O estranho bailado de Aécio Neves explicado

Depois de reclamar um pouco de perda de leitores europeus, o blog vive uma recente explosão de visitas internacionais. Não faço a menor ideia do porquê. Imagino que os não portugueses sejam brasileiros que moram fora. Então, apesar de o meu costume ser discutir aspectos morais e éticos da contemporaneidade, peço licensa aos que não estão inteirados das atuais questões políticas brasileiras para comentar o dilema em que se encontra o governador de Minas Gerais, Aécio Neves.

Aécim, como dizem os mineiros, está sendo praticamente intimado pela liderança nacional do PSDB a entrar como vice na candidatura à presidência de José Serra, o primeiro nas pesquisas. Apesar da insistência estar durando vários meses, Aécio reluta em assumir o posto. Costuma responder que prefere concorrer ao Senado por Minas Gerais. Para mim, esse raciocínio não faz sentido, afinal, quem abriria mão de ser vice-presidente da República, cargo de notável visibilidade, para ser só mais um senador por Minas. Aos que desconhecem a questão mineira, Aécio é extremamente popular lá, portanto, ganha fácil a eleição ao Senado. Aí chegamos ao problema. Aécio reluta em aceitar ser o vice de Serra porque teme pela solidez da campanha diante da gigantesca máquina governista que Lula tem colocado a favor de Dilma Rousseff. Vejam vocês que pensar nos problemas estruturais da sociedade muitas vezes nos torna cegos para problemas bem menos complicados. Até agora eu não tinha me dado conta de que a relutância de Aécio tem uma excelente jusfiticativa. Afinal, pra quê abraçar com unhas e dentes um projeto que nem é seu e que pode mantê-lo afastado da política por quatro anos?

A equação fica gostosamente complicada quando se relembra que o Bolsa-Família comprou o nordeste inteiro para Dilma. Minas, não se esqueçam, é um estado de transição cultural. Seu sul é rico como o resto do sudeste, mas seu norte é tão pobre quanto as mais pobres regiões do país. Ou seja, além de ser o segundo colégio eleitoral do país (depois de São Paulo), Minas é um estado de grande importância estratégica em todas as campanhas presidenciais. Os mineiros são, de certa forma, os "fiéis da balança". Caso Serra tenha ao seu lado o político mais popular deste estado é inegável que sua campanha ganhará enorme fôlego. Nào é à toa, portanto, que a direção nacional do PSDB o está importunando a todo tempo para que assuma logo a candidatura ao lado de Serra. Entenderam a importância do jogo? Serra vai bem, mas não se sabe a que ponto a máquina estatal poderá esmagá-lo. Aécio pode definitivamente alavancar a campanha. O problema é que ele mesmo deve estar um tanto crítico em relação ao seu real poder de fogo. De fato, é um grande imbrólio.

Caso Aécio decida concorrer ao Senado, o PSDB estuda o nome de Tasso Jereissati, do Ceará, para fechar a chapa com Serra. Não é má ideia. Além de ser do nordeste, informa a imprensa que Jereissati tem grande prestígio com o empresariado, que desconfia um pouco de Serra.

O bailado que até agora me parecia estranho revelou-se um jogo político extremamente astuto. Por detrás de declarações aparentemente contraditórias, Aécio empurra o jogo até o momento que lhe é mais favorável. Age, assim, com uma esperteza de fazer inveja. Desculpe-me Aécio. Eu o estava considerando um traíra. Hoje sei que é um político de grande talento. Você não é apenas namorador das mais belas mulheres do Brasil. Com essa astúcia toda, um dia você chegará exatamente lá. Isso, lá mesmo onde você pensou.

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