Será que o mundo irá acabar um dia? Isso mesmo. Será que, de uma forma ou de outra, a existência da humanidade neste pequeno planeta está fadada à extinção? Seria possível prever um acontecimento dessa natureza? Ouvimos esse tipo de questionamento desde que somos crianças. Parece que há um certo fascínio do homem em saber o seu destino, em saber o que o acaso lhe reserva. É um fenômeno generalizado. A última onda é interpretar o obscuro calendário maia que, segundo alguns polemistas profissionais, marca o ano de 2012 para o fim deste mundo.
Eu não acredito nessa previsão. Nesta e em nenhuma outra, mas me divirto com a curiosidade das pessoas: "Henrique, você já ouviu falar que tem gente que acha que o mundo vai acabar em 2012?" Já me perguntaram isso. Eu nunca tinha ouvido essa história antes de me perguntarem a respeito ano passado. Talvez seja o ano em que o consórcio franco-suiço finalmente conseguirá fazer o acelerador de partículas funcionar! (estou brincando, ok?)
Curioso mesmo eu fiquei ao saber que o diretor Roland Emmerich, de Independence Day, Godzilla e O Dia Depois de Amanhã, está fazendo um filme sobre o tema. O nome do trabalho será... 2012! E será lançado em novembro deste ano. Acabei de ver o trailer oficial. Aqui está:
Uma das primeiras coisas que salta aos olhos é como o filme procurou associar-se à temática religiosa. Alguma coisa tem! "Onde há fumaça, há fogo", dizem os antigos. A peça começa pelo "aviso" que os longínquos maias nos teriam feito. Naqueles templos que aparecem no início do trailer eram praticados sacrifícios humanos em honra aos deuses. Vê-se então os planetas alinhados, chuvas de raios e um eclipse. Uau! É uma verdadeira teofania: chamem o pajé! Vai ser preciso reza braba!
Segue-se um jornalista noticiando algo sobre as previsões dos maias e, para nosso susto, aparece o Cristo Redentor se desfazendo no topo do Corcovado! Árvores explodem em altíssima velocidade, sugerindo uma explosão atômica. Protestos! Muçulmanos orando em Meca. A burguesia ocidental assustada em algum pub. Aves em profusão, como mencionado no Apocalipse (é também uma menção ao filme Pássaros, de Alfred Hitchcok). Vê-se então o papa na bancada da Basílica de São Pedro, diante da praça lotada de fiéis.
O herói do filme aparece brincando com os filhos dentro de um carro e, em poucos instantes, chovem meteoros do céu. As ruas e prédios começam a se desfazer como manteiga. Por fim vem abaixo a Basílica de São Pedro inteira, onde pobres cardeais estavam em oração. Vê-se o interior e o teto da Capela Sistina, mais especificamente o afresco da criação de homem. Uma rachadura abre o painel separando a imagem de Deus da de Adão. É a forma do cineasta avisar: "a harmonia que sustentava este mundo está rompida. É o fim!" O resto é só tragédia e a tentativa desesperada dos sobreviventes de se salvarem.
O que importa aqui é: por que associar tão descaradamente o fim do mundo ao catolicismo? Poderiam ter escolhido destruir, por exemplo, um grande templo evangélico. Ou talvez a torre Eiffel. Ou ainda a boa e velha Casa Branca (se você é um observador atento já reparou que não é bem assim). Por que então basílica vaticana? A Capela Sistina? O Cristo Redentor? É porque dessa vez é sério: é o fim do mundo. E o fim do mundo é assunto dos católicos. Por alguma razão desconhecida, credita-se a eles o título de especialistas na matéria.
Não falarei grandes novidade aqui, mas parece-me que algumas coisas são óbvias. Antes, quero relembrar o sucesso do livro O Código DaVinci e suas suspeitas mirabolantes. O fascínio que esta sub-literatura exerceu e o efeito pretendido com este filme são semelhantes: reserva-se aos católicos alguma espécie de grave poder sobre o desconhecido. É como se lá, na basílica vaticana, estivessem guardados os maiores segredos. Parece que quando "o pega é pra capar" deve-se chamar os caça-fantasmas de batina, os exorcistas da água-benta. Eles é que sabem o que fazer nessas horas. Mostrá-los refém da intempérie máxima é, portanto, a forma mais dramática de dizer que "f*deu". Se nem eles conseguem sair dessa é porque a coisa tá feia.
É que a Igreja Católica é o único lugar onde o sagrado é realmente sagrado. Trata-se da única instituição sobre o planeta onde as coisas não parecem feitas de manteiga - tanto é assim que mesmo quem não é católico estranha muito quando aparece um padre vestido com roupas modernas, ou outro fazendo a "aeróbica do Senhor". Espera-se deles uma profunda gravidade e solenidade de modos. Lá vive-se o que se ensina e, quando não é assim, todos se escandalizam de verdade. É como se sobre esta Igreja estivessem todas as expectativas. Os ventos mudam, e com eles tudo se agita: o mar e os céus se rebelam. A Igreja, todavia, permanece sólida sobre a rocha. Destruí-la tem, portanto, mais efeito que estourar o planeta inteiro com todo o arsenal atômico disponível.
No momento esta é minha opinião: recorre-se ao catolicismo porque lá as coisas são constantes. Lá não se voa ao léu. Mexer com a Igreja é como mexer com o assunto mais sério disponível - tudo o mais é inscontante e passageiro. Num mundo onde tudo derrete, onde tudo é efêmero, a solidez reluz como o cristal mais precioso. Em terra de cegos quem tem olhos é rei. É por isso que seus inimigos odeiam-na com todas as suas forças, e seus filhos amam-na com a mesma intensidade. Quer destruir o mundo? Já sabe por onde começar. Ou você vai confiar no pajé? Roland Emmerich já fez a sua escolha: vai colher um sucesso de bilheteria.
1 comentários:
O texto está muito bem escrito, mas sinto avisar que a Terra vai cabar, um dia, como tudo quando se trata de matéria.
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