segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Polanski: o cineasta estuprador que está com medinho da cadeia

Convivi recentemente com uma galera de idade média de 17 anos. Posso afirmar que o ser humano, nessa idade, é incapaz de pensar. Tudo o que lhe importa é ser aceito e amado pelos seus pares. Que dirá então uma menina de 13 anos, não é verdade? Pois bem, Roman Polanski, um dos cineastas mais conceituados da atualidade, estuprou uma menina americana de 13 anos em 1976 e, desde então, nunca mais pôs os pés nos Estados Unidos. Para ele isso pouco significou. Como é europeu, o pior constrangimento que sofreu foi não poder ter viajado para Hollywood para receber o Oscar de melhor diretor pelo fantástico O Pianista, que ganhou em 2002.

Desde os anos 70 está em vigor um mandato internacional solicitando a sua prisão. Ontem, durante viagem à Suiça para receber uma premiação, ele foi levado em custódia pelas autoridades daquele país (veja reportagem aqui). Certamente muitos estão relinchando: "Como pode uma coisa dessas acontecer? Um dos maiores cineastas do mundo preso por ter mantido relações sexuais consensuais com uma mulher de 13 anos de idade?" Pois é, ainda que consensuais, a legislação americana pune como estupro qualquer relação sexual de meninas menores de 16 anos de idade com homens maiores de 18 anos.

Mas eu sei o que está acontecendo. Ocorre que Polanski pode fazer o que quiser, como se o legado positivo de sua pessoa apagasse automaticamente os seus equívocos. É como se ele fizesse parte de uma humanidade diferenciada: aquela que pode fazer a primeira coisa que lhe dá na veneta. O problema é que esta lei informal ainda não foi escrita. E como a Suiça tem acordos de extradição com os EUA, Polanski, hoje um sr. de 76 anos de idade, terá de se apresentar diante do rigorosíssimo sistema legal americano. Seu provável destino? Passar todos os anos de sua velhice atrás das grades.

A única chance que ele tem de não ver o sol nascer quadrado é ser liberado quando estiver precisando de alguém para lhe trocar as fraldas. Nesse caso, é comum a justiça ocidental liberar seus condenados por motivos humanitários (como recentemente ocorreu com Ronald Biggs, o bandido inglês que viveu muitos anos foragido no Rio de Janeiro). Não acredito em espécies diferenciadas de ser humano. Repudio firmemente esta noção perturbada e doentia. Se há uma coisa pela qual os EUA são a maior nação deste planeta é que lá todos são verdadeiramente iguais diante da Lei. A cana é igualmente amarga para qualquer um que a mereça.

9 comentários:

D disse...

Taí, gostei.
Bem escrito, conciso, bons argumentos. Uma lufada de ar fresco. Sem dúvidas.

Tá de parabéns.


By the way, primo, foi você que deixou um "recado" na minha secretária eletrônica?!!

Henrique Rossi disse...

como assim uma lufada de ar fresco? :)

Sim, é meu o recado! hehehehe Estou querendo pegar aquela papelada contigo! :)

D disse...

Vamos marcar uma pizzada aqui então.

Henrique Rossi disse...

Vamos sim... Prometo gravar recados menos estranhos na sua secretária eletrônica! :)

FelKan disse...

Ele fez um dos filmes que mais gosto: The Ninth Gate.

Henrique Rossi disse...

Como cineasta o cara é fantástico!

Na verdade senti muito por ele desde que descobri essa história (já se vão alguns anos).

Coloco O Pianista na minha lista de 10 filmes favoritos. Mas, como está escrito no texto, ele não é diferente de qualquer um de nós. Cana nele! :)

Mariana disse...

Isso mesmo. Como cineasta ele tem seus méritos (e que méritos), mas não podemos ignorar que ele cometeu um crime grave, muito grave, e deve sim ser punido por isso.

Ninguém falou nada do Henrique Goldman, diretor de 'Jean Charles'. Lembram que ele publicou um 'pedido de desculpas' à empregada doméstica Luísa, que trabalhou na casa de seus pais quando ele era um moleque de 14 anos, por ter transado contra a vontade dela. Contra a vontade significa estupro e, nesses casos, nada de atenuantes.

Certamente que ele não seria penalizado pelo crime, por ser menor de idade, mas achei tão absurdamente ridículo ele fazer esse pedido de desculpas anos depois e em tom de brincadeira, que sinto nojo dele.

Vocês podem imaginar o que essa moça passou, por medo de perder o emprego? Ela teve que transar com dois muleques (sim, ele levou um amigo), porque teve medo, porque não tinha noção dos seus direitos, porque estava acostumada a dizer sim, porque sua mãe ensinou que mulheres são passivas... AHH, que raiva do mundo.

No fim da carta, ele diz que espera sinceramente que luiza possa lembrar do episódio com um sorriso no rosto. Me diz, que tipo de humor um cara desses tem?!

A notícia é meio velha, mas lembrei disso com o seu post. Quem não leu a carta, aí vai: http://revistatrip.uol.com.br/revista/170/colunas/carta-aberta-para-luisa.html

André T. disse...

Mariana, no rodapé da nota ele diz que é ficcional.

Mariana. disse...

OPS, foi mal, galera. Mas como eu disse, na época em que essa crônica foi publicada, não deixaram claro que se tratava de um texto ficcional. Corrigiram depois, e acrescentaram até um pedido de desculpas, como você pode ver.

Nossa, na época que isso estourou, teve uns blogueiros que fizeram uma campanha de boicote ao filme Jean Charles, que estava prestes a ser lançado.

Enfim, melhor assim. Melhor que a Luisa nem tenha existido, embora a gente saiba que - na verdade - elas existem. =/