Divagações sobre a vontade

Minha intenção original com o penúltimo texto, o da menina que nasceu causando (é melhor lê-lo antes de prosseguir este aqui), era elogiar a atitude da jovem mãe que estava presa em trabalho de parto no engarrafamento recorde de ontem em São Paulo. A tremenda chuva que caiu fez o rio Tietê transbordar causando 70 pontos de alagamento na cidade. Imagine-se nessa situação terrível! O marido dela abandonou-a no congestionamento e foi pedir socorro num posto da polícia civil. Em cinco minutos chegava um helicóptero para resgatá-la daquela loucura. Sã e salva, ela deu a luz à uma menina saudável no hospital. Chamou-me a atenção a chamada à reportagem que narra sua história: "Minha filha nasceu arrasando!" Não deixa de ser verdade, mas não seria equivocado pensar que é uma colocação exagerada. O que eu queria mesmo é colocar esta fala em perspectiva pois, parece-me, ela revela muitas coisas interessantes.

O mais óbvio desta fala é o prestígio conferido ao lado positivo do acontecimento. A mãe não apenas comemora que tudo tenha acabado bem: ela significa o desfecho feliz do infortúnio na perspectiva da filha, como se a mesma estivesse destinada a um futuro maravilhoso pois têm um imenso poder de chamar a atenção, demonstrado por todo o efetivo que ela deslocou para conseguir nascer. Ela não é uma pobre coitada que nasceu dentro de um carro preso em um congestionamento. Ela é um ser diferenciado que conseguiu deslocar à sua causa um distrito policial, um helicóptero e duas avenidas centrais da maior megalópole brasileira. Todavia, a conclusão de que isso é "causar" não é fantástica, mas ordinária, pois a maioria das mulhers que passassem por esta experiência pensariam coisa semelhante. O que não significa que, diante das mesmas circunstâncias, outra mãe não pudesse ter uma reação completamente diferente.

Imagino as reclamações de minha mãe caso fosse ela a supliciada. Mesmo que tudo tivesse ocorrido de uma maneira positiva como neste caso, ela reclamaria de modo extremo das terríveis dificuldades. Ou seja, privilegiaria, na sua fala, o desconforto, o transtorno, e não daria ao desfecho feliz um reconhecimento sadio: não teria por ele gratidão ou, se o tivesse, não o manifestaria com a mesma liberalidade com que reclamou do infortúnio pois, para uma pessoa como ela, a menor ocorrência negativa tem peso muito maior que o mais maravilhoso acontecido. Ou seja, por uma variante psicológica o transtorno receberia muito mais atenção e energia emocional do que o desfecho sem maiores problemas.

E por que isto ocorre? Por questões como esta insisto tanto neste blog que não se negligencie o poder da mente, pois é com o pensamento condicionado a operar de uma determinada forma que se determina quem será feliz e quem será miserável. Serei mais literal ainda, preste atenção: a pessoa feliz o é porque procura sê-lo ativamente. A pessoa triste e depressiva é reclamona e infeliz porque ativamente colabora com este plano de tornar-se a si mesma miserável e decadente. Ou seja, é com o pensamento que se constrói o que se é. Através de determinações que a pessoa se faz será selado o seu destino: se ela será triste ou feliz. Esta é a equação simplificada do problema. Há, porém, a equação completa do problema, que envolve mais variáveis e, infelizmente, parece complicar-se ao infinito.

É simples entender porquê. Se apenas uma simples "programação mental" resolvesse qualquer problema não haveria miseráveis, ninguém fumaria, todos seriam atraentes e simpáticos, ninguém reclamaria, etc. Há, porém, um grande charme em ser decadente. Muitas pessoas inconscitentemente consideram belo ser lânguido, arrastado, melancólico. E isso não é uma mania atual da tribo emo. Penso, por exemplo, nos fenômenos de James Dean e Marlon Brando: os heróis tristes. Para essa gente, a maior desgraça é ser radiante, feliz, sorridente como Will Smith, o boa-praça que adora zombar do tristonho (e sempre reclamão) Eminem. Pode-se voltar ainda mais no tempo: lembram-se dos românticos das aulas de literatura? Pois é, eles achavam lindo morrer de tuberculose com 30 anos de idade. Como se vê, há gosto pra tudo.

Muitas pessoas desejariam ser felizes, mas flertam o tempo todo com a tristeza e com a melancolia. Mas não é só isso. Certamente há pessoas que querem abandonar a própria miséria que não se sentem atraídas pela decadência. Como podem ser tristes? Se o único foco dessa gente é vencer o monstro, a tristeza, acabam perdendo o rumo, pois marinheiro que só olha para as pedras não consegue enxergar o atracadouro. A pessoa acaba dando contra as pedras com o barco da sua vida. Ainda que rejeitem a tristeza com todo o coração, tudo o que essas pessoas fazem é reforçar este comportamento. Para atracarem com segurança, precisam olhar para o porto, para o atracadouro, para a meta real, que não se limita a não ser triste, mas a ser feliz. Ou seja, inverte a questão a seu favor.

Há ainda a questão do merecimento que a pessoa se permite. Ainda que queiram ser felizes e odeiem a tristeza, certas pessoas não conseguem ser positivas porque, no fundo, acham que não merecem. Por mais estranho que pareça, isso é bastante comum. E é fácil perceber pois, caso se julgassem merecedoras da felicidade elas certamente seriam felizes. Talvez já esteja dando para perceber que todas essas forças lutam no interior de cada um de nós ao mesmo tempo. Arrisco dizer que ainda há muito mais variáveis. Não é, portanto, como já disse, questão das mais simples. Por isso falei antes em equação reduzida pois, ainda que a fórmula "É feliz quem trabalha para isso" resuma bem a questão, não estão anuladas as dificuldades verdadeiras em toda a sua desconcertande profundidade.

Não creio haver exagero em dizer que a questão da felicidade é uma questão de crença, de fé em si mesmo, pois, como demonstrado, é uma impressão ou ideia muito simples e (creio ser possível afirmá-lo) fundamental que determina uma coisa tão importante quanto a auto-realização. Vejam bem, para ser feliz não é preciso ter uma fortuna, nem uma namorada belíssima. Querer estas coisas é querer a coisa errada, é dar murro em ponta de faca, é procurar ser infeliz deliberadamente. Portanto, procurar qualquer felicidade que esteja fora de si é agir como um derrotado. A pessoa feliz o é consigo mesma. Não é em coisas externas a si que ela encontra os motivos para viver. Como tenho continuamente insistido, é o pensamento que determina quem é feliz e quem não é, não as circunstãncias naturais. Há muitos pobres que são felizes e muitos ricos que são miseráveis. Em outros casos é o contrário. Nunca se foge, porém, desta determinação de que a felicidade é algo que depende das pessoas e não das circunstãncias.

Tentando achar alguma simplicidade nesta complexa questão creio ser possível afirmar que ser feliz depende apenas da atitude interna, ou seja, da veracidade do compromisso que a pessoa assume consigo para superar os desafios. Ou seja, aquela pessoa que deseja verdadeiramente o bem atua com todas as suas forças para que ele aconteça. É evidente que ela irá aprender muitas coisas no caminho. Também terá que se adaptar às lições adquiridas. Mas se a determinação de prosseguir para além das dificuldades for verdadeira e tenaz é razoável supor que ela conseguirá superar quaisquer desafios. Ainda que ela sofra de terríveis contrariedades, como uma indefectível doença genética, se ela der tudo de si na busca de uma solução encontrará alguma resposta satisfatória, ainda que dolorosamente incompleta. O que ocorre em muitos dos casos de insucesso é a arrogância. A pessoa fica bloqueada pela sensação de ser capaz de resolver problemas terríveis sozinha. É mesmo um pouco contraditório pois, ao mesmo tempo em que a felicidade depende apenas dela própria, se a pessoa não for humilde para reconhecer suas limitações ela nunca se abrirá a um axílio externo necessário na grande maioria dos casos.

Como grande amante da saúde mental não consigo deixar de mencionar a extrema necessidade da psicoterapia em casos de depressão e/ou crises pessoais. Através do auxílio externo torna-se mais fácil reparar as próprias deficiências, ou seja, naqueles incômodos pontos que o doente reluta em corrigir. Ou seja, a pessoa determinada a ser feliz não se importa em abrir mão de antigos caprichos caso isso colabore com a melhoria de sua qualidade de vida. A pessoa determinada não é orgulhosa e caprichosa. Pelo contrário: ciente de que precisa melhorar e mudar não se constrange em aceitar opiniões de pessoas mais experientes que ela, ou seja, não é cabeça-dura! Ela não sequestra secretamente seus planos de ser feliz com neuroses infantis; ela as rejeita e procura soluções externas ao problema. Claro! Se até ali ela não soube lidar com a situação é razoável supor que sozinha ela não conseguirá resolvê-lo.

Portanto, nota-se que a pessoa verdadeiramente disposta a progredir não receia procurar ajuda. Como ela é humilde para reconhecer sua incapacidade momentânea de lidar com todos os problemas de sua vida, ela procura pessoas mais experientes ou profissionais da área de saúde mental. Não acredito que o trabalho da psicologia ou da psiquiatria se limite a apagar incêndios. Digo que a função principal das mesmas é evitá-los. Mas como a saúde mental depende tanto da determinação individual, infelizmente, por ser caprichosa e arrogante, a maioria das pessoas só procura auxílio profissional quando já é tarde demais: suas neuroses são transformadas aos poucos e o organismo acaba somatizando-as em francos desequilíbrios na química cerebral. Nestes casos mais sérios melhora não é possível sem se recorrer ao psiquiatra.

Ou seja, não bastassem todas as dificuldades mencionadas até agora, nota-se que a atitude interna verdadeiramente disposta à felicidade é também humilde, sincera e simples. Pelas minhas leituras de semiologia dos transtornos psiquiátricos e minha experiência com psicologia na faculdade afirmo categoricamente que a pessoa arrogante e prepotente terá muito maior dificuldade em ser feliz do que a pessoa humilde e simples, que não receia em admitir-se necessitada de ajuda. Notem bem: quanto mais auto-suficiente alguém se considerar, mais fechado estará à felicidade porque menos aberto a considerar humildemente o que os outros dizem. Ser feliz é reconhecer no próximo o auxílio necessário e verdadeiro. Quem vê o inferno no vizinho será necessariamente infeliz e miserável. É terrível perceber que praticamente todas as filosofias modernas e contemporâneas são negativas e nocivas à uma eficaz higiene de pensamentos. Ao invés disso, elas parecem empurrar seus adeptos ao abismo da tristeza e da auto-suficiência.

Infelizmente o texto vai ficando excessivamente longo: sem sombra de dúvida é mérito da questão fabulosa. Agradeço os que chegaram até aqui. Esse não é mesmo um assunto que se limita a um texto de blog, ainda que três vezes maior que este. Aos poucos chegamos lá, como em tudo o mais em nossas vidas. Que o leitor tenha ao menos percebido que, apesar da questão não ser simples, uma atitude alegre e jocosa sobre os acontecimentos quotidianos, como a da mãe que piorou ainda mais a situação da São Paulo em caos para ter seu bebê, ajuda a tornar a vida mais leve e feliz. Espero ter lançado a semente que me permitirá concluir em outros textos que essa atitude positiva vai, aos poucos, somando-se de forma cumulativa, tal que, quando menos esperar, a pessoa adepta dessa simples filosofia se encontrará feliz e plenamente realizada.

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