Ainda sobre as tentações totalitárias

O texto imediatamente anterior a este, A maçã-do-amor e o cientista, é, provavelmente, o mais importante publicado até agora neste blog. Através de um pequeno exercício de futurismo (a suposição de que uma perfeita máquina medidora de emoções pudesse ser inventada) demonstrei que a importância que damos as coisas está um juízo da realidade que nada tem de material. São em atos de pura vontade, independentes de determinismos de quaisquer tipos, que o homem manifesta com maior propriedade as suas qualidades e idiossincrasias. Com ele, pretendi respondidas certas suposições levantadas em alguns círculos intelectuais de que a mente humana nada mais é que um subproduto da evolução das espécies. Assim fosse, é razoável supor que não haveria mais sobre a terra um só psicanalista, pois caso a mente humana fosse um apenas um emaranhado de interrelações cognitivas, a psicanálise como um todo estaria descartada - não somente não haveria o inconsciente tal como descrito por Freud, como também a vontade estaria determinada por experiências anteriores. Ou seja, aquele texto demonstra o equívoco em se negar a existência da mente, que, ao invés de conduzir nossas atitudes como uma intrincada resposta matemática independente de uma vontade, é operada livremente conforme a consciência e o juízo moral de cada um.

O ponto de vista de que a mente humana depende exclusivamente de estímulos anteriores em cada uma de suas resoluções é inconciliável com a psicanálise e as psicologias modernas, que acreditam em liberdade nas operações mentais. Analisando a questão específica da psicanálise, caso a ideologia de que a mente é apenas o resultado de uma conjungação de átomos prevaleça, não sobraria pedra sobre pedra do seu gigantesco edifício, pois um dos seus mais importantes pilares é a premissa de que, em nosso interior, há uma vontade libérrima, consciente e autônoma, dependente unica e exclusivamente de um eu solitário, insondável e absoluto. Tanto é assim que a única psicologia auto-proclamada científica, a comportamental, refuta as considerações freudianas chamando-as mentalistas, dado que ela sequer trabalha com a hipótese de que a mente exista. Para a psicologia comportal as sinapses e os neuro-transmissores sozinhos são capazes da criação de um intelecto, tanto é que um de seus fundadores, Watson, gostava de repetir a seguinte frase retórica: "Dê-me uma glândula, um músculo e um nervo, e eu te darei um espírito."

O problema é que não somente a psicanálise como também as várias outras psicologias mentalistas gozam de farta saúde no momento. Não convém nos esquecermos de que a psicanálise é o primeiro grande sistema científico para a compreensão da mente humana - não se baseia, portanto, em ideias religiosas e/ou supersticiosas infantis. Se todas as nossas operações são respostas imediatas e impulsivas aos estímulos baseados em experiências anteriores a vontade livre não existe. Há que se mencionar que nem a psicologia comportamental acredita nisto. De fato, o único grupo de intelectuais que considera a mente o resultado de certas configurações entre átomos é o dos darwinistas, para quem toda a experiência humana se resume a arranjos moleculares, como se isto já não fosse uma ideia, ou seja, algo imaterial criado pelo intelecto. Não estou pretendendo negar com estas afirmações que várias de nossas atitudes sejam reflexos menos complexos ligados, de certa forma, à padrões cerebrais menos evoluídos - ninguém faz o próprio coração bater. É certo que diversas das nossas atitudes são reflexos involuntários, ou seja, resquícios animalescos - mas não todas as nossas atitudes. Tanto é assim que nossos batimentos cardíacos podem ser acelerados com a emoção despertada por uma obra de arte.

Para existir plenamente, a vontade humana tem de ser livre para se contradizer, para contrariar os primeiros impulsos criando coisas originais, que jamais existiram - coisas que tiveram uma existência mental anterior ao seu posterior desenvolvimento material. Se não existissem antes na mente como é que poderiam ser desenvolvidas posteriormente? Oras, como algo pode surgir na mente? Por essas dificuldades todas não incorro em injustiça alguma ao dizer que aqueles que ignoram a mente humana não passam de charlatões ignorantes e prepotentes. Como já afirmei tantas vezes, ao se colocar o ser humano como objeto de um estudo é necessário levar em consideração todas as suas faculdades. Lembrar-se de algumas e esquecer outras não passa de estupidez, ou ser-vergonhice mesmo. Quando se privilegiam certos aspectos humanos em detrimento de outros o que geralmente se pretende é conduzir o leitor ao erro, empurrando-o na direção de uma ideologia incompleta. Trata-se, portante de uma coisa de gente mal-intencionada e, por que não dizê-lo?, cafajeste. Notem que posso afirmar tudo isso sem adicionar sequer um novo conceito em relação ao texto anterior. Estou me limitando a explicá-lo em toda a sua profundidade argumentativa.

Somos nós os únicos a dar profundidade e sentido aos acontecimentos ao nosso redor, julgando-os, categorizando-os, explicando-os e, infelizmente, até mesmo negando-os, pois somos livres para utilizar o nosso pensamento com a intenção deliberada de negá-lo, diminuindo-nos, com isso, ao grau dos seres irracionais. O ponto de vista segundo o qual o homem não passa de uma animal qualquer é, portanto, ideologia barata pseudo-científica - já que procura explicar certos fenômenos ignorando todas as suas variáveis. Serão verdadeiramente científicas as tentativas que considerem todos os fenômenos humanos em toda a sua extensão. Afinal, que dizer de uma fórmula que ignore uma variável? Seu destino é merecidamente a lata do lixo. Só continua resistindo a tentativa de rebaixamento do homem ao grau animalesco porque se pretende, com isso, justificar o irracionalismo - como se não tivesse sido a razão a legar-nos o mundo espetacular em que vivemos. Não é de se surpreender que até mesmo a arte seja influenciada - bem o demonstram as maluquices do séc. XX que ainda hoje nos deixam perplexos. Ou seja, a arte moderna é reflexo do estado de confusão mental criado pelas ideologias que pretendem desumanizar o homem, reduzindo o verdadeiro alcance de todas as suas experiências.

Por tudo isso, imaginem, pois, a estupidez de um sujeito que, apesar de desconhecer por completo a psicologia, arvore-se em doutor da mente humana apenas porque aprendeu no ensino médio as pressupostos da seleção natural. Qualquer coisa que alguém com tão parca formação humana escreva sobre o pensamento será um arrazoado imbecil, lamentável e vergonhoso - um vexame do qual deveria ter se poupado. O problema é que os piores tipos, os mais virulentos e arrogantes, se aferram à teoria darwiniana como um modelo completo de compreensão da vida. Por tudo escrito neste e em outros textos, não nego que se possa aprender muitas coisas úteis com os escritos de Charles Darwin. O erro colossal está em querer utilizá-la na explicação de fenômenos que ela claramente não comporta. O que a mim mais impressiona é o ódio que essa gente destila por hábito. Nunca vi tipos piores que estes. Trata-se das pessoas mais abomináveis que jamais conheci - os tipos mais obtusos, estúpidos e odiosos. Portanto, não é coincidência que em nome de interpretações absurdas da teoria de Darwin se tenha pretendido a aniquilação completa de diversos grupos étnicos. Estou dizendo claramente que todos aqueles que negam o humano em toda a sua profundidade são assassinos potenciais, pois, relativizando a vida humana, diminuindo-a à condição animal, consideram possível se dispor dela como bem entender.

A ideia de que a vida humana é nobre e precisa, consequentemente, ser preservada, é privilégio de todos os que a analisam em toda a sua extensão. Não é, em absoluto, um fenômeno restrito àqueles que professam alguma fé religiosa. Essa é só mais uma das mentiras que os darwinistas contam para trazer para o seu lado da disputa os não-religiosos pois, estando a defesa da vida restrita aqueles que têm religião, todo o mais estaria obrigado a relativizar o ser humano aderindo, assim, à ideologia que pretende relativizá-lo dispondo dele conforme as necessidades de cada circunstância. É inevitável a percepção de que muitos dos leitores do biólogo Richard Dawkins se encaixam perfeitamente nesta descrição. Mais uma vez não é coincidência alguma que, em sua grande maioria, eles sejam adeptos da ideologia abortista e revolucionária. Quando não se acredita que o ser humano é importante, logo imagina-se poder se dispor dele de qualquer forma pois, anulando-se qualquer absoluto, restam-se apenas relativismos. Reafirmar, pois, a nobreza do homem, seu estado superior na natureza, faz-se extremamente necessário nos dias atuais. Ainda que não possamos compreender com exatidão o porquê somos diferentes de todo o mais não podemos negar este dado evidente. Trata-se de um grave insulto à verdade, uma desnaturalização, pois, se somos efetivamente humanos, reduzir-nos nada mais é que negar a nossa natureza.

Já escrevi isto tantas vezes neste blog que é decepcionante precisar repeti-lo até mesmo para seus leitores habituais (sim, há leitores que preferem se manifestar por e-mail do que por comentários): um animal não poder negar a sua própria natureza - um cão, por exemplo, não pode ser mais cão ou menos cão que o indicado pela sua natureza. Já o homem é o único ser que pode negar a própria natureza, seja reduzindo-a àquilo que ela não é ou elevando-a àquilo que ela nunca poderá ser. De fato, há maleabilidade no homem, como bem o demonstram as variadas culturas. Apenas continua sendo um erro colossal negar que o homem tem uma própria natureza segundo a qual estão estabelecidas as suas faculdades. O grande erro dos sistemas ideológicos do fim do séc. XIX é a pretensão de ter descoberto efetivamente o que o homem é, como se tudo o que fora afirmado até então estivesse errado, ou como se ainda não houvesse muito por descobrir. É contra essas tentativas ridículas de negar ou subverter a natureza humana que eu gosto de escrever - para que possamos começar a entrever o homem real em sua totalidade, ainda que muitas sejam as dificuldades em se tentar fazê-lo: essa é, de fato, uma proposição verdadeiramente científica, inclusiva e justa.

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