terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A evolução de um personagem e o seu desmascaramento

Fiquei impressionado com a profundidade psicológica dos personagens da série House quando a conheci ano passado. Naquele momento, o Universal Channel Brasil transmitia os episódios da quinta temporada com um pequeno atraso em relação aos EUA. O texto escrito para House estava absolutamente impecável. Quando vi Hugh Laurie interpretando-o mal percebi o trabalho do ator. Quem já viu um set de filmagens sabe que há aparelhos de iluminação para todos os lados. Além disso, só ao redor dos aparatos de captação, ou seja, da câmera, costuma haver umas quinze pessoas. Isso em toda e qualquer filmagem. Imaginem uma grande série americana de orçamento de muitos milhões de dólares. Aquele hospital da série é montado todo em estúdio, nos mínimos detalhes. Nada ali é real. Ainda que médicos colaborem durante a redação dos roteiros, não há médico algum no momento das filmagens - pelo menos é o que se informa nos créditos finais. Para dificultar ainda mais o trabalho do ator (se é que sua performance já não fosse extremamente atrapalhada pela multidão que o cerca e pelo imenso aparato técnico) cada uma das cenas são feitas separadamente. Ou seja, de acordo com a disponibilidade de atores, figurantes, equipamentos, etc., filmam-se as cenas de modo não linear. Isso significa que é feita a gravação de cenas do fim do episódio junto a cenas do seu início. É impressionante que, apesar dessa grande confusão logística, certos atores consigam atingir as raias da genialidade em sua arte.

Porém, sempre sofri com a dúvida em relação à qualidade da primeira temporada. Como cineasta, soube perceber que aquela qualidade que eu estava observando na quinta temporada era resultado de um longo processo, ainda mais porque se trata de televisão. Para que a construção do personagem House estivesse tão afinada (utilizo o termo com quase o mesmo sentido com que é utilizado em música) foi necessário que o texto sofresse alterações EM FUNÇÃO DA INTERPRETAÇÃO DO ATOR, ou seja, em função do modo particular com que Hugh Laurie o encarava. Era evidente, portanto, que na primeira temporada os talentos ainda não estariam "azeitados" entre si: o texto não se encaixaria com perfeição à forma e ao tom que Laurie estava dando ao personagem. Estou dizendo que, por se tratar de uma série de longa duração, foi possível os seus produtores e roteiristas adaptarem-na de modo que a interpreção de Laurie fosse ainda mais verossímil - é o que se testemunha na quinta temporada da série. O mesmo ocorre nas telenovelas brasileiras: adapta-se o texto de um personagem conforme o tom que o ator lhe confere. No cinema as coisas se dão de forma completamente diversa: quando se iniciam as filmagens já se sabe com exatidão o que deverá ser captado para o início, meio e fim do filme. Ou seja, nunca se altera o texto de um personagem em função da interpretação do ator, salvo, evidentemente, as raríssimas excessões (geralmente comédias que, por serem mais leves, comportam mais improvisações).

Dito e feito. Tomei um grande susto quando assisti à primeira temporada da série. Hugh Laurie parece enrijecido. Apesar de ele ser um excelente ator, como sabemos com exatidão pela quinta temporada como é a personalidade de House, a sua depedência de um texto ainda pouco maleável faz com que sua interpretação fique endurecida - isto se revela até mesmo fisicamente: sua postura corporal, seus traquejos de mãos, seu pescoço, está tudo duro, como se ele ainda estivesse pouco à vontade no papel. Evidente que jamais perceberíamos isso se não houvesse a quinta temporada. É justamente porque a forma como se encarava o personagem House evoluiu que podemos perceber como ele ainda estava em fase embrionária durante as gravações da primeira temporada.

Percebi então uma coisa da mais alta importância enquanto assista à primeira temporada. Já que estava evidente como todos os personagens ainda não haviam chegado ao seu correto grau de maturação, ficou mais fácil a identificação de uma das mais sérias observações feitas pelos estudiosos das obras audio-visuais: a participação do público espectador na criação mesma da obra. Já escrevi isto em algum outro texto do qual não me lembro agora: sempre que assistimos um filme é como se ativamente mergulhássemos na ilusão que foi para nós preparada. O cineasta russo Serguei Eisenstein sempre gostava de ressaltar que, através da montagem, é possível criar a ilusão mental de um terceiro elemento que não está nem no primeiro plano, nem no plano seguinte. Ou seja, a mente do espectador cria um símbolo mental entre diferentes planos. Conforme as diferentes mentes, serão diferentes entre si as imagens mentais criadas por cada um. Portanto, quanto maior a profundidade da ilusão, maior o susto sentido quando a mesma é quebrada. Porque na quinta temporada tudo estava tão perfeito foi possível perceber melhor os truques utilizados quando a série ainda estava se estabelecendo. Em cinema e televisão nada é o parece.

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