domingo, 28 de março de 2010

Como se não pudéssemos pensar

Que tal fazermos um pequeno exercício de pensamento? Afinal, faz tempo que não temos um só texto exigente, no sentido extremo do termo, publicado aqui. Gostaria de abordar a questão filosófica da potência. Se eu, por exemplo, disser que alguém se tornou pianista por causa de seu potencial todos me compreenderão perfeitamente. O estudante de filosofia, porém, terá uma percepção diferenciada desta afirmação, pois ele, ao contrário da maioria das pessoas, tem uma aguçada percepção do termo. Ele sabe que potência é tudo aquilo que está contido em algo e que, pelos mais diversos motivos, ainda não se desenvolveu. Mantenhamos a alegoria pianística. Percebam que o potencial para tocar piano existe em todas as pessoas, ou estou errado? Será que existe alguma classe de pessoas realmente incapazes de executar o Concerto No. 3 de Rachmaninov? Apenas duas classes de pessoas não poderão se tornar pianistas: a das pessoas sem mãos, e a das pessoas com problemas neurológicos. Todo o resto é um grande pianista potencial. Para tocar piano com destreza semelhante a do Nelson Freire basta estudar o mesmo que ele. Não há, portanto, nenhuma restrição de idade. O que muda da criança em relação ao adulto é a disponibilidade de tempo, somente. Imaginem começar a aprender piano com trinta anos de idade. Pois eu conheço quem o fez e, após cinco anos de árduos estudos, tocava como uma criança de quinze anos que estuda desde os cinco. Ou seja, o desenvolvimento neurológico de um adulto, amadurecido em relação ao da criança, favorece o aprendizado rápido do piano, ao invés de atrapalhá-lo. O que a criança leva dez anos para aprender, um adulto aprende em cinco.

Percebam as graves conclusões presentes neste simples raciocínio: todos nós somos capazes de fazer exatamente as mesmas coisas que todos os grandes homens ou mulheres fizeram. Podemos compor sinfonias como Beethoven, arquitetar prédios como Michelangelo, escrever peças de teatro como Shakespeare, fazer descobertas científicas como Mendel, e tudo o mais, inclusive matar como Hitler - basta aprendermos o mesmo que eles aprenderam. No caso específico de Hitler, para matar como ele seria necessário desaprender a humanidade que nos foi ensinada. Ou seja, qualquer pessoa que não dá o devido valor à vida humana é capaz de matar como ele: basta ascender politicamente. É saudável, portanto, a sociedade que não apenas deixa de dar ouvidos a lunáticos como ele, mas que os põe na cadeia anos a fio. Notem, então, que há uma faculdade material que encerra em si todo o nosso potencial: o nosso material genético - só ele. Basta ter 46 cromossomos humanos. Não precisa de determinada cor de pele para ser presidente dos EUA, por exemplo. Não precisa sequer ter bons ouvidos para compor grandes sinfonias, como Beethoven, afinal, as obras de arte nada mais são que materializações de eventos mentais (ouvidos não são necessários para audições mentais). Beethoven "ouvia" mentalmente as suas obras - depois disso é que ele as punha no papel. Ou seja, a audição em sala de concerto é a concretização de um trabalho muito pesado e exaustivo que o músico teve antes dela.

Sendo esta a condição do homem, sendo ele capaz do máximo, tendo a sociedade atual acumulado saberes e conhecimento como nenhuma outra antes dela, como é que se pode testemunhar tamanho avanço de ideologias intolerantes e exclusivistas? Como é que o ódio anda tão presente na opinião de tantos "especialistas", alguns dos quais chegam a aconselhar a urgente necessidade de aumento no número de atentados terroristas para que a humanidade possa melhorar? Ainda mais surpreendente que isso, como é que um jornal de grande circulação se permite publicar um texto com este tipo de apologia? Pois o jornal O Estado de São Paulo o fez, publicando um texto desta natureza da autoria de um professor de filosofia da USP (original aqui). Não tínhamos percorrido um grande caminho até chegarmos ao ponto em que estamos? Não temos todos os erros do passado a ensinar-nos as consequências funestas em se privilegiar ideologias de ódio e intolerância? Todos esses tristes questionamentos podem se silenciar diante da simples constatação de que o ser humano é capaz do mal. Ou seja, está inscrito naqueles 46 cromossomos a capacidade de aderir o mal por livre e espontânea vontade. Uma vontade, como já escrevi algumas vezes, libérrima, não determinada por nenhum evento externo, desobediente a qualquer tentativa de condicionamento. Um cão não é assim. Os seus cromossomos não lhe permitem rebelar-se contra um habilidoso destrador. Já os nossos cromossomos nos permitem afastar completamente do bem, ainda que tenhamos sido exageradamente expostos a ele, pois não somos adestráveis em nenhuma circunstância sequer.

Vejam o exemplo dos gêmeos univitelinos, aqueles que são idênticos geneticamente. Seus cromossomos são rigorosamente os mesmos. Eles têm, portanto, pré-disposição idêntica às mesmas doenças, às mesmas habilidades, às mesmas características morfológicas. Geneticamente são a mesma pessoa. Cada uma das células de ambos organismos contém rigorosamente a mesma informação. E, no entanto, como são diferentes! Quem já teve gêmeos idênticos como amigos sabe do que estou falando. Uma vez estejamos familiarizados com a personalidade deles e nunca mais nos confundiremos qual é qual, pois ainda que os genes que regulam todas as suas características sejam absolutamente idênticos, tratam-se de pessoas diferentes. Vejam que basta um sistema genético dar origem a dois portadores independentes entre si para termos duas pessoas muito diferentes entre si. No dia que um dos gêmeos quiser se passar pelo outro, terá de se esforçar por imitá-lo. Terá que se vestir com suas roupas, adotar sua postura corporal, seu modo de falar, seu modo de agir, seus trejeitos, etc. Só então alguém poderá se equivocar confundindo-os. Portanto, o que realmente nos qualifica como humanos é a qualidade de pensar e agir livremente que, como todo o mais, de algum modo muito misterioso está inscrita em nosso código genético.

E como posso ter eu tanta certeza de que a capacidade de pensar está no código genético? Afinal, o mesmo DNA pode dar origem a duas, ou três, ou mesmo quatro pessoas muito diferentes. Oras, goste-se ou não é assim. Um mesmo genoma dá origem a pessoas diferentes pois o pensar diferente está nele. Digo mais: basta o pensar, pois "pensar diferente" é apenas uma categoria dentre várias. O pensar já supõe toda essa liberdade, senão não seria pensar, e sim adestrar. O pensar é como uma seta que "sai" da consciência, uma emissão propriamente dita. Já o adestrar é uma seta que "entra". O cão não pode emitir um juízo, dar uma opinião, sentir-se ofendido - não pode nada! Não faz nada! É adestrável. Quando faz algo é porque foi adestrado a fazê-lo. O ser humano não somente pode negar-se adestrar como geralmente o faz! Pensar é potência do seu código genético. De algum modo está presente esperando para ser ativada. Da mesma forma pode-se dizer que somos maquinistas potenciais, médicos potenciais, engenheiros potenciais, estupradores potenciais, etc. Podemos escolher livremente. Estivessem as características determinadas pelo código genético gêmeos univitelinos sempre tomariam a mesma decisão e, no entanto, não o fazem. É de supreender, pois, que ainda haja quem se pretende nosso dono, ordenando-nos a fazer o que bem entende conforme seus próprios desejos. Surpreende, de fato, que ainda não esteja extinta a categoria de pessoas que pretende subjugar o irmão, anulando-o, aniquilando-o, destruindo-o como se fosse um cão, como se fosse nada.

5 comentários:

D disse...

Ninguém estuda ou se esforça pra ser bom, por isso ninguém é bom.

Henrique Rossi disse...

Seu comentário é muito bonito e muito adequado ao texto.

Acho que você o fez de propósito, porque ele é quase a citação literal de um texto bíblico, certo?

De qualquer forma, ainda que você não o soubesse, não estaria muito distante da verdade.

Ele também está bastante adequado ao contexto da semana santa, que experimentamos neste momento. A toda aquela dor misteriosa que acometeu os apóstolos diante das estranhas premonições de Jesus; nas quais ele previu a própria morte.

O espírito de derrota consome os apóstolos, que fogem assustados do calvário. Só João o assiste, e mesmo ele desconhecia o que haveria de acontecer três dias depois, o maior ato subversivo da história: Cristo ergue-se vitorioso do túmulo e sinaliza a humanidade eternamente.

Ariel Wollinger disse...

""Cristo ergue-se vitorioso do túmulo e sinaliza a humanidade eternamente."

evidencias por favor.

Henrique Rossi disse...

Estava viajando aqui. Reconheci a frase que você citou mas não me lembrava onde a tinha escrito.

Depois que lembrei (estava logo aí em cima, rs..), tive algumas ideias para comentar. Mas vou me ater somente à que considerei mais interessante: diga o que se quiser, explique-se o fenômeno cristão como se bem entender, mas aquele papinho de que a fé cristã é só uma adaptação de antigos mitos egípcios não confere. É uma hipótese simplesmente ridícula. A pessoa que a elaborou estava com muita preguiça pois mitos de ressurreição não existiam apenas no Egito antigo, mas em todas as culturas. Tanto é assim que o maior estudioso da dramaturgia mundial na minha opinião, o antropólogo americano Joseph Campbell, demonstra isso magistralmente em sua tese de doutoramento. Além do mais, não era comum o intercâmbio cultural no tempo de Cristo. Seriam ainda menos habituados à ideias estrangeiras pescadores analfabetos e rudes como os apóstolos. Os adversários do cristianismo precisam se esforçar um pouco mais..

Anônimo disse...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel