Vamos logo combater a crise criativa despertada com a infinidade de desgraças que vêm, no momento, do Haiti. Se eu pudesse ajudar os haitianos fazendo alguma coisa já teria feito. De nada me adianta ficar estressado: não somente não os ajudo como me atrapalho.
Já faz alguns dias que quero escrever um texto sobre certos aspectos da trajetória da dra. Zilda Arns, morta na grande tragédia haitiana. É que ela contornou brilhantemente o problema central para instalar a Pastoral da Criança: a indiferença das pessoas. Sim, esse é o grande problema do mundo, o maior de todos - incomparavelmente maior que um terremoto de 9 graus na escala Hischter. Sempre que alguém que fazer algo bom (e muitas vezes dramaticamente necessário) aparece algum indiferente no caminho para atrapalhar. Essa figura simbólica da pessoa que atrapalha o caminho do herói, impedindo-lhe o avanço, é tão clássica que os interessados podem procurar explicação excelente nos escritos do grande antropólogo americano Joseph Campbell, cuja obra foi fundamental no estabelecimento dos modernos parâmetros para os contadores de histórias.
O infeliz que fica "embaçando" no caminho do herói chama-se guardião de limiar. Notem que o caminho do herói envolve a travessia de limiares quando ele sai do território que lhe é familiar (aquele do qual ele provém) na direção do território novo (aquele onde ele há de operar maravilhas). Como esse problema apareceu na trajetória da dra. Zilda? Para ela, o universo comum era o eclesiástico: vários de seus irmãos são padres e freiras, um deles, em particular, era somente o Arcebispo de São Paulo, que foi justamente o que lhe chamou à fundação da Pastoral. O universo novo era o da miséria terrível. Os guardiões de limiares eram todos aqueles que consideraram seu projeto quixotesco: "A sra. sozinha não conseguirá transformar a realidade brasileira". Se eu conheço um pouco o ser humano afirmo que ela deve ter ouvido essa frase milhares de vezes e, no entanto, nenhum desses espíritos de porco atrapalhou sua invejável jornada. Segundo os jornalistas, ela é responsável pela vida de, nada mais, nada menos, que 1 milhão e 200 mil brasileiros. Isso mesmo. Você e eu coçando o saco na internet enquanto ela salvava a vida de milhares através da educação.
Sim, a vida destes brasileiros todos foi salva com educação básica sobre saúde. O trabalho da pastoral era informar as mães como evitar a desidratação com o soro caseiro e a fome com o tal farinhão, cuja receita variava conforme a disponibilidade de sobras das diferentes localidades. Ou seja, desenvolveu-se uma receita de farinhão para cada lugar miserável, conforme os poucos gêneros alimentícios disponíveis.
Mas não me refiro somente à burocracia das pequenas prefeituras quando falei nos guardiões de limiar. Também entre a gente da Igreja deve ter havido muito indiferença. Até mesmo inveja: "Quem é esta paranaense para nos ensinar como devemos viver nossa vida?" No entanto, Zilda irradiava sempre uma alegria e um charme pessoal tão grandes que nenhuma dificuldade lhe parecia intransponível. Foi uma mulher que efetivamente cumpriu aquelas dificílimas palavras de Cristo: "Se tivésseis fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha 'Arranca-te e lança-te no fundo do mar' e ela vos obedeceria." Zilda foi um gigante que dava ordens às montanhas e elas a obedeciam. À sua palavra recuaram a diarréia e a desnutrição de milhares.
Voltemos à questão central da sua obra: como superar a indiferença alheia. De fato, cada herói constrói para si um caminho único, fazendo uso de atalhos dificílimos e custosos, afinal, trilhar o caminho da maioria é escolher uma via sem grandes dificuldades e sacrifícios. Multidões caminham por estradas seguras. As iniciativas pessoais ousadas requerem caminhos especiais, para que em tempo menor se resolvam grandes problemas para os quais os caminhos tradicionais nada servem. Imaginemos se não tivesse existido a Pastoral da Criança: nosso índice de mortalidade infantil estaria muitíssimo mais alto do que hoje. Revoluções exigem sacrifícios humanos. Os heróis se entregam à morte, para que os outros possam viver. De fato, os que lerem os estudos de Campbell verão que essa é uma constante universal na antropologia: todos os povos contam histórias de grandes heróis que entregaram a própria vida pela causa da maioria. É como se, por suas grandes peripécias, os heróis renunciassem ao direito de terem uma vida própria e passassem a viver em função das necessidades alheias. Somente pessoas de grande generosidade agem desta forma.
Então como transpor os guardiões de limiar? Eles estão estragicamente colocados na entrada do mundo novo para testar a fidelidade de princípios do herói. Será verdade mesmo isto que ele está dizendo? Zilda Arns escolheu a via do amor. Dentre tudo o que se andou dizendo a seu respeito nos últimos dias, destacou-se, para mim, o depoimento de um publicitário que trabalhou com ela. Em entrevista à Globo News ele relatou o seguinte episódio. Ao fim de uma sessão onde se exibiram vídeos amadores produzidos por agentes da pastoral, a dra. Zilda conduziu uma grande salva de palmas dizendo: "Vamos aplaudir". Ela, então, voltou sua atenção ao publicitário e, com grande delicadeza, perguntou: "Como podemos melhorar a qualidade dos vídeos?" Notem, os vídeos deveriam ser muitos simples. Melhorá-los parecia ser algo relevante naquele momento. Qual a primeira reação da grande mestra? Aplaudir o esforço daqueles que os haviam realizado. Num segundo momento procurou-se auxílio para melhorá-los, mas a primeira iniciativa foi aplaudi-los. Essa é a via do amor: aquela que procura ver tudo de positivo que existe nas iniciativas individuais. As pessoas egoístas e pouco generosas não agem assim. Para elas sempre saltam-lhe a vista os defeitos de qualquer iniciativa. Logo apontam todos os mínimos problemas e imperfeições da empreitada. A reação óbvia da pessoa que tanto investiu no projeto criticado é sentir-se ofendida e fechar-se às críticas, que talvez fossem até um tanto justas e até mesmo necessárias. Esta é a questão central: como criticar sem ofender. Como entusiasmar as pessoas com um projeto que unisse uma nação inteira do tamanho do Brasil? Essa é a obra-prima indiscutível da dra. Zilda.
Por certo, muitas vezes a dra. Zilda teve diversos motivos para se zangar e perder a paciência com gente estúpida. Claro, quem não encontra imbecis no caminho? Porém, ela soube trazer essas pessoas incovenientes para o seu projeto. Ela soube criticar sem tirar o estímulo das pessoas, porque o amor estava no alto das suas prioridades. Assim agiu a dra. Zilda: amou até mesmo as pessoas que lhe atrapalhavam a vida. Somente assim ela pôde convencê-las que o seu caminho era o melhor. Que grande exemplo, não? Quantas vezes somos extremamente ágeis em criticar os outros e como somos lerdos para elogiar suas boas iniciativas. É que nos corrói a inveja pelos poucos sucessos alheios. Gostaríamos que todo o sucesso disponível fosse nosso. Assim nunca deixaremos de coçar o saco na internet. Para ganhar o mundo é preciso amar, é preciso dar a própria vida. Assim agiram todos os que o conquistaram. Portanto, pense bem se você quer mesmo fama e reconhecimento. Será que você está disposto a entregar-se todo, seja numa cruz, ou num país em ruínas? Não é outro o caminho do herói. Já o caminho dos inúteis bem o conhecemos, pois nunca o deixamos de trilhar.
As montanhas que Zilda Arns removeu
Marcadores: Individualidade, Liberdades individuais, Publicidade, ReligiãoPostado por Henrique Rossi às 04:05
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