Perdi alguns leitores europeus nos últimos dois dias. Acho que é por causa dos textos sobre o fenômeno televisivo Big Brother. Talvez eles tenham considerado tolices o que afirmei sobre o programa. Talvez tenham considerado tolice que um blog dado a comentar coisas tão profundas sobre a natureza humana estivesse tratando de um assunto menor. De fato, eu sabia que nada tem menos apelo intelectual que o Big Brother. Mas há algumas considerações importantes a fazer. Primeiro: como qualquer outra atividade humana, o Big Brother envolve nossas paixões, nosso modo de ser, nossa cultura. Segundo: no Brasil, o Big Brother é muitíssimo menos sacana que na Europa. Aqui o programa seria boicotado se houvesse nudez. Os raros palavrões são ocultados pelo som de um apito. Não se trata, pois, da mesma experiência: são coisas diferentes. Reconheço que se o Big Brother fosse no Brasil da mesma forma que é na Europa eu teria motivos fortíssimos para condená-lo da mesma forma que condeno as filosofias pseudo-científicas da segunda metade do séc. XIX.
O que não significa que eu não tenha motivos para condená-lo do jeito que é. Ou seja, apesar dos textos que escrevi, apesar de ser no Brasil muito menos indecente do que é na Europa, há motivos para não considerar o Big Brother um excelente programa. Ainda que a audiência seja um importante fator para avaliarmos a qualidade de uma apresentação televisiva, os programas que se preocupam somente com ela geralmente são muito inferiores àqueles que privilegiam a qualidade. Tenho tranquilidade para afirmá-lo porque meu programa de tv favorito é Sr. Brasil da TV Cultura. Passa quartas à noite. Recomendo. Só não posso deixar de reconhecer, pelas características já elencadas nos outros textos, que o Big Brother, ao menos na forma como é apresentado no Brasil, é uma janela para o entendimento da realidade social. Foi neste sentido que decidi abordá-lo. Não se tratou, pois, de recomendar que fosse assistido. É certo que não sou muito metido a intelectual, ao menos não tanto quanto os meus textos devem transparecer, mas ainda não cheguei a este ponto de leviandade.
Que os leitores do blog estejam, pois, informados que eu continuo apreciando as coisas certas: a alta cultura, a inteligência, a veracidade, a honestidade, etc. Isto apenas não significa que eu esteja fechado em um castelo de maravilhas enquanto a vida corre lá fora. Pelo contrário, é porque estou no meio da vida, familiarizado com os problemas contemporâneos, principalmente com as filosofias que desejam a destruição do homem, que escrevo. Meu desejo é denunciar as tentativas de desnaturalização da nossa essência imutável; aquilo que nos constitui. O que talvez tenha parecido a todos insólito e, de certa forma, até mesmo a mim, é que o Big Brother seria muito útil no diagnóstico desse problema. Com a solicitação de um Big Brother canino pretendi revelar como não podemos deixar de ser humanos em momento algum. Tanto é assim que um Big Brother animal seria ridículo - não teria nenhuma emoção. Abandonados à própria sorte os cães ficariam deitados o dia inteiro, esperando alguma máquina de comida alimentá-los. Não haveria aquela sorte de dispustas que torna o programa em questão emocionante.
São, pois, aquelas características muito humanas (a mentira, a politicagem, a sinceridade, o caráter, etc.) que tornam o programa atraente. Gostem ou não, estejam vocês convencidos ou não de que somos somente animais, fato é que só seres humanos possuem estas qualidades. Somos diferenciados em relação a todo o mais na natureza. A nossa natureza é ser humano. Essas características são partes indissociáveis da nossa essência. São partes constitutivas do nosso ser, daquilo que nos faz humanos. Pretender ignorá-las é um equívoco gigantesco, uma subversão, mau-caratismo ideológico. Portanto, não estejam achando que o nível do blog caiu. Apenas não me negarei a utilizar quaisquer argumentos que por ventura considere adequados à demonstração dessas verdades, ainda que seja algo da profundidade filosófica do Big Brother. Onde quer que haja uma pessoa lá estarão todas as características comuns a todos os homens.
O Big Brother como janela para o mundo
Marcadores: Individualidade, TelevisãoPostado por Henrique Rossi às 18:33
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