Infelizmente este é um blog onde, de vez em quando, faz-se necessário o uso do dicionário. Imagino estar escrevendo para pessoas inteligentes. Que graça teria escrever para pessoas que mal pudessem compreender um vocábulo um pouco mais sofisticado? Utilizo palavras de maior erudição sem grandes preocupações, pois espero que os leitores sejam daquele tipo antigo de gente que ainda tem dicionário em casa. Tudo isso para justificar a escrita de uma palavra como hipérbole sem que me doa a consciência. Para os preguiçosos, desta vez farei uma exceção. Hipérbole, segundo a rubrica Estudos de Linguagem do Aurélio, é o seguinte: "Figura que engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas; exageração, auxese." Conforme afirmado no texto anterior, até mesmo o tradutor de Nietzsche para a Companhia das Letras concorda que ele é um grande exagerado. Para mim, ele o é porque, tendo relativizado o conceito de verdade, acredita-se no poder de escrevê-la conforme bem lhe parecer. Recorre à hipérbole como alguém profundamente desesperado, possuído por um destempero e um desequilíbrio ímpares. Será que o fez porque sabia que argumentos eram inúteis para vencer a disputa que tanto procurou travar?
Parece-me que sim. Nietzsche sabia perfeitamente que seria impossível demolir mais de dois mil anos de filosofia com argumentos, simplesmente porque o edifício sobre o qual ela se assenta é deveras sólido. Portanto, ele não teria argumentos capazes de superar a questão metafísica, como ninguém mais os têm. Para se superá-la é preciso negá-la por completo. Portanto, ele foi extremamente esperto em refutar toda a razão e ciência. Dado que ambas são resultados dos questionamentos anteriores, negá-las era fundamental para a superação dos seus paradigmas. Não é à toa que pessoas razoáveis e sábias não sejam afetadas pela sua retórica. Ele fala aos desesperados que não podem suportar o mundo. De fato, seu discurso mirava a todos e a ninguém, como ele próprio admitiu. Aliás, não existe autor mais ressentido por ser ignorado que Nietzsche. Como ele mesmo escreveu, sua intenção era tornar-se um novo Cristo, fundador de uma nova humanidade, assentada somente sobre as necessidades imediatas e que refutasse qualquer premeditação e qualquer além. Muito contraditoriamente ele admitiu que o homem sofre porque está entre o animal e o além-homem.
Não sei bem se antecederam-se a Nietzsche muitos outros autores conhecidamente desequilibrados que se tornaram notáveis. De qualquer modo, parece-me que ele foi o melhor tradutor do espírito romântico decadente do fim do séc. XIX. Sua influência neste particular parece enorme. É da mente nietzschiana que parece ter saido o recente costume ocidental que considera gritinhos histéricos a mais eficaz arma retórica. Combatendo a filosofia da cabeça, Nietzsche inaugurou uma filosofia do estômago - não nos surpreende, pois, o seu "produto". Brota da sua mente o estilo que culmina nas análises bíblicas de Richard Dawkins. A este basta chamar o Deus do Antigo Testamento de assassino da pior espécie para considerar o seu ponto de vista bem defendido. Sim, ambos se encontram na superficialidade argumentativa do exagero desequilibrado e louco. Que mais se pode dizer de um estudioso que ignore por completo o que está dizendo? Oras, se não é louco é imbecil. Tanto Nietzsche quanto Dawkins são espíritos atormentados pelas verdades que desesperadamente tentam negar. Dawkins, porém, ainda tem um grande caminho a percorrer até atingir a "eficácia" nietzschiana. Por enquanto, ele só sabe imitar com perfeição os gritinhos afetados de horror.
A hipérbole nasce, pois, de uma insatisfação muito grande, de uma repulsa a tudo o que existe ao redor daquele que a utiliza com frequência. Argumentos não servem a quem odeia tudo o que o circunda. O insatisfeito, o revoltado, precisa de gritos. Palavras não lhe são suficientes. Em seu desespero, seu desejo não é convencer alguém de coisa alguma. Antes deseja agarrar-nos pelo pescoço e sacudir-nos com o seu arrazoado sem juízo. Conforme afirmei no texto anterior, só caem nessa aqueles muito despreparados e ingênuos, cujas mentes fracas são facilmente moldadas pela gente mal-intencionada. O reflexo imediato da gente normal, bem formada, é dar um empurrão no infeliz que aperta nossa garganta. Infelizmente parece indício muito sério de desequílibrio de ideias a utilização excessiva desta figura de linguagem. Quanto mais ela é utilizada, e quanto maior for a intensidade de suas colocações, mais certos podemos estar do destempero de quem a utiliza. Neste particular, é evidente que Nietzsche é muito mais louco que Dawkins, mas isto não livra a cara do biólogo em absoluto. Falta-lhe o impossível para demonstrar estar certo: induzir todos a uma exegese irregular e incompleta dos textos bíblicos, coisa que nem Nietzsche pretendeu - só assim para se convencer de que o desejo de Deus é a guerra, a morte e a destruição.
A crítica nietzschiana aos textos sacros é radicalmente oposta a de Dawkins, pois considera faltar-lhe sangue e sobrar covardia da parte dos israelistas. Nietzsche odeia que David tenha orado pelo seu inimigo séculos antes de Cristo - o arrependimento do grande rei por ter assassinado um general do seu exército para desposar sua esposa, então, é considerado por ele o ato mais degenerado da Bíblia. Para Nietzsche esta é a maior degradação do ser humano: a preocupação com os outros - esta seria a maior forma de auto-destruição disponível. Ele só considera plenamente humanas as preocupações com a própria sobrevivência. Estranho é que, apesar disso, o cristianismo se tenha tornado o maior sistema religioso da humanidade - afinal, se é "contrário à vida", se tudo a que se presta é a "corrupção do humano" como é que possui tantos adeptos, e em seu interior se tenha gestado a mais avançada civilização já testemunhada por este mundo? Se era "contrário à vida" deveria, antes, ter destruído os seus seguidores. Como Nietzsche não tem resposta a isto, é forçado a dizer que o cristianismo mata o homem por dentro - se é que isso signifique alguma coisa. De fato, é triste perceber que o exagero e a afetação são as únicas armas linguísticas que restam àqueles que insistem em negar as verdades elementares.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Nascimento e uso da hipérbole
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6 comentários:
Como se voce tivesse lido mais que um capitulo de dawkins...
De que adianta dizer que "Sou ateu, mas..." não é o primeiro capítulo do livro? De que adianta dizer que ele não gasta bem três páginas comentando São Tomás de Aquino? Não adianta... Você vai continuar acreditanto no que quer acreditar, ainda que não seja verdadeiro.
Pergunta sem segundas intenções: Henrique, quais os livros de Niet que você leu?
Esta já é a terceira resposta que escrevo. É claro que sua pergunta tem segundas intenções, senão não seria necessário avisá-lo. Se essa for uma questão que realmente te interessa, prefiro dizer-te ao vivo. Assim, também poderei mostrar as ementas das disciplinas sobre Nietzsche que frequentei na Federal Fluminense e as notas que tirei.
Terceira resposta que escreve?
É claro que minha pergunta tem segundas intenções?
Se essa for uma questão que realmente me interessa?
Cansei. Fui.
hehehe Gostei da sua resposta! Não me leve a sério. Nem me leve a mal. Me desculpe se pareci rude, ao vivo te explico minhas razões.
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