Homeopatia cura? Sim, homeopatia cura. Cromoterapia cura? Sim, cromoterapia cura. Acupuntura cura? Também! Pajelança cura? Pode perguntar para qualquer caiapó: pajelança cura sim senhor. E reza brava? Cura também. E curandeiro, e pai-de-santo? Curam também. E a medicina tradicional, cura? Ehr... Essa aí de vez em quando não cura não. É simples, permitam que eu me explique. Ao contrário dos outros métodos de cura citados, a medicina tradicional tem algo que poderíamos chamar de privilégio da verdade. Como ninguém, ela sabe todos os processos que se dão no corpo humano. Estamos falando dos mais mínimos detalhes: ela conhece a fórmula química completa de todos os nucleotídeos disponíveis. O Nobel de Medicina deste ano foi para uma pesquisa que descreveu átomo a átomo a estrutura da proteína que protege a ponta dos cromossomos: a telomerase. Se uma tal ciência possui tamanhos privilégios como se lhe pode acontecer que erre? Ou ainda, que, em certos casos, seja incapaz de curar? Por certo que ainda há muito por ser descoberto, mas não é a isso que me refiro. Vou dizer explicitamente: como pode a medicina tradicional, com toda a sua pompa e circunstância, em vários casos para os quais ela conhece a cura, ainda assim esta não se dá? Oras! Não tem ela o privilégio da verdade?
Há diversos casos banais que a medicina tradicional não consegue resolver para os quais os pajés têm curas infalíveis. Podem ter certeza disso: há milhares de índios que não trocariam o seu pajé por médico nenhum. Somente o indígena aculturado, aquele que já viveu um processo de deterioração de sua cultura própria, confiaria no médico. Assim como estes pajés, há curandeiros de todas as espécies que, pasmem!, conseguem curar as pessoas! E por que é assim? Porque o que cura é a crença na eficácia do remédio, e não o remédio em si. Os médicos mais calejados bem sabem que se uma pessoa rejeitar o tratamento, a medicação não faz efeito, ainda que todos os átomos estejam nos seus lugares exatos! Porque não são átomos milimetricamente posicionados que curam, é a crença na autoridade curandeira! O processo mental que ocorre em nossa cabeça de ocidentais quando vamos ao médico é o mesmo que se dá na cabeça do autóctone que visita o pajé. Cremos na autoridade que o meio social como um todo outorga àqueles sujeitos. É isso que cura: a crença de que o tratamento dá certo. Por isso tem tanta gente que pula ondinha no Reveillón. Dá certo? É claro que dá!
Por isso a medicina é uma arte: o seu momento mais nobre é a consulta, quando se confrontam a alta cultura do médico com as idiossincrasias dos atendidos que, na maior parte dos casos, não sabem nada de medicina. O médico está ali para escutá-los de verdade, investigar a fundo o que se passa. Quantos não são os diagnósticos apressados e equivocados de médicos arrogantes e autoritários que não querem ouvir a queixa de seus pacientes! Nessas horas sentimos um certo ressentimento de que não haja mais a forca! Mas retomemos o raciocínio. A medicina é uma arte de interpretação dos problemas alheios. Cada paciente é como um enigma único que se apresenta ao médico. Que pena que muitos doutores se deixem levar pelo quotidiano de suas especialidades e acabam reduzindo cada atendimento à uma burocrática cerimônia de preenchimento de receitas - isso é, de fato, um grande desrespeito com alguém que se deu ao trabalho de procurá-lo, e mais, de pagá-lo por aquele serviço! Imaginem o que não fariam os silvícolas com o pajé que, de repente, se tornasse displicente e despreocupado. Temeriam-no por um certo período por causa de seus super-poderes. Mas caso adquiram a certeza que ele está trazendo maldições sobre a tribo matariam-no sem sombra de dúvida.
Tratar cada paciente como um número não é coisa de médicos. Aliás, talvez seja coisa de médicos, sim. Mas certamente não é coisa de curandeiros. Por detrás de cada homem ou mulher de jaleco branco realmente capazes de curar, não tenham a menor dúvida, há um curandeiro escondido ali. Esqueçam por completo os títulos sociais. Vocês já sabem, não é a medicina que cura: é todo um contexto de tratamento respeitoso e digno que envolve fortemente o meio cultural e as crenças de cada indivíduo. Esqueça os médicos imediatamente. Procure os pajés - só eles têm a solução para o seu problema. Se o pajé que você encontrar souber manejar um estetoscópio melhor, mas se você não encontrar um que tenha essa capacidade, pode se recomendar àquele dos galhinhos de arruda que ele cura quase tão bem quanto o outro. Pode ficar certo de muitas coisas: dele você não ouvirá reclamações de baixos salários, será muito provavelmente mais bem tratado, terá espaço para reportar toda a sua queixa e, como consequência disso tudo, obterá a melhor instrução que ele é capaz de dar para a resolução do seu problema - não era isto que você estava procurando?
sábado, 14 de novembro de 2009
Qual a medicina que cura?
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17 comentários:
"Porque o que cura é a crença na eficácia do remédio, e não o remédio em si. Os médicos mais calejados bem sabem que se uma pessoa rejeitar o tratamento, a medicação não faz efeito"
Quer dizer que pacientes mentalmente incapazes ou em coma, por exemlo, não sofrem efeito dos remédios?
Vc precisa se dedicar mais aos estudos.
John, Muito bom o seu comentário. Ressinto somente o tom amargo, mas tudo bem.
Veja, é claro que os medicamentos ministrados aos pacientes incapazes ou em coma funcionam. Os átomos estão nos seus lugares certinhos: bingo!
Refiro-me exclusivamente às pessoas capazes pois, com o pensamento, tem o poder de recusar o tratamento, ainda que os átomos estejam nos seus lugares exatos.
Por isso a medicina é uma arte. E por isso é tão importante que os médicos sejam humanos na acepção mais nobre da palavra. Não é o saber dele que cura. É a cumplicidade entre ele e o paciente.
Aqui não é o espaço ideal para comentar isso, mas minha irmã é mestranda em psicologia comportamental na USP e sua pesquisa versa sobre as relações terapêuticas. O seu foco é, evidentemente, o atendimento psicoterápico, mas sem grande esforço podemos trazê-la à esta nossa questão: quanto melhores os laços de cumplicidade entre o médico e o paciente maiores as chances de cura. Simples assim.
A medicina que privilegia átomos e desprivilegia pessoas está com seus dias contados. Os pajés a destruirão por completo.
Eu não fui amargo. Fiz uma observação realista. Vc não sabe do que está falando, por isso, precisa estudar mais se pretende ser um médico que sabe o que está fazendo.
Medicina não é arte, é ciência. É apenas mais um ramo do conhecimento humano, aplicado à terapia.
Curandeirismo, sim, é outra coisa.
Vc está tão enganado sobre esse tema que está na marcha à ré. Antigamente os médicos tratavam os pacientes na base do achismo, tal como os curandeiros e rezadeiras ainda fazem.
Aplicavam ervas sem saber porque, faziam sangrias, provocavam vômitos, etc.
Hoje, a medida que o conhecimento detalhado avança, mais específica - e eficaz - fica a medicina.
Ao contrário do que vc pensa, é o achismo, o curandeirismo que estão com os dias contados. A medicina, como ciência, se aprofundará cada vez mais. E será, assim, mais eficiente.
Se quer ser médico, estude, entenda esses mecanismos e essa ciência. Do contrário vc não passará de um curandeiro da idade média, um rezador, um conselheiro inútil.
John,
Não tiro sua razão. Tomara que as coisas se deem da forma como você colocou. No texto original está escrito que o melhor curandeiro é aquele que sabe manejar um estetoscópio.
Mas você sabe que uma gama imensa de medicamentos são prescritos sem que se conheçam os seus mecanismos de atuação: apenas se sabe que fazem bem, mas não se sabe o porquê. Evidentemente que a eficácia é comprovada por estatística, mas, ainda assim, não é explicada.
Você também sabe que as maiores cobaias do efeito placebo são estudantes de medicina. Se o trigo fosse assim tão poderoso!... Oras, a própria verificação da existência do efeito placebo demonstra quão inexata é a medicina. Há caminhos certos e consagrados para o tratamento de diversas doenças? Sem dúvida alguma! São as melhores alternativas? Mais uma vez: sem dúvida alguma! Mas nada disso exclui o humano que, goste-se ou não, não é só um amontoado de átomos, e aí começa a complicação. A parte mais importante de um bom atendimento é o reconhecimento de que se atende uma pessoa, caso contrário não haveria a necessidade de médicos; bastariam os veterinários.
Supervalorização do efeito placebo. Este texto contém falhas lógicas.
hehehe Que empolgação "eu". Dois comentários de uma só vez? Estão aprovados...
Mas, diga-me cá. Quais as falhas lógicas do texto? Não que eu tenha tido a pretensão de ser lógico quando o escrevi, mas fiquei curioso...
Vide o que o John disse.
"Vide o que o John disse"? Até compreendo que você esteja tentando dizer que se sente plenamente representado pela opinião do John, mas não acha essa uma opinião pessoal muito limitada não? Além do mais minhas respostas aos questionamentos honestos e bem-intencionados dele foram brilhantes.
Eu percebo que você tenta desmerecer a ciência com opiniões como:
"Mas você sabe que uma gama imensa de medicamentos são prescritos sem que se conheçam os seus mecanismos de atuação: apenas se sabe que fazem bem, mas não se sabe o porquê."
Baseado em quê estudos você afirma isso?
"Eu",
Você tem umas opiniões muito interessantes. Mas, veja bem, desmerece a ciência quem a atribui poderes que ela não possui. Você quer um exemplo? A oxcarbazepina é um anti-convulsivante: ela é receitada para pessoas que sofrem de epilepsia. No entanto, ela também é receitada para casos moderados de transtorno bipolar do humor, que é uma doença psiquiátrica do tipo do tipo afetiva. Como ela funciona como moderador de humor ninguém sabe!
É isso mesmo, ninguém sabe explicar como a oxcarbazepina atua como moderador de humor e, no entanto, ela é receitada. Esse e mais bilhões de casos...
O seu erro está numa visão aparentemente distorcida do ser humano. Digo e repito: se fosse apenas uma questão de átomos médicos não seriam necessários, bastariam os veterinários.
É claro que a ciência não tem todas as respostas para o ser humano, mas o método científico é o mais confiável e evolui com o tempo. É baseado do empirismo e na inteligência e perspicácia humana.
Quanto à sua última afirmação: “se fosse apenas uma questão de átomos médicos não seriam necessários, bastariam os veterinários.” você está sendo contraditório. Afinal também se vislumbra inteligência nos animais.
Além do mais minhas respostas aos questionamentos honestos e bem-intencionados dele foram brilhantes.
Você acha mesmo que a sua própria resposta foi brilhante!?!
Você precisa amadurecer, Henrique.
E, já que que tem outras pessoas interessadas na conversa (!), peço que note que as atuais incertezas da medicina, que você evoca, comprovam o que eu disse, contradizendo a tua opinião, porque essas incertezas representam justamente um aspecto curandeiro da atual medicina. Curandeirismo, esse, que está sendo e continuará a ser derrubado, à medida que o conhecimento se aprofunda. Se quer usar exemplos em drogas, então veja a penicilina. Descoberta, quase por acaso, em 1928 e largamente usada desde 1945, passaram-se décadas até que se entedesse o seu mecanismo de funcionamento. Mas, uma vez entendido, abriu-se o caminho para o dsenvolvimento de outras drogas antibacterianias, mais eficazes.
Estude mais, Henrique.
Vocês não estão errados. Acho que já chegamos a um denominador comum. Se fizerem uma análise semântica do meu texto verão que, em suma, tudo o que ele faz é defender uma visão mais humana da medicina. Só.
"Ah, mas então por que você elogiou o curandeirismo?" Porque ele cura - a mente humana, ainda que em sua ampla parte desconhecida, não pode ser negligenciada. Vocês podem fazer malabarismos verbais mil mas não contradirão os fatos. E os fatos demonstram que a crença cura. Animais até podem ter algum grau de inteligência, mas ele não têm semântica.
Acho que já chegamos a um denominador comum.
De forma alguma. Como poderíamos chegar a um denominador comum, se você esta indo na direção contrária?
E, sinto muito, mas ou você escreveu aquele texto muito mal, ou não consegue interpretá-lo você mesmo.
E os fatos demonstram que a crença cura.
Que fatos? Apresente-os.
Mas note bem: você está dizendo que a CRENÇA cura. E diz conhecer fatos que comprovem isso. Efeito placebo, por exemplo (e mais uma vez ao contrário do que você diz), nada tem a ver com crença, mas com efeito psicológico (ou psicossomático se você preferir) que independe de qual religião o paciente segue, incluindo os ateus.
Só porque existem casos documentados de curas cujos processos não foram entendidos, não quer dizer que eles tenham ocorrido em função de qualquer tipo de fé, seja numa entidade invisível ou num pagé.
A medicina não tem que ser humana, tem que ser eficiente. Humanos tem que ser humanos - no sentido de cordialidade - em todas as situações. A tal utopia de um novo amanhecer...
John,
Efeito placebo, por exemplo (e mais uma vez ao contrário do que você diz), nada tem a ver com crença, mas com efeito psicológico (ou psicossomático se você preferir) que independe de qual religião o paciente segue, incluindo os ateus.
Mas é claro que independe! Oras, por crença entenda-se qualquer mecanismo mental que não o racional. E, como você mesmo nota (apesar de demonstrar grande relutância), o efeito placebo comprova tudo o que eu disse.
Eu,
A medicina não tem que ser humana, tem que ser eficiente.
Sugiro que você procure um veterinário na próxima vez que ficar doente.
"Eu",
Aqui bloqueei seus comentários só pra te irritar. Gosto da ideia de sabê-lo(a) irritado(a) com o convite de uma visita ao veterinário. Combina com o que você anda escrevendo.
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