quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A menininha que nasceu causando

Se você é mulher imagine-se grávida em trabalho de parto. Que sufoco, não? Vamos piorar um pouco a situação. Imagine-se presa no trânsito de ontem na avenida da marginal Tietê em São Paulo a caminho do hospital. A cidade parou com o transbordamento do rio e de mais de 70 pontos de alagamento. Então seu marido se desespera com os seus gritos de dor. Ele avista ao longe um posto da polícia civil e pede-lhe que espere pelo seu retorno. Você grita para que ele não vá, mas que mais poderia ele fazer? Em meio a uma das maiores tempestades testemunhadas pelos paulistano ele te larga sozinha num carro preso em um congestionamento. Você grita e chora, mas ele se vai. A sua angústia é, agora, dobrada pela circunstâncias duplamente terríveis. Não bastasse o horror de ver-se presa naquele trânsito insólito, com a saída de seu marido não há mais a quem recorrer. Você saberá depois que os oficiais do distrito policial se sensibilizaram imediatamente com a sua história. Somente mais tarde, quando a dor tiver passado o limite do suportável, você ouvirá o zunido do helicóptero da polícia, que eles imediatamente chamaram.

Foram poucos minutos abandonada naquele carro, em meio ao maior dilúvio que os seus olhos já viram, mas com eles certarmente terá cumprido a sua dose de sofrimentos para esta vida. Qual não foi o seu alívio quando seu marido voltou do posto policial com a informação de que um helicóptero estava a caminho. O quê? Um helicóptero? E junto dele estavam dois policiais que trataram de taxear o carro onde você estava para mais perto do local onde a aeronave pousaria. Mas você não pôde pensar naquelas coisas: bastavam-lhe as contrações que, a cada instante, se tornavam mais próximas umas das outras. Mais alguns poucos minutos e você estava ouvindo o zunido inconfundível do helicóptero. E agora, como seria? Apoiando-se nos ombros do seu marido e de um policial você sai na chuva. Essa seria uma história na qual ninguém acreditaria depois. Você naquela chuva, o helicóptero, a bolsa vazando continuamente o líquido amniótico, as contrações, ai! Outro policial te ajuda a entrar na aeronave. Seu marido embarca logo após você. Mal se fecha a porta, as pesadas hélices iniciam seu giro. Cada vez rodopiam mais alto e mais forte. Até que o bicho todo alça vôo.

Deu para você ver, pela janela, os carros tornando-se tão rapidamente pequeninos. Era a primeira vez que você voava, e que circunstâncias! Pena que, do helicóptero, toda grande distância se faz pequena - em poucos minutos vocês haviam chegado ao hospital. Onde estávamos? Ah, sim! O bebê! Ai! Como você se esqueceria? Em poucos instantes nascia a sua menininha, seu primeiro filho. Que alívio quando a puseram no seu colo. Será que ela acreditaria quando você lhe contasse como ela nasceu? Fora o engarrafamento infinito tudo naquele dia foi rápido. Agora você não mais duvida do que o seu coração de mãe já te aconselhara: sua filha tem mesmo alma de artista - já nasceu causando! (Relato original aqui).

2 comentários:

Rita disse...

Se você fosse mulher saberia que toda criança nasce causando. :)

Henrique Rossi disse...

É.. Mas essa do helicóptero bateu todos os recordes! hehehe