Muitos intelectuais metidos a besta gostam de desdenhar do programa Big Brother Brasil. Para eles, somente pessoas muito desqualificadas intelectualmente se interessam por este programa. Gente inteligente como eles não assistiria tamanha bobagem. Admito que também já pensei assim. Enquanto estava na faculdade adorava desdenhar dos colegas que contavam as últimas novidades do BBB. Tanto é assim que só fui assiti-lo na sua quarta edição. Foi como um prazer secretíssimo, o qual jamais revelaria a ninguém, afinal, o que é que poderiam pensar de mim se soubessem que eu estava assistindo o Big Brother Brasil? Então, cresci. Hoje, estou me lixando para a opinião dos outros, especialmente dos intelectualóides de plantão: essa gente sórdida que vive de policiar o pensamento e a opinião dos outros. Tanto é assim que escrevo aqui o que me dá na veneta, e tenho especial predileção por desvendar os intentos totalitários das "pessoas inteligentes". Se fosse por eles teríamos muitas outras guerras mundiais. Por isso odeiam tanto a democracia, por que se há de ouvir a maioria quando somente a opinião dos "inteligentes" basta?
O Big Brother é um fenômeno democrático. As massas acompanham-no com grande interessante. Será que seus espectadores são mesmo uns inúteis a desperdiçar preciosos minutos que deveriam ser investidos em coisas mais úteis como as sinfonias de Mahler? Qual é, pois, o apelo do Big Brother Brasil? Já faz um tempo que gostaria de escrever a minha opinião. Sei, porém, que esta é uma seara complicada, pois muitos intelectuais de renome já procuraram explicá-lo. Sempre que li "textos sérios" a respeito do Big Brother notei que seus autores procuraram ressaltar o aspecto sórdido em preocupar-se conhecer a intimidade alheia. Eles afirmam que é pelo prazer mesquinho de ver os outros sem se saber visto que o Big Brother têm tanta audiência. Não acho em absoluto que seja este o seu maior apelo. Além do mais, que há de mesquinho em querer saber como os outros são? Não é assim que agimos a todo instante? Afinal, é através da observação dos outros que planejamos a forma com a qual agiremos no futuro. Ou somos todos grandes mestres da originalidade? Não há nada de mal em querer ver como outras pessoas agem em determinadas situações. Quem nunca achou graça em ver o que diz um marmanjo atrapalhado quando quer levar ao beijo uma mulher maravilhosa?
O charme do Big Brother se deve, na verdade, a um outro motivo. Antes de revelá-lo, preciso demonstrar que ocorre neste programa o surgimento de um herói. Através de provas e desafios o público vai conhecendo como são cada um de seus participantes. Através de um sistema de eleição, excluem-se aqueles que não são interessantes. O público valoriza características que são universalmente positivas: retidão de caráter, veracidade, honestidade, sinceridade, simplicidade, bom-humor, beleza, etc. Que mal há em se chamarem boas coisas que efetivamente o são? Há, porém um problema: para conhecermos alguém em profundidade, para sabermos se são mesmo boas pessoas, não basta vê-las quando estão alegres. Todo mundo é agradável nestes momentos. Para efetivamente vermos do que uma pessoa é capaz precisamos ver o que ela faz quando sofre. Chegamos ao ponto do real interesse do programa: para se eleger a pessoa mais interessente, aquela que possui os melhores atributos, é preciso que os todos os participantes sejam testados nas mais diversas situações. E que prova é mais complicada que a avaliação de como nos relacionamos com os outros? Não há desafio que melhor revele o caráter das pessoas do que aqueles onde se exige trabalho em equipe e negociação.
Portanto, não é à toa que sempre se procura levar os participantes do Big Brother ao confronto. O que pretendiam os produtores do programa quando obrigaram seus participantes a retirar xingamentos de uma tigela e atribui-los uns aos outros? É evidente que pretendiam levá-los à animosidade. Se quisessem levá-los a um estado de paz e harmonia dariam-lhes uma tigela com elogios carinhosos, mas que audiência isso daria? Será que estaríamos interessados em ver um monte de gente feliz se amando? O que de interessante poderíamos aprender com isso? Não é verdade que se o programa fosse um mar de rosas seria impossível conhecer o caráter dos participantes? É porque só conhecemos as pessoas no meio das dificuldades que o programa precisa incitá-las às disputas e aos confrontamentos. Todo mundo sorri diante de uma ocorrência feliz, porém é mais nobre aquele que sofre com dignidade as provações. É assim que o público toma conhecimento da fibra moral dos participantes do programa. Baseando-se, então, nessa impressão, seja ela falsa ou não, vota-se pela saída dos concorrentes chatos e protege-se os bacanas. A arte de fazer o Big Brother resume-se, portanto, em favorecer disputas e briguinhas entre tipos vaidosos, egocêntricos e estourados. O Big Brother é, de fato, uma janela para as mesquinharias de que o ser humano é capaz.
Big Brother Brasil - uma prova de caráter
Marcadores: Combate ao politicamente correto, Processo social do saber, TelevisãoPostado por Henrique Rossi às 20:19
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4 comentários:
Engraçado como o BBB divide as pessoas. Quem assiste, acha que quem não assiste é intelectualóide metido a besta. Quem não assiste, acha que quem assiste é idiota cheio de tempo a perder.
Bom, eu acho sinceramente o programa idiota, mas é uma idiotice bem viciante. Já assisti algumas edições passadas, e agora passo longe pra não correr risco de ficar preso.
Agora, me desculpa mas o seu post me parece uma tentativa, até razoavelmente bem sucedidda, de tentar justificar o injustificável. As pessoas assistem BBB não pra aprender nada, assistem pra torrar o tempo, pq entretém, pq consideram divertido.
O que me irrita de verdade no BBB é essa mania terrível do Bial de tentar criar uma história, um clima épico, uma saga - tudo em torno do nada. Não há nada de relevante em nada do que se diz lá dentro. Não é uma saga. Não são heróis. São pessoas querendo ganhar um milhão. BBB é auto-referenciado ao extremo. O que se fala dentro dele só se refere a ele mesmo. E as pessoas escolhidas também não representam nada: são escolhidas por serem bonitas e por serem cabeça-dura o suficiente pra entrar em conflito com as outras. Fora isso, tudo é especulação.
Acho que vou postar sobre isso.
Não acho que você esteja errado, por mais contraditório que isto pareça pois eu escrevi o texto. É que estamos falando de perspectivas diferentes.
eu assisto bbb mas não fico procurando razões que justifiquem isso: assisto porque... porque tá passando. Procurar motivos intelectualóides pra conferir o programa é quase o mesmo que ser um intelectualóide criticando quem assiste.
hehehe muito bom.
mas num primeiro momento, como relatado no texto, assim que sai da faculdade assistir o BBB era um prazer secreto... secretíssimo!
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