Uma metafísica dos instrumentos

Para referir-nos aos largos campos verdes aparados utilizamos a palavra grama. Quando desejamos mencionar os campos onde uma vegetação de porte médio se instalou utilizamos o termo mato. Todavia, grama e mato são a mesma coisa. São ambas angiospermas monocotiledôneas da família das gramíneas, como a cana-de-açúcar, o trigo e o bambu. O que difere a grama do mato é a ação humana que, aparando o mato, mantém-no rasteiro quando, na verdade, segundo a própria natureza, ele deveria crescer. Pretendem os homens com isso atingir um ideal de beleza, pois consideram a grama positiva e o mato negativo. Agora vem o pulo do gato: manipulando o mato encontrado a esmo o homen transforma-o segundo a sua própria intenção. O que há na natureza é o mato mas, após a intervenção humana, transformou-se-lhe em grama. O mato é um dado real. A grama é uma invenção humana.

Enquanto pensava nisso ocorreu-me outra comparação, esta mais profunda e evidente, quanto à natureza do asfalto e do concreto. Ambos são produzidos pelo homem, que desejava um produto com tais características antes da sua efetiva criação. Notem as sérias implicações desta afirmação: o asfalto e o concreto existiram no pensamento antes de existirem na realidade material. Ou seja, os sujeitos que os desenvolveram tiveram a ideia de materiais
como o asfalto e o concreto antes de procurarem uma fórmula que levasse às suas criações. Ambos existiram como um ideal antes de existirem como objetos concretos. Essa não é uma constatação difícil de se fazer. Para além do exemplo da grama, do concreto e do asfalto, poderíamos elencar aqui uma infinidade de coisas, afinal, parece que a atividade a qual o homem se dedica com o maior prazer é transformar a natureza conforme o seu desejo.

Somos, portanto, os únicos transformadores da natureza. Ainda que haja passarinhos que façam ninhos e castores que façam diques, somente nos seres humanos as ideias existem antes da criação de uma determinada obra. A ave e o roedor contam apenas com seus respectivos instintos enquanto o homem vivencia intelectualmente coisas que jamais existiram no universo antes dele pensar nelas. Nosso intento transformador promove constantemente aberrações naturais. Não há jardins na natureza. Saiba que a seleção e disposição de espécies num rico e belíssimo jardim é completamente articial. A natureza não poda árvores, não combate pragas, não dispõe as plantas conforme algum padrão estético, muito menos cultiva bonsais que, para existirem, demandam grande habilidade e conhecimento. Recentemente, soube que até mesmo as raízes da pobre plantinha precisam ser podadas para que ela mantenha o tamanho diminuto.

Outro exemplo que eu gostaria de mencionar para demonstrar nossa infinita capacidade de criar com a natureza para desenvolver o que bem entendermos é o da bactéria produtora de insulina. Através da engenharia genética, os cientistas inseriram DNA humano em bactérias para que elas produzissem a insulina tão necessária aos portadores de diabetes. Notem que, mais uma vez, o produto das mãos humanas existia antes da sua efetiva disponibilidade. O cientista questionou-se como poderia produzir insulina de um modo mais eficaz que o que já existia e, com a ajuda de seus conhecimentos sobre o plasmídeo bacteriano, desenvolveu algo que a natureza não providencia por si só. Como não somos feito somente de nobres ideais, nossa capacidade inventiva também é utilizada para a criação de coisas efêmeras e desnecessárias, como melancias quadradas entre outras bobeiras.

Até aqui não foi dito nada muito complicado. Mas há que se observar a questão real por detrás das habilidades humanas: a "natureza" das ideias. Como pode algo existir sem ter existido antes? Como pôde o concreto existir na mente de alguém enquanto não existia no universo nada que lhe fosse minimamente semelhante? Notem que o concreto é obtido a partir da elaboração de uma receita. Se, por algum defeito na sua execução, seja por má qualidade dos materiais ou imperícia dos usineiros, o concreto ficar mais ou menos rígido que um padrão pré-determinado, ele é descartado como se concreto não fosse. De fato, ainda que aquilo a que se chama concreto exista após a correta usinagem, o lugar onde ele efetivamente existe é a mente humana, pois é ela que decide o que é concreto e o que não é.

Sendo a mente o lugar onde as coisas efetivamente existem, dado que todas as coisas transformadas pelo homem existiram antes na mente, levantou-se desde a aurora da nossa civilização a hipótese de que tudo tem uma existência anterior à natureza. A essa hipótese sobrenatural chama-se metafísica. Platão e Aristóteles levantaram diferentes pontos de vista nesta questão. Ambos concordam, porém, na existência de elementos mentais que não são as coisas em si. Para desgosto de muitos, ambos também concordam que há uma verdade única, um sentido verdadeiro, uma causa anterior às coisas. Ou seja, ao invés de existirem verdades que podem ser criadas conforme as necessidades, eles acreditavam que também a moral tem princípios inequívocos, longe dos quais vive-se o erro e a mentira.

Por fim, assim como a todas as nossas intenções antecede-se um pensamento, argumentam os filósofos clássicos que todas as coisas existentes na natureza foram antecedidas por um pensamento; um desejo divino. Cada coisa tem, portanto, seu lugar, propósito e função. Muitos acham que essa hipótese seria contrária à Teoria da Evolução de Charles Darwin. Recusam-se a entender a visão de que Deus se valeu dela para fazer o que queria. Assim como um marceneiro utiliza seus instrumentos para fazer uma cadeira, Deus se utiliza da evolução biológica para talhar a natureza conforme a sua vontade, moldando ativamente as árvores, os pássaros, os homens. Uma coisa não se contrapõe necessariamente à outra. Não é como afirmar que um carro de uma só cor pode ser, ao mesmo tempo, azul e amarelo.

A interdisciplinaridade favorece, sem sombra alguma de dúvida, o desenvolvimento da humanidade. Como ainda se trata de um conceito recente, vivemos um período de transição entre o momento anterior, no qual todo o saber estava separado em escolas, e o momento futuro, no qual todos os saberes se cruzam. A filosofia ainda tem muito a oferecer no reto entendimento do mundo. O problema continua sendo os grupos que pretendem elevar à condição universal a sua verdade muito particular usando de mesquinharias como ofensas infantis e bem pouco razoáveis. Se há algo que depõe contra uma ideia é a sua defesa apaixonada. Todas as ideias que persistiram encantam não apenas pela sua coerência, mas talvez principalmente pelo estado de espírito daqueles que a defendem pois, para ser forte, ela precisa demonstrar a capacidade de transformar as pessoas em algo melhor, senão é logo (e muito justificadamente) rejeitada.

4 comentários:

Anônimo disse...

Acredito que existam uma série de invenções que aconteceram por acaso, o inventor não tinha a intenção de criá-las e de repente aconteceram. Como essa realidade pode se encaixar no seu texto?

Abraço.

Henrique Rossi disse...

Bem, esse caso é diferente do levantado no texto, né? De qualquer forma, parece que na invenção dada por acaso, houve uma feliz coincidência de momento: a oportunidade da invenção aparece diante da pessoa certa, que não a desperdiça. Ou seja, ainda que não tenha sido planejada, a invenção ocorre porque o inventor conseguiu utilizar a boa oportunidade. Ele viu a coisa a ser inventada antes da invenção propriamente dita...

Anônimo disse...

"Ele viu a coisa a ser inventada antes da invenção propriamente dita..."

Aí é que está, ele não viu, por acaso aconteceu. Acredito que este acaso é utilizado pelos evolucionistas puros para embasar a sua teoria da evolução.

Henrique Rossi disse...

Anônima taubateana (yes, I know),

A "invenção" não teria ocorrido sem que, em algum momento, o "inventor" não se tivesse dado conta de que havia algo novo diante dele. Ou seja, ele precisou pensar, visualizando a novidade, percebendo a inovação que nela havia para só então chegar à conclusão de que aquilo era uma ocorrência acidental favorável, mas só porque ele pôde visualizá-la ela pode ser "descoberta". Nós, por exemplo, vivemos em contínuo contato com a natureza e não inventamos radicalmente nada, porque o espírito inventivo não está em nós.