terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma reunião de superegos contra as forças do mal!

Já xinguei a psicanálise diversas vezes nesse blog. Não que eu seja contra tratamentos psicoterápicos! Algumas pessoas fazem um pouco de confusão a respeito. Psicanalista é diferente de psicólogo. O primeiro pode ser formado com um cursinho da Sociedade Brasileira de Psicanálise - o cara faz, por exemplo, engenharia mecânica, e, depois de uns dois aninhos, vira psicanalista. Legal, né? Também quero. Psicólogo, por sua vez, é um título respeitável. O sujeito tem que fazer todo um curso superior sobre o assunto. Enquanto a psicanálise resume seu tratamento à visão de Sigmund Freud e seus seguidores, a psicologia estuda todos os ramos do saber que procuram descrever a condição humana. No entanto, em todas essas ocasiões que tirei um sarro da psicanálise, sempre apontei para algumas de suas qualidades. Dessa vez serei mais elogioso, prometo.

A psicanálise é um sistema de metáforas. Isso mesmo, está mais para poesia do que para ciência. A falsa visão de que seu saber é científico decorreu do seu primeiro uso: o tratamento da neurose - uma doença relativamente comum no séc. XIX. Apesar de ainda utilizarmos esse termo, ele perdeu o seu sentido original. Hoje, com o desenvolvimento de vários ramos da psicologia, o método inventado por Freud tem de contentar com a sua irrelevância (Severino Cavalcanti, quantas saudades!). O seu constante declínio não significa, todavia, que a psicanálise seja inútil. Como toda arte (até mesmo moderna) alguma utilidade ela tem. Ao dizer que se trata de um sistema de metáforas quero evidenciar que, entre suas propostas, existem diversos enunciados que podem ser perfeitamente utilizados hoje (contanto que com a devida parcimônia).

Um dos que eu mais gosto é a divisão da psique humana em ego, superego e id. Quanta confusão essa simples terminologia causa nas pessoas! Vejamos se eu consigo ajudar alguém que esteja meio perdido nesse assunto. Ego é o termo em latim para o pronome eu. Superego é, portanto, o eu superior ou, melhor dizendo, o eu ideal. Não é tão complicado. O eu (ego) é a instância emotiva de cada um de nós: é quem chora, se magoa, se alegra. O superego, por sua vez, é aquele que controla os impulsos, condicionando um determinado comportamento. O id (latim para o pronome isso) é a parte animal: aquilo que é produzido a partir de nosso código genético. Freud sugeriu que o superego é controlador do ego e, sobretudo, do id - proibindo-lhe de fazer suas necessidades em público, por exemplo.

Ocorre que a psicanálise é tão defasada que só mesmo seus estudiosos utilizam essa terminologia. Diversas correntes da psicologia sequer acreditam na existência da mente pois, em nome da ciência (que exige provas), eles concluem que não é possível falar em instâncias superiores da consciência. O behaviorismo, por exemplo, só trabalha com dados quantificáveis - o que gera experimentos curiosíssimos (ao fim desse post coloquei o vídeo de um experimento dessa escola da psicologia). Todavia, este humilde eu que vos fala, gosta do lado poético dessa divisão, que tão bem demonstra a mentalidade (ops!) romântica de Freud mal resolvida. Se estivermos de comum acordo em utilizar essa terminologia como simples metáfora da condição humana, não vejo problema algum em recorrer a ela.

Disse tudo isso para concluir com um raciocínio bem simples que os leitores habituais desse blog compreenderão: aqui se exercita o superego. Nóis gosta de portuguêis bein escritcho i di argomentus rasoávis. Portanto, não combina com o nosso jeitão comentários apaixonados, manifestações de revolta juvenis, estardalhaço histério, etc, etc. Gente, tem alguém aí que quer convencer-me de que estou errado a respeito de alguma coisa? Pode escrever! Aproveitem que permito o anonimato e compartilhem as inquietações dos seus eus. Até mesmo os neófitos poderão perceber que sou sempre bem educado e atencioso com todos. Só que tem um negócio. Se você quer me convencer, vai ter que ser pela força de seus argumentos. Sinto muito, mas gritinhos só me inspirarão piedade. Não me importo de deixar os comentários mal-educados publicados porque gosto que os leitores tenham ideia do que o povo das sombras pensa (o psicanalista Carl Gustav Jung utilizava bastante esse termo - sombras - para se referir à dimensão destrutiva do ser humano).

Território de superego orgulhoso é território iluminado. Não é à toa que se utiliza como seu símbolo a águia. Ainda que eu esteja mais para ave caolha e capenga, não custa nada sonhar, já dizia o poeta de Padre Miguel. Se nós mesmos não procurarmos nos melhorar como seres humanos, quem o fará por nós, não é? Portanto, espero que essas páginas sejam território para a revoada de águias ambiciosas. Os ids não precisam ser desprezados (seu símbolo é o touro). Eles só precisam saber que o seu lugar é no pasto. Vê melhor quem olha longe, quem mira ao infinito. Não se preocupe tanto com o imediato - o ego costuma cuidar bem disso. Só não se esqueça de dar asas à sua razão, ao seu raciocínio, ao seu pensamento. A águia da nossa inteligência não pode ser reduzida à condição de uma reles galinha de terreiro. Esse é um destino muito medíocre para ela.

Fiquem com este divertido vídeo behaviorista. Aos que não sacam muito bem inglês é o seguinte: uma psicóloga coloca uma criança sozinha numa sala. Então ela lhe diz: "Fique aqui. Se quando eu voltar você não tiver comido o marshmallow que eu te dou agora, você ganhará outro. Porém, se você comer este aqui, não ganhará mais nenhum." Quanto tempo será que as crianças aguentam sem comer o mashmallow?

7 comentários:

D disse...

Acho que aprendemos muito com a experiência. Como aprender sem ela?
A vida não é em si uma experiência reveladora?

Henrique Rossi disse...

Dê,

Estou preparando um post sobre as diferenças que Platão e Aristóteles viam no processo através do qual aprendemos o sentido das coisas (o primeiro, mais metafísico, o segundo mais empirista). Acho que isso você conhece. Mas fareis umas interrelações com a contemporaneidade que acho que você gostará.

Como é um tema mais denso, estou escrevendo aos poucos. Ficará um artigo de tamanho parecido ao do Nietzsche. Por sinal que achei seu comentário naquele texto bastante legal. É verdade o que você disse. Mas acho que não fica excluído o risco de lê-lo.

Natalia disse...

Olha só...vc posto o vídeo fofo dos mashmallows!! LINDO

Patrícia disse...

Num sei mexer nisso, mas sou eu a Pá... Olha o que vc escreveu e vÊ se dá p/ entender o q eu escrevi no meio...rs: Diversas correntes da psicologia sequer acreditam na existência da mente (não necessariamente diversas. A maioria das abordagens acreditam na mente como causadora do comportamento, são chamadas, portanto, de correntes mentalistas. A mente como instância psíquica compreendida aí pelo id, ego e superego, é a visão da psicanálise, apenas dela. Para as outras correntes mentalistas, a mente tem outras - como posso dizer??? - funções. A mente reprimida é apenas psicanalítica, a outras correntes que acreditam na mente, a vêem de uma outra forma - não sei qual porque não estudo isso. Para os behaviorista radicais, a mente, como uma entidade extra-indivíduo, não existe. Muito menos é causa do comportamento. Isso não significa que o behaviorsta radical não dialogue com correntes mentalistas. O conceito de mente existe socialmente, então buscamos compreendê-lo tb. Mas compreendemos a mente, como se diz popularmente, de uma forma diferente. A mente não é causa de comportamento e sim, as contingências, mas aí são outros quinhentos...) pois, em nome da ciência (que exige provas) (ela não exige, ela busca), eles concluem que não é possível falar em instâncias superiores da consciência (instâncias de consciência até existem. Dormir e sonhar, por. exemplo. Tô simplificando para facilitar. Acontece que essas instâncias não são as causas do comportamento, para os behavioristas radicais). O behaviorismo (coloque o radical, pq existe outros behaviorismos, alvos aí de mtas críticas), por exemplo, só trabalha com dados quantificáveis (não sei a palavra é bem quantificáveis, nem observáveis. Como eu já te disse, eu não preciso de provas para saber que vc pensa. Eu não consigo provar que vc pensa, mas de fato, o pensar existe. O behaviorismo radical se propõe a estudar o comportamento humano da seguinte forma: buscando compreender as relações - complexas, diga-se de passagem - entre um organismo e o ambiente. Esse é o foco de análise dos ditos analíticos comportamentais, como eu. Logo, o comportamento é fruto dessas complexas interações. E não fruto da mente, como uma entidade) - o que gera experimentos curiosíssimos (sim sim) (ao fim desse post coloquei o vídeo de um experimento dessa escola (escolha o tema abordagem, corrente - é mais usado pelos psicólogos) da psicologia).

Espero ter refinado aí seus conhecimentos a respeito do assunto... Ah, outra coisa, para os junguianos, a sombra compreende muito mais do que vc disse aí. Está na sombra, tdo aquilo que não temos consciência. E não necessariamente são coisas tãoooo destrutiveis. Podem ser. Mas não é sóooo isso! Tdo que não temos consciência clara sobre nós, tá lá na nossa sombra!

Henrique disse...

Milagre! Um comentário da Patrícia...

Valeu, Paty..

Allan disse...

Tão difícil quanto engolir a piscanálise, que como vc disse está mais para poesia, é engolir que dados quantificados e ciências deterministas possam realmente explicar o comportamento humano.

Claro que essas duas coisas nos trazem dados relevantes, mas diante daquilo o que a gente chama de vida - vida mesmo - fica difícil aceitar certas conclusões.

Conclusão: pra mim o Behaviorismo é tão difícil de engolir quanto a Psicanálise.

Henrique Rossi disse...

Allan, Esse seu comentário é do mais altíssimo nível. Espero que você tenha a oportunidade de perceber como tenho combatido o cientificismo exagerado que pretende reduzir o homem à um punhado de reações bioquímicas.

Puxa, seria muito mais divertido escrever neste blog se mais pessoas como você participassem ativamente. Obrigado.