segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Embriões humanos: vítimas da imaturidade afetiva dos adultos

"Essas brocas cansam minha vida", pensou Paul Morell após mais um cansativo dia de trabalho. Mas ele gostava daquilo tudo: o pó das construções, o palavriado chulo (e quase ininteligível) dos operários mexicanos, as constantes reclamações do seu chefe, e o irritante barulho das brocas que, ocasionalmente, perfuravam o concreto. Sua vida na construção é muito gratificante para ele pois, com aquele trabalho, ele sustenta a sua família. Que alegria é chegar em casa e encontrar o carinho de sua esposa e das duas gêmeas, ainda menininhas de 4 anos. "Que será delas quando crescerem?" ele vive se perguntando.

Porém, aquele dia as coisas seriam diferentes. Paul estava ainda no carro quando recebeu uma ligação desesperada de sua esposa. "Se acalma benzinho, o que aconteceu?" Do outro lado da linha, Shannon não conseguia articular uma frase com sentido. Tudo o que Paul pôde ouvir era algo sobre um tal filho de fulano, gravidez de sicrana e embrião de beltrano. "Shannon! Acalme-se! Você está me deixando preocupado! Conte a história do início!" Ela, que começara a chorar no instante em que ouviu a voz dele, procurou se acalmar do desespero excessivo.

"Querido, você se lembra dos embriões que ficaram congelados na clínica quando fizemos tratamento para eu engravidar das gêmeas?" Ao que Paul respondeu positivamente, ela continuou: "O diretor da clínica acaba de ligar aqui em casa. Ele disse que, por engano, um dos nossos embriões foi implantado numa outra paciente que fazia tratamento para engravidar, e ela engravidou! Paul sentiu a única mão que mantinha ao volante vacilar. Um mundo de imagens atravessou a sua mente em um só instante: a tristeza de Shannon por não conseguir engravidar, as muitas horas-extras que ele aceitou trabalhar para pagar o tratamento caríssimo, o dia inesquecível em que souberam que a gravidez dera certo!, o nascimento das gêmeas..

"Paul?! Está tudo bem?" Shannon perguntou. Voltando sua atenção à estrada, ele respondeu: "Está sim." "O que faremos?" ela perguntou. Mas Paul não fazia a menor ideia de como responder àquela pergunta, pelo menos não naquele momento. Ele avisou-a que já estava chegando em casa e que era melhor eles conversarem pessoalmente. Shannon concordou. Assim que colocou o aparelho celular no banco do passageiro, Paul olhou para o horizonte que interrompia a estrada com um olhar que jamais tinha tido. De todas as coisas estranhas que já ouvira falar, aquela era a mais esquisita. Mais uma vez ele seria pai.

Quando entrou em casa, encontrou Shannon com o telefone ao ouvido. A expressão dela era estática. Grossas lágrimas corriam-lhe o rosto. Como do outro lado da linha ele podia ouvir uma voz, tudo o que fez após colocar sua maleta no chão, foi apertar o botão de viva-voz. Era uma mulher que falava e chorava compulsivamente. Após algumas poucas frase, Paul entendeu que aquela era a mulher que havia engravidado do embrião congelado dele e de Shannon. Ainda no calor da emoção, ela disse coisas muito bonitas, que sem dúvida alguma teria aquele filho, que ela o daria aos dois como um presente, que sentia muito por tudo aquilo.

Paul logo soube que aquele era o momento em que Shannon mais precisaria do seu sangue frio. Após mais de meia-hora de chororô, quando ela parecia não ter mais energias, ele interrompeu o discurso e pediu desculpas. Ia falando mais alguma coisa quando, do outro lado, também começou a falar o marido. De modo muito cordial, eles trocaram todos os números de telefone que tinham, inclusive os de celular e trabalho. Paul agradeceu muito a ligação, prometeu entrar em contato em breve e desligou. Shannon não chorava mais. Ele a abraçou silenciosamente, e ela, em resposta, colocou sua cabeça no ombro dele.

------------------------------------------------------------

A história acima é baseada em fatos reais (veja reportagem aqui). Na última sexta-feira, dia 25, Carolyn Savage deu a luz ao menino de Shannon e Paul Morell. A história dos dois casais tomou os Estados Unidos de assombro, mais ou menos como a história do assassinato de Isabelle Nardoni fez por aqui. Ainda que a vida deles e do menino seja agradável, o que sinceramente esperamos, há uma sucessão de erros gravíssimos nas decisões de ambos casais. O tratamento de fertilidade que inclui a manipulação in vitro de embriões fere seriamente a dignidade humana. É natural do homem errar. Um pequeno jornal americano entrevistou uma advogada que afirma que histórias como essa são muito mais comuns do que se imagina (reportagem em inglês aqui).

A crise de consciência despertada em Carolyn Savage é tão grande que ela e seu marido decidiram procuram barrigas de aluguel para os seis embriões deles que ainda estão congelados. Detalhe: quando foi fertilizada com o embrião de outro casal, Carolyn estava querendo engravidar do seu quarto filho. No Brasil tivemos recentemente o caso do dr. Abdelmassih que, apesar de ser considerado o maior especialista na área de fertilização humana em terras tupiniquins, estuprou várias de suas pacientes e, a algumas outras, aconselhou que tivessem seus óvulos fertizados com o esperma de outros homens que não seus maridos, além de diversas outras graves irregularidades (veja reportagem aqui).

Meus caros, essas ocorrências serão inevitáveis enquanto a prática médica corrente autorizar esse tipo de procedimento imoral. A reprodução humana não pode ser feita com os mesmos critérios que a reprodução animal. Os profissionais que efetivamente realizam a fertilização in vitro são, em sua grande maioria, veterinários, pois em animais isso é prática corrente. Afinal, é de grande interesse econômico produzir indivíduos com as melhores características fenotípicas possíveis. Em se tratando de seres humanos, essa prática é absurdamente incorreta. Quantos embriões não foram inutilizados porque, produzidos em grande número, não foram mais necessários ao casal egoísta?

Não estamos falando de animais! É a vida humana que está em jogo aqui. Quando um casal procura uma clínica de fertilidade para engravidar é incorreto considerar a fertilização in vitro um procedimento válido! Não irei mais me alongar porque pessoalmente careço de sólida argumentação. Porém, aqueles que quiserem se convencer das grandes verdades que disse (mas que não consegui demonstrar de modo completo) ficam convidados à leitura da encíclica papal Humanae Vitae, de Paulo VI (link para o documento em português aqui). Redigida no conturbado 1968, essa encíclica aborda todas as inquietantes questões contemporâneas a respeito da reprodução humana (inclusive a questão dos preservativos).

Esse documento é tão completo, que os papas seguintes limitaram-se a ratificá-lo em todos os seus pormenores - ou seja, acharam que não havia nada a adicionar a ele. A dura afirmação de que não é lícito recorrer à fertilização in vitro está em plena concordância com tudo o mais que foi já foi escrito nesse blog. Lutaremos pela dignidade humana sempre que alguém estiver querendo aviltá-la por qualquer que seja o motivo, ainda que sob a aparência de promover um grande bem! Não somos cachorrinhos, nem somos gado! Não posso deixar de recomendar a leitura dessa encíclica a todos os visitantes do blog. O combate às diversas tiranias desumanas da contemporaneidade não se fará sem sólida argumentação.

7 comentários:

Ariel Wollinger disse...

"O tratamento de fertilidade que inclui a manipulação in vitro de embriões fere seriamente a dignidade humana. "

WTF?

"Não estamos falando de animais!"
Sim, somos animais, ou pra voce somos minerais? ou fungos?

Ariel Wollinger disse...

"Public authorities should oppose laws which undermine natural law "

vamos banir os antibioticos!!!

Henrique Rossi disse...

hehehe sei lá se você quis ajudar minha causa, então fiquei meio sem graça de comentar, afinal, é óbvio que não se deve banir os antibióticos.

Mas mesmos os antibióticos, se mal utilizados, podem contribuir para o mal. Se usados em excesso, eles acabam favorecendo a seleção das bactérias mais fortes - e o paciente acaba morrendo.

Tudo nessa vida é uma questão de equilíbrio. Eu sei que pode parecer loucura, dado o aparente grau de radicalidade de alguns dos meus posts. Mas o meu intuito com esse blog é colaborar na revelação da verdade: a maior prejudicada quando pensamos somente conforme as categorias que nos foram impostas.

O que diferencia o veneno da doença é a dose da substância externa à que a pessoa é exposta. Tudo na vida é assim, inclusive na religião: como é ridículo ver os radicais de cada fé brigando de forma irada e irrazoável.

A luz não está ali.

Ariel Wollinger disse...

só posso rir com seu penultimo paragrafo.

Henrique Rossi disse...

Nossa, viajei.. Quis dizer vacina e infecção.

Anônimo disse...

A reprodução assistida poderá vir a ser um bem para a humanidade, mas, no momento, ela é tosca, descarta e despreza seres humanos embrionários, pois o método é esbanjador de vida, partindo de uma visão mecanicista e antiética, com fulcro único e exclusivo no aspecto financeiro, haja vista a demanda emocional por filhos.

O correto seria desenvolver melhor os métodos, antes de usar em seres humanos.

Um comentarista acima, diz que somos animais, falaciosamente ignora a diferença, será que ele trata os pais e filhos como seu peixinho de aquário, ou seu poodle? afinal somos todos animais!

A ética, em fato, deve tutelar a ciência. Nem tudo que é possivel é útil ou bom. Viveríamos melhor sem as bombas, sem poluição e sem a eugenia projetada.

marcilio leão

Henrique Rossi disse...

Muito bem, Marcílio!