O banco Itaú avisa: o perdão foi feito pra você

Os homens auto-suficientes julgam-se libertos da necessidade do perdão. Do ponto de vista simbólico, eles vivem unicamente do seu próprio universo psíquico. Bastam-lhes as suas resoluções e determinações internas. Eles não se veem parte do todo. Portanto, ainda que sintam falta de uma correspondência externa ao modo como vivem, preferem este isolamento auto-imposto a se abrir. Como consequência, carregam dentro de si um peso emotivo desproporcionalmente grande; uma carga que os escraviza da própria vontade, tornando-os cada vez mais dependentes da própria auto-suficiência, aprofundando-se, assim, no egoísmo e na arrogância. Sem grandes dificuldades, essas pessoas chegam à conclusão de que os outros são mesmo um inferno pois, como existem de maneira necessariamente diferente, revelam ao egoísta que ele mesmo possui compaixão; um sentimento que ele preferiria esconder de si e, principalmente, dos outros. Ou seja, compartilho da ideia de que não há ninguém que seja 100% mau. O que existem são pessoas 100% determinadas a apagarem de si qualquer resquício de bondade. São essas as pessoas que se irritam profundamente com o proceder das pessoas amorosas, pois estas denunciam-lhes a maldade que praticam não com palavras, mas com o comportamento. O egoísta sente-se arrasado em notar que a sua maldade não lhe é própria. É antes um desejo que ele quotidianamente se impõe, e ao qual só consegue ser fiel com muito esforço e dedicação.

O perdão existe para todos, mas só o aceitam as pessoas que se sabem imperfeitas, que admitem terem sido muitas vezes seduzidas por essa maldade que as pessoas egoístas procuram de modo tão apaixonado. A pessoa boa se entristece pelo consentimento que deu ao ato malvado e procura o perdão. Todas as religiões de alguma forma auxiliam o processo de libertação dos seus seguidores desse sentimento. Sou da opinião de que algumas religiões são mais bem-sucedidas que outras nessa tarefa. O que inexiste é uma religião que aconselhe seus adeptos a persistirem nas más intenções. De fato, o que existe para defender o mal são doutrinas anti-religiosas que sempre incitam seus seguidores à práticas nefastas. Todas as pessoas de reta intenção estão iniciadas na prática de procurarem o perdão. O desejo de perdão é um sentimento universalizado, comum a todos. Como já afirmado negam-no algumas pessoas pela prepotência com a qual estão comprometidas, ainda que isto não signifique, em hipótese alguma, que tenham sido plenamente cegadas pelo mal que procuram. Essas pessoas fogem da própria consciência, negando-se a escutar todos os desesperados apelos que se dão a si mesmas sobre a doutrina maléfica que seguem. Ainda que o perdão também tenha sido feito para elas, recusam-se a recebê-lo, que dirá admitir o sentimento de que o necessitam. Só a pessoa humilde está aberta para o duro reconhecimento da própria imperfeição, ou mais, do próprio mal. Somente a pessoa aberta para um juízo muito frio e honesto de si consegue-se perceber na necessidade irrefreável de ser perdoada.

Por que nossa consciência age assim? Não sei. Muitos dos que creem em Deus afirmam que o maior agravado com suas más atitudes é a própria divindade. Solicitar o perdão do alto é como que procurar fazer as pazes com um amigo contra o qual se cometeu alguma ofensa. Ou seja, as pessoas que creem em Deus geralmente o veem como um amigo e, quando fazem alguma coisa contra ele, procuram restabelecer a amizade através de um sincero pedido de desculpas. Por sua vez, a pessoa que não crê em Deus têm fortes motivos para considerar o perdão um sentimento que possuímos para garantir a continuidade e saúde da sociedade institucionalizada. As pessoas que creem em Deus se equivocariam, segundo este modo de pensar, apenas por estenderem a verdadeira necessidade de perdão que possuem em seu coração a um ser inexistente. De qualquer forma, como a maioria das pessoas crê em Deus, pedem-lhe o seu perdão das mais variadas formas. Ainda que o perdão divino venha de formas diversas segundo as diferentes religiões, a necessidade de recebê-lo parece tão universal quanto a própria crença num ente superior. Para os cristãos, o Natal é a festa mais radicalmente próxima ao perdão porque o seu Deus faz-se presente da forma mais frágil conhecida: um simples recém-nascido. Quem já teve a oportunidade de segurar em seus braços um bebê nascido há pouco sabe do que estou falando. Para os cristãos, o Deus criador do universo fez-se pequeno ao ponto de encarnar no ventre de uma mulher só para estar mais próximo de nós. Para que o seu perdão fosse o mais humano possível.

Para demonstrar como estou correto em tudo o que disse, vou apelar a um comercial de TV. Como já afirmei diversas vezes neste blog, se há uma instituição da sociedade contemporânea onde não se permitem mentiras é a publicidade, pois sua urgência máxima é atingir as pessoas convencendo-as de que o produto anunciado por ela é o melhor. Para tanto, a publicidade recorre ao patrimônio ideológico comum a todos, o tal inconsciente coletivo, pois anunciar um produto de modo a atingir particularmente cada indivíduo seria extremamente dispendioso (ainda que esta seja, de fato, a publicidade mais eficaz que existe). A campanha de Natal do Itaú demonstrou com clareza a nossa urgente necessidade de perdão afirmando sem meias palavras: "O perdão foi feito pra você." É até assombroso que os publicitários tenham decidido incluir este termo na propaganda, mas puderam fazê-lo com segurança porque, em verdade, como já afirmei, todos têm este desejo em seu coração. Só podemos repeti-lo com os nossos votos de um Feliz Natal. Eu sei, e você também, que o meu coração, e o seu, precisam sentir-se perdoados. Recorramos ao Deus-menino, reclinado sobre a miserável mangedoura, e peçamo-lhe aquilo que ele possui de melhor para nos dar: o seu perdão, feito pra você, e pra mim também.

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