A importância das imagens está continuamente em discussão. Argumentam alguns que se trata de coisa muito relevante, de enorme influência sobre as pessoas. Outros dizem que não é bem assim. Estes últimos sustentam que a força dos estímulos visuais é muito superestimada. Essa é uma discussão tão profunda que ainda não é a hora de analisá-la. Gostaria apenas de destacar alguns aspectos das diferenças entre ideia visual e ideia literária. Pensemos, por exemplo, em uma flor. Algo em nossa mente responde rapidamente com uma espécie de imagem mental do mínimo múltipo comum de todas as flores. Coisa muito diversa disto são cada uma das flores individualmente, pois nenhuma dessas se encaixa na imagem oferecida por nosso intelecto. Portanto, quando vemos a reprodução da imagem de uma flor, como, por exemplo, em um retrato, contemplamos uma coisa que existe (ou que pelo menos existiu) na realidade. A flor do nosso pensamento existe de forma radicalmente diferente desta.
Já podemos intuir algumas das diferenças que existem entre uma flor projetada na tela de um cinema e a leitura do termo "flor" em um romance. A flor do cinema tem cor, tamanho (se comparada a alguma coisa) e anatomia bem definidas. A flor do pensamento pode ser mais viva que aquela exibida no telão, mas geralmente é muito mais frágil que a reprodução do objeto real. Ou seja, a flor do pensamento é mais livre que o retrato de uma flor, pois consegue ser até mesmo mais viva que uma flor real. Imaginemos, por exemplo, um sujeito que delira todas as pedras serem flores, e todas as flores serem pedras. Quando seus olhos veem uma pedra, sua mente aciona a emoção despertada por uma flor. O sujeito pode, então, sentir-se fortemente atraído pela pedra. Sua atração, porém, está completamente voltada para a ideia de uma flor, ou seja, algo muito particular. A flor que o encanta é a flor do seu pensamento. Se diante do mesmo sujeito for colocada uma flor real, ele a desprezará como todos fazemos com a grande maioria das pedras.
Se vocês prestaram atenção puderam perceber que a flor mais real que existe é uma que não possui existência material; ela existe somente em nossa mente. Porém, na grande maioria dos casos, a flor do pensamento, aquela despertada pela leitura do termo "flor" em um romance, é mais frágil que a flor real, que tem a própria existência material a seu favor. Este simples exemplo talvez nos ajude a compreender porque a leitura exercita mais a imaginação que o cinema. As palavras são menos completas que a reprodução das imagens e precisam, portanto, de uma maior participação do seu observador. Essa percepção simples já levou a equívocos colossais. Muitos imaginaram que o cinema teria um poder avassalador sobre a mente das pessoas. Tanto é assim que todos os governos totalitários do séc. XX procuraram se apropriar dele com o claro intuito de dominar as pessoas mentalmente. O estudioso de cinema sabe que todas essas tentativas foram ineficazes. É grande a dificuldade em se tentar hierarquizar corretamente os valores envolvidos nesta questão.
Ao mesmo tempo em que assistir um filme demanda menos energia mental que ler um livro, o entendimento de ambos precisa da correspondência dos consumidores. Desde muito cedo psicólogos propuseram que um filme só pode ser compreendido à medida que o intelecto dos espectadores consiga recriar mentalmente as imagens que são projetadas na tela. É fácil demonstrar que o entendimento de um filme passa pela imagem mental que ele provoca. Peça a um exímio desenhista que reproduza em papel uma tomada do meio de um filme ao fim da sessão. Dificilmente ele conseguirá reproduzir fielmente a imagem que foi projetada, porque a imagem da qual ele se recorda foi aquela projetada em sua mente. Ou seja, a imagem projetada na tela foi interpretada por ele, de modo que a imagem real tem importância menos objetiva que a imagem que seu intelecto criou, afinal, a imagem que ele carrega consigo é aquela criada em seu interior.
E se os espectadores de um filme não conseguirem recriar mentalmente as imagens de um filme? Você já teve essa experiência. Todos nós já assistimos um trecho de filme onde se acelera o corte entre as imagens. No fim do processo, cada fotograma possui uma imagem que não corresponde ao fotograma interior. Cada um deles é projetado sobre a tela, mas nossa mente não consegue capturar cada imagem isoladamente. O efeito que esse processo causa em nossa mente é o de confusão. Ou seja, só conseguimos entender um filme quando somos capazes de assimilar mentalmente as imagens que ele contém. De certa forma, todos nós somos diretores de cinema, pois o E.T. de Steven Spielberg não nos interessa. O E.T. do qual nos recordamos é aquele que nossa mente construiu em nossa lembrança enquanto asssitiamos o filme de Spielberg.
Notem que a arte tanto do filme quanto do livro se resume a capacidade do artista em conduzir o pensamento dos consumidores. Será mais eficaz aquele que melhor seduzir ou instigar as pessoas que se aproximarem de sua obra. Mas se no entendimento de um filme a mente é tão ativa quanto no entendimento de um livro, como se pode dizer, como já afirmado, que a leitura exercita mais a imaginação (ou a mente como um todo) do que o cinema? É que nada pode ser compreendido sem a participação ativa da mente. Entender um filme a que se assiste demanda a nossa partipação, caso contrário, não poderemos compreender coisa alguma dele. Apesar disso, acho que todos compreenderão que, ainda que assistir a um filme exija o nosso pensamento, a leitura de um romance necessita de esforço maior. Talvez possamos enunciar o seguinte: o processo de construção mental das imagens que nos permitem compreender tanto o romance quanto o filme é maior no primeiro, o que não significa que não exista no segundo.
É que nossa mente cria mais facilmente a imagem mental de uma flor vendo a reprodução da imagem de uma flor real do que lendo a sua descrição. Afinal, o que é mais material, a imagem de uma flor ou as palavras que se poderiam utilizar para descrevê-la? Ainda que a imagem da flor não seja a própria, ela é mais imediata para nossa mente do que várias palavrinhas dispostas uma após a outra. Portanto, não é à toa que um povo tão pouco dedicado à leitura e ao saber como o brasileiro se interesse tanto por obras audio-visuais. Sua sede de sentido é satisfeita mais facilmente pelo drama veiculado em produtos audio-visuais do que em publicações literárias. Contudo, se fossemos falar dos processos mentais da criação de sentido através dos diferentes meios verificaríamos que requintes de sofisticação essa questão é capaz de atingir. Convém parar agora. A "digestão" mental do que já foi escrito até aqui o exige.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Diferentes processos de criação de imagens mentais
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3 comentários:
Verdade Henrique... faz todo sentido isso! realmente pela nossa cultura desde a nossa infancia, pela tv, pelos pais que quase ja nem contam historias e por todos que ja nao presenteiam mais com livros rsrsr; vamos no automático de buscar os recursos audiovisuais ao inves de literaturas. Valeu por contribuir com essa analise... vou sempre lembrar e me policiar...
Parabéns pelo blogger
Jana
Eu assisti muito televisão quando era criança, digo, quando fiquei um pouco mais crescida. Hoje, quase não vejo. Televisão uso para ver documentários que tenham algum interesse, shows e filmes, ainda assim, não é qualquer filme. Prefiro ler notícias na internet e interagir com pessoas; O livro é realmente o melhor veículo para a imaginação, pois é o único veículo que pode criar pensamentos únicos. Um filme é um pensamento pensado.
Ora ora! Estou apaixonada! ahahahah. Gostei deste artigo! Muito ocerente vc disse de uma forma didatíca muito sobre semiótica e uma coisa q na arte se conhece por primeira imagem, segunda imagem e terceira imagem. Acredito não precisar discorrer sobre isso pq perderia pra riqueza de seu artigo. PONTO PRA VC hehehe.
Bj, Luli
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