sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Qual é a cara da modernidade?

Já comentei algumas vezes neste blog vários processos em curso na sociedade contemporânea. Algumas vezes pareci otimista, outras vezes pessimista. Todavia, creio que, na verdade, o mundo torna-se sempre um lugar muito melhor do que já foi. Se algumas vezes soei como alguém que espera pelo pior foi por vontade de comentar ocorrências em si negativas. O que importa é que todas elas estão com seus dias contados! Hoje gostaria de exemplificar um pouco isto. Um dos assuntos que a intelectualidade contemporânea mais gosta de comentar é a visão atual do corpo humano na sociedade ocidental. Como indício de vitória do pós-modernismo, eles citam os diversos indivíduos que transformam seus corpos com piercings e cirurgias plásticas. Para esses estudiosos, dar aparência monstruosa ao corpo nada mais é que verbalizar o que ocorre no plano das idéias, ou seja, uma sociedade monstruosa dá origem a corpos que a simbolizam.

Por outro lado, esses mesmos intelectuais vêem na idolatração da beleza apolínea um resquício de conservadorismo estético e moral. O apogeu de Gisele Bundchen, por exemplo, é indício da sociedade de controle sobre os corpos, que tem na saúde o seu ideal mais alto. Portanto, para eles, a desvalorização da doença é sinal de uma sociedade doente e falsa. Por mais esquisito que isso soe, é assim que eles pensam (os que tiverem curiosidade de checar um pouco mais sobre este assunto, recomendo a leitura desse texto). Qual o erro fundamental desse raciocínio? Simples, no anseio desesperado pela vitória da modernidade eles não conseguem deixar de ver com maus olhos tudo que indica a supremacia dos adversários. A percepção de que o ideal apolíneo de beleza nunca foi tão admirado e exaltado gera neles dor mortal. O fantástico é isso: eles sabem que o bem venceu, por isso lutam desesperadamente a favor de tudo o que lhe é contrário.

Várias filosofias absurdas surgiram desse esforço enlouquecido, do qual se pode pelo menos admirar a tenacidade. É todo um mar de insanidade que foi criado para justificar atitudes como a da socialite Jocelyn Wildenstein (retratada acima ao lado da beldade brasileira). Para sustentarem a lógica absurda de seus argumentos precisam exaltar a doença e criticar a medicina (o texto do link acima comenta esses aspectos também). Para eles a psiquiatria é uma ciência que precisa ser destruída pois, ao medicar os corpos, reintroduzindo os doentes mentais na sociedade, os médicos estariam acabando com a modernidade, impedindo o seu desenvolvimento natural. Por terem autoridade para eleger padrões de certo e errado, os psiquiatras quebram com o relativismo total que os modernos reivindicam como regra geral e, estranhamente, absoluta. Não é um paradoxo que alguém advogando à favor do relativismo completo queira fazer do mesmo uma coisa absoluta?

3 comentários:

D disse...

"Não é um paradoxo que alguém advogando à favor do relativismo completo queira fazer do mesmo uma coisa absoluta?"

Esse questionamento resume tudo.

D disse...

Henrique, escreve logo outro post, essa foto me dá coisas!!!

Henrique Rossi disse...

...O que nos leva a concluir que há certo e errado! Ainda que para nós, em certas ocasiões, seja difícil compreender com clareza quando se trata de uma coisa ou de outra.