sábado, 28 de janeiro de 2012

Cartunista famoso quer entrar na Justiça para usar o banheiro feminino

Surge mais uma polêmica envolvendo o homossexualismo. Pra quem não sabe, o cartunista Laerte está causando revolta por querer entrar na Justiça pelo direito de usar o banheiro feminino de estabelecimentos comerciais. Já faz alguns anos que ele ocasionalmente se veste de mulher. Esta iniciativa foi motivada por um episódio recente ocorrido em um restaurante. Uma senhora sentiu-se incomodada pela presença do cartunista no banheiro das mulheres e reclamou com o gerente da casa, que, por sua vez, avisou Laerte que ele deveria usar o banheiro dos homens. Então, insatisfeito com a situação, que lhe pareceu discriminatória, Laerte reclamou com a coordenadora estadual de políticas para a diversidade sexual, Heloísa Alves, que lhe recomendou que entrasse na Justiça. Em resposta a esta situação surreal, estão surgindo na rede diversas manifestações contra o cartunista, várias delas da parte de homossexuais, que estão revoltados por achar que a atitude egocêntrica do artista colabora com a discriminação contra eles. De fato, não é difícil perceber que estão certos; se a sociedade já acredita que homossexuais são pessoas escandalosas e excêntricas, qualquer atitude que reforce esta percepção colabora com sua continuidade.

Da minha parte, concordo que tal solicitação à Justiça é completamente descabida. Afinal, Laerte continua sendo o homem que sempre foi, desde a sua aparência externa até as moléculas que compõem seu DNA. Não há kit de maquiagem ou item de vestuário capaz de alterar essa realidade. Portanto, é perfeitamente normal que qualquer mulher sinta-se incomodada pela presença de um homem em um recinto onde ela pode eventualmente ser vista em situação de exposição íntima. Assim, como todos parecem concordar, é justa a indignação da senhora que se incomodou com a presença de Laerte no banheiro feminino e reclamou com o gerente do restaurante. A campanha contra o cartunista está se tornando cada vez mais forte nas redes sociais e nos meios de comunicação onde o fato é noticiado. De fato, há de se lamentar pela exposição que o próprio Laerte está fazendo de sua situação; não bastasse andar por aí ocasionalmente vestido de mulher, ele ainda se afirma interessado em entrar na Justiça por um direito que lei nenhuma lhe dá: ser reconhecido por toda sociedade como alguém de gênero diferente do dele, tentando obrigar os demais a agir, na maioria dos casos, contra a própria consciência e contra os próprios valores.

Assim, esta situação contribui para acirrar os ânimos em relação às reivindicações dos movimentos homossexuais. A muitos parece que Laerte se sente no direito de ir à Justiça por este motivo absurdo porque os homossexuais já se consideram acima das demais pessoas. Concordo; porque se a homossexualidade não estivesse sendo defendida sem cessar pela mídia, dificilmente alguém se sentiria justificado em solicitar o direito de usar os banheiros do sexo oposto; afinal, ninguém pode questionar o modo como os outros lidam com a própria intimidade. Felizmente, tentativas como esta são restritas aos poucos com maiores dificuldades de identificar-se com os valores da sociedade. Expor as provocações destas pessoas às demais, ao invés de ajudá-las, colabora com o aprofundando das diferenças existentes. Assim, uma abordagem ética de situações semelhantes deve pressupor discrição da parte dos meios de comunicação, para que, ao invés de se reforçarem as barreiras que separam o homossexual provocador da sociedade, tornando ainda mais difícil a sua identificação com os valores normais, seja facilitado um possível apaziguamento das tensões, auxiliando na cicatrização mesmo das feridas mais profundas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Abrindo 2012, Folha de S. Paulo insulta os cristãos

Todos gostamos de uma boa festa, especialmente quando há bons motivos para comemorar. No meu caso, não sou exceção, mas confesso nunca ter gostado muito da festa de ano-novo; sempre me pareceu uma comemoração sem sentido. Afinal, por que estourar champanhes apenas pela mudança de um dígito no calendário? Nunca me pareceu lá um motivo muito bom. Mas, pelo visto, a maioria discorda, e considera esta mudança numérica uma grande razão pra festejar. Então, costumava ficar meio emburrado durante as passagens de ano. Mas, de uns tempos pra cá, evitando chatear-me, comecei a comemorar, mesmo que ainda um pouco constrangido em fazê-lo. Assim, aceitei o convite de meu pai de passar a "virada" pra 2012 em Ubatuba, o réveillon perfeito dos taubateanos. Cheguei um dia antes e, no dia 31, por volta das onze e meia, fui à praia ver os fogos. Pra variar, não foi nada demais. De qualquer forma, foi melhor que ficar emburrado. Cumprida a obrigação (afinal, festejar neste país é um dever cívico), fui para casa dormir a primeira noite em dias sem rojões inconvenientes.

Acordei de minha primeira noite dormida em 2012 e o mundo não havia acabado. Resolvi passear na praia do centro enquanto minha família dormia. Não fazia sol, mas também não chovia. Havia uma atmosfera de paz. Caminhando, passei diante de uma banca de jornais e vi a capa da primeira Folha de S. Paulo de 2012, cuja parte superior vai exibida acima (se clicar na imagem, poderá ver todos os detalhes). Em destaque, uma charge do cartunista Angeli, que sempre admirei. Aproximei-me e vi a figura de um velho com um cajado, significando o ano de 2011. Ele estava fotografando os acontecimentos que se deram em sua existência. Logo me chamaram a atenção três pequenas figuras, um bispo, um pastor e um encapuzado gritando, em maiúsculas: "FORA ATEUS! FORA NEGROS! FORA GAYS!" A mensagem não poderia mais clara: segundo o cartunista, as igrejas cristãs são radicalmente contra ateus, negros e homossexuais, a ponto de merecer serem representadas junto de uma figura que remete à Klu Klux Klan, organização extremista americana que prega a supremacia branca.

O passeio perdeu um pouco do seu brilho, tamanho destaque dado a tamanha mentira. Afinal, nenhuma denominação cristã sustenta semelhantes posições. O que uma ou outra seita de amalucados diz não pode ser atribuído aos cristãos, que tantos sacrifícios têm feito pela humanização da vida neste planeta em inúmeras obras de caridade espirituais e corporais. Mesmo um pastor severamente contrário às práticas homossexuais como Silas Malafaia sempre sustenta que a pessoa com esta tendência deve ser respeitada e tratada com caridade cristã. Se nem ele prega a exclusão de homossexuais, que dirá os bispos católicos, geralmente tão cuidadosos e caridosos. O mesmo vale para a relação entre cristãos e ateus, com os quais as divergências nunca significaram o desejo de censurá-los ou exclui-los. Mas a acusação de que os cristãos pedem a exclusão dos negros atingiu graus patológicos. Por um instante, parecia que 2011 não foi um ano do século XXI e que os Estados Unidos, este sim um país que sofreu com o preconceito racial, não são atualmente governados por um negro.

Normalmente, os cristãos aceitam calados este tipo de acusação infundada. Estrategicamente posicionados, os ideólogos do secularismo aproveitam-se desta passividade para advogar a exclusão dos cristãos da vida pública, esforçando-se por fazer parecer anacrônicas as suas posições. Ou seja, fazem contra os cristãos justamente aquilo que acusam os cristãos de fazer. No momento atual, a situação lhes é tão favorável que mesmo a Folha de S. Paulo não se intimida em atacar brutalmente os cristãos com sérias acusações sem fundamento na capa de sua primeira edição do ano. Seria apenas uma charge qualquer se estivesse dentro do jornal; assim, seria apenas a opinião do cartunista. Mas, pela forma como foi publicada, é impossível negar que a charge expressa também a linha editorial do jornal, propagando a ideia de que os cristãos são pessoas fanáticas cujas opiniões extremistas devem ser sempre combatidas. Em outros tempos, a Folha talvez fosse mais discreta. Na sociedade contemporânea, não mais receia associar-se mesmo às mentiras e aos preconceitos mais evidentes.

Os cristãos precisam se atentar para a secularização agressiva da sociedade, cujo principal objetivo é negar-lhes a cidadania plena, desautorizando as suas posições. É de se perguntar se esta ainda é uma realidade distante, afinal, um grande jornal brasileiro demonstrou ser possível propagar mesmo as piores mentiras anti-cristãs como se fossem verdades sem que ninguém se importasse com isso. Trata-se de uma grave injustiça, afinal, não há maior força positiva no mundo que a cristandade, que sempre se alia aos mais desvalidos enquanto luta pela instauração de um mundo mais igualitário e fraterno. Porém, como a força que move o coração cristão origina-se de princípios sólidos, uma sociedade cada vez mais relativista, avessa às noções de certo e errado, não se envergonha de mentir a respeito dos cristãos, apesar do bem que eles fazem, contanto que a firmeza das posições deles seja questionada. Neste sentido, mesmo a mentira mais deslavada deve ser propagada desde que colabore com a decadência do cristianismo, um valor estranhamente absoluto para quem se pretende relativista.

Apesar destes pesares, depois que eu tirei os olhos do jornal, reparei como a praia continuava linda. Pra quem não sabe, Ubatuba é uma dádiva da natureza; centenas de praias entrecortadas pela exuberante mata atlântica. Sempre estará lá com suas belas pracinhas, suas ruazinhas apertadas e seus calçadões vistosos, nos quais é tão gostoso correr. Ubatuba é uma realidade; não é a fantasia perturbada de um ideólogo reformista. Assim também a fé cristã é real, palpável. Não é qualquer ventania rebelde que pode derrubá-la. Ainda que muitos cristãos se furtem ao dever de defender seus princípios, sua fé permanece por virtudes próprias, principalmente por não ser invenção de nenhuma mente humana, mas uma revelação do próprio Deus, que se dignou resgatar-nos apesar das nossas traições. Assim, não há fantasia que possa vencê-la porque não há ficção mais forte que a realidade. Não sou um cristão indiferente porque sei o preço que meu Senhor pagou na Cruz para que eu pudesse conhecer a verdade; e a verdade, meus caros, a verdade me libertou. Permitam que ela também os libertem.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Aceitar o mundo

O mundo, coitado, deve ser adolescente; ninguém o compreende, ninguém o aceita como ele é. Todos pensam ter o melhor dos planos para ele, como provavelmente acontece com os jovens de famílias muito exigentes; o pai quer seu filho engenheiro como ele, para a mãe, melhor seria que ele fosse médico, o avô desembargador quer vê-lo advogado, a madrinha espera que o afilhado não desperdice o talento artístico, e assim por diante. Nestes casos onde costuma haver muita pressão por desempenho excepcional, quase sempre se ignora a vontade do maior interessado no assunto: o próprio adolescente. Assim também acontece com este mundo em que vivemos: para todos os lados encontram-se entendidos nas mais diversas áreas com as mais fabulosas receitas de progresso e de melhorias. É tanta influência neste sentido, tanta pressão para que o mundo seja reformulado (ou mesmo recriado) segundo as mais variadas ideologias, que parece não haver espaço para a  hipótese de que não haja nada de errado com o mundo; que ele talvez seja assim mesmo e que, ao invés de transformá-lo por completo, talvez o ideal seria aprendermos a lidar com ele do jeito que ele é, e, deste modo, propormos alternativas de melhora mais assertivas e menos radicais.

Não ignoro que, diante da inteligência humana, o mundo pode (e deve) ser melhorado. Afinal, há muitos espaços para melhoras significativas, como bem o demonstra a história. De fato, o problema não está em querer melhorar o mundo. Estranho seria ignorar os vários problemas. Somente uma pessoa muito indiferente ao sofrimento dos outros agiria assim. Porém, há muitos equívocos em achar que o mundo está completamente perdido e, deste modo, necessitaria de uma reforma completa, segundo as leis invencíveis de alguma doutrina luminosa. O imaginário de quem sustenta semelhante atitude está dominado pelo fundamentalismo ideológico. Esta visão está errada por vários motivos; não apenas porque pressupõe que a vontade de um grupo deva ser imposta à maioria, mas, sobretudo, porque faz parecer que nenhum bem intermediário é possível enquanto o bem idealizado não for concretizado. Em outras palavras, porque acredita em um bem único que precisa sem implementado por completo, o visionário abre mão de fazer o bem possível, o bem pequeno de cada dia; aquele que se pode alcançar individualmente. Assim, ele troca o bem real que está ao seu alcance pela utopia infrutífera de uma idealização qualquer, que jamais se tornará real.

Para evitar esta distorção devemos aceitar o mundo; este mundo imperfeito, inexato e tantas vezes paradoxal. Apesar de todos os problemas, mesmo os mais graves, não é verdade que este seja apenas um lugar de sofrimento e injustiças. Curiosamente, na maioria das vezes, os pobres parecem ser mais felizes e alegres que os idealistas revoltados que pedem ajuda em seu nome. Talvez os pobres possam dar-lhes umas aulinhas de bom humor e jogo de cintura. Também poderão ensinar-lhes a ater-se ao que é importante; a resolver os problemas reais. Quem vive de vento, perde-se em devaneios; no fim, não terá produzido nada. Por outro lado, quem reconhece os próprios limites, não se guia por planos mirabolantes, pode realizar alguma coisa concreta, real, que faça a diferença para alguém com problemas reais. O mundo melhor, para existir, precisa começar dentro de nós. Somente assim serão verdadeiras quaisquer iniciativas externas. A pessoa que pretende reformar a realidade a partir de princípios ideológicos, como se o mundo todo fosse ruim menos ela, esquece que, se o mundo precisa ser melhor, é para que as pessoas sejam melhores; então, é ilógico que uma sociedade mais igualitária e fraterna não comece pelo coração dos homens.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Contra a esquerda, em favor dos funkeiros

Poucos gêneros musicais são tão execrados publicamente quanto o funk carioca. Se no Rio de Janeiro, que lhe viu nascer, ele é criticado duramente por pessoas de todas as classes sociais, que dirá no resto deste imenso Brasil que, cada vez mais, vê-se tomado por um estilo musical tão irritante, de versos tão estúpidos e pobres, facilmente encontrável em qualquer esquina onde haja mais um infeliz com um carro antigo cujo porta-malas foi transformado em balada ambulante. De fato, o funk é filho da pobreza, como o samba, que nasceu cem anos antes. Tanto um como o outro são idolatrados por intelectuais esquerdistas, tão afeitos a todas as manifestações culturais nascidas das favelas. Nenhum setor social parece tão interessado na aceitação social destes estilos quanto a esquerda; mesmo os artistas não estão lá tão preocupados em serem aceitos como propõem (ou exigem) os esquerdistas. Parece um plano lindo; a aceitação de todos os estilos musicais como demonstração de uma sociedade plural, rica e diversificada. Neste contexto, os esquerdistas sempre fazem parecer que apenas burgueses de mentalidade obtusa e atrasada rejeitariam a cultura da favela. Pra começar, é uma mentira porque mesmo na favela o funk não é unanimidade. Mas o problema do raciocínio deles é pior, pois faz parecer que apenas esquerdistas estariam interessados em defender os interesses dos favelados, como se o resto da sociedade estivesse indiferente à sorte ou à pobreza deles.

Ora, é uma tremenda hipocrisia fazer-se porta-voz da cultura da favela e, ao mesmo tempo, defender a legalização do aborto, como agem os esquerdistas. Senão, respondam-me, o que é mais importante: defender um gênero musical criado por pessoas desfavorecidas, ou defender que estas mesmas pessoas tenham direito irrestrito à vida? A implantação do aborto causará um verdadeiro genocídio entre os favelados; pessoas de classe social mais elevada, além de terem meios para criar uma criança, dispõem de maior acesso à informação, o que ajuda a evitar imprevistos. A legalização do aborto seria um dos mais duros golpes que o funk poderia levar, afinal, quanto menos pobres houver, menos criadores e consumidores para este estilo, essencialmente jovem. Na verdade, não é necessário considerar o funk um gênero musical aceitável para ser amigo dos favelados. De fato, as pessoas não precisam concordar em tudo para serem amigas. Mas é necessário que haja ao menos respeito pelo outro; em outras palavras, a aceitação integral de sua pessoa, de seus direitos e de seus deveres. Deste modo, não é amigo quem passa a mão na cabeça de alguém publicamente e, nos bastidores, arma estratégias para matar essa pessoa. Ao contrário dos esquerdistas, queremos muitos funkeiros no mundo, apesar do barulho que causam. Odiamos o gênero musical dessa gente, mas não queremos que sejam brutalmente assassinados sob quaisquer justificativas.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Quem é pior que a maníaca do yorkshire?

Semana passada foi o vira-lata enterrado vivo. Salvo a tempo, o bichinho foi apelidado de Titã e, felizmente, recupera-se bem apesar de ter estado entre a vida e a morte. Agora é o yorkshire de uma enfermeira, espancado até a morte pela dona, segundo informado pelo delegado que investiga o caso. À primeira ocasião, discuti o que poderia ser pior do que enterrar um cachorro vivo. Afinal, segundo especulei, "a brutalidade humana parece não ter limites". Conclui que o aborto é muito pior que enterrar um cachorro vivo. Claro, pois uma violência contra um semelhante é naturalmente mais grave; uma agressão contra a própria espécie. Deste modo, será ainda mais grave o aborto, pois se dirige não apenas a um semelhante, mas à própria carne.

Porém, não se trata de condenar grosseiramente a mulher que intenciona abortar, ou que já abortou. É evidente que, na maioria dos casos (ao menos assim me parece), a mulher que deseja abortar vive um conflito emocional terrível. Não nego que uma gravidez indesejada possa ser um imenso transtorno para uma mulher de precárias condições materiais ou, principalmente, emocionais. É evidente que, se alguém nestas situações for obrigada a criar seu filho indesejado, é grande a chance de surgir uma pessoa muito infeliz e doente, pois se sabe que a rejeição materna é um dos principais fatores de risco para as mais graves psicopatologias. Assim, a humanização da reprodução humana não pode pressupor que uma mulher seja obrigada a criar seu filho indesejado.

Então, se por um lado abortar é um ato muito pior que espancar um yorkshire à morte, e por outro uma mulher não deve ser obrigada a criar um filho pelo qual sente repulsa, qual poderia ser a solução mais humana? Felizmente, não precisamos olhar longe. A solução é colocar a criança para a adoção, que resolve ainda o problema dos casais inférteis. A adoção só apresenta um problema: não dá para a mulher esconder sua condição; só isso. Ela teria de aguentar exibir-se grávida diante dos outros para depois doar o seu filho a alguém que o deseje. Na maioria dos casos, imagino que seria uma situação humilhante; não nego que haveria um sacrifício. Mas sacrifício muito pior seria matar um inocente, alguém sem responsabilidade alguma pelos atos de sua mãe.

Ora, se o pior transtorno que a adoção pode causar é a exposição da mulher que não quer seu filho ao comentário alheio, só podemos concluir que, ainda que uma gravidez seja verdadeiramente indesejada, o principal motivo que leva uma mulher a abortar uma criança que pode ser adotada por uma casal sem filhos é o orgulho; é porque ela não quer ser vítima da maledicência alheia. Deste modo, percebe-se uma inversão de valores muito grave na cabeça de uma mulher que deseja abortar; ela coloca a sua honra acima da vida de seu próprio filho, cometendo, assim, desonra muito maior. A sociedade brasileira faz muito bem em repudiar semelhante absurdo, bem como os recentes casos de maus tratos de animais. Desumano seria se calar diante de tais brutalidades.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A partícula de Deus e a neurose de muitos ateus

Interessante ler as notícias sobre a partícula de Deus, o bóson de Higgs. Aos que não sabem, os cientistas esperam demonstrá-la materialmente, através de experimentos físicos realizados no super acelerador de partículas do Cern, na fronteira franco-suíça. Até o presente momento, o bóson de Higgs existe apenas em teoria, como parte de um intrincado quebra-cabeça que explica a natureza de um dos mais básicos fenômenos físicos: a massa. Não por acaso, o físico autor da teoria que prevê a existência da partícula de Deus chama-se Peter Higgs. As notícias dos últimos dias informam que os cientistas estão cada vez mais próximos da demonstração material efetiva do bóson de Higgs, que, se não for encontrado, exigirá uma reviravolta na teoria das partículas. A julgar pelo campo dos comentários das notícias a respeito, todos estão felizes pela proximidade da descoberta do partícula de Deus, menos os ateus.

Talvez se sintam um pouco indignados por este apelido que o próprio Higgs deu à sua descoberta, não sei. Curiosamente, ao invés de comentarem as notícias, os ateus preferem falar de religião; sempre daquela maneira tão peculiar e carinhosa própria de quem tem muito amor no coração. Ora, é no mínimo estranho que fiquem resmungando contra as religiões em notícias científicas. É inevitável perceber mais uma vez que eles fazem da religião o centro de suas vidas; acusam as pessoas de fé a empurrar-lhes continuamente uma crença que eles não desejam (o que, em muitos casos, é verdade), porém, ao invés de esquecerem os inconvenientes e seguirem suas vidas, ficam neuroticamente reclamando de toda vez que alguém mencionou, na presença deles, a própria crença religiosa, como se isso fosse um crime irreparável, ou ainda uma manifestação de preconceito contra eles; um exagero evidente e absurdo.

Ainda está faltando uma justificativa razoável para o estardalhaço que muitos ateus têm feito ultimamente; tanto que mesmo os meios de comunicação mais liberais não têm mais achado motivos para qualquer reportagem sobre Richard Dawkins, o líder do movimento neo-ateu, que esteve em evidência até pouco tempo atrás. Então, a estes ateus fanáticos restam somente os recantos sombrios da internet, onde se verifica como é triste a existência deles, pois se permitem pautar continuamente pelo assunto que mais detestam, mesmo quando não é ocasião de debatê-lo. Ora, qualquer pessoa normal se afasta daquilo que não gosta. Já um seguidor de Dawkins, que acha necessário combater as religiões de todos os modos e em todos os momentos, vê-se na obrigação moral de passar a vida discutindo um assunto que não gosta com pessoas que lhe são desagradáveis. Pode haver existência mais patética?

sábado, 10 de dezembro de 2011

O que pode ser pior que enterrar um cachorro vivo?

A brutalidade humana parece não ter limites. Seria ingênuo pressupor que nossa violência intrínseca não pode se tornar cada vez pior. Pelo menos é assim que concluo ao saber da história terrível de um cãozinho de quatro meses que ficou aproximadamente 12 horas enterrado vivo, mas que foi resgatado a tempo de ser salvo. Alguém da vizinhança do agressor denunciou o caso à Associação Mão Amiga, cujo vice-presidente foi averiguar a situação. O dono do animal afirmou que ele havia fugido. Mas o protetor dos animais voltou no dia seguinte e, ao reparar uma porção de terra remexida, conseguiu desenterrar o cachorro com as próprias mãos. Desde então, Titã, como foi apelidado o filhote, tem recebido contínuas manchetes na imprensa. Aparentemente, sua situação tem melhorado, apesar dele estar com uma grave infeção de pele e ter perdido uma das vistas. A gente então se pergunta: como pode alguém fazer isso?

Inocente quem não souber responder. Ora, o agressor é provavelmente um psicopata, ou talvez apresente outras graves enfermidades mentais e psicológicas. Além disso, sua situação de vida deve ser de uma tal forma desestruturada que enterrar um cachorro vivo talvez nem seja o pior que ele já fez. É duro reconhecer, mas talvez ele nem seja verdadeiramente responsável por este ato cruel; se um psiquiatra o descrever como mentalmente incapaz, nenhum juiz o condenaria à reclusão entre presos comuns, como se fosse um criminoso qualquer. No máximo, ele seria condenado à uma reclusão compulsória em instituição psiquiátrica, o que, se formos sinceros, não seria injusto. Porém, se alguém de tamanha crueldade provavelmente não receberia uma dura condenação pela Justiça, quem haveria de merecer pena pior? Em outras palavras, o que pode ser pior que enterrar um cachorro vivo?

Bem, enterrar uma pessoa viva é certamente pior, mesmo que se acredite que cães e homens tenham a mesma dignidade, afinal, uma pessoa realizar tamanha crueldade a um semelhante é mais grave do que em relação a outra espécie. E, se enterrar vivo alguém da mesma espécie é pior que enterrar um animal de outra espécie, percebe-se que o grau de parentesco maior torna ainda mais repulsiva a crueldade. Deste modo, muito pior que enterrar um cachorro vivo ou enterrar uma pessoa desconhecida viva é jogar a própria filha da janela para livrar a cara da esposa. Bem pior, não é verdade? Mas pode ser ainda pior, é claro. Lembrem-se que a brutalidade humana parece não ter limites. Uma mãe querer matar o próprio filho, por exemplo, apenas porque a gravidez veio em má hora, é ainda mais grave. O ser humano é incapaz de uma brutalidade maior; mesmo enterrar centenas de cães vivos seria inequivocamente menos grave.

O que nos faz pensar no grau de distorção moral e ética de certos setores da sociedade. Se matar o próprio filho é muito mais grave que enterrar um cachorro vivo, por que está havendo grande revolta pela situação do cãozinho e uma sórdida e monstruosa indiferença às crianças assassinadas pelas próprias mães continuamente? Ora, trata-se, no mínimo, de um sintoma revelador de uma brutal desumanização dos valores, pois o aborto causa cada vez menos repulsa porque se valoriza cada vez mais o dinheiro; afinal, permite-se que uma moça mate o seu filho para que sua situação financeira não sofra uma reviravolta do dia para a noite. Ou seja, a vida humana vale cada vez menos diante das conveniências financeiras. Portanto, não é de estranhar que, em um mundo cada vez mais brutal, os bons sentimentos humanos sejam cada vez mais dirigidos aos animais e cada vez menos às pessoas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Uma história (nada) engraçada

Certas histórias são naturalmente engraçadas. Outras não têm graça nenhuma. A história de hoje é engraçada, mas não deveria ser. De volta a Taubaté, minha cidade natal, para as férias do meu curso de medicina, eu havia tomado o dia para organizar meu quarto e comprar umas coisas no centro; nada demais. Precisava parar próximo a uma loja de eletrônicos para comprar um adaptador wireless, mas o centro de Taubaté está cada vez mais apertado; suas vagas de rua estão praticamente todas demarcadas em um destes planos de tarifação, a fim de gerar mais receita para a prefeitura. Queria ir a uma loja especificamente, cujos preços pareceram bem em conta pelo telefone. Assim que a localizei, fiquei atento às vagas de rua fora da zona de tarifação. Não havia nenhuma delas próxima à loja. Eis que viro à direita em uma rua e encontro uma vaga razoavelmente grande, onde meu pobre Palio 2002 caberia com facilidade. Passei um pouco a vaga, engatei a marcha fé e comecei a fazer a baliza. Até ali, tudo certo.

Subitamente, começo a ouvir uma voz enlouquecida pela fresta do vidro: "Aqui não! Aqui não! Você não vai parar seu carro na frente da minha casa!" Parei com a ré, olhei para o lado e vi uma senhora à frente de um pequeno portão, a única abertura em uma grande parede branca. Meu primeiro instinto foi o de tentar falar com ela, mas não houve meios: "Retire agora o seu carro da minha vaga. Aqui você não vai estacionar. Saia imediatamente." Diante de tamanho espetáculo de insanidade, não pude evitar certa ironia. Apesar de louca, aquela senhora não era burra; ela percebeu o meu olhar, mas foi logo concluindo absurdos: "Pare de me ameaçar. Saia agora!" E, sacando uma vassoura, fez que seria capaz de sair para cima de mim. Ri discretamente, fechei o vidro e continuei buscando uma vaga. Virei a próxima à direita e felizmente achei uma vaga. Mal sai do carro, perguntei-me como o agente de saúde local fora indiferente a grave situação de saúde mental daquela senhora.

Nós, os brasileiros, além de votarmos mal, também desconhecemos nossos direitos. É prerrogativa do SUS que um agente de saúde passe pelo menos uma vez por mês em todos os domicílios do país e se informe sobre a saúde de seus moradores. Para uma estratégia mais econômica, costumam-se ignorar os locais mais ricos, onde geralmente há acesso a planos de saúde, mas não era este o caso da moradia daquela senhora. Talvez o posto do Programa de Saúde da Família responsável por aquela área desconheça a situação dela, não sei. De fato, ela parece morar na única casa mais simples de uma vizinhança de classe média. Ora, ainda que não sejam necessárias visitas constantes a casas ricas, os agentes do programa devem conhecer minimamente os habitantes de sua região de atendimento. Por ignorarem a região onde pretendi estacionar meu carro, ficou de fora uma senhora em necessidade urgente de atendimento em saúde mental. Quanto sofrimento não seria evitado se ela recebesse o auxílio médico necessário!

sábado, 26 de novembro de 2011

A grave insuficiência das campanhas anti-tabagismo

No mundo atual, nenhuma campanha é aceita tão passivamente quanto a anti-tabagismo, que supostamente conscientiza as pessoas a respeito dos malefícios do cigarro. Parece haver uma certeza absoluta a este respeito, como se nada pudesse ser tão ruim quanto o cigarro. Porém, apesar das fortunas que muitas nações têm gasto contra o tabagismo, ainda há milhões de pessoas que fumam, mesmo sabendo que este hábito leva ao câncer na ampla maioria dos casos. Então, pergunta-se: como pode alguém ainda fumar sabendo que, deste modo, caminha para o câncer?

De fato, o problema não se limita a pequenas campanhas educativas que mostrem fotos de pessoas com câncer. Ao contrário do que estas inocentes campanhas fazem parecer, o cigarro não é apenas um problema comportamental; ele é uma doença multi-fatorial, como muitas outras. Pretender erradicá-lo através da ameaça é útil em muitos casos, apesar das limitações deste modelo, como demonstrarei. De qualquer forma, não acho ruim que a população seja alertada; pelo contrário, o conhecimento sobre o cigarro é essencial no processo de conscientização de seus malefícios.

Ocorre apenas que, em função de ser uma doença multifatorial, é lamentável que se pretenda tratar o tabagismo apenas através de ameaças terríveis. Aí está a minha discordância. Se os fumantes não abandonam o tabagismo apesar de saberem dos inúmeros tipos de câncer que ele acarreta, é certo que o problemas deles não é a ignorância, mas outro fatores, provavelmente psicológicos. É triste que as campanhas de esclarecimento sobre os malefícios do cigarro até hoje nunca tenham mencionado que fatores psicológicos são a principal causa do tabagismo.

Campanhas que combatam o hábito de fumar com eficácia também precisam explicar às pessoas que o principal fator que as torna dependentes do cigarro é psicológico. Deste modo, o fumante poderá procurar o auxílio do profissional de saúde mental, que certamente irá ajudá-lo na difícil tarefa de abandonar um vício que lhe causa tanto prazer. Deste modo, a abordagem contra o tabagismo se tornaria mais ampla, e as chances dos fumantes largarem o seu vício seriam maiores. Quanto não se economizaria no sistema público se saúde se o número de fumantes fosse reduzido?

Por não abordarem a dependência psicológica, as campanhas atuais limitam-se à intromissão desagradável na vida das pessoas para quem fumar é um hábito muito prazeroso, apesar do claro horizonte cancerígeno. E, se alguém fuma, apesar de conhecer os malefícios do cigarro, como uma abordagem multi-fatorial anti-tabagista poderia existir sem a menção aos aspectos psicológicos da dependência, os verdadeiros responsáveis pelo tabagismo? É certo que o cigarro é o menor dos males de quem fuma, senão, as atuais campanhas já teriam abolido o tabagismo há décadas.

Do modo como vão, as campanhas anti-tabagismo limitam-se a reproduzir ditames politicamente corretos, sem se aprofundarem. Por esta insuficiência, os fumantes não conseguem se libertar mesmo sabendo que o cigarro causa câncer. Deste modo, por que uma pessoa ciente dos limites das atuais campanhas deveria se preocupar? Ela pode, no máximo, alertar os seus próximos. Quanto aos demais, infelizmente, ela não pode fazer nada. Quanto a mim, contanto que ninguém fume perto de mim, não tenho razão alguma para me preocupar com o que os fumantes fazem da própria liberdade.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Perene, a Igreja subsiste aos movimentos anti-cristãos

Para que nos preocuparmos com quaisquer iniciativas anti-cristãs, esquentando a cabeça? Não vejo necessidade alguma disso. Basta que respondamos com dignidade a elas, explicando os motivos pelos quais são inadequadas. Em alguns casos, quando a campanha anti-cristã for encabeçada por pessoas com alguma sensatez, pode haver uma tomada de consciência, e posterior retração. Já quando similar campanha for comandada por gente orgulhosamente insensata, a resposta cristã deve ser emitida não para convencer seus líderes do contrário, pois isso será impossível, mas para dar bom exemplo para as demais pessoas. Basta isso e entregar a Deus, o maior ofendido; afinal, segundo as Escrituras, a Igreja é o Corpo do qual Ele é a Cabeça. Ofendê-la é ofendê-Lo.

Em se tratando de certa gracinha que anda circulando pela internet, como o Vaticano já lançou nota criticando-a, não temos porque esquentar a cabeça. Se alguém nos perguntar a respeito, devemos responder com a caridade que esperam de nós. Se não pudermos fazê-lo deste modo, melhor nos calarmos. Além do que, o que são os inimigos da Igreja diante dela? Há milênios que diferentes movimentos a ela contrários sucumbem diante da sua magnificência. No século XIX, Augusto Comte, criador do positivismo, esperava discursar em Notre Dame de Paris sobre sua ideologia em no máximo 10 anos, tempo que levaria para o cristianismo desmoronar. Se os anti-cristãos são pessoas insensatas a este ponto, por que nos preocuparmos com eles?

Estudante de medicina em fim de semestre

Está acabando. O problema é que ainda não acabou. É sempre engraçado como ficamos sem energia no fim de semestre. Já não tenho mais ânimo pra nada. Conto os dias, as horas, os segundos para as férias. Desta vez está bem pior, porque a instituição em que curso medicina inventou uma série de trabalhos que não existiam nos semestres anteriores. Falta pouco para eu entregar qualquer coisa apenas para não zerá-los, pois não dá pra tirar energia pra conclui-los em certo nível de qualidade do nada. Sério que, para além das provas naturalmente estressantes, devo escrever um artigo científico, dentro de sérios parâmetros de publicação? Eu, mísero aluno da graduação? Até o faria, se tivesse energia. Mas já cheguei ao ponto em que só quero saber de férias!

Não que eu tenha apertado o botão do f*&%-se; ele que se apertou sozinho! Sabe aqueles botões pré-programados que, em determinadas condições, acionam-se automaticamente? Pois é. Não está dando pra encarar pilhas e pilhas de livros com o alarme das férias soando no ouvido. Além disso, ao invés de me ajudar a mobilizar energia, o estresse com o tal artigo está roubando até mesmo meu estímulo de estudo. Com o botão do f*&%-se ligado, estou me limitando a fazer o mínimo. Se necessário for, durmo 10, 12 horas por dia, mas não ficarei mais doente em fim de semestre, pra depois desperdiçar metade das férias me recuperando de pneumonia, como aconteceu no fim do primeiro semestre. Portanto, muito obrigado botão do f*&%-se!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Se a ocupação da USP por estudantes revoltosos foi válida

A imprensa está alardeando sem parar a recente ocupação da Reitoria da USP por alguns de seus alunos, desfeita hoje, após o cumprimento de mandato de reintegração de posse emitido por um juiz. Como as circunstâncias da atual revolta remetem a um episódio de prisão por posse de maconha, a atual discussão resvala em posições ideológicas. Por um lado, usuários de drogas e simpatizantes da liberação delas, supostamente de esquerda, pedem que a PM não prenda nenhum aluno da USP e exigem a sua saída imediata do campus. Do outro lado, exigindo que se cumpra a lei igualmente sobre todos os brasileiros, uma suposta direita não aceita que haja exceções para quaisquer pessoas, rejeitando, deste modo, a alegação dos ocupantes da Reitoria de que podem desrespeitar as leis no campus da USP. Ora, não me parece difícil julgar a atual invasão se ela puder ser resumida nestes termos. Afinal, é evidente que ninguém está sobre a lei, pouco importando, deste modo, os diferentes matizes ideológicos. Todos, inclusive os estudantes revoltosos da USP, estão abaixo da lei, e, como tal, devem cumpri-la; caso contrário, não há democracia nem igualdade.

Mas, pensemos que a situação seja mais complexa. Admitamos, mesmo, por um instante, que este caso talvez seja mais difícil. Suponhamos, para efeito de análise que, sob as atuais circunstâncias, a ocupação forçosa da Reitoria se fizesse necessária. Mesmo neste cenário hipotético, poderíamos aceitar que a ocupação fosse promovida por alguns alunos sem representatividade? Porque, diga-se o que quiser a respeito dos atuais manifestantes, a verdade é que, proporcionalmente, não representam o corpo docente da USP; não foram eleitos por ninguém, agem por conta própria. Para mim, é lamentável que a imprensa não esteja explicando com cuidado que os atos destes alunos não possuem nenhuma legitimidade. De fato, o movimento deles carece tanto de razão (pois ninguém está acima da lei) quanto de representatividade. Neste sentido, é um erro chamá-los simplesmente de "alunos", como se agissem em lugar dos demais estudantes, que simplesmente não apoiam o movimento deles. Enquanto eles gritam palavras sem sentido, a maioria silenciosa continua interessada em aprender e, assim, colaborar com o progresso real da sociedade brasileira.

Contra as certezas, o Barroco

É bom que tenhamos certezas. Sentimos conforto e segurança quando somos capazes de professar alguma verdade inspiradora. Se não temos este apoio, seja de natureza religiosa ou puramente moral, podemos vacilar pelas sombras da dúvida e da inquietação. De fato, somos fortalecidos se acreditamos. Se assim nos ensina a tradição literária, também no campo científico afirma-se que aqueles que creem desenvolvem vantagens biológicas, como o fortalecimento do sistema imunológico, o que os torna menos suscetíveis a doenças, por exemplo. Mas, se professar uma certeza faz bem à alma e ao organismo, não podemos esquecer que mesmo a bondade verdadeira pode ser deturpada pela mente humana. Neste sentido, como alguém pode justificar atos de ódio ao próximo em nome de Deus? Ou ainda, como outros utilizam a ciência para advogar o fim das liberdades individuais, como se todos os fatos da natureza, incluindo nossa mente, já estivessem descritos? Ora, por vários motivos semelhantes, ainda que devamos reforçar a capacidade do coração humano de crer, é recomendável que evitemos os excessos, seja para o lado racional cartesiano, ou para o lado puramente emocional.

De fato, precisamos de equilíbrio. Aos poucos, eu ainda aprendo esta lição. É que sou muito dado à razão, ainda que seja um homem de fé. Curiosamente, minha conversão se deu por motivos intelectuais, e não propriamente emocionais. Eu achava que todos os fenômenos naturais poderiam ser explicados racionalmente, como se fôssemos determinados pela nossa genética e pelo meio ambiente. Tinha este princípio firmemente gravado no meu ser. Evidentemente, professava esta crença quando eu era ateu. Como os seguidores de Richard Dawkins, pensava que as ocorrências materiais estavam dadas e apenas se sobrepunham conforme o tempo passava. Também pressupunha que a religião era obra de gente apequenada, de pouca instrução e moralmente fraca. Jamais imaginava, como posteriormente aprendi, que éramos verdadeiramente capazes da liberdade; que poderíamos contrariar toda a nossa formação (e mesmo nossos genes) dando às nossas vidas o rumo que desejássemos. À medida que me aprofundava neste conhecimento, minhas certezas cartesianas, racionais, eram abaladas. Vi-me bastante perdido e, no meio deste processo, ainda que por motivos racionais, voltei a acreditar em Deus.

Porém, se, como já mencionado, intenciono o equilíbrio entre razão e emoção, ainda tenho um caminho a percorrer, esforçando-me em perder este meu constante desejo de linearidade que coloco em tudo o que faço. Tenho progredido. Percebo esta transformação em meu gosto estético, que tem sofrido uma reviravolta barroca. Aos que não sabem, o Barroco é um período artístico no qual foram subvertidos os ideais anteriores de linearidade e racionalidade. Sucedendo ao Renascimento, o Barroco foi um movimento que exercitou a dúvida numa época de suposta vitória da razão. Não é à toa, portanto, que tenho escutado J. S. Bach como nunca. Se antes ele não me dizia muito, porque se me parecia deselegante em suas sobreposições cíclicas, agora ele apela diretamente ao meu desejo de conflito, duvidando da minha linearidade. Sinto que aquele cada vez mais longínquo processo de questionamento das minhas certezas racionais ainda não acabou. A águia vistosa do meu superego ainda reluta em abrir caminho para o leão do ego, cada vez menos paciente com um imerecido segundo lugar. Que paire entre eles (e o id), cada vez mais, o equilíbrio inexato de quem se permite questionar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

E a imoralidade da Rede Globo se volta contra ela própria

O que aconteceria a uma sociedade tradicional se uma rede de TV, recém-criada, a expusesse, continuamente, por mais de 30 anos, a toda sorte de estímulos contrários à mais simples normalidade humana? Podemos testemunhar hoje, em nosso país, a concretização de tal experimento. Desde a sua criação, a Rede Globo de televisão tem se utilizado basicamente de três instrumentos para manter a sua enorme audiência: um elevado nível técnico em todas as suas produções, um tratamento equânime a todos os seus profissionais e um aproveitamento grosseiro das paixões mais xinfrins da população. Ou seja, apesar de suas qualidades, a Rede Globo tem se valido, desde a sua criação, dos mais rasteiros instintos humanos para angariar seguidores; tem sido assim principalmente em suas telenovelas, mas também na maioria de seus outros programas. Em tempos mais recentes, somos expostos continuamente à um abominável programa de auditório intitulado "Amor e Sexo". Pois hoje, um típico espectador deste programa, um jovem engraçadinho na faixa dos vintes anos, provavelmente educado na cartilha dos programas da Rede Globo, atacou grosseiramente a jornalista Monalisa Perrone durante uma entrada ao vivo no Jornal Hoje, enquanto ela dava notícias sobre o estado de saúde do ex-presidente Lula. Monalisa foi empurrada para fora do quadro, e seu agressor, com um imenso sorriso no rosto, passou a bradar contra a Globo o mesmo tipo de bobagem que ela tem bradado contra o povo brasileiro desde que foi fundada.

Deste modo, a geração que não pôde ser assistida pelos pais enquanto crescia, e teve os programas da Rede Globo como babá, começa, agora, a mostrar o resultado da excelente educação que recebeu. Afinal, o que haveríamos de esperar de uma geração continuamente abusada pelas impropriedades absurdas de programas como "Malhação"? O que foi que a "Malhação" deixou de ensinar para os jovens em matéria de imoralidade? Nunca testemunhei maior deturpação em matéria de sexualidade em nenhum outro programa (até a entrada de "Amor e Sexo", é claro). Imaginem que a "Malhação" sempre se destinou ao público infanto juvenil e sempre foi ao ar às 17hs. Ora, a Globo ensinou várias gerações que o certo é o prazer a qualquer custo. Por que então a Globo vai processar este jovem que, ao agredir Monalisa Perrone, estava apenas querendo se divertir? A Globo precisa contratá-lo para a próxima temporada de "Malhação", porque ele já está perfeitamente adequado ao perfil do programa. Nem precisa ensaiar; basta decorar o texto. Esse moleque é filho teu, Rede Globo. Você o fez debilóide deste jeito ao sonegá-lo programas de rico conteúdo cultural. Porque você empurrou seus programas infames goela abaixo deste pobre coitado que ele se fez assim ignorante e pobre de espírito. Pouco adianta que hoje você seja toda politicamente correta, e até mesmo a "Malhação" não seja mais tão ruim, porque você ainda tem uma dívida muito cara a pagar com amplos setores da sociedade deste país, dos quais você se aproveitou por dinheiro.

domingo, 30 de outubro de 2011

Lula silenciado

Lula está com câncer de laringe, a região responsável pela fala. Provavelmente, adquiriu-o através do alcoolismo e do tabagismo, pois consumia cachaça com certa regularidade e, ocasionalmente, umas cigarrilhas. Apresentou uma estranha rouquidão alguns dias atrás e ontem a imprensa alardeou sua situação após um boletim médico. O líder máximo do PT começa amanhã a quimioterapia (uma cirurgia em tal região poderia lesar sua fala para sempre). Pela primeira vez é abalada a onipotência do homem que se auto-intitulou o melhor presidente brasileiro de todos os tempos, realizando sem parar feitos "como nunca antes na história deste país". Agora, atendido pelos médicos do Hospital Sírio Libanês, um dos melhores do Brasil, recebeu a recomendação de evitar ao máximo utilizar a voz. Assim, Lula viverá longos momentos de silêncio; ao menos momentaneamente, não poderá mais lançar suas absurdas bravatas, suas contínuas defesas de corruptos contumazes e tiranos assassinos, como José Sarney e Muammar Gaddafi, tampouco poderá criticar a imprensa que bravamente revela os seus desmandos, nem sustentar publicamente seus preconceitos bárbaros, como o que lançou sobre um jovem favelado do Rio de Janeiro, que pedia o funcionamento de uma quadra de tênis pública que ficava fechada; Lula disse-lhe que esquecesse aquilo, porque tênis era "esporte de rico". Ironicamente, um homem cuja garganta foi verdadeiramente violenta (pois derramou continuamente ódio contra todos os que não lhe eram subservientes), é agora violentado por ela.

Infelizmente, Lula revela o que o país tem de pior; com talento retórico sem igual, ele usa o seu gênio político para se aproveitar, a um só tempo, da ignorância e da boa fé do nosso povo. Não tenho a menor dúvida de que, se ele fosse conhecido pelos brasileiros como é conhecido pelas pessoas instruídas, ele jamais conseguiria se eleger para vereador; talvez conseguisse se fazer síndico de algum prédio de velhinhos. Nunca houve alguém com maior talento para mentir. Lula vociferou por décadas contra absolutamente todas conquistas institucionais do povo brasileiro: o plano Real, o Proer, as privatizações, as agências regulatórias e até mesmo o Bolsa Família. Porém, uma vez no governo, ele não somente manteve todas essas políticas, como as ampliou. Sua contribuição original continua sendo o aumento vertiginoso da corrupção, ocorrido pela tentativa literal da compra do voto dos parlamentares, de modo que seu poder, o Executivo, não tivesse nenhum incômodo para aprovar qualquer lei que ele julgasse necessária. Ora, em uma República, os poderes são autônomos, cada qual tem suas responsabilidades. A tentativa de um deles dominar os demais configura um atentado direto à mais fundamental de todas as instituições nacionais. Não se trata, portanto, de criticar Lula gratuitamente, mas de fazer aparecer a verdade que ele e seus companheiros tão arduamente pretendem esconder. Deste modo, um Brasil onde ele tivesse menos destaque seria uma nação mais segura institucionalmente, menos corrupta e, sobretudo, menos extremista politicamente.

sábado, 29 de outubro de 2011

Todo mundo gosta do que é bom, até corintianos e funkeiros

É sabido que alguns grupos sofrem preconceito da maior parte da sociedade; citem-se, como exemplos, os corintianos em São Paulo e os funkeiros no Rio de Janeiro. As diferenças entre os seguidores destes grupos e o resto da sociedade se manifestam de diversas formas, especialmente nas expressões comportamentais que eles ostentam, considerada de mau gosto pela maior parte da sociedade. De fato, a maioria das pessoas pensa estar certa ao repudiar o falso comportamento popularesco dos corintianos, no qual mesmo torcedores ricos sustentam uma cultura "mano" infantilizada sem nunca terem posto os pés na periferia, bem como a monstruosidade musical do funk carioca, inaudível por natureza; um dos raros casos onde tanto maior e mais forte a crítica, menos preconceituosa é a pessoa que critica. Só não é preciso se desesperar por um simples fato: todos sabem reconhecer o que é verdadeiramente bom; de modo que, ainda que pareça impossível, mesmo corintianos e funkeiros são capazes de admirar a alta cultura; na maioria das vezes, instantaneamente.

É que a alta cultura apresenta-se desenvolvida de uma tal forma que recusá-la não é tarefa para pessoas estúpidas, mas para pessoas loucas. De fato, ainda que certa intelectualidade antiquada façam parecer chatas as expressões culturais históricas, como a música, as artes plásticas e a literatura, a verdade é que elas são dotadas de tanta sofisticação técnica e apuro estético que mesmo um neófito pode admirá-las sem nenhuma dificuldade. Assim, especulo que a existência de corintianos e funkeiros no mundo se deve à falta de um mínimo esforço pela difusão da alta cultura. Apresente mesmo ao povo mais simples um concerto de música e vocês verão que as pessoas se encantam magicamente, apesar de uma suposta barreira cultural, como alegado por vários intelectuais modernos, a quem a exposição da alta cultura ao povo parece estratégia educacional de mal gosto. Porém, a verdade é que, apesar das culturas particulares, a aspiração universalista da alta cultura é capaz de atingir a todos, expondo aspectos inusitados ou insuspeitos da origem comum de toda a humanidade.

Tanto é assim que, mesmo no local mais apressado da maior cidade do país, a estação da Sé do metrô de São Paulo, a arte de dois jovens irmãos músicos profissionais, um pianista e o outro violonista, desacelerou um pouco rotina de quem pôde parar para escutá-los. Afinal, no dia da apresentação deles, quem não foi surpreendido pelo concerto de qualidade executado em pleno saguão da estação? Quem não pôde parar para ouvi-los provavelmente sentiu pena de si. Mas teria sido igualmente bem-sucedida uma apresentação de funk? Se considerarmos que o público do metrô é bem mais heterogêneo que um bando de adolescentes em desesperado desejo de aceitação pelo grupo, veremos que não. E, dado o desconforto auditivo causado por este gênero, aliado a seus versos absurdos, teríamos centenas de reclamações junto à ouvidoria do metrô. Mas o oposto seria verdade: o funkeiro pararia para escutar o concerto, e o corintiano também. Porque, ainda que fujamos do bem, ele nem precisa nos procurar; ele está dentro de nós, impelindo-nos para o que é elevado e sublime.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Por que um ateu salvaria a vida de um cristão?

Muitos já foram apresentados ao neo-ateísmo, uma jovem corrente de pensamento que prega a união entre os ateus contras as religiões em geral. Por conta dela, muitos ateus outrora discretos têm revelado publicamente suas opiniões; geralmente de modo agressivo, intolerante e desrespeitoso. Alegam que o seu mau-humor é em grande parte reflexo do enorme preconceito que teriam sofrido ao longo de suas vidas pelo fato de serem ateus. Também gostam de dizer que não é necessário acreditar em Deus para serem pessoas boas. Um neo-ateu típico dirá mais: ele não somente poderia ser tão bom quanto alguém religioso; ele seria, na verdade, melhor, pois a religião, em sua ótica, estaria limitada às pessoas fracas, medrosas e de baixa escolaridade. Com este tipo de retórica inflamada e passional, os neo-ateus pretendem suplantar definitivamente as religiões, iluminando o mundo com as verdades da ciência e do conhecimento.

De fato, desconheço outro grupo que fale mais em ciência do que os neo-ateus. Para eles, deve-se duvidar de qualquer afirmação que não possa ser cientificamente comprovada. Deste modo, ignoram por completo a herança milenar das humanidades: arte, filosofia, antropologia, psicologia, sociologia, economia, direito, dentre outras; senão, como se poderia determinar cientificamente a beleza de um verso, ou a dor de uma mãe que perde um filho? Um neo-ateu simplesmente ignora o fato de que todos os fenômenos subjetivos não podem ser quantificados pela ciência; eles só podem ser conhecidos interiormente, por experiência própria individual e intransferível. Assim, é grave a pretensão deles de possuírem todo o bem e serem as pessoas mais virtuosas da sociedade, pois negligenciam verdadeiros tesouros da humanidade além de injustamente proclamarem uma superioridade moral que nunca tiveram e que provavelmente nunca terão.

Senão, em que a ausência de fé torna os ateus moralmente superiores? Por esta característica condenável de suas personalidades estariam somente eles livres para decidir de modo exclusivamente racional, como se todos os religiosos fossem pessoas incapazes de pensar com clareza? É o que professam apaixonadamente, mas, se levarem a sério este princípio, não possuem motivo algum para salvar a vida de qualquer cristão, pois, se somente eles são uma força positiva para o mundo, porque dotados de uma razão pretensamente invencível, então é conveniente que o número de crentes diminua sem cessar. Assim, é melhor que nenhum ateu seja médico, doador de sangue ou de órgãos, senão corre o risco de ajudar a salvar a vida de algum cristão, possibilitando, desta forma, que o mundo permaneça imerso nas religiões. De fato, um ateu engajado que deplore as religiões não possui motivo algum para salvar a vida de um cristão.

Por sua vez, o cristianismo acredita na generosidade desinteressada; ensina que o certo é fazer o bem para todas as pessoas, independentemente das suas crenças ou princípios. Por isso, um cristão pode se tornar médico, doador de sangue ou de órgãos tranquilamente, porque terá feito um bem ao salvar qualquer tipo de pessoa, mesmo um ateu que deteste a sua religião. De fato, ainda que os ateus se afirmem moralmente idênticos (ou superiores) aos demais, a recusa deles em promover o bem a todos, independentemente dos seus princípios, demonstra a hipocrisia de suas palavras; afinal, não há ateu no mundo que considere o auxílio ao adversário uma coisa boa. No geral, eles justificam o seu ódio pelas pessoas de fé em termos darwinianos: porque os religiosos estariam interessados na destruição deles, é razoável que não queiram ajudá-los em nenhuma circunstância, caso contrário, estariam colaborando com a própria destruição.

Assim, revelam a incapacidade de lançar sobre os outros um olhar generoso, despido de preconceitos. Ao invés de procurarem ver o que há de bom nas pessoas com religião, logo procuram associá-las a algum fanático isolado do qual tiveram notícia. No fundo, o grande abismo entre o cristianismo e o ateísmo é a fé que o primeiro tem nas pessoas, na capacidade delas de amar; revelando, assim, o espírito aberto e disponível da sua fé. O ateísmo, por sua vez, é uma mão fechada ao mundo; um círculo infértil de pessoas egoístas, arrogantes e prepotentes, incapazes da generosidade gratuita e desinteressada, porque em tudo colocam as possíveis vantagens pessoais que podem extrair. Felizmente, a razão humana bem aplicada é muito superior a este estúpido espetáculo de arrogância, porque conhece seus próprios limites e solicita humildemente da fé o calor humano que lhe faltaria, se somente ela devesse decidir.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um gênio que nunca se deixou derrotar

A morte de Steve Jobs, anunciada há pouco, será comentada ainda por meses a fio, anos talvez. É uma pressuposição razoável, afinal, o legado de Jobs provavelmente perdurará por muitos anos; ele é o responsável direto pela popularização dos eletrônicos. Ninguém, mais que ele, conseguiu transformar tecnologias complicadas em aparelhos de uso simples, que mesmo alguém pouco instruído era capaz de operar. Ele foi, certamente, o maior profeta da tecnologia de todos os tempos. Tornou-a sempre mais acessível porque, ao contrário de outros nerds, sempre conseguiu se colocar na posição do usuário que pouco entende de tecnologia. Ao longo de anos, Jobs promoveu revolução após revolução. Pode-se dizer, com margem razoável de segurança, que o mundo é um lugar melhor, mais democrático e simples por causa de Steve Jobs, um gênio que só encontra paralelo em Leonardo Da Vinci, se me permitem tal comparação.

O que poucos sabem é que, apesar de criado como um norte-americano típico, Jobs é de ascendência síria. Foi dado para a adoção porque seus pais não se puderam casar conforme seus costumes, dado que a gravidez foi anterior ao casamento, e em um período de muitas dificuldades financeiras. Assim, como muitos outros gênios (John Lennon, por exemplo), Jobs foi criado por pessoas que não eram de sua família biológica. Apesar disso, parece não ter pesado contra ele qualquer dificuldade por esta condição que alguns pressupõem demasiado complicada. Deve ter recebido de sua família adotiva todo o carinho, incentivo, atenção e, sobretudo, amor, que uma criança precisa para desenvolver-se plenamente. Assim, superando quaisquer possíveis dificuldades, ele lançou-se à vida com seu espírito criativo e desafiador. Ciente de que podia mais do os outros ao seu redor, lutou por todas as suas idéias que, por virtudes inegáveis, sempre prevaleceram.

Mas tudo poderia ter sido diferente. Se tivesse sido concebido em nossos dias, Jobs poderia ter sido vítima de uma curetagem; um cruel procedimento cirúrgico no qual um médico corta o feto vivo dentro do útero de sua mãe e vai retirando-o de lá em pedacinhos, literalmente, - o cada vez mais popular aborto induzido. Se sua mãe tivesse a seu dispor esta opção no agora longínquo 1955, talvez o mundo não tivesse iPods, iPads e iPhones, para ficarmos nas invenções mais recentes do gênio. E mesmo que ele fosse apenas um sujeito comum, que se limitasse a agir como os outros, o mundo teria perdido uma maneira ÚNICA de sorrir, de chorar e de amar. Assim, cada aborto torna o mundo um lugar menos humano, fraterno e amoroso, porque pressupõe que a vida humana pode ser destruída conforme as conveniências, quando, na verdade, deve-se destruir o pensamento de que a vida humana não vale mais do que um pedaço de carne mal-passada.

domingo, 25 de setembro de 2011

Estamos obrigados a aceitar os homossexuais?

A questão mais controversa da contemporaneidade é, na minha opinião, a homossexualidade. Ocorre uma dramática polarização quando se discute este assunto. Há opiniões muito diversas vindas de pessoas muito boas. Parece pairar uma insegurança e uma incerteza muito grande em relação à atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Será mesmo aceitável a chamada homoafetividade, como alegam os militantes gays? Ou estará correta a mais rígida ortodoxia cristã, que repudia as manifestações homossexuais ancorando-se na Bíblia e na Tradição? De fato, acredito que uma conversa sadia e produtiva sobre este assunto deve se iniciar de alguns pontos comuns existentes mesmo entre as opiniões mais díspares. Pode parecer que não, mas há vários pontos em comum na opinião dos militantes homossexuais e da Igreja cristã. A começar pelo reconhecimento de que a condição homossexual é inerente a algumas pessoas. Em relação ao surgimento desta tendência e se é possível ou não revertê-la as opiniões divergem, afinal, não há ainda nenhuma explicação plenamente satisfatória neste sentido. Entretanto, todos voltam a concordar que a pessoa homossexual deve ser integralmente respeitada, e que todo sinal de preconceito deve ser evitado.

Pode parecer pouco, mas não é. Se tivermos em mente que os homossexuais devem ser respeitados como as pessoas normais que são, poderemos perceber que grande parte da suposta controvérsia que existe entre os movimentos gays e a Igreja surge da mente de jornalistas inescrupulosos que, no desespero por notoriedade, não temem distorcer os fatos para oferecer aos seus leitores sua própria versão corrompida da realidade. De fato, todos os documentos da Igreja sobre a questão homossexual são escritos em tom de imensa caridade para com as pessoas que sofrem as dificuldades desta condição. Mas logo um infeliz coloca uma lupa sobre uma ou outra palavra pequena, e a descontextualiza, fazendo parecer que a Igreja é contra a felicidade dos gays. Ora, qualquer pessoa que tenha lido qualquer documento eclesiástico poderá ver por si próprio que a plena realização humana é o que a Igreja mais deseja para os seus fiéis e para a humanidade. Se há pessoas que verdadeiramente odeiam os gays e os perseguem injustamente, também é verdade que a Igreja é injustamente perseguida. Mais um ponto em comum entre os homossexuais e a Igreja: a perseguição preconceituosa e injusta que distorce a natureza de suas vítimas para difamá-las gratuitamente.

Considerados alguns dos aspectos que unem os movimentos homossexuais e a Igreja, podemos falar a respeito do que os desune com atitude menos apaixonada. De fato, os movimentos gays e os cristãos em geral estão em sério desacordo quanto à legitimação pública da homossexualidade. Para um fiel cristão, a pessoa homossexual deve ser respeitada, aceita e bem tratada sempre, mas se ela pretender exercer publicamente sua tendência deverá ser caridosamente admoestada. Para os movimentos gays, a recusa dos cristãos em aceitar o exercício público da homossexualidade representa tanto um moralismo antiquado quanto um preconceito. Como se vê, há, de fato, um imbróglio considerável. Trata-se mesmo de uma ferida aberta, que se recusa a cicatrizar. Como estudante de medicina, suponho que qualquer solução para este desentendimento inicia-se por não aumentar ainda mais o ferimento, seja pela sua manipulação inadequada, seja pelo derramamento de algum fator irritante sobre ele. Esta determinação, aliada aos vários fatores que unem cristãos e homossexuais na contemporaneidade, pode ser um início para a superação das dificuldades que, por vezes, realmente se apresentam demasiado cáusticas e complicadas.

Apesar disso, não seria sábio considerar um horizonte fácil e imediato para esta questão. A caridade no lidar com a situação da homossexualidade também deverá pressupor um respeito pela dificuldade do problema; só assim ele poderá ser lidado com justiça e correção. De fato, se há severas queixas da posição da Igreja pelos homossexuais, também é verdade que tanto a Igreja quanto grande parte da sociedade estão insatisfeitas com os modos agressivos e intolerantes com que muitos líderes gays estão exigindo que a homossexualidade seja aceita. É evidente que as pessoas homossexuais devem ser respeitadas e bem recebidas, este é um dos fortes pontos em comum já mencionados, mas também é verdade que as pessoas devem ser livres para estabelecer as relações sociais que quiserem. Ninguém deverá ser obrigado a ter amigos gays escandalosos, ou admirar casais homossexuais se beijando na rua, apenas para provar que é uma pessoa boa e tolerante. De fato, a tolerância é uma via de mão dupla. Enquanto não houver solução para a questão homossexual, os dois lados principais da disputa devem se respeitar mutuamente, e compreender que, cada um a seu modo, tem razões que os levam a acreditar em seus princípios.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A teoria da relatividade de Einstein na berlinda

Albert Einstein foi um dos maiores cientistas de todos os tempos; somente pessoas muito mal-informadas duvidariam disso. Este grande físico alemão foi responsável por uma verdadeira revolução na compreensão humana da realidade material. Por seu gênio indiscutível, iniciou-se um progresso tecnológico inigualável. Porém, a obra de Einstein foi muito erroneamente utilizada por diversas pessoas mal-intencionadas, como costuma acontecer com os feitos dos homens notáveis. Gente de má índole aproveitou-se da afirmação científica de que "tudo é relativo" para referendar seus juízos morais duvidosos e inaceitáveis. Aliás, poucas frases foram tão mal interpretadas como esta, da famosa teoria da relatividade. De fato, trata-se de uma intertextualidade inaceitável, pois os achados de Einstein são de natureza científica, e não moral. Ademais, Einstein é mais respeitado no meio científico por outros achados do que pela teoria da relatividade. O prêmio Nobel de física que ele ganhou, por exemplo, é devido a um estudo sobre uma propriedade física chamada efeito fotoelétrico.

Deste modo, não deixa de ser irônico que justamente a teoria da relatividade, tão usada e abusada indevidamente, tenha sido abalada em um de seus mais importantes fundamentos no dia de hoje. Uma equipe de cientistas do Cern, que analisa os dados do famoso acelerador de partículas construído na fronteira franco-suíça, divulgou que, sob determinadas condições, um neutrino pode se deslocar mais rapidamente que a luz (reportagem aqui). Esta é uma notícia de impacto porque a teoria da relatividade prevê que nada na natureza pode se mover em velocidade superior à da luz. O pequeno "c" daquela famosa equação E=mc2 (que chegou a ganhar contornos pop) refere-se à uma suposta única constante do universo: a velocidade da luz. Se, como o estudo de hoje indica, há situações em que outras partículas podem se deslocar mais rapidamente que um fóton de luz, então toda a teoria da relatividade precisa de revisão; um procedimento um pouco radical para uma teoria que já não gozava de total credibilidade. De fato, esta notícia só é surpreendente para aqueles que pensam que a ciência não evolui continuamente.

De fato, a ciência está em contínuo progresso. Acreditar que as proposições atuais são imutáveis é digno de pena. Como já mencionado, agem muito mal as pessoas que se utilizam de conhecimento científico para justificar seus pontos de vista, pois a ciência não oferece juízos sobre a realidade material; ela tão somente se limita a aferir dados da natureza. As conclusões que as pessoas tiram dos experimentos científicos são invenções delas, dependem muito mais das suas características psicológicas do que das proposições científicas em si. É lamentável que a ciência seja utilizada para justificar proposições que não se sustentam cientificamente. Pena que muitos destes preconceitos pseudo-científicos demorem tanto a cair; como supostamente se apoiam sobre teorias científicas, se há quem acredite neles, duram o mesmo tanto que durarem as teorias nas quais se baseiam. Deste modo, é bem-vindo mais este abalo à teoria da relatividade. Se já era risível alguém considerar que valores morais são relativos baseando-se na teoria de Einstein, de agora em diante será ridículo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para aprendermos com os próprios erros

Não acredito que o ser humano que conhecemos seja original. Menos originais ainda são os seus erros. Desde a aurora dos tempos, pode-se dizer que somos muito caracterizados pelos nossos deslizes, muitos dos quais dificilmente desculpáveis. Não se é de estranhar. Tanto que muitos acreditam que somos naturalmente inclinados ao mal. Entretanto, como seres dotados alguma capacidade racional e de auto-conhecimento, é também natural que queiramos reparar nossos erros e, na medida possível, não mais cometê-los. De fato, se errar é humano, persistir no erro é burrice.

Dificilmente ficamos sem notícias de algum erro escabroso, não é verdade? Enquanto não aprendemos que algum modo de agir é errado corremos o risco de cometê-lo. E, infelizmente, só o aprendemos verdadeiramente após realizá-lo. Nestes casos, não há saída: devemos assumir o erro com os prejudicados e desculparmo-nos. Melhor teria sido não cometer erro algum, mas talvez somente seres sobre-humanos sejam capazes desta perfeição. De fato, enquanto não abrirmos mão do desejo de fazer algo errado para escutarmos as pessoas experientes, corremos o risco de fazer o mal para nós e para os outros.

Enquanto não erramos, podemos aprender somente com a experiência alheia. Mas não lhe somos sujeitos se não somos capazes de combater nossas más tendências. É que sabemos que não gostaremos do que vamos ouvir. Se, por exemplo, alguém me perguntasse o que deveria fazer no caso de se encontrar muito inclinado a fazer algo que ele e todos sabem que está errado, eu simplesmente responderia que não o fizesse. Afinal, nada errado torna-se correto apenas porque alguém deseja realizá-lo. Somente é verdadeiramente amigo o sujeito que desaconselha seu próximo a fazer o que é errado.

Se a pessoa do nosso caso hipotético prosseguisse dizendo que cometeria seu erro independentemente de qualquer opinião, eu não me limitaria a recomendar-lhe que minimize as consequências do seu erro; antes, eu a aconselharia a assumi-las, afinal, dificilmente ninguém percebe nossos deslizes. Aliás, na maioria das vezes eles se tornam públicos, de um jeito ou de outro. É curioso que, queiramos ou não, somos pressionados a assumir nossos erros mesmo nos contextos mais relativistas; é que todos sabemos muito bem o que é certo ou errado, neguemos isso ou não.

Grande parte da beleza da experiência humana reside nisso: somos capazes de trabalhar nossos erros, aprender com eles, superá-los. Podemos avançar, evitando cair nas mesmas armadilhas novamente. Neste sentido, é particularmente importante a humildade, pois somente a pessoa de atitude humilde se reconhece necessitada da ajuda externa. O orgulhoso não é assim; ele se considera auto-suficiente. Não é toa, portanto, que o orgulhoso é o tipo humano mais perigoso, afinal, como se recusa a se tornar uma pessoa melhor, persiste prejudicando aos outros e, principalmente, a si mesmo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Finalmente se tenta associar o rock a algo bom

Dramaticamente adolescente, o rock causou asco em todos os lugares por onde passou, no século XX. Além da evidente perturbação musical do gênero, seus ideólogos sempre foram muito claros em indicar que se pretendia reformar a sociedade através dele. No lugar da normalidade institucional que tem milenarmente preservado a segurança de todos, pretendeu-se, através do rock, reforçar a revolução nos costumes, induzindo a sociedade ao anarquismo declaradamente. Mas, como a sociedade tende a ser muito mais sábia do que julgam aqueles que pretendem dominá-la com seu autoritarismo, o rock sempre esteve limitado a um pequeno círculo de adoradores, mesmo se considerarmos o auge de seu prestígio nos meios de comunicação. Nos tempos atuais, onde fazem cada vez menos sentido as guerras ou as disputas ideológicas apaixonadas, o rock está sendo continuamente diluído. Ironicamente, o rock que pretendia transformar o mundo está sendo transformado por ele; os seus costumes é que estão sendo reformados pela normalidade sensata que ele estupidamente pretendeu destruir.

Há exemplos de todos os tipos, mas o mais forte que chegou ao meu conhecimento é a iniciativa, da parte da organização do Rock in Rio, em lançar uma campanha publicitária televisiva convidando os participantes do festival a não levarem drogas ao evento. De fato, é uma iniciativa tão ousada e tão inusitada para um festival de rock que o maior blog de humor do país, o Kibe Loco, não teve receio algum em procurar ridicularizá-la. Mas a verdade é que, hoje em dia, o gênero outrora orgulhoso de seus excessos, de sua rebeldia, agora pode ser associado à consciência e à liberdade individual que ninguém reclama. Ironicamente, a campanha faz parecer que a energia do jovem que escuta rock pode ser usada para muitas coisas boas. Deve-se concluir que a única parte ruim da personalidade dos jovens que vão ao Rock in Rio é aquela responsável por eles gostarem de rock? Não sei. Apenas acho que mesmo a arrogância e a prepotência mais estúpida tem seus limites. Afinal, até mesmo o rock, que se pressupôs reformador da sociedade e referência em certo e errado, pode ser hoje inspiração para jovens que não mais aceitam passivamente os corrosivos pressupostos da modernidade.

ps: atenção para o Rogério Flausino gordinho sacolejando aos 2:01 minutos.

domingo, 28 de agosto de 2011

Chorando pelo UFC

Há pessoas de todos os tipos, felizmente. Há aquelas que urram de alegria ao verem brutamontes se arrebentando no UFC (o boxe dos nossos tempos). Há aquelas que, diante de tamanha demonstração de brutalidade, choram. Foi o que testemunhei ontem, durante o primeiro evento UFC realizado no Brasil; mais precisamente no Rio de Janeiro. Eu estava em uma festa de família (um chá-bar) quando o evento começou a ser transmitido pela RedeTV!; em pouco tempo a maioria dos homens presentes estava grudada na televisão, acompanhando entusiasmada a pancadaria. Eu, que sou fã de UFC desde que frequentei uma academia que retransmitia essas lutas ao vivo, era um deles. Mas as mulheres ainda estavam distraídas com os presentes que a noiva ia abrindo aos poucos. Assim, quando minha irmã mais nova chegou para ver do que se tratava, já estava no ar a revanche entre o brasileiro Shogun e o norte-americano Forrest Griffin (Shogun perdera o combate anterior entre eles). Para alegria dos marmanjos presentes no HSBC arena (e no chá-bar da minha prima), Shogun teve uma vitória acachapante logo no primeiro round, que terminou com uma violentíssima série de socos diretos no rosto do adversário caído. O juiz logo interrompeu a luta e declarou vitória por nocaute para o brasileiro. Todos se divertiram à beça, mas, em um canto, minha irmã chorava discretamente. Não procurei saber do que se tratava, talvez porque, por insensibilidade masculina, logo me pareceu que seria alguma frescura de mulher. Assim que minha outra irmã foi falar com a que chorava, dei o assunto por resolvido, principalmente porque a luta final da noite, outra revanche, esta envolvendo o grande campeão Anderson Silva (e colocando o seu título em disputa), já era a próxima.

De fato, parece contraditório que um pacifista com eu fique entusiasmado com o UFC; mas se devemos evitar a violência e a brutalidade, e se é supostamente impossível vivermos absolutamente livre delas, então o melhor a se fazer é tentar conviver com elas da maneira mais pacífica possível, disciplinando-as, inscrevendo-as nas práticas sociais; em suma, dando-lhes sentido. Assim, penso eu, deve ser encontrado um meio termo no qual possa ser atendida a demanda da maioria que gosta destes espetáculos de sangue, sem que o exercício da violência ameace a segurança de todos. Atribuir tal risco ao UFC seria um tremendo exagero, afinal, ele já está socialmente autorizado. De fato, talvez seja inútil tentar esquecer o selvagem que cada um de nós traz em si. E, como não é possível ignorá-lo, o melhor a fazer é discipliná-lo. Aí talvez possamos abordar a questão corretamente. Em se tratando destas paixões bestiais, Platão recomendava que não as procurássemos abolir completamente, pois correríamos o risco de nos paralisarmos, dirigindo toda a nossa energia para a contenção do irrefreável. Quase dois mil anos depois, Freud disse algo muito semelhante: se tentarmos conter o id (nossa força animal) pela repressão, podemos desenvolver terríveis neuroses, de modo que o mais sensato a se fazer é realizar uma negociação entre nossas diferentes faculdades mentais; o id (a mais ancestral), o ego (das emoções) e o superego (da inteligência e do raciocínio abstrato). Assim, o humano emerge pleno da confluência destas forças imperativas. Ao se bloquear uma delas, desaparece o humano. Apesar disso, ainda é bonito ver mocinhas sensíveis horrorizadas pela brutalidade. Afinal, elas lembram aos brutamontes que o humano não se limita à violência gratuita de um orangotango, mas se faz também pela sofisticação do pensamento e das emoções.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Enlutado e malhando

Úrsula Ximenes era uma pessoa que, enquanto esteve neste mundo, sempre desejou o melhor para todos, especialmente para seus amigos, categoria afortunada em que eu me incluía. Mas ela partiu, e deixou um vazio enorme em nossos corações. As duras circunstâncias em que Deus nos levou esse anjo exigiram de muitos uma maturidade e uma fé que a maioria certamente não possuía. Aos 21 anos de idade, Úrsula feriu-se gravemente em um acidente de carro no qual seu pai morreu na hora. A seguir, esteve em coma por três longas semanas, durante as quais não sabíamos exatamente o que pensar, porque os relatos que chegavam até nós eram muito variados. De fato, essas três semanas foram piores que a mais radical das montanhas-russas; alternaram momentos de sufoco com outros de alívio. Certas horas parecia que ela se recuperaria, outras vezes nos davam relatos nada otimistas. Maior ainda foi a angústia daqueles que tinham ouvido os terríveis prognósticos médicos da Úrsula, como eu, pois não parecia propício contá-los aos outros colegas, que expressavam continuamente o desejo de que ela se recuperasse logo e plenamente. Então, durante essas três semanas, vivemos eu e alguns outros amigos a situação extremamente insólita de saber o que a medicina tinha para dizer sobre a Úrsula e, ao mesmo tempo, conviver com colegas muito iludidos sobre o estado dela. Quinta-feira passada, dois dias antes do falecimento da nossa amiga, reverteu-se esse quadro.

Duas amigas nossas foram vistas saindo da coordenação da medicina aos prantos. Todos logo quiseram saber o que acontecera. Muitos temeram pelo pior. Mas a Úrsula não tinha falecido, ainda. Elas estavam emocionadas porque um professor nosso, que vira as ressonâncias do cérebro da nossa amiga, disse-lhes que a probabilidade maior era que ela ficasse em coma para sempre. À medida que a notícia se espalhava (estávamos aguardando o início de uma aula), as pessoas iludidas pelos próprios bons sentimentos eram cruelmente chamadas à realidade. Como representante da minha turma, solicitei ao professor que não continuasse a aula há pouco iniciada, pois todos não estavam mais em condições de prosseguir. Ali começou o nosso luto, dois dias antes da Úrsula partir. Mesmo eu, que sabia o estado real dela, senti-me muito abalado; que dirá aqueles que esperavam que, em duas semanas, ela estivesse de volta. Se ao menos quisessem saber logo o que a medicina tinha a dizer sobre o caso, o seu choque seria menos extremo, mas preferiram uma vã esperança humana, que logo se desfez brutalmente. Desde esse dia não consegui mais fazer minha corrida diária. Também não consegui mais lavar louça alguma. E comecei a comer muito mais que o necessário. Passou-se outro dia (sexta-feira). Acordei na manhã de sábado com um telefonema de um amigo informando o falecimento da Úrsula. Faltou-me o chão e, ainda hoje, faltam-me as palavras.

Faltaram também quaisquer regras. Sábado e domingo foram dias de cabeça muito bagunçada, nos quais limitei-me a homenagear minha amiga nas cerimônias previstas. Escrevi que a Úrsula não nos queria paralisados, mas era como eu me sentia. Parecia que meu estômago ia explodir a cada refeição que eu terminava, de tanta comida eu ingeria. O estresse emocional causou-me aftas em toda a boca. Colocar o tênis de corrida e sair por aí como costumo fazer parecia a mais insólita e dura das tarefas, tanto que continuei sem malhar. Chegou então a segunda-feira e o retorno das aulas. A primeira delas transcorreu bem. Antes da próxima aula, porém, uma colega que dormira muito pouco apresentou um vídeo feito por ela com fotos da Úrsula. O vídeo estava extremamente bem-feito. À medida que avançava, mais e mais pessoas soluçavam de chorar. Eu fui me contendo, certo de que precisava de fortaleza. Mas a amiga que fez o vídeo concluiu-o com as palavras finais do texto que eu lera no culto de despedida para a Úrsula. Para cada frase, uma fotografia. Desabei, porque bem sei o que pretendia dizer com cada uma delas. Iniciou-se um estado de total comoção entre meus colegas. Chegou uma professora meio durona que, após breves palavras, iniciou sua aula. Certo de que os alunos não aprenderiam nada, tentei explicar que era melhor que não houvesse aquela aula, mas ela se desculpou dizendo que precisava cumprir aquela obrigação (no que estava certa) e continuou.

A maioria dos meus colegas esforçou-se por assistir a aula toda, mas vários não se contiveram e saíram. Quando a aula acabou, fomos conversar com nossa coordenadora, para que nos liberasse das aulas àquele dia. Ela não pôde fazê-lo porque nenhuma pessoa capaz dessa decisão estava presente na instituição naquele momento. Decidimos ir embora. Fizemos todos uma oração de mãos dadas ali por perto e houvemos por bem almoçarmos juntos; para isso, fomos à casa de uma amiga. Comi um pouco menos do que nos dias anteriores, mas, mesmo assim, alguns se surpreenderam. Fizeram até piada. E ficamos ali conversando, combinando um culto em memória à Úrsula na faculdade, acertando detalhes de uma camiseta em sua homenagem e fazendo companhia uns aos outros na tribulação. Enfim, empanturrado de estrogonofe (e muito cansado por várias noites mal dormidas), fui para casa dormir um pouco. Quando acordei, senti-me bastante renovado. Toda aquela paralisia parecia ter ido embora. Pus logo o tênis e fui encontrar-me com minha amiga de todos os dias: a rua. Pensava na Úrsula a cada passada, sem exagero. Estava profundamente enlutado, mas não mais dominado pela tristeza, como certamente seria a vontade dela. Cheguei em casa e lavei a louça de quatro dias, sentindo-me muito aliviado por fazê-lo. Sabia que chegara a hora de fazer pelo menos o mínimo, para, com fé, chegar ao possível e, depois, ao ideal. Façamos isso todos nós, seus amigos; é a vontade da Úrsula para todos que a amavam!

domingo, 14 de agosto de 2011

Rosas brancas para um anjo

Cheguei há pouco dos serviços finais para a grande amiga Úrsula Ximenes. Houve um culto seguido do sepultamento, ambos testemunhados por centenas de pessoas. Li a carta que eu escrevera ontem, enquanto estávamos vários amigos nos consolando uns aos outros. No meio dessa tristeza toda, foi uma pequena alegria perceber que a carta serviu para demonstrar aos familiares e demais amigos da Úrsula como ela era querida pelos seus colegas da medicina. Entreguei uma cópia para sua mãe e outras para seu irmão e seu noivo. Assim que o corpo era retirado do templo, algumas pessoas manifestaram o desejo de ler o que eu havia escrito. Passei-lhes o endereço do blog, e publico agora, para conhecimento deles, o texto escrito com tanto carinho; uma pequena manifestação dentre tantas outras, afinal, a Úrsula era uma pessoa muito querida. Estou certo de que continuará a sê-lo por toda as nossas vidas. Mereceu todas as outras manifestações de apreço que recebeu de todos os seus parentes, dos ministros da sua congregação e da imensidão de amigos que conquistou durante sua vida com seu jeito alegre e verdadeiro. Foi uma satisfação para nós, da turma 54, termos tido a oportunidade de demonstrar nosso carinho por ela. Não somente pelo texto que li, representando a todos nós, mas também pelas lágrimas amarguradas, pelos espíritos atribulados e pelos abraços apertados. Também foi muito bela a concretização da ideia da mãe de um amigo nosso: comprarmos 63 rosas (o número de alunos da nossa turma) e lançá-las sobre nossa amiga em seu sepultamento; rosas propositadamente brancas, em lembrança à medicina que a Úrsula tanto amava. Várias pessoas presentes emocionaram-se com este gesto. Foi triste sim, mas, pelo que significava, foi também muito belo. Enfim, recebam as palavras daquela carta certos de que foi apenas um pequeno gesto dentre tantos outros, de pessoas que amavam muito a Úrsula, tanto ou muito mais do que eu.

Volta Redonda, 13 de agosto de 2011

Aos familiares e amigos de Úrsula Ximenes,

Úrsula Ximenes sempre será para nós, seus colegas no curso de medicina, muito mais que uma amiga. Enquanto estivemos em sua companhia, ela foi para nós uma verdadeira irmã. Sempre sorridente e alegre, ela diariamente nos motivava a sermos bons estudantes pela sua dedicação e entusiasmo. E não apenas isso; por seu coração generoso e disponível, a Úrsula será continuamente inspiração para que sejamos pessoas melhores, mais íntegras, corretas e verdadeiras. Como seguidora de Jesus Cristo, ela anunciava o Evangelho com o destemor daqueles que não receiam ser incompreendidos em um mundo cada vez mais carente de valores morais. E o fazia sempre com alegria; sem nunca incomodar quem discordasse dela. Mas todas essas palavras são vãs, porque quem a conheceu sabe que seu jeito de ser e suas qualidades não podem ser expressas verbalmente. Só quem já testemunhou a espontaneidade dela sabe como a Úrsula era uma pessoa especial. Por tudo isso, tem sido grande o nosso sofrimento nessas últimas semanas. De fato, sentimos muitíssimo por tudo o que ocorreu. Se também aqui não há palavras que possam expressar o que temos passado, sequer podemos imaginar a dor de seus familiares, a quem dirigimos hoje nossas sinceras orações. Afirmamos nossa disponibilidade total a sua mãe, seu irmão e seu noivo e esperamos, sinceramente, que Deus possa consolá-los em seus corações. Porque temos certeza que a Úrsula não gostaria que ficássemos paralisados pelo sofrimento, devemos nos esforçar para dar continuidade a nossas vidas. Como boa cristã, ela sabe que o fim último da existência humana é a ressurreição em Deus. Assim, cientes desta verdade, confiamos que o exemplo dela continuará nos inspirando a partir de agora, afinal, sempre teremos na lembrança a gratuidade do seu sorriso, a sinceridade de suas palavras, a firmeza de seus princípios, a generosidade de seu coração e a fortaleza de sua fé. Deste modo, a Úrsula sempre estará conosco; sempre será da Turma 54. Seu exemplo nunca nos abandonará. Estará em nossos corações eternamente, reluzindo como a estrela brilhante que ela sempre foi e sempre será.
  
TURMA 54

Flores para uma flor - o encanto de Úrsula Ximenes

Perdi ontem uma grande amiga minha, colega do curso de medicina, com 21 anos de idade. Esteve em coma induzido por quase três semanas, após uma acidente de carro gravíssimo, no qual seu pai, o condutor, morreu na hora. Pode parecer clichê, mas esta menina, a Úrsula Ximenes, era mesmo uma pessoa muito especial. Amiga de todas as pessoas, tinha tantas qualidades que escrever um texto sobre a dor de sua perda é um problema insolúvel. Poderia falar de sua alegria, de sua espontaneidade, de sua gratuidade de espírito; uma pessoa muito autêntica, inteligente e bonita. Pensava em especializar-se em oncologia, e estava com casamento marcado para dezembro. No velório estavam sua mãe, separada de seu pai, seu único irmão, e seu noivo, todos muito entristecidos. Também os meus amigos e eu, da turma 54 da UniFOA estávamos muito tristes, e mesmo pessoas que pareciam mais fortes desaguaram a chorar diante da acidentada figura envolta em melancólicas flores brancas. A Úrsula era leitora do blog e volta e meia comentava um texto ou outro comigo. Religiosa, gostava particularmente dos meus argumentos contra o ateísmo, mas se ressentia um pouco por achar que eu ainda era muito condescendente com os ateus. Na opinião dela, eu poderia ser ainda mais incisivo em minhas críticas.

Desconsolado, um amigão em especial comentara alguns dias atrás com uma parente sua que não compreendia como Deus permitira que algo assim acontecesse com uma menina tão boa, tão religiosa. Não tive ainda a oportunidade de responder-lhe, também porque quero respeitá-lo integralmente em sua dor. Mas talvez a resposta seja menos difícil do que parece. Para compreendê-la, é preciso discernir as possíveis diferenças entre a vontade de Deus e a nossa vontade. Será mesmo que Deus colaboraria conosco se nos premiasse com todos os nossos caprichos? Assim, se lançarmos um olhar sobrenatural sobre a realidade à nossa volta, talvez possamos colocar em perspectiva as ocorrências que nos circundam, e ver que o fim delas, o sentido final de tudo, não se resume à realização de belos sonhos humanos, muito menos de projetos de prosperidade financeira. O sentido da realidade da vida está em como aproveitamos o tempo que temos - se construímos edifícios de amor ou se nos ocupamos em arruinar o trabalho dos outros. Nesta perspectiva, 20, 40, 60 anos são como breves minutos diante da eternidade de Deus. Ainda que eu viva mais 80 anos, é certo que verei a Úrsula novamente muito em breve, ainda que, humanamente, não se nos pareça assim.

Se tivermos esta perspectiva consolidada, veremos como Deus não é um tirano cruel; é antes um jardineiro cuidadoso, que sabe a hora de colher suas rosas. Para mim, é firme a convicção de que nossa amiga estimada já adorna a morada celeste com sua alegria e suas trapalhadas inconfundíveis. Deve estar em constantes brincadeiras com os santos anjos. Talvez aqui não fosse mais o seu local. Alguns da turma 54, eu incluso, passamos a tarde na casa de um amigo (a notícia da morte de Úrsula foi dada pela manhã). Enquanto não obtínhamos informações sobre o velório, conversamos, choramos, lembramos, calamos. Alguém sugeriu que eu escrevesse uma carta para entregarmos ao familiares, como homenagem nossa à amiga estimada. Redigi uma carta que menciona os vários encantos da Úrsula, e como ele nos faziam constantemente mais felizes. No velório, no qual estive até agora há pouco, o irmão dela perguntou se queríamos fazer uma homenagem a ela. Logo pensamos em ler esta carta. Mas, como a própria carta menciona, é impossível colocar em palavras tudo o que sentimos pelo privilégio de termos convivido com esta pessoa especial. Ainda que este episódio fira o nosso coração anos a fio, é certo que Deus se valerá dele para tornar-nos pessoas mais parecidas com a Úrsula.

De fato, a dor não desaparecerá em poucos instantes. Mas os exemplos que a Úrsula nos deixou, em virtude das circunstâncias duríssimas com que ela foi retirada de nós, ficarão profundamente gravados em nossas almas. É como se um retrato detalhado da personalidade dela fosse firmemente impresso em nossos corações. Deus certamente pretende que todas as pessoas que a admiravam finalmente tomem o propósito de se aproximar dEle, como sempre foi o desejo dela. A partir de agora, como poderemos aceitar que nossa Bíblia pessoal fique empoeirando no fundo de alguma gaveta? Chegou a hora, turma 54, de tirar este pó. O Evangelho de Jesus Cristo está aí para ser meditado. Se o ignorarmos, seremos pessoas muito diferentes da Úrsula, uma menina iluminada cujas lindas virtudes emanavam diretamente do coração de Deus, não tenham a menor dúvida disso. Para imitá-la, vocês sabem muito bem, não é necessário ser careta. Pode-se muito bem ser uma pessoa muito alegre e meditar diariamente a Palavra de Deus, para que, assim, nos aproximemos de Seu coração amoroso de Pai, e vejamos qual é, enfim, o plano magnífico que Ele tem para nossas vidas. Não se iludam por um instante sequer: a vida da Úrsula acabou nesta terra porque Deus teve pressa de fazer que uma nova vida para ela começasse no Céu.