Caiu-me às mãos um exemplar de Além do bem e do mal, de Friedrich Nietzsche. Jamais gastaria meu precioso (e pouco) dinheiro numa besteira dessas, mas, de graça, até Código da Vinci já li. É que sou contra dar dinheiro à gente que fica disseminando estes enganos que tanto mal causam. Curioso que sou, comecei a ler o livro. Há na edição a que tive acesso diversas notas do tradutor, Paulo César de Souza, um professor doutorado pela USP, marcadas pelo conhecido recurso numerativo. Acabei considerando suas notas de tanto valor que logo li o seu posfácio, onde procura explicar o que o livro lhe parece. Suas colocações pareceram-me muito mais interessantes que o texto nietzschiano, a cujos recursos linguísticos e argumentativos já estou familiarizado. Com grande frieza, ele destrincha a principal figura de estilo utilizada por Nietzsche, a hipérbole:
Há uma certa distância - exemplificando - entre afirmar que viver implica necessariamente enxergar a realidade de uma perspectiva, privilegiando ou excluindo partes dela, e dizer que "fantasiamos a maior parte da vivência e [...] somos, até a medula e desde o começo, habituados a mentir". Uma coisa é enfatizar que afetos como ódio, inveja, cupidez e ânsia de domínio pertencem irrevogavelmente à vida psíquica, e outra concluir que devem ser realçados, "se a vida é para ser realçada".
Isso mesmo, o tradutor afirma que Nietzsche defende que o ódio, a inveja, a cupidez e a ânsia de domínio devam ser realçados pelo simples fato de que existem. Perdê-los seria como perder uma parte "importante" da vida. Por essas vocês podem começar a intuir como seria o mundo idealizado por este lunático. Para minha grande surpresa o tradutor faz afirmações ainda mais surpreendentes sobre o livro:
Certas páginas dele constituem o mais veemente libelo contra tudo o que nos habituamos a ver como privilégios e conquistas da modernidade: a democracia liberal, o senso histórico, a objetividade científica, a igualdade de direitos, a igualdade entre os sexos.
Nada muito diferente do que costuma aparecer nas páginas deste blog - estas são constatações apenas óbvias. O problema é que Nietzsche é tão romantizado pelos seus admiradores que geralmente os que não o compreendem acham se tratar de um gênio mal compreendido. Por conta disso, muitos são inocentemente induzidos à leitura de sua obra quando o sensato seria ignorá-la por completo. Procurar lê-lo sem iniciamento filosófico é, portanto, obra de imaturos e ingênuos, gente naif, cujas mentes são facilmente lideradas pelas doces palavras de efeito dos "formadores de opinião". Nietzsche é um homem terrível, uma pessoa que acreditava no mal, tanto é que procurava incentivá-lo nos outros. Não sem motivos, precisava induzir à falsa conclusão de que não há verdade alguma.
Sendo este o estado da situação, por que alguém se daria ao trabalho de traduzi-lo? Ainda mais alguém ciente de que se trata de obra puramente retórica? Desconfio que por prestígio. Quem não gosta de saber-se capaz de traduzir do alemão para o português alguns dos textos mais intricados disponíveis? Ou seja, a responsável é a vaidade intelectual. Fosse mais aguda a percepção do tradutor, estivesse ele mais ciente do mal que a leitura de Nietzsche costuma provocar não se dedicaria à tão árdua tarefa. Ao menos foi honesto em reconhecer que nada do que vai ali se baseia na sã razão ou mesmo em algum justo juízo da realidade, mas quê é isso diante da perspectiva de ganhar alguns trocados?
A vaidade intelectual de um tradutor consciente
Marcadores: Liberdades individuaisPostado por Henrique Rossi às 20:06
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