terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dr. House e o ditador sanguinário

Geralmente as opiniões da maioria são muito criticáveis, o que não significa que, certas vezes, a unanimidade tenha razão. Acredito que meus contemporâneos estão especialmente corretos em dar a Dr. House (House M.D.) a maior audiência jamais obtida por um programa de TV na história! Gastaria várias vidas com muito gosto em comentar as maravilhas que essa série de altíssima qualidade proporciona. Por hora quero apenas comentar ao recente drama de consciência do qual Dr. Chase, assistente de House, foi acometido por ter colaborado com a morte do ditador africano Dibala, responsável por milhares de mortes. Pois bem, Chase trocou os exames deste paciente para que, recebendo o tratamento errado, ele fosse a óbito - e assim ocorreu. Chase estava munido das melhores intenções pois, com a morte de Dibala, poupar-se-iam muitas outras vidas porém, infelizmente, do ponto de vista emocional essa decisão teve consequências funestas: a consciência do jovem cirurgião anda bastante atormentada por esses dias.

Pensemos a questão central: era lícito matar Dibala? Para nosso grande embaraço a pergunta cabe, pois estamos falando de um genocida responsável por faxinas étnicas. A problemática levantada por esse questionamento irradia vários tentáculos. Do ponto de vista do Direito é evidente que a pena de morte a Dibala é aplicável. O grande problema de Chase é que, no seu desespero, ele se julgou acima do sistema legal, fazendo justiça com as próprias mãos, o que, no caso de um médico, ganha contornos morais realmente dramáticos, pois ele estava obrigado a salvar o ditador sanguinário. A questão é tão ampla e complexa que nem cabe levantá-la a sério: melhor deixá-la com os estudantes de direito. De qualquer forma, perguntei-me: "E se fosse comigo? Que faria?" Vou dizer com a máxima seriedade: eu não trataria Dibala desde o momento zero e correria falar com um advogado experiente. Isso é o que eu faria hoje, porém é certo imaginar que minha opinião talvez mude depois de fazer aula de ética na faculdade de medicina. Há também toda a complexa questão legal.

Sei, por exemplo, que um médico pode recorrer à uma questão de consciência para negar receita da pílula do dia seguinte para uma moça desesperada. Isso é moralmente válido, aceito e praticado por milhares de médicos, especialmente aqui no Vale do Paraíba, onde a classe médica recusou-se a distribuir as pílulas enviadas para cá pelo Governo Federal por seu efeito abortivo, o que levantou grande polêmica à época. A princípio penso que se aplica ao caso fictício de Chase e Dibala essa mesma questão: por uma questão de consciência ele poderia ter se abdicado de tratar dele, ao invés de matá-lo, colocando-se como juiz de uma questão para a qual ele não recebeu o preparo adequado. Em suma, acho que Chase errou: ele não deveria ter matado Dibala, o que não significa que ele deveria ajudá-lo, já que se tratava de um monstro, uma pessoa de extrema periculosidade.

Desde que o Direito surgiu há a tentação pela parte dos indíviduos atingidos de recusar às instâncias legais o que efetivamente lhes cabe, tomando assim para si uma responsabilidade que o meio social como um todo não lhe haviam delegado. O risco de fazermos justiça com as próprias mãos é nos colocarmos acima da sociedade que nos protege, porque, sim, estamos protegidos pelos lixeiros que recolhem nossos dejetos, pelos agricultores que cultivam nossa comida, pelos engenheiros que constroem nossas pontes, pelos professores que nos ensinam e, é necessário admitir, pelos advogados que nos defendem e representam. Tomar a justiça para si é uma temeridade, uma irresponsabilidade - é como assinar um testamento de descrença na mesma sociedade que nos assegura conforto e estabilidade. É, no fundo, um ato arrogante e prepotente. Certo seria ter feito tudo o que estava em seu alcance para não colaborar com a recuperação do didator sem, contudo, acelerar a sua morte. Ou estou errado?

10 comentários:

André T. disse...

Eu li há algum tempo atrás algumas pesquisas sobre ética e moral que deram uns resultados interessantes. Por exemplo, as pessoas aceitam que uma pessoa que esteja no caminho morra pra salvar outras dez, mas não aceitam jogar uma pessoa para a morte para salvar as outras dez. Não sei se dá pra entender pela explicação simplificada, qualquer coisa explico melhor depois.

Bom, quanto ao Chase, eu não cheguei a ver o episódio, vi alguns outros que vieram depois. É muito difícil se colocar no lugar dele, mas olha, de verdade, eu acho que eu faria o mesmo que ele fez.

Reconheço a sua defesa do Direito e a negação da justiça pelas próprias mãos, mas o caso é extremo. Olhando de longe, a função do Direito é ajudar a salvar as pessoas e, se ele não tivesse agido ele mesmo, o cara continuaria fazendo a festa com a minoria que ele atingia.

Mas a questão na verdade não é 'a justiça pelas próprias mãos'. O cara já tinha ele próprio se julgado, já tinha assumido a culpa. Continua sendo um problema, mas é um problema menor. A questão é se é moral matar alguém que se sabe que irá matar muitas outras pessoas. Eu acho que é, pelo menos quando falham todas as outras alternativas.

Henrique Rossi disse...

Entendi perfeitamente. Por tudo isso que você colocou eu disse: "Pensemos a questão central: era lícito matar Dibala? Para nosso grande embaraço a pergunta cabe, pois estamos falando de um genocida responsável por faxinas étnicas."

A questão fica deveras complicada. É que fico mesmo devendo conhecimento técnico de direito: falta-me vocabulário, a coisa toda, então escrevi desconsiderando minha ignorância.

Pode-se dizer que o centro do meu argumento é que a civilização tem de prevalecer. Um mundo onde cada um se permitisse fazer o que bem entendesse seria um mundo sem ordem, sem liberdade que, como eu já disse, não vejo como valor absoluto. Para que haja a sua liberdade é preciso que a minha seja limitada, senão é o caos. O Reinaldo Azevedo escreve sobre esse assunto com muito mais propriedade. Ele foi ontem no Jô:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/petralhas-tirem-sua-tristeza-do-caminho-que-eu-quero-passar-com-o-meu-humor/

453 comentários. Esse tem lá seus "seguidore idiotas"! rs..

Anônimo disse...

“Pensemos a questão central: era lícito matar Dibala? Para nosso grande embaraço a pergunta cabe, pois estamos falando de um genocida responsável por faxinas étnicas”


“Certo seria ter feito tudo o que estava em seu alcance para não colaborar com a recuperação do didator sem, contudo, acelerar a sua morte. Ou estou errado?”

Ei, você não é católico? Na Bíblia está escrito: Não Matarás.

Esse é o problema com a religião. As pessoas tem, mas não seguem.

Henrique Rossi disse...

Mais uma vez a questão da hermenêutica.

A mesma Bíblia diz que as prostitutas devem ser apedrejadas até a morte: "Só assim expurgarás o mal para longe de ti".

A Igreja católica não tem medo da verdade. Ainda hoje está lá no seu catecismo que há casos em que, sim, matar o oponente se faz necessário: seja por legítima defesa ou para evitar um mal maior.

O que escrevi simplesmente se limita a demonstrar a minha opinião de que os indivíduos não podem sair por aí fazendo o que bem entendem fora do sistema legal constitucionalmente estabelecido.

Anônimo disse...

Que parte de “Não matarás” a igreja não entendeu? Legítima defesa não é intenção de matar, mas de se defender. E você não se defende necessariamente para matar o oponente. Matar alguém para “fazer justiça” é matar por livre e espontânea vontade e o único que pode fazer justiça com a vida de um ser é Deus. Portanto, não é possível cogitar a possibilidade de matar o tal assassino, isso vai completamente contra as leis de Deus. Se a Igreja Católica diz em seu catecismo que se pode matar para evitar um mal maior então ela está em desacordo com os dez mandamentos. Quem somos nós para nos acharmos no direito de evitar um “mal maior” ? Isso tem que ficar a cargo de Deus. Afinal, quem é que pode ter a certeza absoluta de que aquele assassino não se modificará daquele momento em diante, inclusive por algum contato maior com Deus durante o momento de dificuldade? Será tão difícil assim perceber o óbvio?

Henrique Rossi disse...

Você não está errado(a), tanto que a Igreja, na prática, combate a pena de morte. O que ela faz é tão somente reconhecer que podem se dar ocasiões onde a manutenção da vida de alguém representa enorme periculosidade para milhares de pessoas. Neste caso ela anui, sim, à pena de morte. Não a considera a situação ideal, tampouco nega o dado real.

Anônimo disse...

É uma relativização de um mandamento pétreo de Deus. Não sabia que a igreja agia dessa forma. Assim como não pode aceitar aborto e eutanásia, jamais deveria relativizar no caso de assassinos. Para isso existe a cadeia.

Henrique Rossi disse...

A cadeia é sim a primeira opção. O problema é para quando não há opções! Nesses casos a Igreja admite a pena de morte.

Mas nessas últimas décadas não houve um só caso de anuência da Igreja com algum caso deste tipo. Não que eu saiba.

Tiago disse...

Consciência
Aquilo que surge quando não há uma razão para se comportar como os outros querem?

Henrique Rossi disse...

Rapaz! Essa pergunta foi complexa. rs..

Será que você não está misturando alguns conceitos? Até onde sei, pelo meu conhecimento médico e em humanidades, consciência é a percepção de existir. É por ela que nos percebemos pessoas viventes no mundo. Ela é a instância corporal e psicológica através da qual nos percebemos a nós mesmos no mundo. Em outras palavras, ela é o "eu" em um determinado instante, em uma determinada situação.

Não a vejo como consequência da interação social, ainda que moldemos parcialmente nossa visão de mundo pelo contato com os outros.

Mas talvez você tenha querido dizer outra coisa: a consciência como drama pessoal diante de um conflito de visões de mundo. No caso do texto, Chase estaria vivendo um drama de consciência porque sua visão de mundo determina que ele mate Dibala enquanto a sociedade espera que ele, na condição de médico, salve vidas. Se você quis dizer isso, acho que está certo. Nesta perspectiva, vivemos dramas de consciência quando nossa visão de mundo é dramaticamente confrontada pelas exigências da sociedade.