Aletheia - da construção da verdade à sua implosão

Convém aprofundar-nos um pouco mais na questão da diferença entre verdade universal e falsas verdades particulares. Não é recente a crítica ao conceito de verdade universal. Sem muito equívoco, pode-se atribuir a Immanuel Kant o título de primeiro relativizador da verdade. Ele não concluiu, porém, que ela não existisse, mas sua crítica é de que seria muito difícil, quase impossível, verificá-la. Começou assim o relativismo que levou ao cataclismo dos dias atuais. Seguiram-se a Kant toda uma sorte de relativistas, dentre os quais deve-se destacar o alemão Friedrich Nietzsche. Já escrevi sobre essa mentesinha perturbada neste blog antes. Recomenda-se aos que o desconhecem a leitura do texto, disponível neste link. Hoje, porém, falarei dele mais superficialmente. Ocorre que Nietzsche é o maior crítico de tudo o que existe. Ninguém teve a mesma influência que ele sobre as gerações seguintes. Como demonstrado no texto supra-citado, a obra de Nietzsche foi muito mais retórica do que efetivamente argumentativa. A História acabou sendo cruel com Nietzsche. Seu prestígio minguou enormemente durante o séc. XX. Os seus admiradores inquietaram-se diante do eminente desaparecimento do mestre. Então, empenharam-se em fundamentar as suas loucuras. Tem-se tentado demonstrar, caso a caso, como Nietzsche estava certo em sua crítica.

A tentativa de reavivamento mais interessante que conheci foi a de Marcel Detienne, autor de Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Nesta obra, o autor faz uma historiografia do termo verdade na Grécia Antiga. Para tanto, ele compara o conceito de verdade disponível na Ilíada, de Homero, e o sentido que o termo ganhou até o século de Péricles, na academia de Platão. No primeiro caso, Detienne procura demonstrar que o conceito de verdade era muito próximo da mitologia grega. O sentido do termo confunde-se com a própria noção da divindade que o nomeia: Aletheia. Acreditava-se, naquela época, que a verdade era um privilégio da deusa. Os que a desconsideravam, estavam, portanto, destratando a divindade. Ainda não havia o conceito de apuração da verdade ao nível humano. Detienne demonstra, através da narrativa da Ilíada, como isso pareceria tolice aos contemporâneos de Homero, a quem deveria-se apelar diretamente a divindade caso a verdade estivesse em questão. Desse período da Grécia chamada Arcaica até o período Clássico houve uma transformação no sentido da palavra. De mero conceito religioso, verdade passou a designar o resuldado de uma apuração humana, ou seja, a verdade deixa de ser privilégio divino e passa a ser uma característica humana. Ocorre algo que pode se chamar de incorporação do conceito, que antes estava restrito à esfera mitológica. Esse processo de transição ocorreu com o advento da ciência. Os que gostam de relativizar a verdade devem saber que essa atitude é anti-científica, pois é com o nascimento da ciência que surge a compreensão de que a verdade é algo que pode ser verificada pelos seres humanos através de provas e contra-provas. A ideia de verdade está, portanto, desde o seu nascimento, ligada à ideia de ciência, ou seja, de apuração da verdade. Notem que esse sentido do termo verdade inexistia antes dos gregos o criarem. A verdade é, portanto, uma ideia, uma invenção humana. Algo que pode ser rastreado ao longo da história.

Todo este esforço é decorrência da necessidade de se justificar a ridícula crítica nietzchiana à metafísica platônica. Nietzsche abominava Platão assim como abominava São Paulo. Para combatê-los, ao invés de argumentos, Nietzsche se utilizava de uma retórica apaixonada que se orgulha de ser irracionalista. Quem lê-lo poderá verificar por si próprio. Nietszche odiava a razão. Para ele a razão é uma excrecência platônico-cristã que precisa ser combatida. Consequentemente, Nietzsche abominava também a ciência. Ele a considerava uma excrecência burguesa. No lugar do ocidente cristão, segundo o "filósofo", deve ser instaurado algo que se pode chamar de Reino de Loucura, já que se limita à licensa de se fazer sempre o que quiser como bem entender, se utilizando de quaisquer meios para tanto. O que não fosse exatamente isso precisaria ser duramente combatido. Nietzsche advoga o tempo todo a favor da destruição completa do Ocidente. Tudo era ruim para ele porque tudo está assentado sobre esse conceito, para ele ridículo, da razão. Em seu texto, Nietzsche se utiliza de ataques infantis e xingamentos baratos, como muitos outros "autores" contemporâneos. Como já disse, sua argumentação é paupérrima. Por conta disso, a preocupação máxima de seus admiradores é resgatar a sua obra demonstrando que, por detrás da aparente loucura, existe supostamente um grande pensador. A historiografia da verdade da Grécia Clássica foi feita por Marcel Detienne exatamente com este intuito: impedir que o prestígio de Friedrich Nietzsche se desfizesse por completo através da demonstração de que a verdade é um conceito criado pelos homens e, como tal, pode ser remodelado com se bem entender.

Oras, ainda que o conceito de verdade tenha a sua História, afinal, a humanidade também a possuiu, isso não significa que as conclusões a que chegaram os primeiros cientistas pré-socráticos e os filósofos clássicos estejam erradas. Como já demonstrei diversas vezes neste blog tudo tem História, porque tudo é entendido pelo ser humano, um ser histórico, ao contrário dos animais, que não a possuem. A tentativa de manutenção do prestígio Nietzschiano não é obra de um só autor. Detienne nem é o mais célebre deles. O acadêmico niezschiano mais notável é o francês Michel Foucault que, em seu tremendo esforço pelo resgate de Nietzsche, acabou sendo, pelo menos na minha opinião, muito mais inteligente e perspicaz que o mestre. Foucault não é um bebezão neurótico, suas ideias são muito mais respeitáveis. Nem é por acaso que ele é o acadêmico mais citado mundialmente nas pesquisas das áreas humanas. Não pretendo, porém, ser tomado como grande admirador do francês. Apenos quero deixar claro que ele é razoável. Muitos de seus argumentos são válidos e evidentes. A crítica foucaultiana ao marxismo e a psicanálise parecem-me de enorme qualidade. Ele é também um observador muito inteligente da realidade contemporânea. Com grande propriedade ele demonstra como o puritanismo da Era Vitoriana foi incorporado pela burguesia ocidental. Para ele, esse é o grande movimento fundador da contemporaneidade. Concordo com isso. Só tenho minhas reservas quanto à licenciosidade que ele toma em relação à verdade, pois ele também é um sofista - o que, no seu caso, parece-me contraditório pois como podem ser verdadeiras as suas colocações a respeito da Era Vitoriana se ele próprio não acredita em verdade? Pena que ele não foi intelectualmente honesto em admitir que há sim verdade e que se pode sim atingi-la através do estudo da realidade ao nosso redor. Nietzchiano que é, não poderia deixar de ter sua cota de bobagens a preencher.

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