terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Os caipiras analfabetos adoradores da grande teta

Diogo Mainardi já escreveu que o brasileiro é o povo mais nacionalista que existe. A princípio, dado o mito tão difundido que não somos nada orgulhosos da nossa pátria, parece que ele está errado, mas achar que não somos suficientemente nacionalistas já demonstra nossa preocupação extremada com este assunto. Lembro-me das críticas que FHC e seu ministro do turismo fizeram ao episódio dos Simpsons no Rio de Janeiro, ao fim do qual Bart é devorado por uma sucuri no morro do Pão de Açúcar. A imprensa internacional chamou-nos caipiras por criticarmos os Simpsons. Também tivemos o jornalista do New York Times que chamou Lula de beberrão - não apenas os políticos (inclusive da oposição!) indignaram-se com esta história: também a nossa imprensa achou que Larry Rohter equivocou-se ao reportar a verdade sobre os hábitos etílicos do molusco.

Estou sabendo hoje de mais uma ocorrência desse tipo. Acabo de ver no Bom Dia Brasil que Robin Williams, a babá quase perfeita, em entrevista ao David Letterman, disse que o Rio de Janeiro conquistou o direito de sediar as Olimpíadas de 2016 porque ofereceu aos membros do COI 50 prostitutas e um quilo de "pó". A reportagem fez questão de ressaltar que se tratava de uma piada de extremo mal-gosto e que ele, Robin Williams, já foi duas vezes internado por vício em cocaína. Eu pergunto: e daí? O que a reportagem pretendeu fazer ao lembrar esse episódio da vida particular do ator? Desautorizar as suas afirmações. Mas isso era realmente necessário? Querer responder a isso é coisa de caipiras. FHC estava certo.

Não estou criticando que se noticiasse o fato, mas acho que não precisava lançar sobre a piada um juízo moral tão intolerante. A lembrança de que Williams foi por duas vezes internado para se tratar de vício em cocaína foi ainda mais leviana! Era óbvio que se tratava de uma brincadeira escrachada! Os que os brasileiros estão pretendendo fazer? Ser tratados no cenário internacional com a mesma reverência exigida pelo Führer? Oras! Quanta hipocrisia! Somos o povo mais irreverente do mundo! A mesma televisão que criticou Williams por uma piada fica mostrando as tetas de várias mães de família durante o carnaval.

Olhem que contradição vexatória! Fazemos o tempo todo piada com os portuguese chamando-os burros (o que não é verdade), mas quando algum pobre coitado faz troça com alguma miséria nossa (no que geralmente estão certos) ficamos irados: nossos políticos reclamam e a imprensa apoia enquanto o povo todo aplaude. Isso aqui é o fim do mundo. Maldito o dia em que meus antepassados, italianos analfabetos, pegaram um navio cheio de ratos e vieram para este buraco! Já que minha família toda está aqui não me animo a morar fora, mas se eu não os amasse tanto e precisasse continuamente do seu apoio já teria vazado para os EUA com toda a certeza. Se você é pobre a vida é uma porcaria. Se você é rico vive com medo de um pobre te sequestrar e degolar seus queridos. Nada disso vai mudar enquanto as tetas na televisão tiverem mais prestígio que livros. Na pátria do funk quem tem cultura não é rei; é marginal.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu vi a chamada, mas não a reportagem. Não acredito que os brasileiros levaram a sério uma piada! Aff.

Henrique Rossi disse...

Pois é.

Mas vemos coisas deste tipo ao nosso redor todos os dias. Não são justamente os tipos mais piadistas os que mais se sentem ofendidos quando fazemos piadas com eles?