Depois de comentar coisa absolutamente deplorável (catolicismo no Brasil) falemos de coisas agradáveis. E nada melhor para romper com uma cadeia de incompetência e mediocridade do que uma rodada bem fincada de samba-enredo, o gênero musical mais elevado criado pelo ser humano (por que não substituir os covers de Roupa Nova por um grupo de ritmistas carnavalescos nas missas no Brasil?). Após um injustificável atraso de uma semana comprei o CD com as canções de 2010. Vou comentar um a um os sons que me acompanharão quotidianamente pelo próximo ano durante meus treinos aeróbicos.
Salgueiro - A atual campeã apresentará um belíssimo samba no seu desfile sobre a imporância do livro. Com um tema tão simpático e necessário seria difícil uma escola desse porte não apresentar um samba bonito. Pois bem, a Academia tijucana larga forte candidata ao bi com uma canção tão simples, poética.
Beija-Flor - Difícil homenagear Brasília, não é? A solução foi fazer um samba sobre os encantos do meio-oeste brasileiro então, ao invés de tecer loas às contínuas lambanças da nossa trágica classe política, decidiu-se cantar o povo da região. Seria de se esperar que pelo seu porte a Beija-Flor apresentaria um samba melhor. Apesar do que a crítica especializada está dizendo o samba da azul-e-branca é medonho. Não gostei da cadência, dos versos, nada. Acho que não funcionará bem na avenida. Um desastre ímpar.
Portela - Após o injustificado e imerecido terceiro lugar a Portela continua seu trajeto descendente rumo à insignificância completa. Samba feio, desnecessário, esquecível.
Vila Isabel - Uma revolução sem paralelo. A história do samba-enredo estará para sempre marcada pela coragem de Martinho da Vila, que inscreveu na competição uma canção diferente de tudo o que se tem produzido na matéria nos últimos 20 anos! Este samba não tem um refrão principal!?! E o refrão do meio é enorme. Ou seja, será cantado na avenida apenas por aqueles que conhecerem a letra toda. É tanta ousadia que nem mencionei o enredo: ninguém menos que Noel Rosa stesso. Só estão devendo uma explicação aos termos safados presentes: orgia, bordel, cabaré... Pra quê? Se eu fosse juíz da vara da infância proibiria o desfile de menores de 16 anos de idade. Aliás, não custa dar a ideia, pois a vara da infância e o conselho tutelar arma uma instância extraordinária na Marquês de Sapucaí exatamente para coibir loucuras carnavalescas, como colocar crianças no alto das altíssimas alegorias.
Grande Rio - Lamentável.
Mangueira - Doce poesia. O samba encanta pela cadência da gravação, será que se manterá assim na avenida? Os compositores conseguiram traduzir em versos gentis um enredo extremamente pretensioso e arrogante: Mangueira é a música do Brasil. Desculpe, mas não é não. A grande virtude da canção é salvar a verde-rosa de mais um delírio grandiloquente de seus diretores.
Imperatriz - Obra-prima indiscutível. O melhor samba do ano.
Viradouro - Enredo medíocre sobre o México. O samba tem lá suas virtudes rítmicas. A gravação ficou muito boa e é sempre um prazer ouvir o Wander Pires. Dado o desastre que outros sambas concorrentes devem ter sido, o campeão tem um refrão agradável. Só não conseguiu vencer um enredo desprezível como o eleito da Mangueira.
Unidos da Tijuca - Qual terá sido a importância de Paulo Barros na escolha do campeão. Estamos falando do maior carnavalesco em atividade no carnaval carioca, aquele do carro do DNA - meu favorito para dirigir a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Parece que seus enredos não são especialmente felizes em colaborar com o trabalho dos compositores, e não é de hoje. Paulo Barros não teve até agora um só grande samba em todos os seus memoráveis desfiles. Já li na imprensa ele afirmando que sua preocupação maior é com o título tão merecido que até agora não levou. Mas desde quando samba bom atrapalha vencer o carnaval, sendo que a história demonstra justamente o contrário? Será que a nação tijucana não tinha um sambinha melhor para oferecer não? Acho que deixaram em segredo os sambas bons.
Porto da Pedra - Esquisito, indeciso, infeliz. Um enredo à altura da Geisy da Uniban, já devidamente convidada para o desfile sobre o modo humano de se vestir. Tem o mérito de não ser desastroso. É audível mas fraco. Talvez não colabore para afundar ainda mais esta alegre e simpática agremiação de São Gonçalo.
Mocidade - Ainda estou tentando entender o enredo. O samba traduz fielmente a indigestão mental que acometeu o carnavalesco quando redigiu a peça descritiva. O mérito do samba é ser simpático, além disso possui um refrão principal forte. Apesar disso não podemos deixar de observar o evidente "ocaso da estrela".
União da Ilha - A união faz a força! Adiante Ilha do Governador! Estávamos com saudade da sua leveza. Aos que te desconhecem vale avisar que você é uma das escolas mais simpáticas do Rio de Janeiro. Estamos muito felizes em ver-te de volta ao Grupo Especial! Esperamos que seja em definitivo. Seu samba é bacaninha, nada do outro mundo, mas legal. Pelo menos dá pra dizer que ele não vai atrapalhar a luta hérculea que se apresenta a ti em 2010. Não vai ser fácil manter-se no Grupo Especial.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Os sambas de 2010!
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