Será que temos mesmo a vocação de paraíso para bandidos? Saudades da era FHC... Ele não hesitaria em despachar esse safado de volta para a Itália que o pariu.
sábado, 28 de novembro de 2009
Brasil - Mostra a Tua Cara!
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
O Lula que tão bem conhecemos
Sabe o Lula? Pois é, no fundo nós o conhecemos. Só não gostaríamos de atribuir a ele coisas que lhe caem tão bem, não é verdade? Pois hoje o Reinaldo Azevedo colocou, em seu blog, um trecho de uma entrevista de um antigo militante do PT. Como é por demais importante o texto como um todo, reproduzo-o inteiramente aqui. Vocês precisam saber quem é o Lula - aliás, precisamos compreender a dimensão do atos de sua personalidade deformada - ele mesmo já estamos cansados de saber quem é.
DIAS SÓRDIDOS
É, meus caros leitores… Encarem este post até o fim!!!
Permito-me abrir este post verdadeiramente espantoso com algo que escrevi aqui há menos de uma semana: não me interessa a vida privada de homens públicos, a menos que ela esteja em contradição com a sua pregação e com as escolhas políticas que anunciam. Dito isso, adiante.
Vocês sabem quem é César Benjamin? Então começo por sua biografia sintetizada hoje na Folha de S. Paulo:
CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.
Como se nota por sua biografia, Benjamin — conhecido por Cesinha — não é alguém por quem eu nutra qualquer simpatia ideológica. No arquivo, vocês encontrarão várias referências a ele e também à sua editora, que publica bons livros. À diferença do que dizem, sei manter divergências civilizadas com civilizados. Adiante.
A Folha publica hoje alguns textos sobre o filme hagiográfico “Lula, O Filho do Brasil”. Benjamin escreve um longo depoimento — íntegra aqui — em que narra todos os horrores que sofreu na cadeia, preso que foi aos 17 anos. Entre outras coisas, e sabemos que isto é tragicamente comum nas cadeias brasileiras até hoje, foi entregue para “ser usado” pelos presos comuns, o que, escreve ele, não aconteceu. E faz um texto que chega a ser comovido sobre o respeito que lhe dispensaram na cadeia.
Depois de narrar suas agruras, interrompe o fluxo da memória daquele passado mais distante para se fixar num mais recente, 1994, quando integrava a equipe que cuidava da campanha eleitoral de Lula na TV — no grupo, estava um marqueteiro americano importado por alguns petistas. E, agora, segue o texto estarrecedor de Benjamin sobre uma reunião.
(…)
Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem b*****”, (omiti o termo obsceno).
Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.
Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o “menino do MEP” nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.
O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.
Num outro ponto se seu longo texto, Benjamin comenta o filme sobre a vida de Lula e lembra aqueles que não o molestaram na cadeia:
(…)
A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o “menino do MEP”. Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos.
O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos.
Mesmo assim, não pretendo assistir a “O Filho do Brasil”, que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder.
Voltei
Peço-lhes prudência nos comentários — mesmo! A política, no ritmo em que vai, está palmilhando todos os caminhos da sordidez, da abjeção, da absoluta falta de limites. Que alguém tenha notado que certas visões de mundo são úteis para vender papel higiênico expõe de modo galhofeiro e trágico o triunfo da vulgaridade: ancha, arrogante, bravateira.
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Assim age uma pessoa com a personalidade do Lula, que tal?
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Os deuses de uma nova era
Até bem pouco tempo atrás somente Deus determinava quem morreria e quem continuaria vivo. Hoje, os médicos compartilham parcialmente desse poder tremendo. É algo que deve mexer com a cabeça do sujeito saber-se capaz de deixar alguém vivo ou decidir se este mesmo alguém merece morrer. Acabo de ver uma reportagem do Jornal Nacional que conta a história de um belga que, por mais de 20 anos!, julgou-se estar em coma quando, na verdade, sua consciência estava funcionando perfeitamente. Ele ouvia tudo o que acontecia ao seu redor, sabia que o consideravam "um vegetal", mas não podia fazer nada. Quando um médico talentoso cruzou o seu caminho, e ele teve o diagnóstico correto, sua vida mudou. Hoje, com o auxílio de uma tela touchscreen, ele consegue se comunicar com o mundo. Após várias sessões de fisioterapia tem vivido um grande progresso. O que incomoda é saber que talvez Terry Schiavo fosse vítima do mesmo mal, ou seja, seu marido matou-a por inanição e ela talvez pôde acompanhar toda a discussão que se dava ao seu redor. Ela foi morta contra os insistentes apelos de sua família. A Justiça, porém, deu a sua guarda ao marido que, por conta disso, pôde concretizar seu plano assassino.
Impressiona a facilidade com que o ser humano se seduz com o poder. Por que custa tanto reconhecer a própria ignorância? As pessoas parecem possuídas por um verdadeiro terror à ideia de que são incompletas, imperfeitas. Não! Elas precisam ser o oposto disso: verdadeiros príncipes e princesas imaculados, aos quais não se pode recusar o poder de juízes supremos. A humanidade precisa meditar verso a verso o Poema em linha reta, de Fernando Pessoa, só assim poderemos nos dar o devido valor. Nega-se hoje o ridículo e a imperfeição. O dinheiro transforma o homem num monstro sangue-suga. Elevado ao status máximo, o dinheiro desconstrói personalidades que, doutra feita, estariam plenamente desenvolvidas. Tudo o que afasta o homem de si próprio precisa ser afastado. A tentação de se fazer dono e juiz das vidas alheias é algo que precisa ser combatido, senão a pessoa exposta a ela se desumaniza, arvorando-se dona de poderes que de fato não possui.
UPDATE 1 James Randi, o ilusionista que ganhou fama mundial após anunciar que daria 1 milhão de dólares para quem provasse uma ocorrência sobrenatural, está em campanha pelo desmascaramento desta história. Como ele demonstra em seu website (link aqui) há videos em que a mão do paciente belga é nitidamente movimentada pela pessoa que o assiste. Randi classifica a notícia de farsa descarada. Pena que toda a imprensa internacional tenha caído na história sem verificar com precisão o ocorrido. Como este texto não é sobre um caso específico, e sim sobre uma atitude médica, mantenho-o apesar desse inconveniente.
UPDATE 2 Vários dos próprios seguidores de James Randi sustentam que dessa vez ele se equivocou pois, segundo eles, o presente caso não tem as características de inteligência dirigida como ele alega. Parece que o caso é mesmo autêntico. O austríaco está com sua consciência em são estado atrás do corpo doente.
House e a razão simples
Para aproveitar que acabei de falar na famosa série House M.D. gostaria de mencionar o último episódio que foi ao ar no Brasil, pelo Universal Channel: Coração Valente. Nele, por estar ouvindo estranhos sussuros à noite, House se vê na iminência de um novo surto psicótico. Como ainda está demasiadamente assustado com seu recente episódio de internação psiquiátrica, ele logo avisa o problema aos colegas. Seu receio é enlouquecer demais, por isso pede ao Dr. Wilson, em cuja casa está temporariamente hospedado, que avalie a necessidade de uma nova internação. O episódio todo transcorre com esse grande medo. Para surpresa de todos, House descobre que os estranhos sussuros são feitos pelo Dr. Wilson, que tem o hábito de "falar" com uma namorada recém-falecida antes de dormir. Esta simples história revela a grande importância do pensamento na interpretação da realidade que, gostemos ou não, é algo que independe de nós e de nossos arrazoados.
Ou seja, as coisas que aí estão, tudo o que tem natureza físico-química, são neutras. Em si não são nada. Uma pedra não pode ser uma boa pedra, tampouco pode ser uma má pedra. Ela é tão somente pedra. O mesmo se dá com o ar, com os oceanos, as montanhas, os peixes, as jazidas de ouro, a chuva, etc. Estão aí - simplesmente são, independem de nós. São "despovoadas" ou, melhor dizendo, desanimadas. Falta a elas a anima, a alma, o sopro divino. Não à toa, muitos teólogos costumam dizer que nossa razão é como que uma fagulha de Deus, uma propriedade emprestada, não exatamente nossa.
Parece que estou abstraindo da situação real, mas nunca estive tão próximo dela. Os sussuros à noite atormentavam House que, em função deles, julgou estar enlouquecendo. O fato de que havia sons estranhos na hora que ele ia dormir independia dele. Esqueçamos por um instante o fato de os sabermos feitos pelo Dr. Wilson. O som estava ali - poderia ser um simples coaxar de sapo. O interessante é que House, em função do recente episódio psicótico, julgou estar mais uma vez enlouquecendo. A sua simples razão, limitada pelo seu alcance minúsculo, não conseguia analisar o fenômeno natural em toda a sua extensão. Seu raciocínio apontou a conclusão de que estava mais uma vez adoecendo como a explicação mais provável, e nisto ele foi ativo! Notem, consideremos o som que o incomodava um fenômeno natural, House, com sua razão livre, considerou-o um sintoma! Por conta disso, ficou irriquieto e preocupado. Mas não poderei evitar chamar a atenção para o mais importante da história que, por ser coisa tão corriqueira e imediata a todos nós, sempre escapa à atenção dos ouvintes: House foi ativo no processo de considerar os sussurros um sintoma de que estava ficando mais uma vez louco. Foi com o pensamento que ele ativamente interpretou uma ocorrência que não dependia dos seus atos. Notem que coisa importantíssima: não tivesse descoberto a causa real do barulho, House poderia ter mais uma vez se internado na clínica psiquiátrica, o que, naquele momento, seria mais um grande prejuízo pessoal, visto que caro e plenamente desnecessário. Agora vejamos como isso se aplica a nós!
Quando admiramos um belo pôr-do-sol e exclamos conosco próprios: "Que bonito!", não há nada no fenômeno objetivo que o qualifique como belo! É o pensamento que atribui à ocorrência natural uma característica que ela, por si só, não possui. Aqui é o ponto central do texto: tudo a nossa volta é construção ativa do nosso pensamento! Não há sob sol ser humano incapaz de qualificar as coisas emitindo juízos próprios. Notem bem: próprios! Só dele! Ninguém mais tem a mesma opinião no mundo inteiro. A pessoa mais idiota sobre a face da terra não tem, de fato, nada de idiota. A idiotice que ela aparenta é um instrumento que ela usa para justificar seus atos maus: "Sou mesmo idiota, por isso faço as coisas mal feitas!" Mentira descarada! Quando alguém faz algo mal-feito não é porque é idiota: ou ela desconhece o modo certo, ou é má! E faz as coisas erradas como meio de chamar atenção para si. Ou seja, é um recurso que ela usa ativamente. Não há uma só vítima inocente sob o sol. Todos são diretamente responsáveis pelo que fazem, inclusive House interpretando estranhos ruídos à noite como sintoma de que está mais uma vez enlouquecendo.
Só uma pessoa muito ignorante a respeito do ser humano para vê-lo como um simples dado da natureza. Essas pessoas não percebem que esta mesma ideia de que o homem é um simples dado da natureza já é em si uma ideia! Ou seja, é um juízo da realidade, uma construção artificial do pensamento!, que de inocente não tem nada e que, como todas as outras ideias, tão bem reflete a ideologia que há por detrás dela! O homem não consegue não ser homem! O homem é sempre homem! Ele sempre julga ativamente as coisas ao seu redor porque é capaz de pensar. O pensamento o distingue definitivamente da natureza, visto que a mesma passa a existir a partir do pensamento, e não antes dele! Notem bem: é preciso repetir isto porque de primeira não se compreende direito - a natureza que conhecemos é uma construção histórica do pensamento, ela não existe por si própria. Por suas próprias capacidades, por tudo o que ela não pensa, ela não é capaz de nada. Somente o homem, com seu juízo, qualifica as coisas dando-lhe existência! Uma existência que essas coisas não possuiam antes de serem conhecidas dos homens! O homem, gostem ou não, é a medida de todas as coisas! Devemos preservar a natureza? Sem o homem não há natureza! A única razão que temos para preservá-la é porque sem ela não somos capazes de viver: é em função nossa que a natureza é preservada, não em função dela própria, porque ela própria não é capaz de nada.
É isso que distingue os homens inteligentes dos homens burros. Os primeiros sabem o lugar das coisas, os segundos não: deixam-se guiar como borboletas pelas sensações que sentem com as várias filosofias contemporâneas, tão contraditórias entre si. E é coisa de uma pessoa adulta intelectualmente deixar-se guiar por sensações? Cadê o diabo da razão?! Quer dizer, na hora que não convém os moderninhos dizem: "Não posso acreditar nisso porque a razão não o justifica", mas quando convém ao estômago, e não à sã razão, ele diz: "Sinto-me bem com essa filosofia. Para eu decidir as coisas nas quais acredito bastam as minhas sensações." Que vigarice! Que coisa de canalhas! Perdoem-me, mas isso é coisa de gente muito idiota! Quando não convém, dizem não poder acreditar em algo porque a razão não o justifica. Quando convém, eles dizem que bastam as sensações para decidir no quê acreditam ou não! Não assumem que, de fato, não estão usando a razão em momento algum! De fato são guiados por sensações, por quimeras. Berram aos quatro ventos: "Preciso de razão para acreditar em alguma coisa", e no momento seguinte estão se contradizendo: "Bastam as minhas sensações pessoais para eu decidir no que acredito ou não!" Pronto! Eis a grande safadeza intelectual dos nossos tempos desmacarada. Você diz precisar da razão para decidir algo? Então use-a! O difícil, sei muito bem, é aceitar os conselhos duríssimos que a sã razão nos dá: ser honesto, constante, verdadeiro e bom, quando, na verdade, gostaríamos de poder ser mentirosos, desonestos, inconstantes e maus!
Talvez se possa dizer com muita propriedade que a razão nos aprisiona pois, ao considerar verdadeiramente as coisas e, após muita reflexão, decidir, gostaríamos de não precisar nos ater as coisas boas que a razão nos havia apontado, pois elas sempre exigem o sacrifício de nossos caprichos. Por isso é tão fácil afirmar que a pessoa madura e adulta intelectualmente não é inconstante, não se move ao sabor da última ventania. Pelo contrário, ela é sólida. Os ventos dão contra ela e se desviam, porque encontraram de fato uma barreira.
No fim, a escolha é sua, se você é feito de aço ou de manteiga. Depois desse texto você não tem mais desculpas: a escolha é sua! Você é ativo nela.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Dr. House e o ditador sanguinário
Geralmente as opiniões da maioria são muito criticáveis, o que não significa que, certas vezes, a unanimidade tenha razão. Acredito que meus contemporâneos estão especialmente corretos em dar a Dr. House (House M.D.) a maior audiência jamais obtida por um programa de TV na história! Gastaria várias vidas com muito gosto em comentar as maravilhas que essa série de altíssima qualidade proporciona. Por hora quero apenas comentar ao recente drama de consciência do qual Dr. Chase, assistente de House, foi acometido por ter colaborado com a morte do ditador africano Dibala, responsável por milhares de mortes. Pois bem, Chase trocou os exames deste paciente para que, recebendo o tratamento errado, ele fosse a óbito - e assim ocorreu. Chase estava munido das melhores intenções pois, com a morte de Dibala, poupar-se-iam muitas outras vidas porém, infelizmente, do ponto de vista emocional essa decisão teve consequências funestas: a consciência do jovem cirurgião anda bastante atormentada por esses dias.
Pensemos a questão central: era lícito matar Dibala? Para nosso grande embaraço a pergunta cabe, pois estamos falando de um genocida responsável por faxinas étnicas. A problemática levantada por esse questionamento irradia vários tentáculos. Do ponto de vista do Direito é evidente que a pena de morte a Dibala é aplicável. O grande problema de Chase é que, no seu desespero, ele se julgou acima do sistema legal, fazendo justiça com as próprias mãos, o que, no caso de um médico, ganha contornos morais realmente dramáticos, pois ele estava obrigado a salvar o ditador sanguinário. A questão é tão ampla e complexa que nem cabe levantá-la a sério: melhor deixá-la com os estudantes de direito. De qualquer forma, perguntei-me: "E se fosse comigo? Que faria?" Vou dizer com a máxima seriedade: eu não trataria Dibala desde o momento zero e correria falar com um advogado experiente. Isso é o que eu faria hoje, porém é certo imaginar que minha opinião talvez mude depois de fazer aula de ética na faculdade de medicina. Há também toda a complexa questão legal.
Sei, por exemplo, que um médico pode recorrer à uma questão de consciência para negar receita da pílula do dia seguinte para uma moça desesperada. Isso é moralmente válido, aceito e praticado por milhares de médicos, especialmente aqui no Vale do Paraíba, onde a classe médica recusou-se a distribuir as pílulas enviadas para cá pelo Governo Federal por seu efeito abortivo, o que levantou grande polêmica à época. A princípio penso que se aplica ao caso fictício de Chase e Dibala essa mesma questão: por uma questão de consciência ele poderia ter se abdicado de tratar dele, ao invés de matá-lo, colocando-se como juiz de uma questão para a qual ele não recebeu o preparo adequado. Em suma, acho que Chase errou: ele não deveria ter matado Dibala, o que não significa que ele deveria ajudá-lo, já que se tratava de um monstro, uma pessoa de extrema periculosidade.
Desde que o Direito surgiu há a tentação pela parte dos indíviduos atingidos de recusar às instâncias legais o que efetivamente lhes cabe, tomando assim para si uma responsabilidade que o meio social como um todo não lhe haviam delegado. O risco de fazermos justiça com as próprias mãos é nos colocarmos acima da sociedade que nos protege, porque, sim, estamos protegidos pelos lixeiros que recolhem nossos dejetos, pelos agricultores que cultivam nossa comida, pelos engenheiros que constroem nossas pontes, pelos professores que nos ensinam e, é necessário admitir, pelos advogados que nos defendem e representam. Tomar a justiça para si é uma temeridade, uma irresponsabilidade - é como assinar um testamento de descrença na mesma sociedade que nos assegura conforto e estabilidade. É, no fundo, um ato arrogante e prepotente. Certo seria ter feito tudo o que estava em seu alcance para não colaborar com a recuperação do didator sem, contudo, acelerar a sua morte. Ou estou errado?
O acelerador de partículas e o fim do mundo
Sou um cara bastante ousado. Formado na melhor faculdade de cinema do país, iniciei em 2009 uma longa jornada para tornar-me médico e, assim, poder usufruir de uma profissão da qual verdadeiramente gosto capaz de por arroz e feijão no meu prato, coisa que minha profissão anterior fazia com muita dificuldade e esforço. Apesar da minha paixão de muitos anos pelas artes cinematográficas joguei tudo para o alto e mirei longe. Vejo hoje, com clareza, como apostei certo. Não apenas terei uma profissão estável e confortável. A medicina também me propiciará liberdade para fazer o que quiser nos meus tempos livres. Advinhem a que me dedicarei? Quem pensou cinema acertou. Ou seja, para fazer-me cineasta estou tendo de me fazer médico antes. Este blog tem a nobreza de fazer parte dessa longa caminhada, razão pela qual sou-lhe extremamente grato, ainda que nos últimos dias tenho aparecido pouco por aqui.
Não fosse eu capaz de atos de ousadia fora da minha vida pessoal não poderia considerar-me tão audaz. No entanto, como eu sou corajoso! Como se atos de bravura na vida particular não fossem suficientes para meu espírito agitado, ainda disponho-me a comprar brigas que considero sadias, a mim pelo menos. Este blog é exatamente isto: o espaço onde escrevo as coisas que me são mais particulares. Refiro-me, evidentemente, às ideias de minha vida intelectual, visto que não faço aqui relatos de minhas ações quotidianas.
Uma das minhas últimas façanhas foi demonstrar com grande simplicidade como o pensamento pretensamente científico descamba a todo tempo para um modo religioso de pensar. Não precisei de esforço algum para fazê-lo. Bastou dizer que a imensa maioria de nós acredita que a matéria é composta por algo a que se chama átomos - os quais nunca tivemos a menor chance de testemunhar. Uma pessoa com intensa vida de oração costuma dizer que Deus se revela a ela em pensamento, portanto, para ela, Deus é mais material e evidente do que os átomos são para o vestibulando, que precisa ser capaz de realizar complicados exercícios e aplicar complexas equações para demonstrar a sua compreensão dos resultados de experimentos químicos e físicos que ele muito provavelmente jamais realizará. Como afirmei daquela vez, para ter diante de si a demonstração cabal de que átomos existem o estudante de química terá antes de aprender a realizar experimentos e cálculos complicadíssimos. O que se cobra no ensino médio é um resumo porco, burro e parcial das nobres ciências naturais - portanto, palmas ao Enem que, aos poucos, exterminará a decoreba estúpida dos nossos currículos escolares.
Entendo que muitos tenham dificuldade em compreender raciocínio tão simples. Para essas pessoas é complicado perceber que suas ações não são neutras. Ninguém nunca as revelou que quando elas se decidiram por acreditar em algo não o fizeram pela solidez dos argumentos de seus interlocutores, mas sim pela simpatia que tinham por eles! Foi baseando-se exclusivamente no prestígio que atribuiram a seus professores que estas pessoas decidiram prestigiar determinados saberes. Quando acreditamos que a natureza ao nosso redor é composta por átomos atribuimos às instituição de ensino um prestígio que elas talvez não mereçam, o que não tornaria os átomos menos reais. Aqui a questão ganha intensos contornos de complexidade sociológica: é um assunto fascinante, mas não convém a este texto, que se deseja simples.
O que desejo mencionar é o acelerador de partículas e sua estranha coincidência de começar a funcionar na época na qual o famoso calendário maia chega ao seu fim. Estou sugerindo que o LHC, provavelmente a maior joia científica da história, causará o fim do mundo em 2012, quando finalmente está funcionando a pleno vapor? Esse é o centro deste texto. Não quero alarmar ninguém. Não acho que o mundo terminará quando o acelerador de partículas estiver finalmente chocando prótons a altíssima velocidade. O que me chama atenção é o respeito "religioso" que muitos têm pelo equipamento apesar de pouquíssimo saberem sobre seus reais métodos de operação. Gostem ou não, houve professores de física entrando na justiça na Europa solicitando que o LHC não fosso posto em funcionamento antes de maiores informações da parte dos coordenadores do consórcio internacional que o administra. Não é minha opinião: é o que foi noticiado por grandes agências internacionais. Hoje li outra coisa estranha: o chefe do projeto disse, em coletiva de imprensa, que o acelerador de partículas ainda não está funcionando pois precisa antes verificar antes "se o processo é seguro". Os céticos encontram o texto aqui.
"Henrique, Desculpe-me mais parece que você está com medo de que o LHC extermine o planeta." Assim pode falar um leitor que não tenha entendido plenamente o que estou dizendo. Minhas afirmações se limitam a explicitar que o respeito da maioria das pessoas pelo acelerador é tão religioso quanto uma oferenda à Ogum, visto que não sabem nada sobre o seu real funcionamento. Creio que temos sim razões para não nos sentirmos inseguros, mas isso se nossas expectativas sobre diversos órgões internacionais estiverem corretas, o que não significa que necessariamente estejam! É mais provável que sim, o que não significa que não haja chance alguma de que sejamos frustrados. Por fim, espero que estejam percebendo que, de fato, estou discutindo muito mais nossos processos mentais do que os méritos reais de uma questão científica, e não me cansarei de fazê-lo. Não é de se surpreender, portanto, que o meu grande interesse na medicina hoje seja a psiquiatria, ainda que a minha residência esteja muitos anos a frente (certamente, pós-2012).
É certo que através de uma educação rica e variada tornamo-nos capazes de compreender muitas coisas. O atual estado da educação em nosso país é algo que, ao mesmo tempo em que são necessáriasmuitas críticas, elogios não são necessariamente negativos (ainda irei corrigir esta frase - é madrugada e estou muito sonolento). O que não se pode deixar de observar é a tremenda ausência de uma educação verdadeiramente humanista, que considere e efetivamente promova o patrimônio filosófico que mais de dois mil anos nos legaram. Chegamos ao novo milênio vivendo conflitos que todos julgávamos superados. É hora de demonstrar, através do sistema educacional, o homem para os estudantes: colocar o Homo sapiens no espelho para que se possa observá-lo em toda a sua extensão, em toda a riqueza, em toda a sua ignorância, em toda sua potência e em todas as suas limitações. Não o faremos sem a inclusão da psicologia como disciplina obrigatória em nossos currículos de ensino médio, essa é a proposta. Quantos episódios de violência familiar não se poderiam evitar com essa simples medida. Estou falando sério. Assim como em meu simples exemplo pessoal, é preciso que, como sociedade, miremos longe. Se estivermos apenas ocupado de nossas necessidades quotidianas estaremos olhando para baixo, para o chão - quando muitos encontraremos portas e paredes à nossa frente. É preciso escancarar as janelas e olhar o infinito. O homem não é feio de quimeras acidentais. Ele tem em si o dom de pensar, e isso eleva-o ao infinito, senão me digam onde começa, e termina, a nossa consciência.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
A mais nobre vitória
No post de sábado comentei o processo da cura: como esta se dá através da crença do paciente e não da sapiência do médico. Por breves instantes eu talvez tenha dado a entender que o pensamento é capaz de tudo. Essa é uma questão complexa que precisa ser corretamente esmiuçada. O pensamento é capaz de tudo latu sensu, e não strictu sensu. Infelizmente não consigo pensar em termos mais simples que estes para enunciar corretamente a questão. Fosse assim, parar de fumar seria fichinha: bastaria querer! Emagrecer? Uma baba! Bastaria querer. Ocorre que de fato basta querer para se conseguir parar de fumar e emagrecer, mas, ao mesmo tempo, todos sabemos que não basta querer! Estranho? Nem um pouco.
Vejamos: é evidente que aquele que quiser verdadeiramente parar de fumar utilizará todos os expedientes ao seu redor para fazê-lo. E, mais importante, não se deixará levar por suas quedas. Pelo contrário, procurará aprender com elas. Seus erros serão para ele fonte de auto-conhecimento. Precisamente aquelas coisas que pareciam capazes de destruí-lo ele as utilizará para subir. De cada erro o homem convicto tirará uma lição. Nada será inútil para ele. O derrotado, por sua vez, ainda que queria verdadeiramente parar de fumar, deixará se levar pela angústia da queda. Cada tropeço será para ele ocasião que reforçará sua crença de que, no fundo, ele é incapaz. Veja que é uma questão de querer verdadeiramente e de querer com todas as forças, contra o mundo se necessário!
De que tipo vocês acham que eram os homens que influenciaram gerações? Certamente do tipo que sabia aproveitar a própria fraqueza para enriquecimento pessoal. O calo que aperta não é nosso inimigo: é nosso maior mestre - ainda que todos nos adulem com palavras carinhosas ele sempre está lá para lembrar a verdade do que somos para nós mesmos. Torna-se, de certa forma, um dos nossos melhores amigos. Ainda bem que estão lá para apertar nossos pés cansados! Não fosse assim seriamos auto-suficientes! Uma tragédia! Que a auto-suficiência jamais te ocorra! Seria melhor que uma bomba o atingisse agora! Você precisa de cada um desses chatos que te rodeiam. Esses "sapos gordos" que você tem de engolir são, na verdade, petisco delicioso.
São esses dissabores que tanto amargam a vida que nos fazem subir. Se nos deixamos abater por eles a derrota é nossa! Claro! Dificuldades sempre haverão. Os vencedores são aqueles que perceberam que a vitória dependia somente deles, como eu disse, contra o mundo se necessário. Você quer mudar o planeta? Muito bem, mas será que, para vencê-lo, você tem coragem para enfrentar a si próprio de frente? Se você for incapaz de controlar o que sente com esse simples calinho que tanto te incomoda o mundo fará picadinho de ti. Para vencê-lo é preciso antes obra muito mais difícil e dolorosa: vencer-se.
domingo, 15 de novembro de 2009
O que foi que eu disse a respeito do filme 2012?
Em um post de junho, o primeiro deste blog, vaticinei: "Mexer com a Igreja é como mexer com o assunto mais sério disponível - tudo o mais é inscontante e passageiro. Num mundo onde tudo derrete, onde tudo é efêmero, a solidez reluz como o cristal mais precioso. (...) Quer destruir o mundo? Já sabe por onde começar. Ou você vai confiar no pajé? Roland Emmerich já fez a sua escolha: vai colher um sucesso de bilheteria." O post tratava das cenas do trailer do filme 2012 que mencionam o catolicismo. Não é apenas o Cristo Redentor que vem abaixo neste filme, não! A Basílica de São Pedro inteira desaba sobre a praça onde os fiéis estavam em oração, mandando todos eles pro beleléu. Enquanto isso um cardeal testemunhava o afresco da criação do mundo de Michelangelo, na Capela Sistina. A medida que os tremores aumentavam ele viu uma rachadura separando o dedo de Deus da mão de Adão, ou seja, a harmonia que sustentava o mundo estava desfeita - o fim havia chegado! (veja este post aqui).
Pois então, em um mundo onde homens se sujeitam a deitar-se com bonecas de plástico a solidez da Igreja impressiona. Enquantos todos gaguejam atordoados a última novidade de algum obscuro "filósofo" pós-moderno, a Igreja reina soberana sobre o caos, sempre apontando o caminho. Repetindo o texto anterior: "Destruí-la tem, portanto, mais efeito que estourar o planeta inteiro com todo o arsenal atômico disponível." Era garantia de um estrondoso sucesso de bilheteria. O que eu me perguntava, todavia, era a que ponto chegaria esse sucesso. Oras, este foi o fim de semana da estreia mundial do filme, e já no meio do domingo os executivos de cinema fazem projeções bem precisas sobre o resultado que, no caso em questão, foram absolutamente fabulosos. 2012 é simplesmente a maior estreia da história do cinema de filme não baseado em heróis em quadrinho ou franquia já estabelecida (veja reportagem aqui). Ou seja, fora os Homens-Aranha e os Harry Potters da vida, 2012 chegou ao topo, ao ápice.
Quando isto ocorre, os executivos correm pedir mais cópias do filme aos laboratórios. Afinal, sabem que se seguirá uma vigorosa carreira nas salas de exibição. Verifica-se o fim da relutância de Hollywood em falar no catolicismo, bem o confirma o atual 2012 e também os filmes baseados nos livros de Dan Brown. Será que os executivos estão cansados de resultados pífios de bilheteria? Porque, convenhamos, fora os filmezinhos de heróis em quadrinho e Harry Potter, Hollywood não está dando uma dentro. É fracasso atrás de fracasso. O último sucesso estrondoso havia sido, muito ironicamente, A Paixão de Cristo. Será que essa gente não se cansa de jogar dinheiro fora não? Pelo visto estão começando a se cansar e, ainda que a contragosto, parecem estar se rendendo à eterna mina de ouro: Roma. Não há produto que se tenha alinhado ao catolicismo que não tenha sido bem-sucedido.
A religião católica estava afastada da mídia por puro ódio da parte dos executivos de comunicação que, ao contrário de muitos leitores desse blog, sabem muito bem que falar em alguma coisa é o mesmo que a colocar em evidência. Por horror ao catolicismo evitavam ao máximo mencioná-lo. Pelo visto, as dificuldades econômicas sofridas pela indústria cinematográfica com a crise financeira internacional fizeram acender a luz vermelha: "Parem de fazer propaganda ideológica e comecem a vender!" O resultado está aí: o maior sucesso da história recente do cinema. Mas sei que não devo me empolgar. Tão logo capitalizem-se, voltarão a apostar nos produtos de sempre: propagandas vagabundas das ideologias da nova-era (marxismo, hedonismo, abortismo e, mais recentemente, ateísmo). Em tempos de crise, recorrem ao que é líquido e certo. Quando voltar a bonança, retornarão ao autoritarismo ideológico de sempre.
sábado, 14 de novembro de 2009
Qual a medicina que cura?
Homeopatia cura? Sim, homeopatia cura. Cromoterapia cura? Sim, cromoterapia cura. Acupuntura cura? Também! Pajelança cura? Pode perguntar para qualquer caiapó: pajelança cura sim senhor. E reza brava? Cura também. E curandeiro, e pai-de-santo? Curam também. E a medicina tradicional, cura? Ehr... Essa aí de vez em quando não cura não. É simples, permitam que eu me explique. Ao contrário dos outros métodos de cura citados, a medicina tradicional tem algo que poderíamos chamar de privilégio da verdade. Como ninguém, ela sabe todos os processos que se dão no corpo humano. Estamos falando dos mais mínimos detalhes: ela conhece a fórmula química completa de todos os nucleotídeos disponíveis. O Nobel de Medicina deste ano foi para uma pesquisa que descreveu átomo a átomo a estrutura da proteína que protege a ponta dos cromossomos: a telomerase. Se uma tal ciência possui tamanhos privilégios como se lhe pode acontecer que erre? Ou ainda, que, em certos casos, seja incapaz de curar? Por certo que ainda há muito por ser descoberto, mas não é a isso que me refiro. Vou dizer explicitamente: como pode a medicina tradicional, com toda a sua pompa e circunstância, em vários casos para os quais ela conhece a cura, ainda assim esta não se dá? Oras! Não tem ela o privilégio da verdade?
Há diversos casos banais que a medicina tradicional não consegue resolver para os quais os pajés têm curas infalíveis. Podem ter certeza disso: há milhares de índios que não trocariam o seu pajé por médico nenhum. Somente o indígena aculturado, aquele que já viveu um processo de deterioração de sua cultura própria, confiaria no médico. Assim como estes pajés, há curandeiros de todas as espécies que, pasmem!, conseguem curar as pessoas! E por que é assim? Porque o que cura é a crença na eficácia do remédio, e não o remédio em si. Os médicos mais calejados bem sabem que se uma pessoa rejeitar o tratamento, a medicação não faz efeito, ainda que todos os átomos estejam nos seus lugares exatos! Porque não são átomos milimetricamente posicionados que curam, é a crença na autoridade curandeira! O processo mental que ocorre em nossa cabeça de ocidentais quando vamos ao médico é o mesmo que se dá na cabeça do autóctone que visita o pajé. Cremos na autoridade que o meio social como um todo outorga àqueles sujeitos. É isso que cura: a crença de que o tratamento dá certo. Por isso tem tanta gente que pula ondinha no Reveillón. Dá certo? É claro que dá!
Por isso a medicina é uma arte: o seu momento mais nobre é a consulta, quando se confrontam a alta cultura do médico com as idiossincrasias dos atendidos que, na maior parte dos casos, não sabem nada de medicina. O médico está ali para escutá-los de verdade, investigar a fundo o que se passa. Quantos não são os diagnósticos apressados e equivocados de médicos arrogantes e autoritários que não querem ouvir a queixa de seus pacientes! Nessas horas sentimos um certo ressentimento de que não haja mais a forca! Mas retomemos o raciocínio. A medicina é uma arte de interpretação dos problemas alheios. Cada paciente é como um enigma único que se apresenta ao médico. Que pena que muitos doutores se deixem levar pelo quotidiano de suas especialidades e acabam reduzindo cada atendimento à uma burocrática cerimônia de preenchimento de receitas - isso é, de fato, um grande desrespeito com alguém que se deu ao trabalho de procurá-lo, e mais, de pagá-lo por aquele serviço! Imaginem o que não fariam os silvícolas com o pajé que, de repente, se tornasse displicente e despreocupado. Temeriam-no por um certo período por causa de seus super-poderes. Mas caso adquiram a certeza que ele está trazendo maldições sobre a tribo matariam-no sem sombra de dúvida.
Tratar cada paciente como um número não é coisa de médicos. Aliás, talvez seja coisa de médicos, sim. Mas certamente não é coisa de curandeiros. Por detrás de cada homem ou mulher de jaleco branco realmente capazes de curar, não tenham a menor dúvida, há um curandeiro escondido ali. Esqueçam por completo os títulos sociais. Vocês já sabem, não é a medicina que cura: é todo um contexto de tratamento respeitoso e digno que envolve fortemente o meio cultural e as crenças de cada indivíduo. Esqueça os médicos imediatamente. Procure os pajés - só eles têm a solução para o seu problema. Se o pajé que você encontrar souber manejar um estetoscópio melhor, mas se você não encontrar um que tenha essa capacidade, pode se recomendar àquele dos galhinhos de arruda que ele cura quase tão bem quanto o outro. Pode ficar certo de muitas coisas: dele você não ouvirá reclamações de baixos salários, será muito provavelmente mais bem tratado, terá espaço para reportar toda a sua queixa e, como consequência disso tudo, obterá a melhor instrução que ele é capaz de dar para a resolução do seu problema - não era isto que você estava procurando?
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Eduardo Paes: a auto-proclamada divindade de 2016
O prefeito do Rio de Janeiro está achando que é Deus. Desconsiderando todos os grandes artistas nacionais, apressou-se em convidar a Madonna a participar das cerimônias dos nossos jogos olímpicos! (link aqui.) Essas Olimpíadas são nossas! Dos brasileiros! Quem ele pensa que é para convidar uma artista internacional que não representa nada da nossa cultura? Ele tem cocô na cabeça? Foi ridícula a presença da Björk na cerimônia de Atenas, porque ela não tem nada de grega! Sua atuação limitava-se ao desejo de vender uma imagem moderna daquele país mediterrâneo. Será que o Brasil não possui um artista sequer que represente o nosso futuro musical? Quero a cabeça de Eduardo Paes num prato, já! Não podemos perdoar esse nível de bobagem. Como ele é hipócrita quando vai ao sambódromo posar de amigo do samba!
Quem é o responsável pela cerimônia de abertura dos jogos? O comitê organizador dos jogos, que opera muito próximo do Comitê Olímpico Internacional. Tomara que tudo isso não passe de um breve pesadelo: uma bravata de um político ambicioso que está excessivamente feliz por ter aparecido no noticiário internacional. Alguém precisa avisar este idiota que o Brasil tem milhares de excelente artistas! Temos de ser representados na cerimônia de abertura dos jogos por artistas nacionais! Ou será que devemos abrir mão de nossa brasilidade justamente em um dos momentos mais importantes da nossa história em favor de uma artista pop? Eduardo Paes perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. Se a cabeça virá num prato, quero o resto do corpo em pedacinhos, expostos em diversas praças públicas, para atemorizar os lunáticos que pensam em rifar gratuitamente nossas olimpíadas.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O intenso elo tribal dos ateus - esses grandes burros
Estou muito ocupado com meus estudos, por isso não tenho escrito quotidianamente no blog. Para piorar a situação, a grande mola propulsora do blog (a minha capacidade de irritar-me) tem diminuido drasticamente. Mas dessa vez não resisti. Acabei de ler um artigo sobre uma pesquisa que afirma que os bebês, logo após o nascimento, choram no idioma dos seus pais. Como se definiu isto o artigo não explica muito bem. O que o texto lembrou-me é o seguinte: uma das falácias de Richard Dawkins (não me importo em mencioná-lo várias vezes) é a de que as religiões criam um sentimento tribal, o que, segundo ele, impede que seus adeptos vejam pessoas externas aquele meio como iguais. Parece muito correto não? Efetivamente, ao participar de uma religião, desenvolve-se um senso de unidade com os outros seguidores e, de fato, não se desenvolve um vínculo com esta mesma profundidade com pessoas não seguidoras. Mas se este é um dos argumentos de Richard Dawkins para explicar porque as religiões são prejudiciais ao ser humano ele está erradíssimo!
Assim fosse, não poderiam haver clubes de futebol, nem bandas de rock! Afinal, ambos criam um sentimento tribal. Os fãs de um determinado time ou banda não se mesclam com os seguidores de outros times e bandas. Que prejuízo terrível para a humanidade! Ao invés de estarmos todos irmanados sob um só time de futebou, ou sob só uma banda de rock, ficamos nos escondendo atrás de apenas um deles desenvolvendo intensos sentimos tribais que nos levarão a brigar com o grupo oposto. Que coisa horrível a liberdade, não acham? Oras, assim como Richard Dawkins pede o fim das religiões, em nome da coerência ele também deve pedir o fim dos clubes de futebol e das bandas de rock. Se ele já acha que, em nome da fraternidade universal, as pessoas não devem ter a liberdade para seguirem a religião que bem entenderem, então, em nome da mesma fraternidade, os clubes de futebol e as bandas de rock devem ser extintas também!
Mas tudo isso ainda é café pequeno! Em nome do mesmo argumento, Richard Dawkins deve mesmo é pedir o fim dos idiomas. Sim, o bebezinho já no útero da mãe está se tribalizando. Que coisa horrível! Mal nascido já terá em si a forte disposição para sentir-se à vontade entre as pessoas de mesmo idioma dos seus pais! Isso não pode acontecer. Em nome da fraternidade universal devem-se extinguir as nações e um idioma único deve ser imposto a todos os homens, o esperanto, talvez? Acho que a opinião pública americana vai pedir mesmo o inglês. Difícil vai ser convencer os gabirus do nordeste a obedecerem esta regra. Já posso até imaginar: tal qual os portugueses da época do Marques do Pombal, que obrigavam os falantes da língua geral (idioma indígena unificado criado pelos jesuítas) a tomarem um copo de óleo cru em praça pública, os seguidores de Richard Dawkins, se não obtiverem bons resultados nas aulinhas gratuitas de inglês que darão, condenarão os maus alunos a um ostracismo de civilização - desligando os MP3 players deles e apagando as suas contas de Orkut e MSN.
O erro fundamental de Richard Dawkins e seus admiradores continua o mesmo: desrespeitar a liberdade humana. Em nome do sentimento que os une (o desejo de verem as religiões exterminadas), eles desenvolvem, advinhem!, um intenso sentimento tribal, que os leva a desconsiderar, advinhem!, os seguidores de outras crenças. Ainda que o ateísmo em si não seja uma crença, várias de suas consequências o são. Ou não se pode dizer que os ateus acreditam serem superiores aos seguidores de religiões? Eis uma crença. Ou os ateus não acreditam que as religiões levam a humanidade à perdição? Outra crença. Só porque duvidam ou questionam a existência de Deus não significa que não têm crença nenhuma. Pelo contrário: têm várias! O completo desconhecimento e desrespeito pela milenar tradição filosófica ocidental, leva os ateus a dizerem tolices fenomenais, a acreditarem em perfeitas imbecilidades. É mesmo uma condição deplorável o ateísmo. Além de ser o mal fundamental (como já explicitado em outro texto), também é uma burrice sem tamanho: basta declarar-se ateia que a pessoa começa a andar sobre os membros superiores, se é que são capazes de me entender.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Uma entrevista muito interessante
Em atenção às mais de 400 pessoas diferentes que visitaram este blog nos últimos dias (nos quais não realizei nenhum post novo), estou publicando esta interessantíssima entrevista da Globo News com o escritor Moacyr Scliar. Os que me conhecem perceberão como eu não concordo em tudo com ele. Aliás, discordo muito dele. O detalhe interessante é a visão rica e nobre que Scliar tem de toda a tradição literária ocidental. Por conta disso ele consegue interpretar o mundo com um olhar mais justo, pois é capaz de compreendê-lo com os olhos do outro, pondo-se no seu lugar. O mundo precisa de exemplos de tolerância e inteligência como os dele.
(Estou com alguns textos engavetados. Irei terminá-los assim que puder.)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
A justa medida das coisas
O pensamento não é um dado natural. Não se pode aferi-lo. Sabemos que sinapses ocorrem em nosso cérebro, mas, como estas mesmas se dão no cérebro de um cachorro, por que é que nós compomos sinfonias e eles não? Os animais agem por instinto. Todavia, o homem, apesar de ter instintos, possui a faculdade da razão, o pensar, que o diferencia sobremaneira. Um cão é sempre o mesmo, não pode ser um mau cachorro, porque, por definição, ele não é capaz de realizar escolhas. Nós, pelo contrário, ao tomarmos decisões, lançamos nosso ponto de vista sobre o mundo. Com base em nossos valores, classificamos as coisas em boas ou más. Há quem diga que, objetivamente falando, bem e mal inexistem. Será correta essa afirmação?
Oras, qualquer um que dissesse não conhecer uma atitude má em si mesma está mentindo. E se achamos que algumas coisas podem ser verdadeiramente más, é porque, em contraposição a elas, existem coisas que são boas. De modo muito resumido, pode-se dizer que quando o homem se desvia da sua real natureza ele comete os atos que chamamos maus. Quando está próximo de si, da sua realidade objetiva, o homem é capaz do bem. Reforçando mais uma vez a idéia de que o homem é radicalmente diferente dos outros seres: não há sobre a terra outro animal que possa fazer esse tipo de escolha. O homem é capaz do bem em todas as culturas do mundo.
Porém, assim como podemos afirmar que determinadas ações são superioras a outras, também podemos presumir que certas culturas são superioras a outras. Ou será que podemos achar o nazismo uma coisa linda só porque "tudo é relativo"? Ou o que dizer diante do genocídio promovido por Stálin, Mao, Pol Pot e outros? Oras, assim como cada pessoa é capaz de ser objetivamente boa ou má em uma ação, também uma sociedade ou ideologia é capaz de ser objetivamente boa ou má. Ou ainda, podemos considerá-la melhor ou pior ao compará-la a uma outra sociedade ou ideologia. Oras, dito isso, disse-se tudo.
Escolha o leitor aquela ideologia que mais lhe agrada. Só não pode negar que certas culturas são superiores a outras pois, assim, estaria negando o fundamento sobre o qual se sustenta toda a semântica: promover o bem comum. Senão, para que se fala? Oras, fala-se para construir um mundo mais justo. Os que cometem o mal estao persuadidos de que fazem o bem. Os grandes genocidas consideravam-se grandes benfeitores. Aliás, não só eles. Todos nós achamos que fazemos o bem. Forçoso nos é reconhecer que, estivéssemos mesmo todos empenhados num bem verdadeiro, o mundo nao teria tanta violencia e desamor. O problema é que as pessoas fogem da verdade.
domingo, 1 de novembro de 2009
Mãos ao alto, baleia! (sobre ateus, gays e gordos)
Já tirei uma com os ateus questionando se a paranoia persecutória que eles alegam é verdadeira. Logo imaginei os carecas do ABC caçando ateus no centro de São Paulo à noite. Tão engraçado quanto irreal. Porém, há um grupo que vem alegando ser perseguido há muito mais tempo que os ateus: os gays. Mais uma vez eu me pergunto: será verdade o que eles estão alegando? Será mesmo que todo assassinato de rapaz ou moça homossexual é motivado pelo ódio à condição deles? Não será apenas que eles são tão vítimas da violência urbana brasileira como qualquer outro de nós? Um homossexual assaltado poderia alegar: "Mas enquanto me roubava o bandido me ofendeu!" É mesmo? Por motivo de ilustração vamos pensar em outro caso.
Imaginemos um gordo andando à noite pelo centro de São Paulo. Não precisa ser daqueles ultra-obesos - pode ser apenas gordo mesmo. Essa condição deixa a pessoa engraçada, faz com que se mova de modo desajeito, desengonçado. Basta ficar gorda para a pessoa perder a graça e, evidentemente, a leveza. Logo, os gordos não conseguem fugir com muita facilidade dos bandidos. Agora vejamos, nosso amigo volumoso está passeando sozinho pelo centro velho de São Paulo quando é abordado por um bando de carecas armados! Como os bandidos são tipos muito politicamente corretos podemos logo imaginar o que dirão: "Passe logo a grana, err..., moço!" O gordo se atrapalha com a carteira e careca continua: "Vamos logo moço, eu não tenho o dia inteiro!"
Essa cena não parece um tanto irreal? É porque sabemos muito bem que o bandido não falará moço! Não! Ele falará baleia mesmo! "Passe logo a grana, baleia!" E, se porventura, precisar continuar, ele dirá: "Vamos logo barrigão, eu não tenho o dia inteiro!" Agora essa história faz sentido! Conseguimos ver toda a maldade do bandido insensível em ação. E com o jovem homossexual, como ele faria? "Passe logo a grana, moço??" Claro que não. Ele vai mandar coisa muito diferente: "Passa a grana aí, bichona! Vamos logo sua bicha, eu não tenho o dia inteiro!" Não parece mais plausível? Pois então, será que o jovem homossexual foi vítima da violência urbana por causa da sua condição?
Não estou negando que o bandido pode se inspirar a ser especialmente mais violento com os homossexuais. Só não posso compartilhar da ideia falsa de que os homossexuais são vítimas da violência por causa da sua condição! Não são não! Sofrem com a violência urbana das grandes cidades brasileiras como qualquer outra pessoa! Não são especiais e únicos - são pessoas comuns como outras quaisquer. Ou os gordos, quando assaltados, atribuem a violência sofrida ao fato de serem gordos? "Seu delegado! Aqueles carecas desgraçados só me assaltaram porque eu sou gordo! Se eu fosse magro eles não teriam me assaltado!" Ah! Façam-me o favor! Quem pensa uma coisa dessas está muito equivocado.