Mais um texto pós-voto de silêncio (por essas e muitas outras percebi que não tinha vocação religiosa). Fiquei inquieto em ver o marcador Richard Dawkins novamente isolado na última posição. Caramba. Apesar de parecer que escrevo bastante sobre ele, seu marcador teima em ficar na última posição. Essa é uma injustiça que eu sempre gosto de reparar, mas estava determinado em não me importar por deixá-lo isolado na última posição; mesmo assim não pude evitá-lo. Estava tomando uma ducha gelada (verão tropical, europeus) quando comecei a pensar na ignorância dos ateus em geral em antropologia. Tive toda uma sorte de ideias diferentes, difíceis de somar. O centro dos meus raciocínios foi (preparem-se): sentem-se os ateus tão distantes das pessoas comuns por deliberadamente negar reverência a qualquer ente externo que, em virtude deste isolamento auto-imposto, sentem-se vítimas de uma grande injustiça. Bem, esta é uma daquelas frases um pouco batatudas, com muita substância intelectual. Vamos tentar simplificá-la. Ela afirma que a maioria das pessoas tem algo que se pode chamar de centro de reverência, algo que elas direcionam a algum ente externo a elas próprias, talvez (quem sabe?) tenhamos esta característica como espécie pelo mecanismo de seleção natural. De modo muito sucinto, ateu é aquele que nega direcionar o seu centro de reverência a qualquer ente externo, seja ele Deus, nirvana, ou ainda o Monstro de Espagueti Voador (retratado acima). A princípio, essa negação deliberada não me causava a menor surpresa; considerava-a uma manifestação legítima da individualidade. Ainda penso assim, o problema foi quando percebi as consequências geradas por tal ato. Não dispondo de um "canal" sobre o qual despejar sua sede de infinito (necessidade não-física da consciência), o ateu direciona o seu centro de reverência sobre ele mesmo! Assim, ele faz sua própria consciência de Deus, ou seja, diviniza-se de uma forma que qualquer religião condena. Afinal, ainda que a divinização do homem seja a maior ambição do impulso religioso, quando ela ocorre como simples influxo egoísta é imediatamente considerada grave desvio. Pois então, aos poucos me fui convencendo disto: ser ateu não é legal. O que antes não me causava impressão alguma, hoje gera aversão. Até acredito que há ateus razoáveis, com os quais se pode conversar de maneira desapaixonada, mas depois de certas experiências pessoais comecei a duvidar. A mais séria delas surgiu a partir de uma reflexão sobre o meu próprio eu.
No passado dificilmente se encontraria sujeito mais anti-religioso do que eu. Perguntem aos meus tios do lado paterno. Alguns devem se lembrar do dia em que desafiei minha pobre avó, falecida há uns seis meses, uma mulher que rezava o rosário todos os dias (pra quem não sabe, o rosário inteiro são três terços). Disse-lhe que Deus era uma fantasia e que serviria Satanás com excelente disposição pelo resto de minha vida caso existisse. Aguentaria de bom grado as penas infernais. A pobrezinha não se turvou, tampouco demonstrou sentir-se ofendida. De certa forma, ainda que eu não gostasse de admitir para mim mesmo, aquele episódio deixou-me envergonhado, afinal, pra quê? O que eu ganhei com aquilo? Como se deu a metamorfose que me transformou em quem sou hoje é assunto bastante extenso mas, em resumo, posso dizer que foi obra daquele Clauze, o tal professor de psicologia que já mencionei algumas vezes. Ele rachou todas as minhas antigas certezas demonstrando a artificialidade de todo o pensamento. Esse processo também não foi legal, nem fácil, mas aprendi, e muito! Vi que a consciência cria a realidade ao nosso redor. Já escrevi sobre isso algumas vezes e foram, devo alertar, os textos mais difíceis do blog. Não há nada de natural no modo como enxergamos a realidade. Não há uma evolução necessária do pensamento, como disse Marx. O que é ocorre a construção ativa do pensamento. As pessoas deliberadamente constróem a realidade a partir tão somente dos seus desejos. Assim, não é absurdo supor que talvez haja algum dia quem divinize o Monstro do Espagueti Voador. A tradição judaico-cristã afirma que há um só Deus imaterial, senhor de toda a realidade, que se manifestou na história. Creia quem quiser, mas o pensamento de que as coisas se dão assim cria na consciência da pessoa esse Deus. Ele existe de fato como imagem mental. A pessoa passa a viver conforme os seus ensinamentos, pois está convencida que ele existe. Todavia, se ele existe como afirmado por esta tradição em uma realidade imaterial anterior à história é algo que, felizmente, dá margem a saudáveis questionamentos. E qual o problema de haver margem para maus-entendidos? Justamente aí se torna manifesta a nossa liberdade de modo escancaradamente exagerado. Penso eu que é através de uma atuação discreta que Deus procura ver como realmente somos. Estivesse ele manifesto a todos de maneira inequívoca não teríamos liberdade para negá-lo (olha que nunca falei dos milagres incontestes que só o catolicismo tem).
Retomando, pois, o raciocínio central. Excluindo a reverência a algum ente externo ao próprio eu, os ateus subvertem o natural rumo empreendido pelo nosso sistema de crenças automático, deusificando-se a si próprios (tornando o ateu capaz de "gracejos" como os que direcionei à minha avó). A consequência mais funesta é a arrogância, que se encontra manifesta em toda uma ampla série de vícios de nomes nada bonitos: jactância, egoísmo, prepotência, vaidade, presunção e, para terminar, vanglória. Pensei muito neste último termo durante aquela ducha. É uma composição por justaposição de vã e glória, ou seja, dar-se uma glória imerecida, uma glória passageira, uma glória vã. Por derivação imprópria surgiu até mesmo um verbo com este sentido: vangloriar-se. Não tendo a quem servir, o ateu serve-se tão somente a si mesmo. Não tendo em quem acreditar, o ateu crê somente na própria capacidade. Alguns leitores poderiam contra-argumentar: "Mas Henrique, se Deus não é manifesto diretamente em nossas vidas porque atribuir a ele coisas que conquistamos por nosso próprio mérito?" Oras, isso está erradíssimo. De modo algum se pode falar em próprio mérito. Ainda que o Deus cristão fosse uma fantasia, a realização pessoal não seria algo que dependeria unicamente de nossos próprios esforços. É toda uma longa série de eventos que, combinados, dão-nos as oportunidades. A própria sorte precisa ser conquistada, é certo, mas dentro dos limites pré-estalecidos de possibilidades. Quem isso percebe é mais justo, pois leva em conta a grande variedade de ocorrências externas das quais pode se beneficiar. Não se atribui, portanto, uma importância que de fato não possui, que sabe não estar nele mesmo. É evidente que há religiosos que são pessoas arrogantes, mas são exceções. Não atribuimos esse comportamento às pessoas religiosas, pois geralmente são afáveis e dóceis. Também não temos problema nenhum em atribuir com grande justiça essa característica à pessoa auto-suficiente, e quem mais auto-suficiente que o ateu? Aqui também há exceções, como já mencionei anteriormente. O problema é a regra. Há matizes que enriquecem a questão, felizmente. O problema é a percepção generalizada de que o ateísmo leva à arrogância, ou ainda, de que o arrongante, incapaz de se reconhecer como um humano qualquer, sonega-se o gesto tão natural de crer, afinal, se há algo para o qual o ser humano não precisa de muito esforço é à capacidade de crer. A falta de naturalidade está em não crer. Meu balanço final é um lamento, pois considero triste esta condição de endeusar-se. Impossível não se tornar alguém de temperamento muito difícil com a imposição de um tal auto-isolamento tão radical.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
No banho, considerações sobre o ateísmo
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17 comentários:
"(tornando o ateu capaz de "gracejos" como os que direcionei à minha avó)"
nao, voce fez iso porque nao bate bem...
eu nunca falaria isso pra minha avó.
voce precisa se tratar...
falando nisso, a tia Cidoca vai bem?
Phd Ziriguidum, no uso de suas palavras e nos atributos que lhe conferem:
É, infelizmente os ateus são assim mesmos: rancorosos, cheios de si, prepotentes, não admitem que questione suas crenças.
Li em certo blog que os ateus são devotos de dois santos: São BigBang e seu mestre São Acáson. Dizem as más línguas de que se trata de uma doutrina híbrida entre ocultismo, magia negra e hinduísmo. É só acompanhar o mantra recitado por eles: "Hare-Hare-Big-Bang-Buuuummmm"; no momento da explosão todos entram em verdadeiro transe, curvando-se ao deus Acáson, que acabara de criar mais uma obra do acaso e sem deixar vestígios senão factícios em que a horda desavisada acredita piamente.
Ah não? Quer ver se estou dizendo a verdade? Basta visitar os blogs ateístas para se confirmar a tese.
Na maioria dos blogs defendendo a causa ateísta, os primeiros a atirarem pedras, exporem todo seu rancor, desdém, menosprezo pela idéia contrária, parte justamente daqueles que cultuam a ética e a moral. Aqueles que se dizem tão intelctualmente superiores não passam de seres humanos tanto quanto os religiosos aos quais eles denigrem.
Em dia, sabiam que a bronca do Sr Dawkins é porque ele queria fazer experiências genéticas a ponto de "ressuscitar" o neanderthal, o cro-magno, entre outros, além de criar quimeras entre humanos, répteis, macacos e outros. Se a Igreja houvesse permitido tais experiências, talvez hoje ele fosse um defensor dela.
anonimo:
voce demonstrou nao conhecer nada de ciencia.
O big bang nao é uma suposicao apenas, é uma teoria, baseada em fatos e observacao.
Aposto que voce prefere a versao de 6 dias da biblia, muuuito verdadeira...
E qual o problema com o acaso? Na verdade nenhum, pois as coisas so tem sentido por nos termos conciencia. Achar que somos o supra sumo do universo é muita prepotencia. E isso que teistas fazem, acham que somos a criacao divina mais perfeita. Ledo engano..
vai estudar vai...
Olha Ariel,
Eu até achei interessante o que o anônimo falou pela demonstração de como ele se sente. Mas, assim como você, não entendi muito bem o que ele quis dizer. Para mim não ficou claro se ele acredita ou não em Big Bang, evolução, tudo o mais..
"Ariel Wollinger disse...
anonimo:
voce demonstrou nao conhecer nada de ciencia.
O big bang nao é uma suposicao apenas, é uma teoria, baseada em fatos e observacao.
Aposto que voce prefere a versao de 6 dias da biblia, muuuito verdadeira...
E qual o problema com o acaso? Na verdade nenhum, pois as coisas so tem sentido por nos termos conciencia. Achar que somos o supra sumo do universo é muita prepotencia. E isso que teistas fazem, acham que somos a criacao divina mais perfeita. Ledo engano..
vai estudar vai...
12 de maio de 2010 04:24"
Estudar é o que mais faço e confesso deveras de que não encontrei razão nenhuma para estas duas teorias, a da evolução e a do big-bang, pra mim, não passam de teorias improváveis que os que acreditam nelas tentam enfiar goela abaixo dos demais. Além disso você disse que são "observáveis". Bah, você estava lá quando a matéria explodiu e deu início ao universo? Por quê certos pesquisadores, mesmo sendo ateus ou agnósticos, discordam do big-bang? Como explicar que certos corpos celestes viajam na contra-mão da explosão? Como explicar a detecção de massa inerte? Entre outras coisinhas que se vc for pesquisar vai ficar com a pulga atrás da orelha. Ou então vai fazer igual aos ateus que conheci, que quando mostramos algo que não deveria acontecer, simplesmente ignoram ou tentam refutar igualzinho vc faz: "Vai estudar", "está no seu livro de ciências", "vc é um ignorante", "etc, etc, etc".
Sobre a evolução, tem diversas inconstâncias nela, que só um grande crente nessa doutrina poderia passar por cima. Até hoje nenhum cientista conseguiu entender porque do pré-cambriano para o cambriano surgiram milhares de espécies modernas, quando ao certo deveriam surgir seres um pouco mais evoluídos. Tentaram até mudar um pouco o conceito da evolução, de que ela se daria aos pulos, e não aos passos como sempre se acreditou. O problema reside no fato de que se fizermos uma proposta dessas, poderíamos por em risco uma teoria tão bonita e abriríamos margem para diversos questionamentos por parte do religiosos. Então o que os evolucionista tem feito: "Não sabemos como isso se deu". PQP de gancho, 200 anos pesquisando e gastando uma fortuna em laboratórios pra chegar a essa resposta. E depois dizem que os religiosos é que tem respostas simplistas.
Tente montar um modelo evolutivo, a partir de um símio até o homem moderno, mas não se esqueça de que precisam evoluir tanto macho quanto fêmea, e ao mesmo tempo, caso contrário não haverá reprodução. Agora tente o mesmo, mas a partir de uma bactéria.
Depois que vc achar estas respostas, monte um outro modelo, em que um ser completamente distinto precisa evoluir junto com outro ser. Não se esqueça de levar em consideração o meio ambiente em que eles estão, os demais seres, e que as características que vão ajudar o outro ser devem evoluir em conjunto.
Depois vc posta os resultados aqui, daí vou te fazer mais umas perguntinhas interessantes, por ora é só, e que o mesmo D'us que fez tantos milagres em minha vida e da minha família e dos meus amigos também faça em tua vida, só assim, talvez, vc passe a amá-lo tanto quanto eu.
Abraços.
Um texto já antigo ainda despertando paixões?! Que legal! :)
Estou aqui intuindo que o mérito da questão levantada é responsabilidade da natureza especulativa de muitos textos científicos. De fato, foi através de uma lenta caminhada que chegamos ao progresso tecnológico que nos rodeia.
Phd Ziriguidum, no uso de seus atributos, informa:
Óia, seu Ariel, negócio é o siguinte:
Eu não aceito a teoria da evolução não pq ela seja parte dum conceito ateísta, mas porque num consegui achar algumas explicações e que um grande cientista, o sinhor Istéfen Ráwpikins, aquele da cadera de roda que fala no sintetizadô, ele memo afirmo que ninguém sabe.
Poroutro lado, não aceito a teoria da criação tanto quanto a da evolução pelas memas razões, além disso essa teoria foi escrita purum bispo anglicano que sequer disgrudou a bunda da poltrona p pesquisar alguma coisa, ele simplesmente deu uma lida rápida na Escritura e achou que tinha a resposta pra tudo. Se vc pegar uma Bíblia e começar bem atentamente, vai notar que existem certas incongruências que nos dão a entender que a criação não foi bem como exposta pelo bispo de Armagh.
Seria pouco o espaço para discutirmos um assunto tão amplo e controverso, por ora é só, amigo, espero podermos continuar nossa conversa um outro momento.
Ah, o Phd Ziriguidum é você? rs.. Eu pensei que você estivesse sendo irônico comigo porque eu gosto de samba-enredo! E não gosto pouco.. hehehe
e Hawkin nao é autoridade em biologia, mas em astrofisica. ponto.
" teoria da criação "
é , fica evidente seu conhecimento de ciencia, chamando criacao de teoria. tsc, tsc...
nao preciso falar mais nada.
a esmagadora maioria dos biologos ENTENDEM que a evolucao explica mais de 99% sobre como as especies de hoje em dia evoluiram a partir de um ancestral em comum.
A teoria da origem das especies por meio da selecao natural ( nome correto ) é um fato e nao tem nada de conceito ateista ( apenas para a sua religiao e outras muitas, os budistas discordam ) pode excluir o seu deus, por seu livro magico contar uma historia diferente. Isso nao faz a teoria invalida, a faz apenas um tabu para voce. Voce nunca sera livre para pensar contra seus dogmas. Na biblia tambem fala que a terra é um circulo ( plano, para nao ser plano, deveria se chamar esfera, e a palavra existia na epoca... ) e voce sabe que a terra é esferica ( ou nao? ).
Por que entao nao aceitar esse fato? cabeçadurissecrenteaguda, é o nome da doença da qual voce sofre...
peace,
out.
Ah, vc falou que a imensa maioria dos biólogos "ENTENDEM", oras, se entendem não quer dizer que seja verdade, mas apenas um entendimento e entendimentos podem mudar com o tempo. Talvez fosse melhor vc ter dito que os aludidos biólogos "AFIRMAM" que a evolução explica... daí sim.
quem nao sabe os termos corretos é voce que chamou criacao de teoria. nao vou mais discutir com voce...
É CONSENSO ENTRE CIENTISTAS QUE EVOLUCAO É FATO.
ficou claro?
É concenso entre os que aceitam, pq tá cheio de cientista que não aceita e não creio que estes sejam menos inteligentes que os demais; digo inteligentes no sentido mais amplo da palavra, pra evitar qualquer retaliação da sua parte, ok?
Eu frequento esse espaço a algum tempo, mas nunca deixei um comentário, nem de agredecimento. Mas hoje, depois de ver um ou outro comentário estúpido resolvi presenteá-lo com algumas palavrinhas. Seu texto resume muito bem porque o individuo torna-se ateu. "Torna-se" pq creio qe todo mundo nasce em homenagem aos fatores externos que lhe conduzem ao nascimento. No entanto, alguns se subvertem e param de crer nesses fenômenos externos (em Deus!) para autoendeusar. Uma pena. Tenho muitos amigos ateus, e, infelizmente, constato que é bem verdade suas palavras. Eles são, mesmo inconsequentemente, egóicos e cretinos. Não culpo-os, de maneira nenhuma, mas lamento eles não dividir (compartilhar!) o mérito.
Obrigado Querido.
www.bsproducao.blogspot.com
Obrigado pelo comentário, Bruno.
Imagino que você já tenha lido o texto "Alea jacta est - o destino dos ateus", mas se não o tiver feito, vale a pena dar uma olhada. Ele se assemelha bastante a este, aprofundando-se em alguns aspectos:
http://www.polimatico.com.br/2010/04/alea-jacta-est-o-destino-dos-ateus.html
Abraço
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