularidades. Provavelmente a primeira delas será uma tentativa de compreensão do mecanismo com que elegemos nossas prioridades, pois o modo como escolhemos é, de fato, a melhor maneira para analisar o que somos, visto que muitos agem de maneira vergonhosamente oposta ao que dizem. O desvendamento desta imoralidade absurda (irei prová-la) é importantíssimo para se compreender o homem.
Postado por Henrique Rossi às 19:31
Pra vencer, você tem que se entregar
Marcadores: Individualidade 2 comentáriosA gente não pode querer as coisas pela metade.
Temos de lutar por elas desde o primeiro instante.
Lembra da seleção italiana de 2010?
Aquela que foi eliminada na primeira fase da Copa?
Era a atual campeã.
Mas não entrou em campo na África com vontade de vencer.
Empatou os dois primeiros jogos.
E começou a lutar aos quarenta minutos do terceiro,
Quando já perdia por dois a um.
Assim não dá, como não deu.
Seus jogadores quiseram tarde demais.
Ao contrário deles, os vencedores querem a vitória no primeiro instante.
Acreditam contra toda suposição.
Não lutar desde o início da disputa é começar derrotado,
É entregar para o inimigo o bem mais importante da batalha:
A determinação,
Que é quem vai definir o campeão.
Quem quer as coisas pela metade, recebe pela metade.
Quem deixa tudo pra depois é superado,
Porque vai existir alguém que queira mais do que ele,
Que tenha mais raça que ele,
Alguém que, mesmo mais fraco e incapaz,
Por nunca deixar de acreditar em si vence,
Pode até perder algumas batalhas antes, mas vence a guerra.
Se você quer vencer, não pode entrar no jogo aos quarenta do segundo tempo.
Senão a vitória premia o adversário.
O mundo é cruel com quem faz as coisas pela metade,
Porque tem de ser justo com quem se entrega por inteiro,
Como foi justo com os eslovacos.
Por isso, nunca se deixe vencer pelo seu maior inimigo:
A sua indiferença.
Porque o único responsável pela sua derrota é você mesmo.
Então, decida-se logo em entregar-se todo na disputa.
Não tenha medo de cara feia, nem de xingamento.
Você vai ter que ser mais forte que isso.
Vai tomar falta e vai cair de cara no chão,
Mas vai levantar.
Vai dar passes errados e se lamentar,
Mas não vai perder a coragem de tentar mais uma vez.
Porque só assim você não vai desperdiçar o passe preciso do companheiro,
E mandar a bola pro fundo da rede, pra comemorar, e chorar como os campeões,
Porque agora você é tão vitorioso quanto eles.
Porque agora você é um deles.
Porque o impossível é uma mentira que só os derrotados aceitam.
Porque você sabe que o infinito começa no coração de quem acredita,
E porque acredita, faz.
Postado por Henrique Rossi às 14:02
Um amanhã mais bonito
Marcadores: Individualidade, Processo social do saber 2 comentários
Todo mundo acha o que faz muito importante, não é?
Parece que não existe nada sem pretensão.
A humanidade esqueceu como é viver sem relógio.
Será que não existe mais ninguém que se considere comum?
É tanto excesso hoje em dia. A gente acaba acreditando!
Mas não precisa ser assim!
Nem tudo é urgente! Nem tudo é "pra ontem"!
A gente tem que escolher melhor as prioridades!
Pra que tanta cara fechada? Tanta rabugice?
A vida precisa de palhaçada!
A gente não precisa virar criança. A gente tem de ser leve!
E esquecer um pouco a ambição de ser a última bolacha do pacotinho.
A gente é importante sim. Mas não porque a gente saiba de tudo.
Gestos de carinho valem mais do que palavras inteligentes.
O mundo precisa resgatar o que é bom.
Já tem gente demais achando que vale tudo por dinheiro.
É muita correria pra cá e pra lá.
O mundo precisa de gente que saiba o valor de um abraço, de um sorriso,
De um aperto de mão sincero.
Se você tem coração, precisa de tempo pra ser você mesmo,
Pra ouvir um CD legal, pra curtir um livro interessante,
Pra passear pelo parque, pra caminhar no calçadão.
O corre-corre faz a gente esquecer.
Mas a gente tem que lembrar!
A nossa vida não pode ficar para o amanhã que a gente nunca viu.
Nós só temos um dia para sermos nós mesmos.
E esse dia é hoje,
porque se você não for feliz hoje, você não vai ser feliz nunca.
Nem precisa muito.
Pra ser feliz a gente precisa apenas respeitar e ser respeitado,
Precisa valorizar o que é bom!
Caramba!! Tem gente que diz não saber o que é bom!
Como é que pode ser feliz alguém assim?
Alguém que não ache bom um passeio no entardecer, um capuccino bem cremoso,
Ou uma pizza com os amigos!
Pessoal! O mundo não pode esquecer o que é bom!
Será que a gente aguentaria viver num mundo sem bondade?
Um mundo sem Mozart, sem Fernando Pessoa, sem Cartola?
Sem encanto, sem magia e sem milk-shake de chocolate gelado?
Não dá, né?!
A gente é importante sim, e muito!
Não porque a gente conhece os mistérios da filosofia ou da física,
Mas porque a gente não deixa esquecer o que é bom!
Porque a gente sabe o que importa.
E porque a gente não se importa de explicar mil-vezes a mesma coisa.
Para o mundo ficar mais feliz você precisa tomar uma atitude hoje.
Faça feliz quem está do seu lado.
Sorrie mais. Perdoe mais. Ame mais.
Seja mais feliz, pois só assim o mundo vai ser mais feliz.
A gente não pode esquecer que o mundo começa dentro da gente.
É lá que se constrói um amanhã mais bonito.
Você não precisa de muita coisa,
Mas você precisa de tudo o que importa.
Postado por Henrique Rossi às 19:46
O que faz você feliz também faz alguém feliz?
Marcadores: Individualidade, Publicidade 9 comentários
Poema de supermercado. Criatividade de publicitário. Opinião da maioria, comunhão. Gosto pelas coisas pequenas.
Sabor da manhã, fruta macia, cheiro de terra molhada. Um sorriso inocente, um abraço contente.
Despreocupado ao vento, a bicicleta, a praia, o calçadão.
Milho cozido, bolo de fubá, mandioquinha frita, água de coco.
O telefone tocando, os amigos, o churrasco, a Seleção. Gol do Brasil, gol de mão, estouro de rojão.
Calor de Ubatuba, friozinho de Campos, serração.
O chato que não importa mais. A sinceridade, a verdade, a libertação.
O pijama gostoso, o edredon surrado, um livro na mão.
A Mantiqueira, o Pão de Açúcar, o Corcovado. O próprio limite ultrapassado.
O respeito, a gentileza, a honestidade, o compromisso, a honradez, a mansidão.
A humanidade respeitada, a criança valorizada, a opinião do ancião.
O otimista, o corajoso, o arrependido, o esforçado.
A palavra dada, a TV desligada, a cabeça pacificada, a praça lotada.
Pipoca fresca, doce ou salgada.
A escola de samba, a orquestra ensaiada, a fanfarra amadora, a criança danada.
Um beijo da mulher amada, o tanque cheio, a estrada.
O talento, a inteligência, o mérito. A aposentadoria do mal-humorado.
O fim do supérfluo, do desnecessário. O alívio. A malandragem inofensiva, a risada levada.
A maldade censurada. A bondade encorajada.
A flor que encanta, o sol que levanta, a louça lavada.
A gratidão, a gratuidade, a leveza, a presteza, a oração.
Poema barato, palavra cruzada, a perna esticada.
Me diz se um publicitário não pode fazer alguém feliz.
Postado por Henrique Rossi às 03:55
Escravos da liberdade e da verdade
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Nos meus últimos dois textos extensos, dei continuidade à discussão sobre a suposta animalidade do ser humano. Os que tiveram a chance de lê-los viram que não faltam excelentes argumentos para se demonstrar com firmeza a hipótese de que o homem não é um animal. Ainda que seja muito semelhante a eles do ponto de vista material, o homem possui faculdades que o diferencia sobremaneira dos mesmos. Os que leram estes textos viram a que requintes argumentativos se pode chegar. De fato, esta é uma questão onde se pode aprofundar muito sem se incorrer em equívocos. Porém, esse aprofundamento leva à diversas complicações de comunicação. Especialmente os dois últimos textos mais aprofundados sobre este tema acabaram muito extensos e, infelizmente, enquanto eu os escrevia, não foi possível tornar a linguagem mais acessível. Prejudicou-se, portanto, o pleno conhecimento de uma das idéias que me são mais caras aparecida pela primeira vez, desde que mantenho o blog, no último deles, imediatamente interior a este, resumida na frase: "como convencer as pessoas a modificar o modo com o qual já estão acostumadas a agir se já estão confortavelmente adaptadas aos equívocos consagrados pelo hábito?"
Esta pergunta explicita, segundo a opinião da maioria dos sábios, a questão principal da vida sobre este mundo. Para demonstrá-lo, evoquei os questinamentos feitos pelos principais filósofos e pelas religiões majoritárias que concordam maravilhosamente neste tema: é muito difícil se convencer o homem a fazer o que é certo quando ele já esta acostumado a fazer o que é errado. O hábito reiterado rouba a inteligência do homem tornando-o incapaz de julgar corretamente as questões importantes. Por isso são tão recorrentes as críticas, pelos filósofos e religiosos, à indiferença do ser humano acomodado em seus princípios e egoísta em seus objetivos. Esta questão é tão imediata que qualquer iniciado em filosofia ou religião consegue identificar seu caráter universal. Imagino que não haja filósofo ou religioso que não se ressinta, ao menos um pouco, da energia que o povo brasileiro consegue mobilizar em favor do futebol mas que ele não dedica a mais nada. Já escrevi no blog sobre este assunto. Não vejo problema algum em se torcer de maneira apaixonada. Mas, como a maioria dos sábios, sou um tanto crítico à incapacidade brasileira de se mobilizar por qualquer outro motivo.
Concordo, portanto, com aqueles a dizer que se o brasileiro se dedicasse a outras questões com a mesma paixão do futebol o país seria outro. No que chegamos a questão que remete ao problema levantado nos outros textos: e por que o brasileiro não se dedica a outros assuntos com a mesma paixão do futebol? Ora, porque não quer! Toda essa mobilização extraordinária demonstra a capacidade de união sobre um mesmo assunto. Por motivo recente, sabemos que mesmo uma pequena parcela desta mobilização é capaz de induzir à promulgação de leis extremamente importantes à nação. Em outros países, paixões de intensidade muito menor levaram à reformas fantásticas. No que concluimos que o brasileiro só não se dedica com afinco à melhoria do seu país porque este é um tema que não lhe interessa. O brasileiro é indiferente aos rumos políticos do seu país. De modo desavergonhadamente preguiçoso, o brasileiro declara que nada jamais irá mudar e, portanto, não é necessário esquentar a cabeça. Ou seja, o brasileiro é não somente estúpido como gosta da própria estupidez. De maneira reduzida, este é o problema dos filósofos e dos religiosos: como convencer as pessoas a abandonar a estupidez que abraçam com tanto carinho?
Proponho uma resposta a esta delicada questão nos textos anteriores, mas neste desejo comparar esta atitude de orgulhosa estupidez humana ao modo como os animais se comportam. De fato, você conhece algum animal que se orgulhe da própria estupidez? Existe animal que persista fazendo alguma coisa que lhe cause prejuízo? Existe ratinho de laboratório que prefira o botão que dá choque àquele que dá comida? Existe cachorro que prefira um dono que lhe espanque diariamente àquele que lhe cobre de carinho? Ora, é claro que não. Animais respondem de maneira imediata aos estímulos que recebem. Serão seus amigos se você os tratar bem, e o evitarão se você os tratar mal. Isso na hipótese deles serem mais fracos que você, porque se forem mais fortes irão atacar. Não há dúvida alguma sobre isso. Voltemos agora à ignorância e estupidez que o brasileiro cultiva com tanto carinho. É certo que poderiam agir de maneira diferente, afinal são pessoas com as quais se pode conversar e, muitas vezes, convencer. O problema está justamente no fato de que, ainda que os argumentos a favor de uma idéia contrária a deles sejam muitos superiores aos próprios, eles podem continuar praticando a idéia pior.
Ao contrário do animal, o ser humano pode não se deixar vencer por um estímulo positivo. O homem é capaz de agir com alegria diante de adversidades terríveis e com tristeza diante de comemorações espetaculares. Porque ele não é determinado. É, antes, ele que se auto-determina! É possível, portanto, como já tantas vezes vimos em nossa vida, que alguém continue fazendo as coisas da maneira errada mesmo depois de aprender a fazer da maneira certa. Uma das categorias que mais sofre neste aspecto é a dos profissionais de saúde. A maior dificuldade da educação física não é convencer as pessoas a fazer exercício físico, mas convencê-las a não abandoná-lo! Todos sabem como médicos sofrem com pacientes arrogantes e persistentes em sua desobediência quanto aos horários de tomar os medicamentos. Não importa dizer que o tratamento descontinuado é perigoso, pois muitas pessoas se consideram maiores especialistas no assunto que os próprios médicos. Por conta disso quanto não se favorece o desenvolvimento de bactérias cada vez mais resistentes aos antibióticos! Temos ainda o nutricionista incapaz de convencer o cliente a comer menos, o psicólogo cujo paciente insiste no relacionamento amoroso doentio, etc.
Os exemplos são infinitos. Ao contrário dos animais, o ser humano é capaz de persistir no erro por vontade própria! A pessoa é livre para dar ouvido a outros e aprender novas maneiras de lidar com seus problemas, mas geralmente prefere continuar fazendo as coisas da maneira equivocada que só lhe rende dor e sofrimento. Ora, ela pode fazê-lo justamente porque não é animal, pois se o fosse não teria liberdade nenhuma. O bicho simplesmente faz a primeira coisa que lhe ocorre diante de algum estímulo. Não existe cachorro faminto que recuse sorvete, mas há pessoas que fazem jejum por motivos políticos, um ato evidentemente contrário à natureza biológica do corpo. Os animais nunca fazem nada contrário à natureza físico-química que determina todas as suas reações. O homem, por sua vez, não é somente capaz de contrariar sua natureza biológica - é exatamente o fato de que o homem nunca é determinado por fenômeno biológico algum que o caracteriza. Vejam que se pode dizer que os animais são naturais; respondem aos estímulos conforme estão programados pela sua natureza biológica. Já a própria definição do que seja o homem é dada pela contínua recusa dele em obedecer a natureza físico-química.
Já demonstrei isso antes! Todos nós controlamos o esfíncter para não defecarmos em qualquer lugar. Animal algum faz isso. Mal sente a necessidade de defecar, o cãozinho adestrado deve correr para o jornal, porque ele não tem controle do próprio esfíncter. A afirmação de que o homem é um animal é, por estes e por vários outros excelentes argumentos, uma estupidez grosseira digna de pessoas radicalmente ignorantes em filosofia e psicologia. Reparem como é mentirosa a afirmação de que a sexualidade é algo que deve ser vivido de maneira animalesca, pois não há nada em que o homem seja animalesco. Mesmo a pessoa mais promíscua é capaz de utilizar preservativo, e não há animal algum que se possa convencer da necessidade de algo tão contrário à natureza. A dura verdade é que estamos verdadeiramente presentes em tudo o que fazemos. Quando decidimos ser promíscuos estamos tomando uma decisão consciente. Não é verdade que estejamos cedendo ao apelo da sexualidade animal inevitável. Estamos inevitavelmente fadados à liberdade total. Razão pela qual podemos dizer que, ao contrário dos animais, que são naturais por definição, o ser humano é artificial, constrói-se a si mesmo como lhe parecer melhor.
Ocorrem, porém, conclusões gravíssimas a partir desta afirmação tão simples quanto evidente e, infelizmente, como demonstrarei a seguir, estamos obrigados a elas. Se o homem é livre para fazer o que quer, se é livre para persistir em um erro evidente assim como é livre para abandoná-lo e começar a agir de uma maneira correta (por exemplo, tomando os antibióticos na hora certa), pode-se falar em erro deliberado, aquele que se comete de livre e espontânea consciência contra o que é certo. Para a maioria das pessoas essa é uma grande surpresa: se o homem é livre e indeterminado, se é diferente dos animais, então ele é capaz de pecar. Percebam que são necessários apenas dois princípios para chegarmos a inequívoca percepção de pecado: a liberdade para agir mal e a existência concreta do bem e do mal ou, em outras palavras, do certo e do errado. Dadas apenas estas duas condições pode-se falar em pecado sem se incorrer em equívoco algum. Sei que se trata de uma afirmação gravíssima. Ainda mais porque o mundo de hoje prefere apagar a noção de pecado das consciências, mas se há liberdade e certo e errado, há pecado. É uma duríssima conclusão inevitável da qual não se escapa.
Todavia, se qualquer uma dessas condições estiver equivocada não existe pecado. Se for impossível ao homem conhecer o certo e o errado não há um paramêtro com o qual estabelecer uma comparação. Por outro lado, se o homem não for verdadeiramente livre em suas escolhas ele não seria responsável pelas próprias atitudes. Daí a gravidade da constatação de que as noções de verdade e liberdade naturalmente indicam a existência do pecado, mesmo que não seja sequer necessário falar de Deus. O pecado é, pois, a responsabilidade com que se transgride algum princípio positivo ao funcionamento do próprio eu e da sociedade. Ele é um ato contrário ao bem de si e ao bem dos outros. Por ser irremediavelmente livre só o homem é capaz de cometê-lo. Somente sobre seres conscientes do que estão fazendo se podem aferir responsabilidades. Caso não houvesse pecado não seria necessário nenhum sistema legal. Como já disse algumas vezes, se o homem fosse um animal, se certo e errado não existissem, deveria se descriminalizar o estupro, pois ele parece inerente à nossa biologia. Donde todas as críticas à noção de pecado surjem do raciocínio falso de que não se pode conhecer o bem e o mal.
Somente através da completa negação dos princípios de certo e errado se pode concluir que nada é objetivamente bom ou mau. Uma inverdade grosseira, paradoxal e contraditória em si mesma pois, se nada pode estar certo, como pode a frase de que nada é errado estar certa? Percebe-se uma atitude verdadeiramente infantil da parte dos negadores da verdade - uma sublimação neurótica profunda como resultado da negação de coisas fundamentais, como sempre ocorre com aqueles que procuram enganar-se a si próprios. Reconheço a dureza das coisas que proponho. De fato, não é fácil admitir honestamente a responsabilidade sobre os próprios atos maus, mas se esta é a verdade inequívoca, caso procuremos negá-la os maiores prejudicados seremos nós mesmos. Não parece mais fácil e eficaz procurar o progresso individual e a consequente remoção das neuroses? Em verdade, o moderno pode argumentar que, assim, tornamo-nos escravos da noção de verdade. E ele está certo! Se formos viver de acordo com a verdade, ela própria passa a importar mais que nossa própria opinião. Egocêntrico como um bom burguês iluminista, o moderno não pode aceitar isso. Ele prefere seguir a si mesmo, mas será que ele age bem em fazê-lo?
Não será a nossa própria opinião um tanto limitada sob qualquer perspectiva? Não é verdade que se seguirmos cuidadosamente as recomendações médicas nós nos curaremos de maneira mais rápida e eficaz? Não é verdade que obedecendo às instruções de trânsito evitamos diversos acidentes de carro que tantas vidas ceifariam? Não é verdade que aprendemos um oceano de coisas novas abrindo nossos ouvidos à opinião dos sábios que nos antecederam e nos legaram verdadeiras obras-primas? Não é verdade que ao contribuirmos com o avanço pessoal e profissional do nosso próximo a sociedade como um todo se beneficia? Não é verdade que fantásticas pesquisas tecnológicas têm criado uma infinidade de meios para a melhoria da vida do homem sobre a terra? De fato, eu poderia ficar aqui infinitamente celebrando o gênio humano e suas capacidades inesgotáveis. Nunca a humanidade pôde tanto. É verdade que ainda falta muito por fazer, mas não é correta a proposição de que tudo vai mal. Somente os profetas do copo "meio vazio" se desesperam diante do que está incompleto. Descabelam-se em rede nacional de televisão com os chavões mais batidos e superficiais como se o mundo fosse uma perfeita porcaria.
Pessoalmente, prefiro ser um profeta do copo "meio cheio". Não se trata de ser apenas otimista. Trata-se de ser positivo e grato por tudo o que já se conseguiu sem ignorar que ainda há muito por fazer. Além de ser muito mais honesto, sensato e equilibrado, creio que esta posição é correta por muitos outros motivos. Dizer que tudo vai mal é o primeiro passo para se acreditar que nada vai bem. Negar os avanços evidentes que nos cercam constitui uma atitude derrotista e afetada que terá como principal fruto a percepção de que nada vai bem, daí a posição escancaradamente ranzinza dos "profetas do apocalipse". Se estes alarmistas profissionais forem estudados em filosofia moderna o desastre completo está armado. Nada em absoluto os agrada. São especialmente críticos com a noção de liberdade advogada pelos profetas do copo "meio cheio". Portanto, discordariam de mim completamente. Eles só admitem a paradoxal liberdade de não ter liberdade. Para eles, a noção apolínea de liberdade é apenas uma sórdida máscara a esconder a reprodução da superestrutura que, segundo eles, só causa exclusão e acumulação de capital. Negam, assim, a noção psicanalítica de responsabilidade inequívoca sobre os próprios atos.
De fato, para o bem do sistema de idéias que defendem, os modernos fazem bem em negar tanto a liberdade efetiva quanto a concretude em se conhecer o certo e errado pois, se o fizessem, teriam de admitir a noção de responsabilidade individual, ou seja, de pecado. Como advogam um mundo vivido ao sabor de impulsos, pois a modernidade aniquila a concepção filosófica de razão, não podem aceitar nem a liberdade nem a verdade. Sabem que se o fizessem teriam de viver conforme parâmetros outros que não o próprio umbigo. Por vias tortuosas, acabam invejando as certezas dos metafísicos e dos religiosos assumindo, assim, uma atitude de inferioridade que só os tornam mais ranzinzas e amargos. Como não aceitam nenhum senhor perdem qualquer parâmetro com que se identificar. Vivem sem rumo e, ainda que admitam a dor que isso lhes causa, preferem-no à mínima humildade de um raciocício honesto e lógico. Evidentemente, esse tremendo recalque emocional gera uma atitude de radical desconfiança em relação àqueles de quem discordam. Numa desesperada tentativa de desmerecê-los, ainda que admirem o conforto mental que as certezas dos outros causam, afirmam-nas erradas e ultrapassadas por serem contrárias à natureza.
Para o moderno, o argumento principal com que se nega a liberdade e a verdade é a natureza biológica do corpo humano. Pois, sendo o homem animal, a verdade seria apenas um instrumento de poder com que se domina os demais e a liberdade seria apenas um conto da carochinha com que se convence os outros de que tudo está bem. Por isso a demonstração de que o homem é necessariamente diverso dos animais, e livre, é tão importante. Através dela afirmam-se faculdades que inegavelmente diferenciam o homem das demais criaturas. Havendo inteligência efetiva e princípios verdadeiramente corretos há atos de natureza boa e atos de natureza má. De fato, sendo esta a nossa condição, não há porque negar nossa efetiva escravidão da liberdade e da verdade. Não se pode fugir disso sem contradições incorrigíveis e irracionais. Pode-se apenas negar estes princípios através de mentiras fáceis de demonstrar mas jamais houve homem que estivesse verdadeiramente livre deles. A consciência nos assalta queiramos ou não, pois pensamos. A modernidade pós-kantiana é um desastre burguês infantil com o qual se pretendeu dizer que de algo horrível (a revolução francesa) podia sair algo bom (a transformação positiva da sociedade).
Todavia, isso não aconteceu em momento histórico algum. A revolução francesa foi um horrendo banho de sangue que em nada contribui para o avanço da sociedade européia. O congresso de Viena restabeleceu o poder antigo após os delírios de Napoleão e, de fato, houve como conclusão inevitável da revolução francesa uma postergação ainda maior da dinamização do estado e da igualdade entre os cidadãos. O mesmo vale para todas as outras revoluções de caráter semelhante, em especial a revolução russa. Sendo todos os homens livres, o progresso verdadeiro está em evoluções com as quais a maior parte da sociedade colabore ativamente. Ou seja, está em um processo inclusivo, e não exclusivo. A imposição unilateral de uma ideologia gera uma inevitável resposta da parte discordante. O ideal é que elas possam discutir entre si e irem, aos poucos, achando pontos comuns. É como têm acontecido nas democracias ocidentais para grande usufruto de suas populações. Vê-se sem grande dificuldade que são os sistemas tirânicos que estão em maus-lençois. E por que é assim? Afinal, não se era de esperar que após a tomada de consciência de parte do proletariado o estado burguês seria destruído para progresso geral de todos?
Ora, é assim porque a maioria do proletariado preferiu continuar trabalhando a pegar em armas. Preferiram o consenso, preferiram a negociação. Será que algum de nós que tenha visitado a Alemanha, ou a Suécia, ou a Dinamarca, ou o Canadá, terá a impressão de que foram mal-sucedidos? Não se esqueçam que meu copo está "meio cheio". O ideal é que as pessoas possam se manifestar, participar ativamente da construção da sociedade como um todo. Ou seja, deve-se partir do princípio de que essas vozes se manifestam porque querem, devem ser livres para fazê-lo. Não são macacos revoltados. São trabalhadores altamente especializados que lutam por salários mais justos, e estão certos em fazê-lo. Talvez fosse melhor se exigissem mais? Talvez sim. Talvez tenham pedido pouco. Talvez possam mais. Eu sei que, por serem pessoas pensantes, são capazes de tudo. Só me recuso a acreditar que soluções extremadas são a melhor alternativa. Penso que o maior erro da contemporaneidade seja a privatização do estado como um todo, que parece servir apenas aos interesses do capital. Ora, não há nada de errado em se exigir que o estado trabalhe para ajudar a sociedade como um todo e não apenas uma parte dela!
Portanto, não sou contrário à evolução da sociedade. Mas acredito em processo, em evolução. Afinal, não é assim que funciona a natureza? Vejam o resultado de grandes revoluções biológicas. São um desastre! Tudo neste mundo parece caminhar melhor quando se caminha sem exageros. Por isso preocupo-me às vezes com a ascensão de vozes notoriamente intorelantes, especialmente na minha querida América Latina, como Hugo Chavez, Evo Morales e Rafael Gonzalez. Não acredito no mundo odioso que eles propõem. Tampouco acredito em um mundo onde a experiência humana seja resumida ao que se tem e não ao que se é. Prezo muito pela simples autenticidade. As pessoas sendo reconhecidas e bem tratadas pelo que são, sem extremismos de qualquer tipo, sem fanatismos, sem radicalismos. Coloco-me contra estas propostas. De fato, apesar do que costumo dizer, acredito ter muitas razões para comemorar. Nunca o mundo pareceu tão avesso aos excessos. O problema dos intelectuais da modernidade está na negação das evidentes características que nos constituem. Apesar deles, o mundo vai bem. Se o mundo vai muito bem com eles, iria muito melhor sem eles. A diferença é que, enquanto os pacifistas mandarem, eles poderão falar as bobagens de sempre.
Postado por Henrique Rossi às 14:56
A imposição unilateral dos radicais da estupidez e a leveza
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Como cineasta, sou incorrigivelmente apaixonado por belas imagens. Além disso, possuo uma visão tradicional de beleza. Portanto, sou dificilmente atraído por imagens "sujas". Tampouco admiro imagens pouco trabalhadas, de iluminação indecisa e de má qualidade. Por conta disto tudo, o que mais me salta à vista assistindo aos jogos da Copa do Mundo é a iluminação dos estádios, que é a verdadeira responsável pela nitidez da imagem e pela sensação de grande espetáculo transmitida. Se compararmos as imagens geradas nos estádios africanos, cujas iluminações foram "desenhadas" pelos engenheiros contratados pela FIFA, às imagens geradas nos estádios brasileiros, podemos nos envergonhar do que o futebol brasileiro tem produzido nesta matéria. As imagens geradas no campeonato brasileiro parecem captadas por crianças de 5 anos retardadas. Pra começar, não têm cores. As imagens são lavadas. Quando há luz demais nas partidas vespertinas, as câmeras utilizadas não suportam o constraste. De fato, a transmissão de futebol no Brasil como um todo é amadora.
Este problema decorre das milhares de invirtudes que imperam no futebol brasileiro, sobretudo a corrupção dos dirigentes, cuja incompetência cuidadosamente estudada é estimulada pelos amantes deste esporte como tradição valorosa e necessária. O resto dos torcedores, preocupados apenas com a transferência dos jogadores, é completamente alienada às coisas que se praticam nos bastidores. De fato, nada se faz pela melhoria do nosso futebol porque o momento atual de desordem parece favorecer as pessoas "certas". Para mim, o resultado mais desagradável desta situação infeliz é a iluminação dos estádios e a pífia cobertura dos jogos. Começo a contar os dias pela copa de 2014 na esperança de que ficaremos com imagens mais bonitas como legado. Mas será mesmo que isso irá ocorrer? Será que após o apito final da copa no Brasil estará disponibilizada ao torcedor brasileiro uma cobertura futebolística de melhor qualidade? Infelizmente, desconfio que não. Acredito que os dirigentes do nosso futebol rapidamente sucatearão o legado de 2014. E a primeira vítima será a iluminação dos estádios.
Explica-se: para a copa do mundo, a FIFA exige a concretização de certos padrões. Se os dirigentes e autoridades brasileiras não perderem a copa até 2014, podemos ficar tranquilos de que a FIFA garantirá uma imagem de alta qualidade. No jogo dos Estados Unidos contra a Inglaterra, que acaba de terminar em empate, viu-se que até mesmo o estádio menos favorecido do mundial estava esplendidademente iluminado. Se a copa ocorrer mesmo no Brasil, após o apito final num estádio com iluminação de primeiro mundo, haverá algum infeliz pregando a imediata substituição das lâmpadas. O argumento utilizado parecerá imbatível: economia de energia. Talvez esta afirmação esteja correta, mas tenho dois problemas com ela: 1 - como já enunciado, gosto de estádios bem iluminados; 2 - também há a chance de que a troca não seja necessária. Como o primeiro argumento é de natureza emotiva, tenho de reconhecer suas limitações junto aos torcedores brasileiros, geralmente orgulhosos de serem tão pouco exigentes em relação à qualidade dos estádios, aos quais nem mesmo o mais fedorento dos banheiros parece pertubar.
Portanto, vou ater-me à segundo questão: talvez a troca de lâmpadas não resulte em uma imediata economia de energia. E só há uma forma de estabelecer um juízo correto desta questão: o aferimento, por engenheiros ou físicos, do gasto efetivo das lâmpadas. O problema é que, no Brasil, tudo é feito na informalidade. As decisões são tomadas de modo apressado por pessoas despreparadas. É assim desde o tempo das captitanias hereditárias e, como bem o sabemos, hábitos antigos são difíceis de aniquilar. O Brasil sofre de uma completa desconsideração do mérito. Em nosso país vale mais o conchavo de compadres aliados em função do seu bem comum. Decidem-se as questões nas cúpulas, estejam elas certas ou não. Qualquer um que tenha trabalhado em uma grande empresa no Brasil sabe o quanto se faz sofrer os empregados com decisões estapafúrdias e desnecessárias. O futebol ainda é, em nosso país, reflexo perfeito dessa condição de completa desprofissionalização e amadorismo. Arrisco dizer que até mesmo as escolas de samba cariocas são mais organizadas que os clubes de futebol.
Portanto, desconfio que rapidamente se decidirá de maneira unilateral e autoritária pela troca da iluminação dos estádios após a copa de 2014, e se ignorará qualquer apelo contrário. Não se levará em conta qualquer comentário profissional. Como bons brasileiros que são os dirigente de futebol, esta será mais uma decisão apressada e desnecessária. Não se terá em consideração que este é um assunto a ser discutido com os melhores profissionais da área. Ou seja, na decisão do que se fazer com a iluminação dos estádios do pós-copa prevalecerá o modelo de decisões brasileiro. No que chego ao segundo e mais importante tema deste texto: como convencer as pessoas equivocadas a refletir sobre o que estão fazendo? Pois sabemos que, no geral, se alguém está convencido do seu erro nada o impedirá de continuá-lo caso ninguém reclame. Eis o problema central da vida neste mundo: como convencer as pessoas a modificar o modo com o qual já estão acostumadas a agir se já estão confortavelmente adaptadas aos equívocos consagrados pelo hábito?
As pessoas que já se dedicaram a esta complicada questão chegam a conclusões dramaticamente pessimistas. Sartre, por exemplo, vaticinou que "o inferno são os outros". Platão elaborou sua notável "Alegoria da Caverna", onde os habitantes da escuridão dilaceram seu colega que conseguiu ver a iluminada vida exterior e voltou para avisá-los. O sistema de crenças judaico-cristão propõe que o homem vive uma natureza decaída após o pecado original. O budismo propõe que se deve ensinar o próximo à superação dos seus karmas individuais. Em suma, a opinião geral indica que convencer as pessoas a agir bem é a coisa mais difícil de se alcançar neste mundo. Todos estes sábios ensinam que a maioria prefere viver de maneira acrítica, perpetudando, assim, os equívocos que aprenderam de seus pais. Decidir-se a aprender novas e melhores maneiras de viver parece ser coisa rara, de pessoas muito decididas e avançadas moralmente. A maioria prefere sempre o caminho mais fácil, e covarde.
Quem não prefere perpetuar as coisas erradas que aprendeu? Quem é humilde! O orgulhoso não suporta a idéia de que tudo aquilo a que se dedicou com afinco está errado. No geral, as pessoas preferem perpetuar o status quo que herdaram. Assim, agem de uma maneira totalmente indiferente à má sorte alheia. Contanto que elas próprias estejam em boa situação, isso lhes bastará. Em países atrasados com o Brasil, esta realidade parece duramente recrudescida. Aqui se parece batalhar de maneira ainda mais ferrenha contra os avanços em qualquer campo. A reprodução estúpida e inconsequente dos piores modelos de dominação política é constantemente reforçada pelo desejo absurdo de perpetuar-se no poder, como bem o demonstra as recentes carteiradas de Lula aos PTs mineiro e maranhense, onde absurdas alianças com o PMDB foram exigidas. As pessoas raramente dão a cara à tapa. No geral, agem de maneira a "tirar o seu da reta". Ninguém é capaz de, olhando para o seu próximo, sugerir uma melhor maneira de se fazer as coisas.
Diante deste quadro de radical indiferença e pouco caso, não se é de assustar a lentidão com que a sociedade brasileira progride. Desenvolveu-se no Brasil, aos poucos, a idéia de que o melhor a se fazer é evitar problemas com as autoridades. Surgem desta situação diversas sugestões infames: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo"; "Você sabe com quem está falando?" Ora, o que estas frases estão dizendo é que você ganhará problemas muito sérios se decidir enfrentar o status quo. Por isso, vê-se que uma das coisas mais em falta no mundo atual é gente cara-de-pau. Voltamos, assim, à questão central: qual o melhor modo de convencer os outros a mudar? Não basta apenas a cara-de-pau. Para que o mundo efetivamente melhore não basta brigar e impor, de modo unilateral, a sua própria opinião, ainda que correta. Essa atitude simplesmente exclue o "outro" da equação. Todas as vezes que se tentou isso os resultados foram terríveis banhos de sangue.
A melhora do mundo efetivamente acontecerá quando todos participarem dos avanços propostos. As pessoas devem ser, pois, convencidas a respeito do que é melhor. À pessoa cara-de-pau não bastará, portanto, a energia e a fibra moral para modificar o mundo. Ela precisará aprender o melhor modo de fazê-lo. E se ela ainda não aprendeu que a imposição unilateral e autoritária é uma péssima maneira de se melhorar o mundo, não cometemos nenhuma injustiça ao duvidar de tudo o que ela está propondo. Como acreditar em pessoas que não conseguem elaborar uma única frase desapaixonada? Em tudo o que dizem elas colocam hipérboles fanáticas, palavrões, afetações neuróticas de toda espécie. Ora, se a pessoa considera que a melhor forma de difundir sua ideologia é comunicar-se de maneira exagerada e passional, podemos concluir com muita razão que há diversos exageros e equívocos nas idéias propostas. Devemos notar que as pessoas que mais bem fizeram o mundo lutaram de maneira justa e equilibrada, muitas vezes entregando a própria vida pela causa que julgavam verdadeira.
Essa é a diferença fundamental entre as propostas que verdadeiramente edificam o mundo e aquelas que pretendem apenas a elevação de um novo tipo de autoritarismo: as pessoas que combatem os sistemas perversos não se importam em entregar a própria vida pela causa. Tem sido assim desde que o ser humano aprendeu a escrever. Como descrito no texto O fio dental e a vida dos abnegados, as histórias que verdadeiramente movem as pessoas são os relatos virtuosos de heróis que se esquecem de si para lutar pelo bem, muitas vezes à custa da própria vida. Por sua vez, para o vilão, aniquilar o herói é tudo o que importa, pois assim ele estabelecerá seu projeto egocêntrico e autoritário. Não há vilões entregando a vida, pois o único bem que possuem é ela própria. Já o herói não possui apenas a própria vida. Ele luta por ideais externos a ele, que continuarão depois que ele se for. Esta é a forma de se convencer os outros: dedicação contínua, desapaixonada, amorosa e, sobretudo, desinteressada. As pessoas comovem-se com o exemplo de quem faz o bem sem se preocupar consigo mesmo, pois se demonstra assim que a pessoa não está apenas procurando o próprio bem.
Portanto, a regra para se ser influente é agir de modo a demonstrar que não se luta por si mesmo. Temos o exemplo do Lula. Ele é extremamente habilidoso em convencer os outros de que a única coisa que lhe interessa é fazer o bem ao povo, e não a ele próprio. No meu entendimento, ele é um falso herói, pois considero que ele se move por interesses próprios e não por ser verdadeiramente benemérito. Mas o que importa aqui é a demonstração de que a idéia proposta funciona. A capacidade de alguém ser influente está diretamente ligada a sua capacidade de demonstrar gratuidade e desinteresse. Por isso somos tão mal-sucedidos quando tentamos convencer os outros de modo radical e intolerante. Ainda que estejamos cobertos de razão, o nosso interlocutor fica desconfiado por causa do modo com que defendemos nossas idéias. E como a reação do interlocutor é diferente quando o tratamos com um mínimo de cortesia e respeito! As pessoas normais costumam gostar de ser bem tratadas e ter suas opiniões levadas em consideração. Só os autoritários não percebem isso.
Concluo que a situação da pessoa estudada é bastante difícil. Imagine-se conhecedor de muitas coisas que indubitavelmente melhorariam o mundo. Agora imagine que ninguém lhe dá bola. Por isso tantos professores universitários apaixonados. Sabem o caminho, mas ninguém lhes dá ouvido. Ao longo dos anos tornam-se rancorosos e ranzinzas. De fato, é raro um mestre generoso e despreocupado, que tenha respeito efetivo pelas dificuldades e equívocos dos seus aprendizes. Ora, é muito fácil perceber que o mestre que não é ranzinza é menos radical que o anterior, que se leva muito a sério. Eis outra coisa muito importante nessa vida: não se levar a sério. Ainda que nos custe muito, pois sabemos que não nos levar a sério inevitavelmente nos fará pessoas menos apegadas às idéias de sempre, no fim esta atitude tornará nossas idéias ainda mais sedutoras e atraentes. É certamente um paradoxo: para que as idéias das quais estamos verdadeiramente persuadidos sejam difundidas, precisamos demonstrar desinteresse e desapego delas.
Ou seja, ainda que me custe muito assistir ininterruptamente a estupidez de muitos de meus conterrâneos, ainda que o status quo brasileiro seja extremamente injusto e premie tantas vezes a incompetência e a falta de mérito, irritar-me com isso só ajudaria esta situação a continuar! Derrotá-la começa com uma atitude despreocupada em relação a ela. Não se trata de parar de atacá-la. Pelo contrário! Para se derrotar algo é necessário atacá-lo ininterruptamente. Mas é o modo com que se o faz que determinará nossa vitória ou nossa derrota. Reparem que todos os sistemas ideológicos campeões sempre se impuseram pelo amor, enquanto todos os sistemas derrotados se impuseram de maneira autoritária. De fato, não adianta nada irritar-se com qualquer coisa! Não é à toa que se diz que a pessoa irritada "perdeu a cabeça". Ora, só poderá fazer algo útil de depois de acalmar-se e recuperá-la, a menos que não se preocupe em agir sem ela, o que seria uma temeridade. Ora, só poderemos persuadir alguém de que estamos certos se estivermos no nosso pleno juízo.
Então, só resta à pessoa estudada não se preocupar com a ignorância alheia, ainda que seja ela a governar-nos, ensinar-nos, influenciar-nos na maior parte do tempo. Nunca nos dobraremos a ela, mas também não arrancaremos os cabelos como os afetados profetas do autoritarismo costumam fazer. É muito frequente o registro de que agentes de governos autoritários, tanto de esquerda quanto de direita, surpreendiam-se quando encontravam pessoas capazes de enfrentar contrariedades atrozes em suas prisões com atitude leve e, em alguns casos, até mesmo bem humorada. Imaginem a surpresa dos carcereiros cubanos quando, após vários anos atrás das grades, o famoso escritor conseguia conversar com eles de maneira desapaixonada. Em escala muito menor, todos nós enfretamos situações que desafiam nossa paciência e nosso bom humor, assim comigo em relação aos dirigentes de futebol. Espero que você se tenha convencido de que a melhor saída é não se irritar e ir em frente. Só assim extrairemos algo de nosso interlocutor, como procurei extrair algo de você: o seu melhor, aquilo que é capaz de fazer os outros felizes.
Postado por Henrique Rossi às 17:34