Sou um cara bastante ousado. Formado na melhor faculdade de cinema do país, iniciei em 2009 uma longa jornada para tornar-me médico e, assim, poder usufruir de uma profissão da qual verdadeiramente gosto capaz de por arroz e feijão no meu prato, coisa que minha profissão anterior fazia com muita dificuldade e esforço. Apesar da minha paixão de muitos anos pelas artes cinematográficas joguei tudo para o alto e mirei longe. Vejo hoje, com clareza, como apostei certo. Não apenas terei uma profissão estável e confortável. A medicina também me propiciará liberdade para fazer o que quiser nos meus tempos livres. Advinhem a que me dedicarei? Quem pensou cinema acertou. Ou seja, para fazer-me cineasta estou tendo de me fazer médico antes. Este blog tem a nobreza de fazer parte dessa longa caminhada, razão pela qual sou-lhe extremamente grato, ainda que nos últimos dias tenho aparecido pouco por aqui.
Não fosse eu capaz de atos de ousadia fora da minha vida pessoal não poderia considerar-me tão audaz. No entanto, como eu sou corajoso! Como se atos de bravura na vida particular não fossem suficientes para meu espírito agitado, ainda disponho-me a comprar brigas que considero sadias, a mim pelo menos. Este blog é exatamente isto: o espaço onde escrevo as coisas que me são mais particulares. Refiro-me, evidentemente, às ideias de minha vida intelectual, visto que não faço aqui relatos de minhas ações quotidianas.
Uma das minhas últimas façanhas foi demonstrar com grande simplicidade como o pensamento pretensamente científico descamba a todo tempo para um modo religioso de pensar. Não precisei de esforço algum para fazê-lo. Bastou dizer que a imensa maioria de nós acredita que a matéria é composta por algo a que se chama átomos - os quais nunca tivemos a menor chance de testemunhar. Uma pessoa com intensa vida de oração costuma dizer que Deus se revela a ela em pensamento, portanto, para ela, Deus é mais material e evidente do que os átomos são para o vestibulando, que precisa ser capaz de realizar complicados exercícios e aplicar complexas equações para demonstrar a sua compreensão dos resultados de experimentos químicos e físicos que ele muito provavelmente jamais realizará. Como afirmei daquela vez, para ter diante de si a demonstração cabal de que átomos existem o estudante de química terá antes de aprender a realizar experimentos e cálculos complicadíssimos. O que se cobra no ensino médio é um resumo porco, burro e parcial das nobres ciências naturais - portanto, palmas ao Enem que, aos poucos, exterminará a decoreba estúpida dos nossos currículos escolares.
Entendo que muitos tenham dificuldade em compreender raciocínio tão simples. Para essas pessoas é complicado perceber que suas ações não são neutras. Ninguém nunca as revelou que quando elas se decidiram por acreditar em algo não o fizeram pela solidez dos argumentos de seus interlocutores, mas sim pela simpatia que tinham por eles! Foi baseando-se exclusivamente no prestígio que atribuiram a seus professores que estas pessoas decidiram prestigiar determinados saberes. Quando acreditamos que a natureza ao nosso redor é composta por átomos atribuimos às instituição de ensino um prestígio que elas talvez não mereçam, o que não tornaria os átomos menos reais. Aqui a questão ganha intensos contornos de complexidade sociológica: é um assunto fascinante, mas não convém a este texto, que se deseja simples.
O que desejo mencionar é o acelerador de partículas e sua estranha coincidência de começar a funcionar na época na qual o famoso calendário maia chega ao seu fim. Estou sugerindo que o LHC, provavelmente a maior joia científica da história, causará o fim do mundo em 2012, quando finalmente está funcionando a pleno vapor? Esse é o centro deste texto. Não quero alarmar ninguém. Não acho que o mundo terminará quando o acelerador de partículas estiver finalmente chocando prótons a altíssima velocidade. O que me chama atenção é o respeito "religioso" que muitos têm pelo equipamento apesar de pouquíssimo saberem sobre seus reais métodos de operação. Gostem ou não, houve professores de física entrando na justiça na Europa solicitando que o LHC não fosso posto em funcionamento antes de maiores informações da parte dos coordenadores do consórcio internacional que o administra. Não é minha opinião: é o que foi noticiado por grandes agências internacionais. Hoje li outra coisa estranha: o chefe do projeto disse, em coletiva de imprensa, que o acelerador de partículas ainda não está funcionando pois precisa antes verificar antes "se o processo é seguro". Os céticos encontram o texto aqui.
"Henrique, Desculpe-me mais parece que você está com medo de que o LHC extermine o planeta." Assim pode falar um leitor que não tenha entendido plenamente o que estou dizendo. Minhas afirmações se limitam a explicitar que o respeito da maioria das pessoas pelo acelerador é tão religioso quanto uma oferenda à Ogum, visto que não sabem nada sobre o seu real funcionamento. Creio que temos sim razões para não nos sentirmos inseguros, mas isso se nossas expectativas sobre diversos órgões internacionais estiverem corretas, o que não significa que necessariamente estejam! É mais provável que sim, o que não significa que não haja chance alguma de que sejamos frustrados. Por fim, espero que estejam percebendo que, de fato, estou discutindo muito mais nossos processos mentais do que os méritos reais de uma questão científica, e não me cansarei de fazê-lo. Não é de se surpreender, portanto, que o meu grande interesse na medicina hoje seja a psiquiatria, ainda que a minha residência esteja muitos anos a frente (certamente, pós-2012).
É certo que através de uma educação rica e variada tornamo-nos capazes de compreender muitas coisas. O atual estado da educação em nosso país é algo que, ao mesmo tempo em que são necessáriasmuitas críticas, elogios não são necessariamente negativos (ainda irei corrigir esta frase - é madrugada e estou muito sonolento). O que não se pode deixar de observar é a tremenda ausência de uma educação verdadeiramente humanista, que considere e efetivamente promova o patrimônio filosófico que mais de dois mil anos nos legaram. Chegamos ao novo milênio vivendo conflitos que todos julgávamos superados. É hora de demonstrar, através do sistema educacional, o homem para os estudantes: colocar o Homo sapiens no espelho para que se possa observá-lo em toda a sua extensão, em toda a riqueza, em toda a sua ignorância, em toda sua potência e em todas as suas limitações. Não o faremos sem a inclusão da psicologia como disciplina obrigatória em nossos currículos de ensino médio, essa é a proposta. Quantos episódios de violência familiar não se poderiam evitar com essa simples medida. Estou falando sério. Assim como em meu simples exemplo pessoal, é preciso que, como sociedade, miremos longe. Se estivermos apenas ocupado de nossas necessidades quotidianas estaremos olhando para baixo, para o chão - quando muitos encontraremos portas e paredes à nossa frente. É preciso escancarar as janelas e olhar o infinito. O homem não é feio de quimeras acidentais. Ele tem em si o dom de pensar, e isso eleva-o ao infinito, senão me digam onde começa, e termina, a nossa consciência.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
O acelerador de partículas e o fim do mundo
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12 comentários:
O mundo só vai acabar quando Deus quiser né?
Acho que a sua pergunta é mais difícil de se responder do que parece, ainda mais porque eu não tenho a mínima ideia de quem você é.
Acho que a inteligência é uma adaptação de tal forma bem sucedida que arrisco dizer que enquanto houver o universo haverá a espécie humana. Para mim a questão parece restrita às hipóteses da física, que hora fala que o universo terminará em expansão infinita, levando a uma completa perda de calor, ou a uma compressão infinita, que esmaria tudo o que existisse.
Paralelamente a isso tudo, acredito na existência de Deus e, goste ou não a maioria dos leitores, acho que Ele norteia tudo o que acontece, ainda que de modo discreto. Portanto, acredito que quando o fim chegar será com o consentimento dele.
"Uma das minhas últimas façanhas foi demonstrar com grande simplicidade como o pensamento pretensamente científico descamba a todo tempo para um modo religioso de pensar. Não precisei de esforço algum para fazê-lo. Bastou dizer que a imensa maioria de nós acredita que a matéria é composta por algo a que se chama átomos - os quais nunca tivemos a menor chance de testemunhar."
Átomos não existem?
"Entendo que muitos tenham dificuldade em compreender raciocínio tão simples. Para essas pessoas é complicado perceber que suas ações não são neutras. Ninguém nunca as revelou que quando elas se decidiram por acreditar em algo não o fizeram pela solidez dos argumentos de seus interlocutores, mas sim pela simpatia que tinham por eles! Foi baseando-se exclusivamente no prestígio que atribuiram a seus professores que estas pessoas decidiram prestigiar determinados saberes."
Átomos não existem?
"Minhas afirmações se limitam a explicitar que o respeito da maioria das pessoas pelo acelerador é tão religioso quanto uma oferenda à Ogum, visto que não sabem nada sobre o seu real funcionamento."
Para saber sobre o LHC basta ler e se interar, como se interar sobre o funcionamento de Ogum? Depende do que a pomba gira vai dizer?
Henrique,
compartilho com você essa ousadia. Sou Analista de Sistemas por profissão, mas a minha alma é de artista. Desde os três anos de idade enfrento os palcos sem medo de errar ou desafinar uma nota. Mas infelizmente não tive apadrinhamento para continuar com meus estudos na área da música. Decidi fazer a faculdade de Ciência da Computação na melhor faculdade da Região Norte (não escolhi apenas por dinheiro, mas também por afinidade) e vejo que minha escolha foi certa. Hoje sou eu quem financio meus estudos e estou prestes a me formar em música. Até agora não sei ao certo o que vou fazer com esse novo diploma na mão, mas tenho muitos horizontes ainda a explorar.
Não tenha receio de mudar se o caminho que escolheste é árduo demais para si ou não bate de acordo com suas conjecturas. Muitas nas nossas escolhas são baseadas naquilo que a gente já viveu e das experiências de outros. Até porque essa nossa passagem por aqui é infinitamente pequena, e não há tempo para passarmos por todas as experiências do mundo.
Só te desejo sorte, porque você ainda está no início, e com certeza passará por muitas provações.
Grande Abraço,
Kívia Silva.
Oi Kívia,
Muito obrigado pela sua mensagem. Se Deus quiser vai dar tudo certo. Estou mesmo muito agradecido.
Anônimo,
Acredito, baseando-me no prestígio que atribui a diversas pessoas e instituições, que atómos existem, ainda que essa minha opinião seja mais uma crença do que uma conclusão lógica, afinal, como está escrito no texto: "para ter diante de si a demonstração cabal de que átomos existem o estudante de química terá antes de aprender a realizar experimentos e cálculos complicadíssimos." Esse estudante, sim, terá diante de si a prova cabal que a todos nós faltará.
Você está querendo igualar o pensamento científico ao pensamento religioso, e a meu ver está cometendo um grandíssimo erro. Ficamos na dúvida sobre o porquê você quer nivelar esses conhecimentos. Se para desmerecer a ciência ou se para enaltecer a religião. A diferença, segundo os seus argumentos, quem estuda os átomos tem a prova cabal de que eles existem, as outras pessoas não tem. Na religião, ninguém tem a prova cabal de nada.
Mas no mundo real, as pessoas não precisam estudar para saber que os átomos existem, a ciência é a prova cabal, a não ser que estejamos todos acreditando numa grande teoria da conspiração e o mundo na verdade é uma grande mentira.
De qualquer forma, só o empirismo pode nos resguardar da charlatanice.
Abraços.
A questão é, felizmente, bastante complexa. Você está demonstrando ser partidário do positivismo, segundo o qual, por meio do avanço tecnológico, vem a liberdade.
Não estou querendo equiparar ciência e religião. Demonstrei que, na cabeça do homem comum, as operações mentais que o leva a concordar com uma, ou com outra, são as mesmas. E isso é chocante, não é? Ainda mais para quem acha que a ciência tem um status superior. "Como poderíamos obrigar as pessoas a ter na ciência a sua segurança?" Pois é, o totalitarismo de viés científico (nascido em fins do séc. XIX) ainda não acabou.
O seu argumento é: não vejo os átomos, logo acredito por fé, assim como não vejo deus, logo, acredito por fé. O que diferencia uma coisa da outra é que se você quiser "ver" um átomo a ciência vai te possibilitar, já se você quiser ver Deus...
"O seu argumento é: não vejo os átomos, logo acredito por fé, assim como não vejo deus, logo, acredito por fé. O que diferencia uma coisa da outra é que se você quiser "ver" um átomo a ciência vai te possibilitar, já se você quiser ver Deus..."
isso o henrique nunca vai entender.
Eu entendi o que você quis dizer. Preste bastante atenção na minha resposta: se as coisas fossem do exato jeito que você colocou eu estaria erradíssimo e você 100% certo. Ocorre que eu acho (apenas acho, hehehe) que as coisas são mais complexas.
Estava com saudades das suas aparições, se bem que tenho escrito bem menos. Não posso deixar de sugerir a leitura do texto "House e a razão simples". Sobre esse eu gostaria muito de receber um comentário seu!
E aí? Já enjoou de vatapá? hehehe
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