Este, que é o centésimo post do blog, versará sobre o contínuo embate das luzes contra as trevas. E sob qual perspectiva? Afinal, argumenta o leitor inteligente, pode-se analisar esta questão do bem versus o mal sob diversos pontos-de-vista. Pois bem, vou utilizar a perspectiva que, na minha opinião, é a mais inteligente: a nietzschiana (no fim, vou contradizê-la - vocês me conhecem). Aos que desconhecem esse estranho termo, cabe uma explicação: ele se refere à obra do filólogo alemão Friedrich Nietzsche, um dos maiores provocadores da história. Ora chamado filósofo, ora chamado artista, esse homem completamente maluco utilizou algumas vezes os mitos dos gregos antigos para explicar sua visão de mundo.
É bastante famosa a comparação que ele fez entre aquilo que chama de princípio apolíneo e princípio dionisíaco. O primeiro refere-se ao deus Apolo, regente do sol, da luz, das coisas elevadas. O segundo remete ao deus Dionísio, um grande fanfarrão, amante do vinho, das orgias e, grosso modo, de tudo o que é terreno e imediato. Nietzsche, na sua crítica complemente irracional (ele se orgulhava disso), propõe a completa destruição de tudo aquilo que, na civilização ocidental, remetia ao princípio apolíneo. Ou seja, ele defendia o fim da razão, da religião cristã, da ciência, da ordem, etc. Nietzsche responsabilizou o cristianismo pela absoluta primazia que as chamadas "ideias elevadas" têm no Ocidente.
No lugar desse mundo ordenado, onde tudo tem o seu lugar e o seu propósito, ele propunha que se instaurasse um regime dionisíaco, onde somente o corpóreo e o instintivo existiriam. As causas mais importantes deveriam sempre ser as mais imediatas. Nada de premeditação. Em seu longo processo de enlouquecimento, Nietzsche desenvolveu uma personalidade extremamente egocêntrica. No fim, estava em silêncio completo - passava várias horas sentado em uma cadeira, catatônico. Sua irmã, aproveitando a recente notoriedade que a obra dele adquiriu, começou a cobrar ingressos para que as pessoas pudessem visitá-lo em sua casa - esse foi, na minha opinião, o circo mais bizarro que já existiu.
Antes desse destino trágico, Nietzsche havia passado a se apresentar em seus escritos como o novo Cristo - aquele cujo destino era reescrever para sempre a história da humanidade. Ainda sou capaz de ficar bastante impressionado com a ingenuidade de várias pessoas que se deixam levar pelos raciocínios absurdos dele, sem se darem conta de que ele foi só mais um grande egoísta desejoso de fama e notoriedade. Esses leitores ignoram que, no fundo, Nietzsche é somente um homem de grande inteligência que, por força de suas crenças, entrou num profundo e irreversível processo de enlouquecimento.
Nessas horas, quando vejo pessoas bem-intencionadas seduzidas por uma personalidade tão perturbada e estúpida, chego a me considerar um ingênuo incorrigível. Como ainda posso acreditar que as pessoas são capazes do bem, se elas estão fortemente determinadas a se entregarem a um lobo tão voraz? Não acho que nenhum dos leitores de Nietzsche seja um coitadinho seduzido por algum tipo irresistível de lábia. Pelo contrário, acho que essas pessoas se deixam seduzir pelos escritos desse lunático porque se sentem semelhantes a ele. Portanto, quando ele lhes sugerem que devem viver apenas seus instintos mais primitivos e elas concordam, é porque são ativas no processo.
Nietzsche é, para mim, o símbolo mais bem acabado do ponto mais baixo a que o ser humano é capaz de chegar. Não encontro fracasso que lhe faça par. Nunca ouvi falar de alguém que tenha se esforçado tanto no intuito de convencer os outros de que o pior é, na verdade, o melhor. Sua filosofia pessoal pode ser resumida à expressão: "Precisamos combater tudo o que existe a nossa volta para que o mundo seja mais parecido conosco", pois ele, na sua dinâmica egocêntrica, não poderia se limitar a ter a sua própria opinião revolucionária: era-lhe forçoso procurar estender essa visão de mundo aos outros para que, pela força de seus argumentos apaixonados, ele fosse reconhecido e amado.
O que mais me irrita em sua obra é que ele pode ser profundamente contraditório e nenhum de seus leitores se importa. Já que foram estupidamente convencidos pelo argumento raso de que qualquer lógica e razão é daninha para que o homem "natural" apareça, seus admiradores, tal qual o mestre, permitem-se a posição ridícula e infantil de achar que a contradição mais franca e irrazoável é natural - a pretensão de ser verdadeiro é que seria absurda. É o que acontece quando se procura negar veementemente a lógica e a razão, principios que podemos associar à figura do deus Apolo. Dentro da infinita ânsia de loucura e auto-destruição que Nietzsche e seus seguidores tão ardentemente cultivam, só há espaço para Dionísio.
Então, pouco importa que, logo após negar a necessidade de se procurar viver da forma mais autêntica, Nietzsche afirme que o homem verdadeiro é aquele que vive de uma forma dionisíaca. Ou seja, é como se ele dissesse: "Não existe forma ideal para se viver. Mas a forma ideal para se viver é a que eu ensino". É de uma irrazoabilidade constrangedora. Honestamente, tenho pena dos seguidores de Nietzsche. Já percebi que essas pessoas vão enlouquecendo pouco a pouco, tal qual o mestre - e não poderia ser diferente. Ao negar por completo qualquer tipo de projeto ou de propósito para suas vidas, essa gente cava um abismo com os próprios pés onde, após um longo processo de amargor e ressentimento, resta-lhes apenas atirar-se.
Como fica então a questão do corpo humano e suas necessidades naturais? Não é somente Nietzsche que afirma o real valor da corporeidade, indicando que se deve viver de um modo orgânico? O problema é que essa é a apenas a aparência da ideologia nietzschiana. No fundo, ela nega o mundo natural por completo, pois o seu universo ideal não é o existente segundo as leis físico-químicas, mas aquele construído mentalmente como sendo o correto. Prestem atenção! Eu admito que esse é um raciocinio complicado, mas garanto que, após vocês darem-lhe a devida atenção poderão perceber que é o mais correto.
É o seguinte: ao invés de valorizar a natureza e suas ocorrências femonenológicas, a filosofia nietzschiana valoriza somente o mundo mental, desprovendo-o de qualquer acontecimento moral. É um sistema de negação tão radical que não se permite sequer afirmar a naturalidade do pensamento. Vejam que loucura: através do pensamento, eles negam qualquer pensamento, desnaturalizando assim o homem, que é um ser pensante. Para deixar isso corretamente expresso, Nietzsche precisa afirmar que o homem não é um ser pensante e que esse é só mais um dos devaneios da corrente apolínea da história, onde o cristianismo se enfiou.
Oras, então era essa a grande questão de Nietzsche? Sim. Para justificar que o melhor que o homem deve fazer é se entregar a uma vida de constantes prazeres, onde não há lugar algum para sacrifícios de qualquer natureza, ele precisou negar a faculdade humana do pensar, consequentemente subvertendo a nossa natureza, negando-a por completo. O elogio ao corpo em Nietzsche é, portanto, uma falácia mentirosa. Pois se o corpo fosse realmente valorizado precisaria sê-lo em sua integralidade, incluindo, portanto, a faculdade mental.
Sinto desapontar os leitores que estavam achando que eu me perderia numa sopa de letrinhas tão grande. A afirmação do corpo do homem deve, por necessidade, incluir todas as suas faculdades e, uma vez incluído o pensamento na avaliação, não conseguimos mais equiparar o homem a um animal sem razão. O correto valor do corpo humano passa por uma avaliação completa do que o homem é, ainda que seja muito difícil defini-lo com exatidão. Espero que pelo menos alguns poucos tenham a sorte de perceberem tudo aquilo que o ser humano não é: filosofia nietzschiana incluída.
Chegamos, então, à luz. Ao avaliarmos o homem como um ser dotado de razão é impossível não elevá-lo acima do padrão proposto pelo perturbado Nietzsche. O fantástico é que, sendo um ser pensante, o homem é a única coisa capaz de ser várias coisas diferentes ao mesmo tempo na natureza. Pode elevar-se ao infinito, estendendo todas as suas potencialidades à equação máxima que conseguir elaborar. E pode também entregar-se a um modo irracional de vida, onde nega a real natureza de si próprio, reduzindo toda a sua pontencialidade ao ideal mais bestial que conseguir encontrar (como o funk, que citei no texto abaixo).
Estas páginas são amigas da luz, como os nossos frequentes leitores já perceberam. Comemoro o meu centésimo post com essa grande celebração da real natureza do homem: um filho de Deus - um ser capaz do máximo, um ser capaz da verdadeira elevação, um ser com propósito, com vocação, com destino. A negação dessas verdades (o pecado) faz do mundo um lugar feio, cheio de atos de desrespeito para com o próximo e do egoísmo mais deletério. A afirmação da real natureza do homem, pelo contrário, inspira-nos os mais nobres sentimentos e, gostem ou não, somente nós somos capazes de uma coisa tal qual a nobreza.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Friedrich Nietzsche - o avesso do homem e as coisas elevadas
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13 comentários:
Eu li, mas não vou dar uma de intelectual sabichona, tudo bem? :)
Ah! Então você é bem mais legal que eu! :)
"No lugar desse mundo ordenado, onde tudo tem o seu lugar e o seu propósito..."
aham, tudo é ordenado... sei...
somente para uma cabeça religiosa essa frase faz sentido.
" Estas páginas são amigas da luz, "
delusuions of grandure...
sinais de esquizofrenia...
"Comemoro o meu centésimo post com essa grande celebração da real natureza do homem: um filho de Deus - um ser capaz do máximo, um ser capaz da verdadeira elevação, um ser com propósito, com vocação, com destino. A negação dessas verdades (o pecado) faz do mundo um lugar feio"
nossa, voce ta cada dia mais pirado...
Pecado é o imbecil do papa proibir a distribuicao de camisinhas na africa o que evitaria milhoes de mortes em vao...
vamos falar de lógica e razão?
http://www.youtube.com/watch?v=5wV_REEdvxo
Ariel, quanto ao negócio do papa (para ficarmos em uma nota recente):
http://www.zenit.org/article-22675?l=portuguese
aham, sei.
e da onde ele tirou essa perola?
"Se o preservativo funciona quatro de cada cinco vezes"
http://www.youtube.com/view_play_list?p=EF0D32B927CF8C41&search_query=vatican+bullshit
sobre o video:
Penn and Teller discuss the Catholic Church and their involvement in anti-homosexuality efforts, condom use, and the cover up of the priest abuse sex scandal. They talk with an Italian comedian that was punished for criticizing Pope Benedict the XVI.
Então Ariel,
Você acha que a Johnson&Johnson está mais preocupada com a sua saúde do que ganhar dinheiro?
Eles testam alguns exemplares dos vários lotes. Se a taxa de falência é inferior a um padrão industrial, eles liberam o lote todo.
Entre a opinião da classe científica internacional e a de humoristas ranzinzas, eu fico com a primeira opção.
Aos outros leitores do blog que, porventura, estejam lendo mais essa agitada página de comentários, gostaria de retomar a questão do Nietzsche sugerindo que confiram por vocês mesmo algumas das ideias dele através da apresentação da filósofa Viviane Mosé, no programa Café Filosófico, da TV Cultura. Vocês poderão ver como o retrato que eu tracei é bastante fiel às ideias do cara. Este é o segundo bloco do programa onde, na minha opinião, aparecem as questões mais centrais na obra do doidinho que estamos comentando.
http://www.youtube.com/watch?v=3hdH1Lhn3Us&NR=1
Não se faça de bobo henrique, voce sabe que o motivo da proibicao da camisinha nao tem nada a ver com efetividade ou nao da camisinha, tem a ver com a crenca idiota que o sexo so pode ocorrer entre um casal de individuos do sexo oposto e apenas apos o casamento religioso desses individuos na sua religiao. Isso sim é um motivo idiota para proibir a camisinha, nao venha com essa de que o motivo é "cientifico".
Isso chama-se hipocrisia, e como voce conhece o termo que eu uso, acho o papa um hipocristao, e todos os que defendem essa pratica barbara que mata milhoes na africa todo ano.
Se a camisinha fosse permitida, pelo menos 80% a mais se salvariam, dada a taxa de eficiencia que voce citou , de 4 em cinco vezes. Voce nao acha isso bom motivo? Acha melhor tentar educar as pessoas a serem tementes a um ser imaginario para depois convence-las a fazer sexo somente com seu parceiro ( do sexo oposto, pois o contrario é pecado...) e serem fieis ate a morte?
Somos regidos por hormonios poderosos e enquanto a educacao sexual nao chega a africa, a camisinha pode salvar milhoes de vidas mais eficientemente.
http://www.cdc.gov/condomeffectiveness/latex.htm
http://cnx.org/content/m13337/latest/
e um site cristao falando o contrario:
http://www.lifesitenews.com/ldn/2003/jun/03062303.html
mesmo assim o site fala em uma eficiencia de 90%, bem melhor que o ZERO do sexo sem camisinha.
O que interessa é que fazemos sexo, é uma necessidade impressa em nossos genes. O desejo sexual serve para nos reproduzirmos e o fato da igreja achar o prazer no sexo algo abominavel e sujo é irrelevante.
1-Masturbacao é errado?
se sim, entao os animais tambem pecam. Varias especies se masturbam.
2-O que caracteriza a masturbação? Genocidio?
Será que o bigodudo não teve nada de bom a acrescentar ao mundo? Essa resposta só terá aquele que tiver a curiosidade de ler a obra de Niet e tirar as suas próprias conclusões mediante o uso do bom senso. Mas o que é o bom senso? ad infinitum...
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