Que recado seus genes dariam se falassem? Será que diriam algo como "gosto de comida gordurosa?" Ou ainda: "Não estou nem aí pra sua dieta ridícula." Ou ainda: "Gosto muito de sombra, comida e água-fresca". Essa é uma questão pertinente. A todo tempo os meios de comunicação noticiam uma nova pesquisa espetacular segundo a qual nossos genes determinam isso ou aquilo no nosso comportamento. Concluo que, se eles falassem, teriam de corroborar os resultados dessas pesquisas. Mas, infelizmente, isso não aconteceu nem jamais acontecerá. Genes não falam. Eles apenas exalam o perfume que roubam de ti, ah! Sim, os genes manifestam característas do psiquismo e, ainda que o contrário também seja verdadeiro (pois o psiquismo manifesta características genéticas) parece que a influência da mente sobre o corpo é maior. Como se pode afirmá-lo?
Quem sobe a montanha é o corpo, mas quem a conhece é a mente. Quem entra no carro é o corpo, mas quem consegue visualizá-lo (e operá-lo) é a mente. De fato, é a mente quem confere existência às coisas que, embora estejam lá, só te tornam efetivamente presentes quando alguém se põe a analisá-las. É o pensamento que constrói o mundo. Não há razão para supor que os nossos corpos seriam capazes das mesmas peripécias que fazemos sem a nossa mente. Parece que, sem o psiquismo, nossas populações seriam somente mais um agrupamento animal, incapazes de plantar uma semente, sem inteligência para se abrigarem das intempéries. Com a mente, porém, apesar da nossa imensa fragilidade física, conseguimos dominar o planeta e usá-lo a nosso favor. O psiquismo pode fazer uma pessoa sem genes cancerígenos desenvolver um tumor. Da mesma forma, ele é capaz de fazer com que uma pessoa com genes cancerígenos não desenvolva um tumor. Ou seja, sem grande esforço podemos demonstrar que a mente é muito mais relevante para o homem que o seu corpo.
Apesar disso, parece que a tendência em despersonalizar o homem avança a cada dia. Ao invés de procurarmos entender o homem em sua totalidade, ou seja, estudando-se todos os fenômenos objetivos que o compõem, avançam a largos passos ideologias que procuram negá-lo em suas especificidades como que tentando reduzi-lo. Logo, ao invés de se procurar explicar o ser humano a partir de todas as coisas que o compõem, há em curso um projeto que procura despersonalizá-lo, reduzindo-o da condição de ser existente, capaz de interferir na história, à triste condição de marionete da natureza, ou seja, de um reles animal. O que é o logos que diferencia o homem do animal? Eu não sei ao certo. Só que, ao contrário dos moderninhos, eu não irei negá-lo apenas porque não consigo descrevê-lo com exatidão.
É, no fundo, uma questão de sinceridade. O homem é ou não capaz de pensar? É. Então acabou: é capaz de pensar e ponto final. Os animais são capazes de pensar? Não. Então acabou: não são capazes de pensar e ponto final. Não estou dizendo que os bichinhos não sejam capazes de truques engraçadinhos, nem que o homem seja incapaz de bestialidades. Estou apenas afirmando com simplicidade o que constitui a ambos. Para se incutir ideias falsas na opinião pública é preciso enganá-la sistematicamente. A ideia de que o homem é um animal como outro qualquer só porque possui mitocôndrias não é atual. E é por isso que o estrago que ela tem feito aumenta exponencialmente, pois a mentira acaba se reforçando a si mesma enquanto não for combatida. No meu ponto de vista, basta que algumas pessoas aprendam a verdade (ainda que ela não seja fácil) e, aos poucos, os enganos serão esvaziados.
O que não se pode admitir é que, pelo fato da consciência e do psiquismo ainda serem grande incógnitas, os mesmos sejam covardemente descartados como objetos de análise. Qual o efeito disso? Constróem-se falsos saberes sobre as baboseiras que são de fácil compreensão como, por exemplo, as organelas, os hormônios, os sistemas, essas bobagens de açougueiro que qualquer idiota com um microscópio e um bisturi consegue aprender. Não podemos permitir que os idiotas determinem o que é o ser humano, ainda mais porque já deram provas diversas que não acreditam na humanidade enquanto tal. Para essa gente, o homem do futuro é tal e qual um porco no chiqueiro. Devem pensá-lo assim porque, por algum estranho motivo, veem no suíno um reflexo do seu eu perturbado e distorcido.
Se os seus genes falassem...
Marcadores: Ciência, Individualidade, Medicina/saúde mentalPostado por Henrique Rossi às 09:57
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4 comentários:
Hm. Eu não devia comentar, mas comento... rs.
Eu nunca vi ninguém dizendo que os genes 'determinam' comportamentos. O que se diz, e que você há de concordar que é verdade, é que os genes 'induzem' ou 'influenciam' determinados comportamentos. Sobre isso não há muita dúvida.
Não entendo a sua irritação com o 'açougue' genético. Os hormônios, os sistemas, tudo isso faz parte do que somos e influenciam nosso comportamento e nossa personalidade. São objetos de estudo válidos, principalmente para a medicina e a psicologia. Não respondem a _todas_ as perguntas, mas respondem a muitas perguntas.
Existem muitos e muitos cientistas que trabalham olhando os outros lados da questão, no entendimento da 'plasticidade' do cérebro, e de como ele se adapta às mais diversas situações de forma tão impressionante.
Vou citar um exemplo interessante que tem a ver com o assunto, sobre o qual li recentemente. Bom, os genes 'ditam' as cores dos nossos olhos e a cor da nossa pele. Mas os genes não sabem exatamente em que posição do nosso rosto os olhos vão estar quando crescermos, porque isso depende, entre muitas outras coisas, da quantidade de cálcio que você ingere durante a infância, que altera o formato dos ossos e outras variáveis.
Isso quer dizer, na prática, que não há como existir, nos genes, uma 'programação' para dizer ao cérebro como ele deve calcular a noção que temos de perspectiva (que é diretamente afetada pela distância entre os olhos). O 'acerto' da perspectiva é feito por tentativa e erro, com o cérebro mantendo conexões que calculam a perspectiva correta e destruindo as conexões que dão respostas incorretas. Isso se realiza na nossa infância até o fim da adolescência, conforme vamos 'aprendendo' a ter a noção da distância dos objetos para pegá-los, por exemplo.
Bom, eu disse tudo isso pra te falar que o reducionismo que você está combatendo não existe. Ninguém diz que os genes sabem de tudo. Ou talvez você só esteja conversando com as pessoas erradas.
Quanto ao homem ser um animal, você já sabe a minha opinião. Eu creio que seja, sim; mas acredito também que temos uma oportunidade única, como seres conscientes de sua consciência, de entendermos nosso lugar no planeta e nosso relacionamento com as mais diversas espécies de animais e plantas e, principalmente, nossa relação com outros seres humanos. Ver o ser humano como um animal não determina meu comportamento, assim como a sua genética não dita que você vai ser católico.
"Bom, eu disse tudo isso pra te falar que o reducionismo que você está combatendo não existe."
Tomara! O problema é que muitas dessas manifestações extremadas são defendidas oralmente, então não tenho registro delas.
Pare com esse negócio de não comentar. Você é muito inteligente e tem muito a adicionar! :) Esse seu comentário, por exemplo, enriquece a leitura de todos pois alarga a discussão tratada no texto.
De onde vem o orgulho? Da mente ou do gene?
Essa questão é mais interessante do que parece. Desconfio que há certo orgulho natural, que vem com o patrimônio genético humano, como uma "lembrança" evolutiva. Mas acho que a maior parte do orgulho é mental, ou seja, é adquirida ou desenvolvida pelas pessoas através do seu contato com o meio em que vivem..
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