Michael Jackson foi o Mozart dos nossos tempos, não estou brincando. Estou falando sério. Trata-se do maior artista de nossa era. Ninguém se lhe equipara. Agora que ele se foi pode-se perguntar: "Quem é o maior artista vivo?" E ficamos claramente sem resposta.
Tivesse ele se dedicado à música erudita seria um dos maiores de todos os tempos. O fenômeno ali ultrapassou todas as expectativas, como no caso dos grandes gênios. Em outro post discuti sobre o ideal doentio de genialidade da nossa sociedade. Você encontra o texto aqui. Todavia, este texto é sobre outro assunto - é a elegia merecida ao astro, com suas contradições e sinais.
Michael Jackson, o maior artista de nossa era, dedicou-se ao pop. Esse monstrinho feio que ele elevou à categoria de grande arte. O que é bom do gênero? Michael Jackson e só. Qualquer outra coisa é exceção. A regra é clara: Michael Jackson é o único artista verdadeiramente bom que andou por essas bandas.
O fenômeno é também de comunicação. Tivesse ele se dedicado à música erudita e o máximo que se diria dele, por ocasião de sua morte, é que se tratava de um grande músico - como aconteceu recentemente com Luciano Pavarotti. Nada dessa imensa comoção mundial. Respira-se Michael Jackson estes dias. Eu, pelo menos, tenho pensado muito nele. Fica um vazio em todos nós. O pequeno era um gigante.
À diferença do que ocorre na Grande Arte, onde o deleite só é completo após uma devida iniciação, o pop vai aonde o povo está. Simplificando: há entre ambos uma diferença fundamental - enquanto o erudito exige que o ouvinte seja uma pessoa de ampla educação, lida, instruída, o pop se aproveita do que as massas já são. O pop como que recicla o estado da sociedade e apresenta um resumo estético. Não exige nada das pessoas.
A genialidade de Michael Jackson foi a extensão e qualidade de sua percepção. Ele intuiu com grandeza de gênio a direção a seguir. Errou nos últimos anos, não na arte, mas na vida. O seu ego perturbado assumiu o controle da personalidade. O gênio foi sufocado pelo escravo. Desapareceu com o séc. XX. A sociedade pós-moderna é multi-facetada - criou tribos e, com isso, sufocou a grande pretensão universalista de Michael Jackson. Precisamente onde estava seu maior talento - a capacidade de sintetizar o mundo - o novo estado das coisas o atingiu em cheio. Não era mais possível resumir o status quo.
A ascenção de Michael Jackon foi possível somente pela televisão. Não foi a toa que ele a utilizou a exaustão. Esse eletrodoméstico entrou na casa de todos e um dos primeiros grandes espetáculos de milhões de pessoas (literalmente) foi Thriller. Não era preciso ter lido Nietzsche para compreender Michael Jackson; bastava estar vivo. A comunicação era instantãnea. É, portanto, um fenômeno que deve muito à inclusão tecnológica. O processo de expansão educacional pode, juntamente à pós-modernidade, matar o pop, ou ao menos restringi-lo às camadas mais baixas e menos estudadas da sociedade. Não é muito difícil ver isto. Quem fez faculdade sabe que a modinha entre os universitários é sempre diferente das rádios. Quando o forró é irresistível precisa-se adaptá-lo - surge um tal "forró universitário", diferente daquele dos barzinhos dos nordestinos.
Sem a televisão Michael Jackson não teria existido como existiu. A onipresença da tv levou à onipresença de Michael Jackson. Uma coisa está inseparável da outra. Quantas vezes fiquei até a tarde da noite de domingo para ver o novo clipe do astro no Fantástico?!
A explosão do pop, com vários outros artistas imitando Jackson, é uma questão profunda. O movimento de inclusão pela ignorãncia não se restringe a Michael Jackson. Note-se bem: a inclusão antes vinha do conhecimento adquirido através do estudo dos clássicos - Luís de Camões, Padre Antônio Vieira, Santo Agostinho, Immanuel Kant, dentre muitos outros. Todas pessoas estudadas tinham noção básica de sufixação em latim e vocabulário mínimo em grego. O desespero em incluir milhões na sociedade de consumo, notado em diversos países ao longo do séc. XX, ajudou a inverter essa lógia. Criou-se a necessidade de uma inclusão feita às pressas, uma inclusão pela ignorância mesmo, onde os clássicos são todos ignorados. O que importa é tão somente trazer a periferia para dentro. E ela, periferia, não precisa aprender nada para fazê-lo. Os ideólogos dessa inclusão as avessas acham que a sociedade inteira é que deve se adaptar na aceitação incondicional de todos os dogmas superficiais de quem nunca abriu um livro na vida. É uma completa subversão de valores: a mais dramática em curso. Qualquer coisa que se diga contra esse processo é logo taxado de abominável preconceito.
Oras, muito mais sério e destrutivo é o preconceito contra o conhecimento, contra os clássicos, contra a educação. A educação mata o pop, aniquila-o por completo - mina as suas raízes. Chegou a hora de enterrá-lo, apesar das suas delícias. Ou então, como Michael Jackson, alcá-lo à categoria de grande arte - assim, não apenas sobreviverá, como terá longa vida. É o que aconteceu com o samba, por exemplo, que era música de malandros, de bandidos, e foi totalmente remodelada com o explícito objetivo de ser aceita. Gênios como Paulo da Portela e Cartola lançaram-no à categoria de grande arte e, assim, durará milênios. Não é fenômeno nada novo. A matriz musical de Mozart é o folclore austríaco. Um entendido de música sabe do que estou falando.
Alguém imagina, por exemplo, que tal inclusão será possível de se fazer com o funk? Não será. A menos que um Michael Jackson, um Cartola, um Mozart, se apaixone pelo gênero. A inclusão pela inclusão é um vício marxista (você não muda de disco não Henrique?). Quisera! Acho que antes a ignorância deve ser devastada pelo conhecimento. Não são as trevas que iluminam - é a luz. Esses grandes gênios são como guias que retiram a escuridão dos nossos olhos, guiando-nos à verdade.
O belo está no merecimento. Por isso, após muito refletir, posiciono-me absolutamente contrário às cotas raciais. Que os negros conquistem seu lugar na sociedade através do esforço, como tantos imigrantes o fizeram. Não aceito nada dessa ladainha esquerdista de que são coitadinhos explorados por séculos e séculos. Não são não! São pessoas plenamente inclusas em nossa sociedade. Subir na vida não é tarefa coletiva. É tarefa individual. Sobe na vida quem quer. Não foram um nem dois os negros que o conseguiram. Que os outros o consigam também, tão somente se quiserem. Não tenho nada contra negros, mas tenho tudo contra coitadinhos - que é só uma roupagem diferente da covardia.
Portanto, não à inclusão pela inclusão! Que todos que a desejam façam por merecê-la. Lutem! Teria Michael Jackson a mesma importância se o "partido" o tivesse alçado à categoria de grande artista por promover a mensagem revolucionária? Claro que não. Os artistas "revolucionários" da União Soviética são hoje motivo de piada. Sua arte não é verdadeira: não transpira verdade. Pelo contrário, é produto dos ideólgos de propaganda do estado totalitário.
A verdade sempre passa pela liberdade. Acabo tendo que voltar a esta raiz. Michael Jackson escolheu se tornar o Jacko ridicularizado pelos tablóides. Ele tinha todo o dinheiro do mundo para contratar os melhores psicólogos e psiquiatras. Escolheu a própria opinião. O fato de ser gênio da música não o tornava gênio da medicina - como sua morte estúpida bem o demonstra.
Sei lá. Toda a vez que alguém chega no meu cangote falando de inclusão penso em homens como Michael Jackson, Cartola, Villa-Lobos, Mozart: não precisaram de inclusão nenhuma. Todos esses grandes músicos subiram a escada degrau a degrau. Cartola, para não passar fome, depois de famoso!, foi lavar carros em Ipanema. A morte da mulher amada roubou-lhe o gosto de viver. Só retornou a fama depois de ser dado por morto em Mangueira. Qualquer outra coisa que não seja esse sacrifício de dia após dia é roubar no jogo. É desprivilegiar os outros. Para cada negro aprovado em vestibular na 803a. posição (estou falando sério), teve um branco que passou em 87 que foi foi reprovado. Isso é justiça? De modo algum. Morte ao pop! Que ele descanse em paz com Michael Jackson. Ou que viva longamente através de um talentoso pupilo. A minha rosquinha não dou pra ninguém. O resto é o resto.
terça-feira, 30 de junho de 2009
O pop - da genialidade de Michael Jackson à inclusão da ignorância
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4 comentários:
Michael Jackson 2 vezes?? Isso anda ocupando muito espaço em sua mente mesmo hein!
Michael Jackson 2 vezes?? Isso anda ocupando muito espaço em sua mente mesmo hein!
A diferença é que hoje, diferentemente dos 80s, as gravadoras tinham um cara que exercia o poder máximo de decidir o que vc iria ou não ouvir: o diretor musical. O ouvido do cara era um verdadeiro penico. Ele escolhia o que virava sucesso e o que ia pra gaveta. Hoje, com internet, qquer um pode tornar sua música um sucesso antes de ter um contrato com gravadora assinado. Aliás, hj ela só contrata se já é sucesso. Por isso tem tanto lixo por aí. MJ era um telento, sim, mas que só virou o que virou pq ele tinha um guru por trás de seus maiores sucessos chamado Quincy Jones. Não haverá outro MJ sem um Quincy. Ou melhor, haverá por períodos muito curtos. Quem será o MJ da semana que vem?
Sem dúvida, Gustavão! :)
Esse negócio de "MJ da semana que vem" não tá com nada mesmo! :)
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