quarta-feira, 25 de novembro de 2009

House e a razão simples

Para aproveitar que acabei de falar na famosa série House M.D. gostaria de mencionar o último episódio que foi ao ar no Brasil, pelo Universal Channel: Coração Valente. Nele, por estar ouvindo estranhos sussuros à noite, House se vê na iminência de um novo surto psicótico. Como ainda está demasiadamente assustado com seu recente episódio de internação psiquiátrica, ele logo avisa o problema aos colegas. Seu receio é enlouquecer demais, por isso pede ao Dr. Wilson, em cuja casa está temporariamente hospedado, que avalie a necessidade de uma nova internação. O episódio todo transcorre com esse grande medo. Para surpresa de todos, House descobre que os estranhos sussuros são feitos pelo Dr. Wilson, que tem o hábito de "falar" com uma namorada recém-falecida antes de dormir. Esta simples história revela a grande importância do pensamento na interpretação da realidade que, gostemos ou não, é algo que independe de nós e de nossos arrazoados.

Ou seja, as coisas que aí estão, tudo o que tem natureza físico-química, são neutras. Em si não são nada. Uma pedra não pode ser uma boa pedra, tampouco pode ser uma má pedra. Ela é tão somente pedra. O mesmo se dá com o ar, com os oceanos, as montanhas, os peixes, as jazidas de ouro, a chuva, etc. Estão aí - simplesmente são, independem de nós. São "despovoadas" ou, melhor dizendo, desanimadas. Falta a elas a anima, a alma, o sopro divino. Não à toa, muitos teólogos costumam dizer que nossa razão é como que uma fagulha de Deus, uma propriedade emprestada, não exatamente nossa.

Parece que estou abstraindo da situação real, mas nunca estive tão próximo dela. Os sussuros à noite atormentavam House que, em função deles, julgou estar enlouquecendo. O fato de que havia sons estranhos na hora que ele ia dormir independia dele. Esqueçamos por um instante o fato de os sabermos feitos pelo Dr. Wilson. O som estava ali - poderia ser um simples coaxar de sapo. O interessante é que House, em função do recente episódio psicótico, julgou estar mais uma vez enlouquecendo. A sua simples razão, limitada pelo seu alcance minúsculo, não conseguia analisar o fenômeno natural em toda a sua extensão. Seu raciocínio apontou a conclusão de que estava mais uma vez adoecendo como a explicação mais provável, e nisto ele foi ativo! Notem, consideremos o som que o incomodava um fenômeno natural, House, com sua razão livre, considerou-o um sintoma! Por conta disso, ficou irriquieto e preocupado. Mas não poderei evitar chamar a atenção para o mais importante da história que, por ser coisa tão corriqueira e imediata a todos nós, sempre escapa à atenção dos ouvintes: House foi ativo no processo de considerar os sussurros um sintoma de que estava ficando mais uma vez louco. Foi com o pensamento que ele ativamente interpretou uma ocorrência que não dependia dos seus atos. Notem que coisa importantíssima: não tivesse descoberto a causa real do barulho, House poderia ter mais uma vez se internado na clínica psiquiátrica, o que, naquele momento, seria mais um grande prejuízo pessoal, visto que caro e plenamente desnecessário. Agora vejamos como isso se aplica a nós!

Quando admiramos um belo pôr-do-sol e exclamos conosco próprios: "Que bonito!", não há nada no fenômeno objetivo que o qualifique como belo! É o pensamento que atribui à ocorrência natural uma característica que ela, por si só, não possui. Aqui é o ponto central do texto: tudo a nossa volta é construção ativa do nosso pensamento! Não há sob sol ser humano incapaz de qualificar as coisas emitindo juízos próprios. Notem bem: próprios! Só dele! Ninguém mais tem a mesma opinião no mundo inteiro. A pessoa mais idiota sobre a face da terra não tem, de fato, nada de idiota. A idiotice que ela aparenta é um instrumento que ela usa para justificar seus atos maus: "Sou mesmo idiota, por isso faço as coisas mal feitas!" Mentira descarada! Quando alguém faz algo mal-feito não é porque é idiota: ou ela desconhece o modo certo, ou é má! E faz as coisas erradas como meio de chamar atenção para si. Ou seja, é um recurso que ela usa ativamente. Não há uma só vítima inocente sob o sol. Todos são diretamente responsáveis pelo que fazem, inclusive House interpretando estranhos ruídos à noite como sintoma de que está mais uma vez enlouquecendo.

Só uma pessoa muito ignorante a respeito do ser humano para vê-lo como um simples dado da natureza. Essas pessoas não percebem que esta mesma ideia de que o homem é um simples dado da natureza já é em si uma ideia! Ou seja, é um juízo da realidade, uma construção artificial do pensamento!, que de inocente não tem nada e que, como todas as outras ideias, tão bem reflete a ideologia que há por detrás dela! O homem não consegue não ser homem! O homem é sempre homem! Ele sempre julga ativamente as coisas ao seu redor porque é capaz de pensar. O pensamento o distingue definitivamente da natureza, visto que a mesma passa a existir a partir do pensamento, e não antes dele! Notem bem: é preciso repetir isto porque de primeira não se compreende direito - a natureza que conhecemos é uma construção histórica do pensamento, ela não existe por si própria. Por suas próprias capacidades, por tudo o que ela não pensa, ela não é capaz de nada. Somente o homem, com seu juízo, qualifica as coisas dando-lhe existência! Uma existência que essas coisas não possuiam antes de serem conhecidas dos homens! O homem, gostem ou não, é a medida de todas as coisas! Devemos preservar a natureza? Sem o homem não há natureza! A única razão que temos para preservá-la é porque sem ela não somos capazes de viver: é em função nossa que a natureza é preservada, não em função dela própria, porque ela própria não é capaz de nada.

É isso que distingue os homens inteligentes dos homens burros. Os primeiros sabem o lugar das coisas, os segundos não: deixam-se guiar como borboletas pelas sensações que sentem com as várias filosofias contemporâneas, tão contraditórias entre si. E é coisa de uma pessoa adulta intelectualmente deixar-se guiar por sensações? Cadê o diabo da razão?! Quer dizer, na hora que não convém os moderninhos dizem: "Não posso acreditar nisso porque a razão não o justifica", mas quando convém ao estômago, e não à sã razão, ele diz: "Sinto-me bem com essa filosofia. Para eu decidir as coisas nas quais acredito bastam as minhas sensações." Que vigarice! Que coisa de canalhas! Perdoem-me, mas isso é coisa de gente muito idiota! Quando não convém, dizem não poder acreditar em algo porque a razão não o justifica. Quando convém, eles dizem que bastam as sensações para decidir no quê acreditam ou não! Não assumem que, de fato, não estão usando a razão em momento algum! De fato são guiados por sensações, por quimeras. Berram aos quatro ventos: "Preciso de razão para acreditar em alguma coisa", e no momento seguinte estão se contradizendo: "Bastam as minhas sensações pessoais para eu decidir no que acredito ou não!" Pronto! Eis a grande safadeza intelectual dos nossos tempos desmacarada. Você diz precisar da razão para decidir algo? Então use-a! O difícil, sei muito bem, é aceitar os conselhos duríssimos que a sã razão nos dá: ser honesto, constante, verdadeiro e bom, quando, na verdade, gostaríamos de poder ser mentirosos, desonestos, inconstantes e maus!

Talvez se possa dizer com muita propriedade que a razão nos aprisiona pois, ao considerar verdadeiramente as coisas e, após muita reflexão, decidir, gostaríamos de não precisar nos ater as coisas boas que a razão nos havia apontado, pois elas sempre exigem o sacrifício de nossos caprichos. Por isso é tão fácil afirmar que a pessoa madura e adulta intelectualmente não é inconstante, não se move ao sabor da última ventania. Pelo contrário, ela é sólida. Os ventos dão contra ela e se desviam, porque encontraram de fato uma barreira.

No fim, a escolha é sua, se você é feito de aço ou de manteiga. Depois desse texto você não tem mais desculpas: a escolha é sua! Você é ativo nela.

8 comentários:

Eu disse...

Você acha que o fato de você ter escolhido publicar somente os comentários que lhe causam prazer foi um ato ligado à razão ou ao instinto? Foi um ato de conveniência?

Henrique Rossi disse...

Tem horas que você faz umas perguntas muito esquisitas, que não têm nada a ver com as questões reais.

As razões para que eu impeça comentários desonestos é simples. Veja o que escreveu hoje, em seu blog, o Reinaldo Azevedo:

Aproveito, a propósito, para mandar um recado àquela gente estranha de sempre e a alguns estranhinhos recém-chegados. É claro que pode discordar de mim no blog — só não pode dizer que Ahmadinejad é um líder como qualquer outro porque ele não é. As suas práticas e o conteúdo de sua fala são atentatórios à civilização. “Mas eu quero falar isso!” Perfeitamente! Procure um blog. Há milhões! “Ah, eu quero escrever que eu concordo com o presidente do Irã; que o Holocausto nunca existiu!” Escreva. Não aqui! “Eu quero dizer que eu acho que gay bom é gay morto, que ele está certo”. Vá procurar a sua turma. Não há lugar para esse pensamento aqui.

Pois aproveito para explicar que, desde aquele texto sobre os ateus, os gays e os gordos, tenho aplicado a mesma regra aqui. Quer discordar? Sem problema: terá seu comentário publicado, mas se partir para a ofensa pura, sem nenhuma ideia, melhor procurar outro lugar para fazê-lo, simples assim. Este aqui é meu espaço - há muitos outros para se destilar o veneno do ódio e da estupidez.

Eu disse...

Acho que as suas respostas é que são esquisitas e não correspondem à realidade. Fui ao tal post que você comentou e lá está escrito:

"PS: tolerância zero com o que não me dá prazer de agora em diante."

Sua intolerância está estritamente ligada ao que não te dá prazer, e não aos "comentários desonestos".

É muito diferente do que afirma o Reinaldo Azevedo. Quando algum argumento te irrita, ou você pura e simplesmente não concorda com ele, automaticamente você o conceitua como "desonesto" e não o publica.

Eu nunca fiz apologia a nenhum tipo de preconceito, mas você parece fazê-lo com respeito aos homossexuais e ateus.

Deixe claro quais as suas regras. Se for "não publico o que não me agrada" o leitor já fica avisado e não perde tempo comentando nada (pois corre o risco de não ser considerado por pensar diferente).

Agora, se for, não publico apolologia à X, Y, Z, o leitor ainda pode comentar A, B e C.

Eu não tenho ódio a ser destilado, você tem?

Henrique Rossi disse...

Ainda que a regra fosse "não publico o que não me agrada" eu estaria certo, não acha? Afinal, este é o meu espaço. Qualquer um que se sinta ofendido dispõe do sistema legal para me processar ou, caso o incômodo que eu desperte não seja tão grande, pode fundar um outro blog apenas para comentar como eu sou obtuso, ignorante e obscurantista. Ocorre (e é muito simples perceber isso) que aqui é como que minha casa virtual. Não permito mais que ninguém venha aqui me dizendo como eu deva viver a minha vida, ou que opiniões eu deveria ter. Oras, tenho plena liberdade para viver a minha vida como bem entender e, pelo menos ainda, tenho também liberdade para expressar as opiniões que me derem na telha.

Mas imaginemos que nada disso fosse verdade e que eu, por alguma estranha razão, estivesse obrigado a publicar todos os comentários que não me agradam apenas porque são honestos intelectualmente. O mérito da questão tem que constar dos autos. As pessoas tem que poder sustentar as ideias que defendem. Se alguém me acha intolerante, por exemplo, e quiser chamar-me assim neste blog, é razoável que eu cobre a demonstração efetiva da intolerância, senão que razão tenho eu para deixar publicado um comentário desse teor se quem o escreveu não consegue demonstrar minimamente a ideia básica que defende?

Eu disse...

O mesmo direito que você tem, os outros tem. Eu tenho certeza que você gosta de leitores, se não, não teria publicado um blog. Se abre espaço para comentários, tem que aprender a conviver com a opinião alheia, inclusive com argumentos melhores do que os seus. Você fala de insultos, mas já deixou publicado alguns insultos que pude ler aqui no blog, enquanto argumentações sadias você não publica. Ninguém vem aqui para te dizer como viver a vida. Eu nunca participei de um blog que tivesse bloqueado meus comentários sob a égide de que são palavras “desonestas”. Sinceramente, você foi o primeiro blogueiro totalitário que já visitei e o seu blog o único no qual pude me sentir como numa ditadura, não foi nada prazeroso. Mas eu continuo vindo aqui, porque você é inteligente o bastante para passar por cima dessas falhas.

Henrique Rossi disse...

Cadê as suas argumentações sadias então? Xingar não conta.

Você faz uma acusação muito grave: a de que eu publiquei insultos. Onde? É só mostrar. O problema é que você não consegue.

Eu disse...

Minhas argumentações sadias? Muitas delas estariam publicadas se não tivessem sido apagadas.

Você não me entendeu, você deixou publicados insultos de leitores do blog para com a sua pessoa (não disse que você insultou alguém, apesar de que não li todos os seus textos).

Onde foi que eu xinguei?

Henrique Rossi disse...

Agora Inês é morta. Fique à vontade para comentar onde quiser.