sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Michael Jackson do séc. XVI

Pesam sobre Michael Jackson, o artista mais popular da nossa era, graves acusações de abuso sexual de crianças, dentre outras bizarrices. Seu comportamento era reprovável em praticamente todos os aspectos. O que alçava-o à categoria de semi-deus era sua arte. Michael Jackson foi uma pessoa improvável - um gênio. Diversas vezes ele discorreu sobre sua dificílima infância - recheada de episódios de abuso pelo pai autoritário e violento. Michael era obrigado a ensaiar horas a fio por dia. Tinha uma rotina pesada. A qualquer vacilo era punido com surras severas. Seu talento emergiu por várias razões - as mais destacadas são: o trabalho intenso e aquilo que eu gosto de chamar de o imponderável. Apenas com o trabalho ele seria como muitos outros. Se ao imponderável não se somasse o esforço contínuo seria como um meteoro fugaz. No entanto, sua arte durou muito - toda a sua vida.

Mas o fenômeno não é nada novo, tampouco se restringe à arte. Após a notícia da morte do "Rei do Pop", pensei muito na figura de D. Sebastião, Rei de Portugal. Sobre este pesou uma tensão emocional ainda mais forte - a nação toda como que dependia do seu nascimento. Para se ter uma ideia, o parto foi em praça pública. O recém-nascido foi erguido diante dos populares, para delírio geral. Michael Jackson empalidece ainda mais (se isto é possível) diante de tal figura. Todas as expectativas repousavam sobre aquela criança. D. Sebastião cresceu cercado de mimos - foi coroado Rei de Portugal aos três anos de idade. Assim como o "Rei do Pop", teve uma infância sob os holofotes da fama. Para piorar, o destino da pátria dependia dele. Não nos assustamos, pois, ao saber que também ele tinha bizarras práticas sexuais. Era um freak - não teve espaço para se desenvolver emocial e afetivamente de maneira normal. Excepcional, no bom e no mal sentido.

D. Sebastião liderou Portugal em sua mais louca empreitada: a tomada do norte de África aos mouros. Lançou-se à aventura com um efetivo militar muito inferior ao do inimigo - um ato temerário. Sofreu uma derrota vergonhosa em Alcácer-Quibir, onde também perdeu a vida. De fato, tentou mais do que podia. Sua morte levou ao fim do Reino de Portugal, pois era o único herdeiro do trono. A nação foi incorporada pela Espanha. Levaram-se anos para que Portugal se reerguesse. Fernando Pessoa homônimo disse o seguinte a respeito dessa figura controversa:

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


Se o leitor for pessoa lida terá percebido que se trata de um claro elogio ao imponderável: àquelas características mágicas, transcendentes, que caracterizam os homens das "grandes empreitadas". Atribui-se ao fantástico e notável a qualidade da loucura, do desregramento, da passionalidade. Ao homem sadio, "sem a loucura", resta, segundo o poeta, a mediocridade: tratar-se-ia apenas de uma "besta sadia / Cadáver adiado que procria".

Esse é o eixo do meu argumento: o elogio à doença, o patológico enquanto espaço da genialidade - a ideologia segundo a qual o extraordinário em realização passa pela anormalidade emocional e psiquíca. Eis um lugar comum nos nossos tempos. "Gênios" são "loucos", ou não são gênios. É uma visão extremamente preconceituosa. Quer dizer que pessoas normais não são capazes de grandes atos? De grandes feitos? Uma grande balela! As pessoas normais vivem de corrigir as loucuras criadas pelos "gênios". Existe um franco elogio ao excêntrico, ao bizarro, ao estranho - por isso foi Michael Jackson o maior artista de nossa era: ele a simbolizava como ninguém. Nenhum outro foi tão a fundo nessa transformação. Ele foi o melhor e, a um só tempo, o mais estranho.

A verdade é que essa gente excêntrica tende a gerar sérios prejuízos a si, e o que é pior, aos que os cercam. Gastam fortunas com coisas inúteis, deliram quanto às suas reais importância e grandeza. São pessoas que não cresceram, são imaturos, infantis. Não é muito estranho quando uma criança apresenta um comportamento adulto? Pois deveria também ser tão ou mais estranho quando um adulto apresentasse um comportamento infantil. Ao adulto reserva-se a responsabilidade sobre a sociedade. É quando de fato constrói-se o mundo para as próximas gerações. Pode parecer que desgosto de Michael Jackson. Não é verdade. Apenas prefiriria que ele fosse menos genial e mais normal.

Parece que, mais uma vez, comento sobre um certo ódio à sobriedade (neste caso psíquica). O mundo parece sofrer de infantilismo. A liberdade real, para esta gente, está no ideal, no efêmero, no intangível. O mundo e os problemas reais são complexos demais para pessoas tão imaturas. É um modo diferente de se drogar, de fugir da realidade. Por que tanto medo em se encarar os problemas de frente?

O louco é aquele que quer a "grandeza qual a sorte não a dá"? Pois então. Precisamos de pessoas normais, que queiram a grandeza qual a sorte a dá! Ou seja, pessoas que olhem para a vida de forma objetiva e, com frieza de ação, realizem o melhor que puderem. A salvação não está na ilusão, não está na "liberação da mente". Pelo contrário. A liberdade real é lidar com os problemas reais. A mente tem de estar focada, como um leão ao caçar. As pessoas que, de fato, realizam são aquelas que se põem diante da esfinge, diante do desafio e, com todo o empenho e dedicação, resolvem-no.

A grandeza real está no fazer, está no agir, está no empenhar-se. O efêmero passa. O Michael Jackson das bizarrices passará. Ficará o artista esforçado, que se lançou sobre o mundo para conquistá-lo. Deu-se o mesmo com o Michael Jackson do séc. XVI. O D. Sebastião imaturo, louco, infantil, passou. Ficou o "Rei interno" - o D. Sebastião de cada um - a figura do homem que olha além do desejo, além do infinito. Entre a paixão, que leva à ruína, e a apatia, que leva à indiferença, existe um meio termo que realiza, que produz. Não foi D. Sebastião, com suas loucuras, que fez Portugal. Foram os seus soldados. A sociedade do espetáculo ruge ferozmente, com incomparável estridor. A sobriedade do bem-viver passa longe de tudo isto. Fiquem atentos! A tentação é acreditar que o especial é ser louco e excêntrico - fazer apenas o que quiser. Pelo contrário: ser especial é estar atento ao próximo, ao outro, vivendo da forma menos egoísta e mais generosa possível. Estas são as pessoas que importam e com as quais vale a pena viver. O especial é ser comum.

5 comentários:

D disse...

Michael Jackson foi muito da hora!!!

Bandeirantes e Pioneiros disse...

Legal !! Gostei do questionamento que lançou sobre o lugar comum: ""Gênios" são "loucos", ou não são gênios" ! Deixo outro lugar comum (uma febre atualmente) que gosto muito de questionar (até porque é geralmente fácil derrubá-lo): "Intelectuais" são de esquerda, ou não são intelectuais.

Malu Costa disse...

Oi Henrique!! Vim te fazer uma visita! beijo ;)

Henrique Rossi disse...

hehehe, olha meus outros posts Rodrigo!! :)

Obrigado pela visita Malu!

E sim, Dê, Michael Jackson foi muito da hora!!! :)

gcbgobbato disse...

Quando vi a notícia, um comentário de Ed Motta comparou MJ a Mozart. Um talento musical descoberto na infância, elevado à condição de estrela, com obra artística imortalizada, e perturbado, é claro. Resta saber quem seria Salieri. Madonna, Prince e seus rivais dos 80´s ou a própria opinião pública americana?