segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Há utilidade em se ensinar ciência na televisão?

Há, em ciência, uma questão fundamental: a correta descrição dos processos naturais. Quem já leu um texto verdadeiramente científico sabe do que estou falando. Ao contrário das várias coisas que são ditas nos meios de comunicação em nome da ciência, um texto que descreve um fenômeno natural é necessariamente exaustivo, pois descreve com grandes requintes de minúcias os assuntos mais complexos e delicados. Ou seja, há um abismo entre a ciência verdadeira e o que se diz a seu respeito. Na ciência propriamente dita não há problema algum. Que há de errado em descrever a composição química das rochas basálticas da bacia sedimentar do Vale do Paraíba paulista? O problema está no uso, muitas vezes incorreto, que se faz das descrições científicas.

Os próprios cientistas não estão imunes a este grave perigo. Isto já foi ponto de partida para muitos textos importantes deste blog. Quem teve a oportunidade de folhear os escritos de Charles Darwin notou as minúcias a que ele chegava em sua argumentação. O mesmo Darwin, homem profundamente sábio, não foi poupado do vexame de utilizar de maneira dramaticamente equivocada as suas descobertas. Justo ele, um grande abolicionista, que ficou profundamente enojado com a sociedade brasileira quando parou por aqui na famosa viagem a bordo do HMS Beagle, considerava negros tipos inferiores de ser humano, como se neles o processo evolutivo não tivesse chegado ao fim verdadeiro. Para Darwin os negros são involuídos, primitivos e bestiais por natureza. Um equívoco fenomenal que, infelizmente, serviu para fundamentar os preconceitos difundidos pela "ciência" nazista.

Por isso é fundamental saber separar corretamente os elementos em questão. Uma coisa é a ciência e a descrição pormenorizada dos fenômenos naturais. Outra, muito diferente, é o uso que se pode dar às descobertas científicas. Como já disse, geralmente as descrições científicas costumam ser muito minuciosas e detalhistas. Por uma questão evidentemente didática, os textos que informam as descobertas científicas são necessariamente simplificações muito grandes dos fenômenos reais. Uma coisa é o relatório feito por Francis Collins ao concluir o Projeto Genoma, que descreveu uma a uma a disposição das bases nitrogenadas do nosso DNA. Outra, completamente diferente, foram as reportagens que procuraram fazer o cidadão comum entender, ainda que minimamente, as conquistas do maior projeto científico até então.

Escrevo estas coisas inspirado por uma breve reportagem veiculada ontem no Fantástico. No quadro Neuro Lógica!, Suzana Herculano-Houzel, apresentada como neurocientista, menciona aos telespectadores que o campo cerebral responsável pela localização espacial chama-se hipocampo. Só. Apesar dos três minutos de que o quadro dispunha, a única informação relevante foi essa: "O hipocampo é a estrutura neurológica onde se processa a localização espacial" (vídeo disponível aqui). O que me causou inquietação não foi esse enunciado extremamente simples; foi o tom definitivo dado à questão. Notem, ainda que o cérebro humano se utilize unicamente do hipocampo para o processo de localização espacial, isso não significa que outras operações, de outras funções cerebrais estejam ocorrendo ao mesmo tempo, pois o cérebro não desempenha uma única função de cada vez. Pelo contrário, utilizamos zilhões de funções cerebrais diferentes a todo instante. O simples ato de admirar uma flor envolve praticamente uma infinidade processos diferentes, ainda que a região do cérebro responsável pela visão seja apenas uma.

Para mim, há um problema grave escondido nesta questão aparentemente boba. Qual o custo envolvido em comunicar às pessoas leigas as descobertas científicas? É certo que não haveria problema algum em instruí-las na nobre ciência do prof. Angelo Machado da UFMG, autor de Neuroanatomia Funcional, amplamente difundida entre os cursos de medicina e psicologia do país. O problema é que, para tornar a informação inteligível aos leigos, mutila-se o assunto real. Como não são capazes de compreender o fato científico, pois faltam-lhes uma imensa bagagem cultural para que possam apreender minimamente qualquer questão mais aprofundada, simplifica-se a ciência ao ponto de deformá-la! Qual a ciência em dizer que o hipocampo é a estrutura neurológica responsável pela localização espacial? Para um leigo essa informação é tão relevante quanto à narração do último escândalo de Lady Gaga.

Há, portanto, um custo gravíssimo embutido na ambição aparentemente inofensiva de levar a ciência às multidões, pois isto é impossível!, a menos que a população inteira dispusesse de repertório que a tornasse capaz de compreender as questões levantadas. Acredito que a maior prejudicada nesse processo é a própria ciência, a qual se passa a atribuir, erroneamente, poderes que ela não possui. Qual o mérito em difundir na população uma expectativa que nada é capaz de suprir? Nenhum. Prejudica-se a população, que passa a acreditar em idiotices, e prejudica-se a ciência, à qual se deveria recorrer para a solução de questões que ela pode responder.

Compreendo que muitas dessas tentativas de levar conhecimento científico para a população seja fruto de sentimentos nobres e justos. Não duvido das boas intenções de ninguém que acredita na educação. O problema é, infelizmente, uma questão prática. É possível se ensinar funções neurológicas para a população brasileira em três minutos a cada domingo? Não. Então por que isso é feito? Porque as pessoas são curiosas e sentem-se satisfeitas por saber que o hipocampo seja responsável pela localização espacial, ainda que essa informação não lhe tenha absolutamente nenhuma serventia. Essa não é uma questão científica. Essa é uma questão comunicacional televisiva. O quadro está lá porque as pessoas consideram-no interessante: dá audiência. A ciência, infelizmente, está sendo utilizada de uma maneira pouco nobre.

É como eu já havia mencionado: o problema não está na descrição dos fenômenos naturais. O problema está no uso que se faz dessas informações. Eu não acho minimamente útil para a população receber pílulas de pseudo-ciência. Muito mais proveitoso seria um quadro que incitasse à leitura. Ou outro que levantasse a questão da violência em sala de aula. Ou outro que discutisse a questão profissional dos professores. Ou outro que discutisse a questão do ensino no Brasil. Ou qualquer outra coisa que incitasse os brasileiros ao hábito do estudo. Esses são assuntos pertinentes! Como se vai construir uma população mais bem educada? Com pílulas dominicais de três minutos de neurociência ou discutindo o problema da educação no país? Não é difícil perceber que as questões pertinentes e necessárias são bem menos atraentes.

O povo quer mesmo é se esquecer dos problemas e ter a ilusão de que assistindo televisão poderá aprender alguma coisa. Será que incentivá-lo nessa ilusão é algo positivo? Como já demonstrado, não há ciência alguma nas reportagens aparentemente bem-intencionadas de divulgação científica. Não posso acreditar em uma ciência que se satisfaça em enganar a população dessa forma. Ciência tem necessariamente de promover o saber verdadeiro: a descrição exaustiva e pormenorizada dos fenômenos físico-químicos, senão, ela não apenas não instrui como até mesmo colabora na percepção erradíssima de que se pode aprender alguma coisa verdadeiramente útil a seu respeito com pílulas dominicais de três minutos. Infelizmente, até mesmo quando levanta questões científicas, tudo o que a TV faz é alienar e emburrecer.

6 comentários:

Ariel Wollinger disse...

Charles Darwin's 1859 On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life was very influential, although it made no mention of humanity and when he published his views in his The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex of 1871 he was emphatic that there were no clear distinctive characteristics to categorize races as separate species, and that all shared very similar physical and mental characteristics indicating common ancestry.[11][12] In making his case for the reality of one human species, Darwin contrasted "civilized races of man" with "the savage races" like almost everyone else at that time (except Alfred Russel Wallace) making no clear distinction between biological races and cultural races. He also noted the likelihood of "savage races" being wiped out at that time of colonial expansion, but gave no support to such extermination. However, although Darwin was not racist and throughout his life strongly opposed slavery,[13] the term "Social Darwinism" was applied in the 1940s to denote various ideologies including pre-Darwinian racist ideas combined with concepts loosely based on evolution by natural selection. Scientific racist theories became associated with the expression "survival of the fittest", coined by Herbert Spencer in 1864.[11]

http://en.wikipedia.org/wiki/Scientific_racism

A conclusao de Darwin era baseada no que se observava, sem o auxilio de genetica. E na verdade sua conclusao nao estava errada ( SEM RACISMO AQUI! ) completamente. Uma pesquisa recente que tirou amostras geneticas de todas etnias do planeta, conseguiu tracar um mapa da migracao da raca humana , que teve origem, adivinhem onde, na africa. Existe um povo na africa do qual TODOS somos descendentes. Eles nao sao involuidos, mas sao sim a etnia da raca humana mais antiga que existe.
Nao existe diferenca em capacidade mental, como Darwin notou. Somos a mesma especie, pois podemos copular com qualquer uma dessas etnias e obter filhos nao estereis.
( aqui o link: https://genographic.nationalgeographic.com/genographic/index.html )
Ou seja, voce cometeu uma falácia...
O real problem esta sim em distorcer ciencia e pelas maos de religiosos fanaticos. Nao chatolicos, mas a crentaiada louca, com a ajuda de pseudo-cientistas como Adauto Lourenço, que "provam" que a arca de noé existiu, e que o diluvio alagaou todo o globo, ou pior, que as criaturas que povoam a terra sao criacoes divinas, todas magicamente colocadas a menos de 6 mil anos no planeta, e que o mesmo e o universo tem 6 mil anos.
É isso que precisa-se combater, a anti-ciencia.

acho que voce devia escrever sobre isso, que realmente é o que ameaca o futuro cientifico do ocidente. A praga pseudo-cientifica do DI. Design Inteligente.

Vale a pena procurar no youtube. Esse Adauto é um alvo facil pra quem entende o minimo de ciencia. Até voce henrique consegue ver as besteiras que ele fala...

Ariel Wollinger disse...

"..., ainda que o cérebro humano se utilize unicamente do hipocampo para o processo de localização espacial, isso não significa que outras operações, de outras funções cerebrais estejam ocorrendo ao mesmo tempo, pois o cérebro não desempenha uma única função de cada vez."

Perfeito. Quem quer ver ciencia, favor dirijam-se ao National Geografic.

A globo pra divulgar ciencia é o fim.

Ariel Wollinger disse...

"Há, portanto, um custo gravíssimo embutido na ambição aparentemente inofensiva de levar a ciência às multidões, pois isto é impossível!, a menos que a população inteira dispusesse de repertório que a tornasse capaz de compreender as questões levantadas."

exato, por isso digo sempre:
mais escolas, menos igrejas.

Ariel Wollinger disse...

"Este filmeco de James Cameron simboliza o amplo avanço do processo de bestificação que EUA estão sofrendo, cujo efeito mais notável foi a eleição de um imbecil só porque era negro. Quem não votasse em Obama o fazia por preconceito, disseram os bárbaros. Então quer dizer que não votar em Obama por convicção simplesmente não existia? São energúmenos desse tipo os avatares que dirigem a CNN e o New York Times. É preciso combatê-los, desmacará-los. Estas verdades precisam chegar ao entendimento da opinião pública. Cientes dos absurdos que se defendem em Avatar ninguém, em sã consciência, colaboraria em torná-lo o sucesso de bilheteria que ele será. Muito menos doariam dinheiro para um canalha desgraçado como James Cameron. Pergunta o leitor desavisado: "Defendem-se práticas satânicas como espetar agulhas em crianças no filme Avatar?" "


Sim! vamos votar no McCain! O warmonger!!

Vamos assistir a Fox news! um canal idôneo!!!

James cameron é o anticristo!

AHAHAHAHAAHAHHAHAAH!!

Henrique Rossi disse...

Ah, legal que você falou do post sobre Avatar. Senão ninguém falaria nada, hehehe. Como eu respondi naquele campo de comentários, eu acabei estendendo demais a análise, então, da forma como o texto saiu, ele é mais interessante para incitar ao questionamento do que dar uma opinião propriamente dita.

Vou falar de D.I. sim e do tal Ataulfo também (você tem links para coisas que ele escreveu?) Tantas coisas e tão pouca vida! Escrever é difícil, viu? :) No meu caso, sou um pouco dependente de inspiração, o que torna as coisas menos fáceis...

Ariel Wollinger disse...

so procurar por adauto lourenco no google.
no site clube cetico existe a dissecacao de seu suposto curriculo. eu mesmo ja enviei email a algumas das instinuicoes que ele julga ter trabalhado com ou estudado em, e a resposta foi negativa.
no youtube existem dezenas de videos dele e tambem nao faltam videos destruindo-o.