Existe uma forte tendência no pensamento contemporâneo em achar que o homem é um animal como um outro qualquer. Já escrevi várias vezes neste blog que apesar de nossos corpos serem reféns do universo físico-químico a experiência humana como um todo o transcende. Para justificar este ponto de vista disse, àquelas ocasiões, que a dor é algo que não pode ser quantificada. À ela unem-se todas as outras emoções: alegria, medo, felicidade, senso de justiça, desespero, etc., nenhuma delas pode ser quantificada. O que, para uma pessoa materialista, não deixa de ser esquisito, afinal, pensam elas que todas as coisas do mundo podem ser medidas. Como pode existir algo que não pode ser medido? Uma mente que se gabe de ser exclusivamente científica terá problemas em responder esta pergunta. Essa gente não gosta de reconhecer que há uma infinidade de assuntos que a ciência nunca poderá estudar porque é incapaz de medi-los, pois a ciência se limita a ser a faculdade humana de medir. Se não pode ser mesurado não pode ser objeto de estudo científico.
A tudo isto um "amante da ciência" (como se toda a humanidade não o fosse) poderá reclamar: "Você está equivocado e é simples demonstrar. Sua suposição se baseia numa premissa falsa, dado que você não pode afirmar que a ciência jamais será capaz de produzir um medidor de emoções. Talvez seja criado, no futuro, um aparelho que seja capaz de ler nossas sinapses e toda a nossa bioquímica cerebral e, com base em um padrão a ser determinado, ele emitiria um resuldado matemático que permitiria, por exemplo, a comparação da dor de diferentes indivíduos. A sua hipótese é, portanto, facilmente refutável." Dito assim, o raciocínio pareceria muito bonito, afinal, se tal equipamento for mesmo criado algum dia existirá, de fato, uma forma de aferir numericamente as emoções.
Porém, uma tal máquina terá certos problemas insolúveis, infelizmente, pois as emoções se misturam. Ninguém fica somente triste, ou somente alegre. O medo despertado por um conto aterrorizante pode ser menor em alguém que é naturalmente mais feliz que a média das pessoas, por exemplo. O problema de subtrair uma emoção da outra para que não sejam medidas juntas parece insolúvel. Para que fosse possível medir e comparar a dor de duas pessoas seria necessário que ambas tivessem eliminado de todo o seu aparelho psíquico todas as outras emoções no momento da medição. Só assim não se poderá confundi-la com o medo, por exemplo, que pode ser maior em uma delas - afinal, dor e medo estão relativamente próximas na escala de sentimos negativos. Tendo essa dificuldade em vista, o máximo que talvez seja possível desenvolver seria um medidor de apenas dois sentimentos: o positivo, e o negativo. Esse aparelho congregaria em seus pólos todas as emoções contraditórias. Tanto a dor quanto o desespero estariam no lado dos sentimentos negativos, ainda que sejam bastantes diferentes entre si. Da mesma forma, seriam agregadas como emoções positivas movimentos psíquicos tão diversos quanto a felicidade e o alívio.
Para demonstrar como meu ponto de vista continua justificado ainda que tal aparelho seja inventado com perfeição proponho que negligenciemos a dificuldade em se separar os sentimentos. Imaginemos um aparelho ideal que consiga separar com exatidão milimétrica a dor sentida por uma pessoa razoavelmente feliz que por ventura tenha sofrido um procedimento cirúrgico urgente sem anestesia. Logo percebemos que a dor sentida será tremenda, praticamente incomparável a qualquer outra dor. No entanto, como a pessoa do nosso exercício é bastante feliz no demais, a sua dor pode ser menor do que aquela sentida por uma pessoa costumeiramente infeliz. Ou seja, muito provavelmente a dor da pessoa que é naturalmente menos feliz será maior que a dor da pessoa que costuma estar muito bem. É de se imaginar que a atitude da pessoa perante as dificuldades será bastante influente na "quantidade de dor" que o aparelho irá marcar. Portanto, ainda que haja um aparelho que meça as emoções perfeitamente, o juízo ou opinião de alguém, impulsos psíquicos absolutamente subjetivos, irá influenciar como o organismo físico-químico irá reagir. Ou seja, a atitude moral da pessoa continuará a determinar a quantidade de neurotransmissores que seu cérebro irá descarregar.
Mas eu gosto de problemas ainda mais difíceis. Imaginemos, por exemplo, um sujeito muito feliz com uma doença crônica que lhe cause dores terríveis, capazes de atingir os ápices normativos para dor de nosso aparelho ideal. Ou seja, apesar da sua tremenda dor, capaz de desafiar os padrões medidores, ele é muito feliz. Argumentarão vários que, de fato, ainda que a dor dele seja tremenda, como o aparelho ideal demonstra com perfeição., ela é, em verdade, bem menor que a dor aferida em uma mãe que acaba de perder seu filho. Não importará, portanto, que o aparelho demonstre que dor do sujeito chegue a 100 unidades enquanto a dor da mãe chegue a 60 unidades. Apesar dessa verdade numérica, dado o fato de nosso sujeito hipotético ser feliz apesar de sua dor tremenda, a dor da mãe será considerada maior. Portanto, não adianta querer reduzir a experiência humana a quantificações científicas, pois sempre se chegará ao momento em que elas desfalecerão diante de juízos morais, que são, no fundo, o que realmente importa, e que realmente determinam a nossa maneira de interagir com o mundo.
As coisas que de fato importam não poderão jamais ser medidas. Como demonstrado, ainda que se invente um aparelho que consiga separar perfeitamente as diferentes emoções entre si, sempre se chegará a um momento em que a decisão da vontade se fará mais importante. A verdade numérica desaparece diante da verdade moral que é, de fato, muito superior, dado que é ela que verdadeiramente determina o que se pensa e o que se vive. Portanto, o mundo não verá o dia em que a ciência será mais importante que a livre e espontânea decisão dos sujeitos. A vontade da criança de experimentar uma simples maçã-do-amor num parque de diversões é algo que diz respeito a ela somente: a única pessoa no mundo que verdadeiramente conhece a intensidade desse desejo é ela mesma. Qualquer evento acontecido na cabeça de qualquer pessoa é algo que só ela experimenta em totalidade.
As experiências sentidas por se estar vivo, todavia, não são algo que não possa ser transmitido. De fato, o gênio humano já inventou algo muito mais eficaz que qualquer aparelho científico jamais será capaz de fazer: a palavra. Apegam-se à um racionalismo excessivo, infrutífero e frio somente as pessoas incapazes de compreender um simples poema de colegial. Por isso a humanidade jamais descambará inteira na direção do cientificismo pois, para se sentir plena e realizada, ela precisa de coração, de verdade - precisa experimetar uma resposta existencial. Precisa sentir a sua razão correspondida, ou seja, uma resposta àquilo tudo que ela viveu. Um encontro de experiências verdadeiramente satisfatório - uma retribuição completa: algo para o qual faltam palavras, pois, de tão verdeiro, excede-as, transcende-as, supera-as. Algo mais forte que a morte. O momento em que se vive mais plenamente pois se respira o universo em toda a sua imensidão.
Sem dúvida alguma, esse sentimento transcendental é algo que somente pessoas insensíveis podem negar. Sou extremamente crítico, porém, em admitir que haja alguém de fato insensível. Não acredito, portanto, que essa dimensão transcendental possa ser negada. Ela de fato existe, e os que se dizem insensíveis são provavelmente os tipos mais sensíveis que existem. Apenas se fecham numa atitude ranzinza e desafiadora porque não se sentem correspondidos. Não viveram a experiência de se sentir amado. O que se afirma insensível é apenas um rabugento infeliz que não gosta de admitir ter sentimentos como qualquer outra pessoa. No fundo, são pessoas que se tornam viciadas em negar as coisas positivas da vida. Apaixonam-se por desgraças. Têm aos olhos lentes que aumentam os desastres e diminuem os amores. Perdoem-me a sinceridade: só sabem olhar para o próprio vômito. Não digeriram o mundo, se recusam a fazê-lo. Se não lhes aparece alguém que os ajude, alguém com quem possam de fato se identificar, viverão a mais triste das condições humanas, que aparelho algum jamais será capaz de descrever.
A maçã-do-amor e o cientista
Marcadores: Ciência, Individualidade, Liberdades individuais, Processo social do saberPostado por Henrique Rossi às 00:56
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14 comentários:
"A tudo isto um "amante da ciência" (como se toda a humanidade não o fosse)"
uma das maiores besteiras ja escritas neste blog.
"Porém, uma tal máquina terá certos problemas insolúveis, infelizmente, pois as emoções se misturam. Ninguém fica somente triste, ou somente alegre."
ai que seu pensamento limitado falha. Por isso voce nao trabalha com inteligencia artificial... LÓGICO que se misturam e que nao é algo simples. Apenas porque VOCE acha impossivel, tal fato nao deixa de ser possivel.
Voce soa como os malucos que acham que o homem nao pousou na lua, com base na falta de conhecimento sobre um determinado assunto, e assumindo que o que voce sabe é o apice do conhecimento humano.
Respondendo ao primeiro comentário:
A que você se refere? Ainda que haja malucos que recusem tratamentos médicos, é certo que uma pessoa em são juízo, ainda que discorde de diversas constatações científicas óbvias, não irá recusar o remédio que pode lhe salvar a vida. Todo mundo gosta de luz elétrica, telefone, televisão, etc..
Respondendo ao segundo comentário:
Tem que ler o texto com mais atenção pelo visto. Gastei três parágrafos bem-escritos demonstrando que o tal aparelho não poderá ser inventado. Se discorda, melhor apontar onde está a discordância. Se não você fica soando um ateu maluco que só porque estudou evolução das espécies no ensino médio sabe de tudo. (rs.. não resisti não utilizar o mesmo "recurso" argumentativo..)
cade deus?
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u684148.shtml
LOL!
" Se discorda, melhor apontar onde está a discordância. Se não você fica soando um ateu maluco..."
acho que voce deveria mandar esse texto brilhante ao pessoal que estuda inteligencia artificial, emocoes sinteticas e cognicao la em harvard, mit e pro google. eles com certeza vao parar todas as pesquisas, ja que voce descobriu que o feito é impossivel.
O primeiro comentário é muito bobo e infantil - como se Deus devesse tomar cuidado com a incompetência de alguns sacerdotes atrapalhados.
Já o segundo é mais interessante (não que seja menos bobo e infantil). Não preciso me preocupar com isso porque tudo o que escrevo é óbvio e elementar. Ao menos espero que os cientistas destes centros de excelência conheçam os fundamentos das principais psicoterapias - isso basta.
"Não preciso me preocupar com isso porque tudo o que escrevo é óbvio e elementar. Ao menos espero que os cientistas destes centros de excelência conheçam os fundamentos das principais psicoterapias - isso basta."
é pra rir ou pra chorar?aahahhaah!
Independemente do que seja certo e razoável você fará o que bem entende - não importa quâo errado esteja, então, pode rir, chorar, espernear, tanto faz... Cuidado com os exageros, pois vou vetá-los.
la vem a censura cristã.
Como sempre, bem intencionada. O texto de hoje será excelente para você entender melhor como nossos argumentos são mais sólidos quando de fato existem. Também demonstrarei que a fala de efeito, exagerada e apaixonada, é só discurso retórico, nunca vence conversações - antes as transforma em disputas e brigas. Será mesmo que você ainda não se convenceu de que nada de positivo sai delas?
" é só discurso retórico, nunca vence conversações - antes as transforma em disputas e brigas. Será mesmo que você ainda não se convenceu de que nada de positivo sai delas?"
meu, voce é o cara mais retorico do mundo. fala fala e nao diz nada! prolixo pra cacete e retorico!
Impressionante que apesar de eu ser tão ruim você continue voltando pra cá.
Por que você não seleciona frases minhas que nada dizem (prolixas) e sem efeito argumentativo (retóricas) para que eu entenda do que você está falando? Você não pode fazê-lo, porque a retórica é sua. É você que esperneia. Eu, texto após texto, encontro vários argumentos que justifiquem meu ponto de vista. Você vem, xinga, e nunca comprova nada do que está dizendo.
continua no mundo da lua ta?
É triste que só te reste reconhecer a minha razão.
Acabei de publicar o texto que mencionei durante esta nossa conversa:
Nascimento e uso da hiperbole
http://www.polimatico.com.br/2010/01/nascimento-e-uso-da-hiperbole.html
Muito pertinente.
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