"A sorte está lançada!" exclavam os antigos romanos diante de momentos decisivos. Hoje, a simples visão dos dados rolando causa apreensão, mexe com nossos nervos. Em todos os tempos a humanidade tem-se perguntado como tornar as ocorrências favoráveis, como evitar os desastres, como domar o intangível. Nós, os seres humanos, detestamos o desconhecido. Gostamos muito da ideia de contorná-lo, tornando-nos assim, senhores do nosso próprio destino. Para isso construímos casas, evitamos situações perigosas, fazemos seguro de saúde, lavamos bem nossas saladas, investimos em educação, toda uma série de procedimentos para dificultar a ocorrência de acidentes. Em suma, queremos as coisas certas, montadas do nosso gosto, conforme os nossos desejos. E, no entanto, sabemos perfeitamente que, com todo esse esforço, estamos fazendo apenas a nossa parte, pois desconhemos por completo o modo como as ocorrências se darão. Armamo-nos contra o imponderável, mas sabemos que, de fato, ele está no comando. Ou não sabemos?
Os que não se sabem sob a influência do imponderável arvoram-se senhores dos acontecimentos. Tem a pretensão de dominarem tudo o que lhes ocorre. Fazem a própria sorte. Consideram-se os únicos responsáveis pelo próprio destino. A amplíssima maioria das pessoas não é assim. Ainda que invista o tempo todo em práticas que dificultem a ocorrência de desastres, a maioria sabe-se sob os desígnios ocultos da incerteza. Agem como se tudo dependesse delas, mas sabem-se reféns de fenômenos absolutamente fora do seu controle. Parece-me que agem muito bem. Quem, de fato, é capaz de evitar um acidente de carro? É certo que se diminuem muito as chances de sofrer um deles calibrando os pneus, trocando o óleo nas datas certas, fazendo a manutenção necessária, dirigindo com responsabilidade, mas quem é capaz de controlar como os outros motoristas se comportarão? Ou ainda, quem tem controle sobre a imprevisibilidade da natureza? Ainda que alguém tenha máximo cuidado em relação ao seu automóvel e à sua direção como poderá evitar o motorista de caminhão há 2 dias sem dormir?
Verificamos, então, que, em relação a maneira como se lida com o imponderável, há dois tipos de pessoas: a maioria que se sabe refém de incertezas, e uma minoria que se julga acima delas. Notem que se trata principalmente de uma atitude diante da vida. Ou seja, conforme o modo com o qual as pessoas escolhem se comportar diante do imponderável elas desenvolvem toda uma visão de mundo. Os que se sabem muito pequenos diante de ocorrências completamente fora do seu alcance são geralmente pessoas mais humildes que aquelas que, por deliberadamente desenvolverem uma atitude de superioridade em relação aos demais, sentem-se senhoras do que lhes acontece. Notem o curiosíssimo paralelo que existe entre esta simples descrição e a opção de se acreditar, ou não, em Deus. O crente é aquele que se coloca diante de um ser que lhe é muito superior, em parte responsável por tudo o que lhe acontece. O que se recusa a crer é como alguém que toma a si a responsabilidade pelo que lhe acontece. O primeiro se rende, o segundo é insubmisso.
Permito-me a seguinte afirmação fantástica: as pessoas que se arvoram responsáveis pelo próprio destino desenvolvem o ateísmo, as pessoas que se sabem pequenas diante de tanta imponderabilidade estão mais inclinadas a crer em Deus. É uma intrincada conjugação entre atitude diante da vida, visão de mundo e humildade. Aqueles que, de modo arrogante, arvoram-se senhores do que lhes acontece, naturalmente tornam-se ateus. A sua atitude de auto-suficiência faz com que não estejam abertos aos influxos da consciência que sugerem a existência divina. A maioria das pessoas, pelo contrário, sabe-se dependente de ocorrências fora do seu alcance - está mais aberta, portanto, às sugestões de consciência e à pregação religiosa. As atitudes dela não são de auto-suficiência. Crê em Deus mas, assim como ateus, tranca a porta do carro quando o estacina na rua. Não tem diante do imponderável uma atitude arrogante. Procura evitar as incertezas, mas sabe-se refém delas. Não sente que o seu destino está nas próprias mãos.
Dito tudo isto, poderá arguir o ateu que é absurdo não ser senhor da própria existência. A atitude de alguém que não tenha trazido para si as rédeas do que lhe acontece seria de extrema covardia, ou ainda, de pérfida pusilanimidade. O correto, para o ateu, é responsabilizar-se pelo próprio destino. Deve-se tomar com espírito valente a responsabilidade pelo que lhe ocorre, rejeitando assim qualquer complexo de inferioridade ou fraqueza. O religioso seria, portanto, o derrotado - aquele que, por falta de virtude, rende-se diante das dificuldades da vida, criando, assim, a fantasia de que há um Deus diante do qual se curva pateticamente, já que lhe falta um espírito decidido que o faça encarar a vida com coragem e determinação. Essa leitura equivocada é perfeitamente coerente com a visão de mundo segundo a qual o que lhe acontece é de sua própria responsabilidade. O problema é que, como afirmado anteriormente, ainda que se possa reduzir muito as chances de um infortúnio acontecer, as ocorrências externas não podem nos ser responsabilizadas.
Devo dirigir com cautela, mas não tenho como controlar o modo dos outros motoristas. Posso viajar nos horários mais favoráveis, procurar as melhores estradas e, mesmo assim, o meu destino não estará nas minhas mãos. Isso é fato inconteste. Reduz-se e muito as chances de uma desgraça acontecer através do paciente exercício da cautela, mas simplesmente não se pode prevenir, ou prever, o imponderável. Não sugiro que se cultive uma atitude irresponsável diante da vida. Trata-se apenas de julgar as coisas pelo seu devido valor. "A César o que é de César". Não é errado trazer para si a responsabilidade que nos cabe, mas nada além disso é necessário. A atitude de quem se pretende senhor do que lhe acontece é infantil e ridícula. Por mais cauteloso que seja, será invariavelmente frustado diversas vezes, pois muitas coisas fora do seu alcance acontecerão. A pessoa humilde frustra-se muito menos, pois sabe o devido alcance de suas atitudes. A verdade é que, no geral, somos todos muito fracos. Nossa fortaleza está em nossa vida comunitária. Se dependêssemos exclusivamente de nossas próprias forças estaríamos perdidos.
A humildade é, portanto, a verdade. Estaremos em equilíbrio com o mundo ao nosso redor se formos honestos no reconhecimento de nossa impotência. Isso não nos deve impedir de fazer a nossa parte. Pelo contrário, precisamos estar verdadeiramente em tudo o que fazemos, e devemos fazê-lo da melhor forma que pudermos. Apenas não nos podemos permitir a falsa impressão de que, pelo esforço de nossas próprias mãos, estaremos responsabilizados pela própria sorte. Simplesmente jamais o estaremos. As ocorrências independem de nós. Elas são suas próprias senhoras. Nós devemos assisti-las de longe, respeitosos diante de seu imenso poder - mas que isso não nos impeça de fazer a nossa parte. Gostemos ou não essa é a nossa situação: precisamos fazer as coisas como se tudo dependesse de nós, sabendo que nada depende nós. Somos desimportantes e substituíveis. Essa atitude certamente nos fará pessoas melhores. Com sorte, chegaremos até mesmo à maravilhosa percepção do infinito, de onde somos continuamente encorajados e incentivados.
domingo, 25 de abril de 2010
Alea jacta est - o destino dos ateus
Assinar:
Postar comentários (Atom)
38 comentários:
Bom, eu discordo plenamente de quase tudo o que você escreveu aqui. Não acreditar em Deus não implica que você acredita ser senhor absoluto do seu destino, mas sim que não há uma entidade pessoal e inimaginável que se preocupa com ele. Nunca conheci alguém que não acreditasse em Deus e que se achasse senhor absoluto de tudo o que acontece.
Sei lá, você já deve ter lido algo sobre Sartre, e é exatamente esse o assunto dele. Estamos sozinhos, abandonados, somos imperfeitos, não controlamos praticamente nada do que nos acontece, daí a sensação de vazio. Ser livre, teoricamente poder controlar aquilo que nos acontece mas nunca conseguir isso na prática, é o desespero, a náusea, o inferno.
Quanto ao negócio da humildade, eu discordo mais ainda (levando em conta o que eu disse antes). Acreditar que um ser perfeito criou toda a química, as leis da física, a Natureza, os animais, o Universo, só pra preencher nossa existência... não acho isso humildade. Não acho humildade acreditar que esse mesmo ser perfeito tem um plano pra cada um de nós, que nos assiste e nos ajuda em cada uma das nossas pequenas dificuldades, que se preocupa com as atividades sexuais de pessoas livres e conscientes.
Pra mim, mais humilde é se sentir solto, pequeno diante da grandeza inimaginável do cosmo. Tem uma passagem muito engraçada do Guia do Mochileiro das Galáxias (cujo autor, Douglas Adams, era bem ateu e ganhou a dedicatória do 'Deus, um delírio') em que eles falam de uma máquina que faz a pessoa ter consciência por um pequeno instante do quanto ela é pequena e desprezível diante do da grandeza do universo. As pessoas que passam pela máquina ficam loucas :)
Muito boas observações.
Pretendo responder a elas, mas não agora. Tá rolando a final do Paulistão! :)
Bem, você não falou nada errado. De fato, do seu ponto do discurso você está bastante correto. Como sempre sua análise é precisa e cuidadosa. Este é um texto de natureza mais especulativa. É certo que há ateus humildes e religiosos arrogantes. Na tentativa de não esconder esses fatores adicionais afirmei que se trata de "uma intrincada conjugação entre atitude diante da vida, visão de mundo e humildade". Na verdade, se poderiam elencar ainda mais fatores. Portanto, sendo um texto especulativo, não seria incorreto dizer que foi escrito em lato sensu, ou seja, em sentido amplo. Não é análise de casos concretos, de personalidades conhecidas. É antes mera sugestão. Parece-me que as coisas são assim, o que não significa que elas sejam assim.
Minha intenção com o texto foi afastar a discussão dos pontos aos quais estamos acostumados. Pareceu-me que seria uma ideia boa. Na verdade, nem é algo sobre o qual eu racionalizei. Já estava deitado ontem à noite, procurando dormir, quando a ideia me ocorreu. Insisti mais alguns minutos para ver se esquecia, mas o inconsciente falou mais alto. Acabei me levantando e escrevendo. Reli hoje pela manhã, fiz algumas correções ortográficas e publiquei.
Quando é você que procura ser genérico, geralmente saem boas ideias. Mas não acho arrogância humana dizer que "um ser perfeito criou toda a química, as leis da física, a Natureza, os animais, o Universo, só pra preencher nossa existência..." Pra começar, acho que foi o oposto, ele criou todo o resto para que pudéssemos estar aqui. A religião cristã vê o homem acima da natureza, interpreta a sua razão como uma fagulha da divindade, mas jamais a afirma a própria divindade. É sim reflexo de Deus, mas não o próprio Deus. O sentido para nossa existência está nele, e não em nós mesmos. É nesse sentido que afirmei a posição religiosa mais humilde que a ateia. Coloquei que desenvolvem o ateísmo pessoas menos dadas à percepção de que o sentido da vida não passa por elas próprias. Se olharmos friamente para o texto, veremos que fiz uma associação entre o tipo que se pretende dono da própria vida ao ateu e entre o tipo menos seguro ao religioso. Não acho que isto esteja incorreto por um motivo muito simples: não será mesmo assim? É certo que há pessoas religiosas controladoras, que pretendem chantagear Deus com suas demonstrações ruidosas de fé. Da mesma forma deve haver ateus que, como na história do Guia do Mochileiro da Galáxia, sabe-se pequeno e desprezível diante do Universo. Mas acredito que estes casos configuram exceções. Não estará mesmo no deslumbramento diante da existência a semente da crença em Deus?
"Não estará mesmo no deslumbramento diante da existência a semente da crença em Deus?"
nao, e pelo visto isso é algo que voce nunca ira entender.
"Acreditar que um ser perfeito criou toda a química, as leis da física, a Natureza, os animais, o Universo, só pra preencher nossa existência... não acho isso humildade"
exato. concordo plenamente. É tao simples entender quando se esta do lado de fora da fé, mas quando se tem a existencia de deus como algo incontestavel e absoluto, é impossivel de argumentar. So se pode acreditar em algo que voce pode questionar. O contrario disso é dogma, facismo.
Acabei de assistir ao filme Ágora, sobre a destruicao da biblioteca de alexandria, e o assassinato de Hypatia, por cristaos ( ó, jura? ). Apenas esse assassinato atrazou a ciencia em 1200 anos, quando kepler repensou o modelo heliocentrico. Hypatia havia hipotetizado que as orbitas dos planetas eram elipticas e que o sol ficava ao centro, como o modelo modelo de erastotenes e aristarco. Ah, mencionei que ela era pagã e foi morta por isso?
Ser ateu é mais dificil que ser gay no mundo de hoje...
"O crente é aquele que se coloca diante de um ser que lhe é muito superior, em parte responsável por tudo o que lhe acontece. O que se recusa a crer é como alguém que toma a si a responsabilidade pelo que lhe acontece. O primeiro se rende, o segundo é insubmisso."
nao fala besteira henrique... pensa antes de falar merda. O que acontece comigo nao é responsabilidade minha o tempo todo. Apenas nao aceitamos deus por ausencia de evidencias que corroborem sua existencia.
Sei tambem que ausencia de evidencia nao é evidencia de ausencia. Apenas que nao ha lugar para um deus em nossa vida. Colocar o mesmo nao muda em nada o entendimento do mundo. As leis que governam nosso universo que vem sido desvendadas pela ciencia me servem muito bem. As lacunas que a ciencia tem nao precisam de um deus para preenche-las. Apenas tempo.
"não estejam abertos aos influxos da consciência que sugerem a existência divina"
voce se refere a esquisofrenia ( ouvir vozes ) ou ao desejo de conhecer mais sobre o universo e o sentido da vida. Nao acho que revelacao e profecias sao coisas confiaveis... Prefiro o metodo cientifico, pois ele permite que as teorias cientificas evoluam, ao contrario de religioes, que se prendem a dogmas milenares sem nexo.
", as ocorrências externas não podem nos ser responsabilizadas."
e porque voce acha que ateus pensam de outra maneira?
"Os que se sabem muito pequenos diante de ocorrências completamente fora do seu alcance são geralmente pessoas mais humildes que aquelas que, por deliberadamente desenvolverem uma atitude de superioridade em relação aos demais, sentem-se senhoras do que lhes acontece"
voce NUNCA vai entender o que significa ser ateu...
Ariel, seus comentários foram interessantes e construtivos, mesmo um deles afirmando que falei "merda", e outro insinuando que fascismo é sinônimo de dogma (o que já está verdadeiramente errado). De fato, essas coisas ficam menores porque você expôs sua maneira de pensar em frases com significado, o que é novidade!
Como você menciona bastante o campo de comentários, imagino que tenha lido minha afirmação ao André T. de que o texto é de natureza especulativa, certo? Tendo isto em mente podemos conversar a respeito dele.
Vou ser honesto contigo: entendi os seus questionamentos em relação à atitude religiosa como um todo. É sério. Mas fico cá curioso por saber se você de fato entendeu os meus com a ideia principal do texto. Ainda que especulativo, talvez por ser especulativo, este é um texto desafiador que, como eu disse ao André T., tenta mudar a perspectiva com que olhamos para este assunto já um tanto batido.
Quando você me cita e responde:
"as ocorrências externas não podem nos ser responsabilizadas."
e porque voce acha que ateus pensam de outra maneira?
Foi muito legal a escolha deste trecho seguida desta pergunta porque evidencia com clareza o seu ponto de vista, segundo o qual é um equívoco meu associar os ateus ao grupo de pessoas que não se vê refém de imponderabilidades desconfortáveis.
Vou te dizer porque eu acho que os ateus pensam assim. Na faculdade, há, no último semestre, apenas uma disciplina obrigatória para todos os alunos de comunicação (jornalismo, publicidade e cinema). Agora não me lembro o nome ao certo. O que me surpreendeu foi que a disciplina inteira estava voltada à leitura de apenas um livro. De fato, em literatura, são diversas as disciplinas voltadas à leitura pormenorizada de um só livro, mas em comunicação aquilo me era inédito. À medida que as aulas foram avançando minha surpresa só aumentava. O livro se chama O macaco nu, do biólogo britânico Desmond Morris. Nele, o autor faz uma análise do surgimento da religião a partir do medo do desconhecido. No entendimento dele, o Deus abraâmico é distante e insensível, por isso o ser humano "inventou" um Deus que, como ele próprio, é outro macaco nu - refere-se a Jesus. Criticando a religião sob esta perspectiva, ele advoga a tomada de consciência sobre os acontecimentos à nossa volta. Ainda que não seja confortável olhar à realidade sem o conforto de uma religião, ele prega que esta atitude de independência é a única possível para uma pessoa intelectualmente preocupada. Ou seja, segundo Morris, religião é assunto de desqualificados.
Note que O macaco nu é infinitamente mais respeitado no meio acadêmico que qualquer livro de Richard Dawkins sobre religião. Portanto, parto do princípio de que um ateu notório concordaria comigo quando associo o ateu àquele que não se pretende refém de incertezas. A amplíssima maioria de filósofos ateus também concordaria comigo. Nietzsche, Foucalt, Deleuze, Sartre, todos eles mencionam a dor de não poderem escolher outro caminho que não o reconhecimento (para eles sóbrio) de que estão sozinhos em um mundo que, sem o aporte de uma religião, é violento e sem sentido. Todos eles falam que, apesar deste desconforto tremendo, o certo é ser ateu. Acreditar em dogmas, para eles, é ridículo. Eles dizem com todas as palavras que fazer-se ateu levou-os à mais profunda dor que um ser humano pode conhecer, mas este é o caminho certo de quem quer ser dono da própria vida. Segundo eles, a autonomia completa só é possível ao ateu porque o religioso, ao preferir seguir princípios compartilhados com outras pessoas, abdica do dever "quase sagrado" de encarar a realidade como ela é, e não como ele gostaria que ela fosse. Você parece concordar com eles quando disse o seguinte:
Nao acho que revelacao e profecias sao coisas confiaveis... Prefiro o metodo cientifico, pois ele permite que as teorias cientificas evoluam, ao contrario de religioes, que se prendem a dogmas milenares sem nexo.
Agora vem o que eu acho que você considerará o mais surpreendente. Eles concordariam com você em relação aos dogmas, mas discordariam em relação à ciência! São grandes filósofos porque sabem que a ciência não trabalha com coisas inquantificáveis. Sabem que a ciência não mede o grau de forforfi que há na trubuntá porque forforfi e trubuntá não existem. Já afirmei algumas vezes que ideias e pensamentos são coisas que existem sem existir. Oras, do ponto de vista rigorosamente científico isto é uma asneira. Como algo pode existir sem existir? Mas era um recurso semântico que eu estava utilizando. Do ponto de vista rigorosamente científico ideias e pensamentos não existem! Esta é a verdade científica com a qual trabalham a maioria dos psiquiatras e os psicólogos comportamentais. Eles afirmam que o seu mecanismo de estudo são as sinapses e o comportamento, coisas que podem ser medidas. Como não há um "não-lugar", como não há coisas que "existam sem existir" (veja bem, eu estou concordando com eles), pensamentos e ideias não existem para a ciência. O que temos é a percepção de pensamentos. Temos a impressão, a sensação de que pensamos, o que não significa, em absoluto, que verdadeiramente pensamos. Uma pessoa ótima para você conversar a respeito disso é a Patrícia. Como eu fundamento meu ponto de vista sobre a premissa filosófica (não científica) de que o pensamento existe sim e é, portanto, imaterial, já tive altos papo com ela. E ela sempre discordou por um simples motivo: a corrente psicológica dela é a única que se pretende científica. As outras dizem na maior cara de pau que não são científicas. Sendo o comportamentalismo a única corrente científica da psicologia, as outras correntes chamam-na "positivista", porque preocupada em demonstrar o que é o ser humano através de coisas quantificáveis. Na verdade, a Patrícia mesmo, mestranda da USP como você sabe, tem que abstrair muito dos seus princípios científicos quando perguntada sobre o pensamento. A rigor, eles não trabalham com essa hipótese. O comportamentalismo ou, para facilitar, behaviorismo, afirma que as outras correntes da psicologia são "mentalistas", ou seja, acreditam em papai noel e coelhinho da páscoa. Ops, perdoe-me, acreditam em mente, algo que não pode ser aferido cientificamente, portanto, algo que não existe.
Tá vendo como participar de maneira adulta colabora com o debate saudável? rs.. Ainda espero que você responda com as suas impressões diante dessas minhas colocações. Também já pergunto se você não se importaria de eu retrabalhar esta resposta e fazer um texto dela.
(como atingi o limite máximo de caracteres, precisei dividir minha resposta incial em dois comentários separados, mas se deve entendê-las como um conjunto).
Mais uma coisa que pode ser interessante. Parece-me que a atitude destes filósofos ateus é contraditória (não falo, portanto, do Morris). Eles afirmam que a única atitude ideologicamente responsável é o ateísmo, descartam as religiões porque não verificáveis. Mas tem para si por experiência lógica que o homem não é verdadeiramente livre. Ou seja, sabem que a pretensão de ser completamente donos da própria vida é ilusória. Então vivem esta dor sobre a qual escrevem continuamente: sou livre para perceber que não sou livre, mas não sou livre para fazer as coisas da maneira que bem desejo. Têm liberdade somente para perceber o quão são fracos diante de um mundo que lhes permite pensar, mas não lhes permite fazer. Ou seja, advogam uma liberdade completa que existe apenas como ideia. Consideram o ateísmo a única atitude honesta, mas não ignoram suas consequências. Diante da vida e suas necessidades, eles exclamam-se escravos das ocorrências. Assumem que não têm liberdade. Não parece portanto razoável que sofram tanto? De fato, segundo a própria lógica deles, pode-se afirmar que eles nada têm. Não acreditam em outra vida e não se conformam com esta. Vivem uma absurda condição sem sentido. Tem conhecimento disso, aceitam-no, mas não podem fugir do sofrimento.
Você estaria de acordo se eu dissesse que esta é uma análise lógica a partir das premissas e consequências das afirmações destes filósofos? Pressupondo que sim, este é um resumo honesto sobre as afirmações deste filósofos, gostaria de fazer considerações sobre o que eles pensam no meu sistema de entendimento do mundo, desenvolvido principalmente sob influência do prof. Clauze, do dep. de psicologia da UFF.
Clauze era (pois já faleceu) um psicanalista lacaniano, portanto, dentro da dinâmica própria das psicologias, era um mentalista; afirmava a existência do pensamento como realidade imaterial. Clauze colocava que os pensamentos são invenções nossas por um motivo muito simples: escolhemos o que queremos pensar, ou seja, nosso pensamento não é determinado por saberes ou necessidades anteriores. O sujeito pode ter a mais santa das vidas e despirocar nos seu últimos anos. Pode ter a mais devassa das vidas e converter-se maravilhosamente no seu leito de morte. Como afirmei para a Denise em outro texto, pode ser um prof. dr. de sociologia que, ao chegar à Presidência, renega tudo o que escreveu e ensinou, como fez FHC. Pode ser um importante geologista que fez significativas datações sobre a idade do planeta mas que, ao converter-se ao pentecostalismo mais radical, renega toda a sua obra e começa a dizer que o mundo foi criado sete mil anos atrás. Ou seja, Clauze e eu colocamos que os filósofos ateus acreditavam naquelas coisa porque queriam. Da mesma forma como construiram aqueles saberes poderiam ter construído outros. Ativeram-se àqueles porque lhes pareceram os melhores, não porque eram fundamentalmente verdadeiros, pois constrói-se a realidade ao nosso redor com as cores do nosso interior, entende? Ou seja, a ciência é arte de quantificar as coisas materiais, mas é o pensamento humano que qualifica as coisas ao seu redor como lhe parecer melhor. A ciência mede. O pensamento julga. O ateísmo é, portanto, algo que se abraça conscientemente ainda que se o negue. Ele não é o último bastião das pessoas verdadeiras e inteligentes. Ele é tão somente uma opção dentre várias.
http://www.youtube.com/watch?v=Hj9oB4zpHww&feature=player_embedded
Nossa! Muita besteira que esse cara fala, Ariel. O André T. traduziu e publicou em seu blog a apresentação de um ateu militante que refuta as afirmações dos tais "neo-ateus". É que ele é iniciado em filosofia. Portanto, ele sabe que tudo isso é besteira.
Talvez você ache interessante dar uma olhada:
digitandodeesquerda.blogpot.com
voce entendeu o que ele disse?
faz todo sentido.
o link que vc mandou nao rolou.
Bem, não discordo de que muitas das nossas faculdades afetivas são cientificamente explicáveis, afinal, somos produto de milhões de anos de evolução. O problema é que o cara não refuta adequadamente a indeterminação do pensamento. Ele apenas diz que tudo o que se produziu em filosofia até os dias de hoje é baboseira, o que não é verdade.
Faltou o "s" no "blogspot":
digitandodeesquerda.blogspot.com
"O problema é que o cara não refuta adequadamente a indeterminação do pensamento"
faz sentido. mas com o tempo quem sabe a ciencia nao o consegue?
Tomara sim que nosso conhecimento seja bastante aprimorado. É uma preocupação constante o desenvolvimento de medicamentos cada vez mais eficazes e de menores efeitos colaterais. De modo algum quero ferir suas suscetibilidades. Respeito muito a ciência e acho abominável todas as formas de negá-la. Quando falo nas questões filosóficas refiro-me a constatações muito simples. Sabemos, por exemplo, que nossas decisões são livres. A ciência poderá chegar a um grau de bastante precisão nesta área, mas duvido que se chegue ao ponto de determinar com certeza absoluta o que as pessoas farão.
?? Ué seu "Anônimo", vc pediu para eu não publicar seu comentário então não publiquei.. rs.. Não sei quem você é, tampouco bloqueei o comentário de qualquer anônimo neste post.. rs..
Henrique Rossi disse...
?? Ué seu "Anônimo", vc pediu para eu não publicar seu comentário então não publiquei.. rs.. Não sei quem você é, tampouco bloqueei o comentário de qualquer anônimo neste post.. rs..
21 de maio de 2010 15:34
Eu tinha postado uma gozação ao seu Ariel, a respeito do assassinato da Hypatia, e naum vi este post aqui.
sem problema! :)
Se vansuncê achá este meu comentário sobre o comentário do Ariel sobre a Hypátia e puder ponhá-lo aqui, agardecimentos!
Mas vc me pediu para não publicá-lo. O sistema do blogger já o deletou. Você pode tentar reescrevê-lo.. :)
Bão, entonces, lá vai:
Eu fiz uma brincaderinha co seu Ariel sobre o comentário abaixo:
"Ariel Wollinger disse...
"Acreditar que um ser perfeito criou toda a química, as leis da física, a Natureza, os animais, o Universo, só pra preencher nossa existência... não acho isso humildade"
exato. concordo plenamente. É tao simples entender quando se esta do lado de fora da fé, mas quando se tem a existencia de deus como algo incontestavel e absoluto, é impossivel de argumentar. So se pode acreditar em algo que voce pode questionar. O contrario disso é dogma, facismo.
Acabei de assistir ao filme Ágora, sobre a destruicao da biblioteca de alexandria, e o assassinato de Hypatia, por cristaos ( ó, jura? ). Apenas esse assassinato atrazou a ciencia em 1200 anos, quando kepler repensou o modelo heliocentrico. Hypatia havia hipotetizado que as orbitas dos planetas eram elipticas e que o sol ficava ao centro, como o modelo modelo de erastotenes e aristarco. Ah, mencionei que ela era pagã e foi morta por isso?
Ser ateu é mais dificil que ser gay no mundo de hoje...
2 de maio de 2010 05:32"
Eu havia postado que o assassinato da tar Hypatia realmente "ATRAZOU" a ciência e que o maior prejudicado neste "OMISSÍDIO" foi a nossa Língua Portuguesa...
Acrescentando:
Convenhamos, que diferença faz descobrir que a órbita era circular, oval, quadrada, elíptica, em zigue-zague, tanto faz, naquela época ninguém poderia construir uma nave, um foguete, ou qualquer outra geringonça pra viajar pela galáxia mesmo. Nenhum engenheiro civil, eletricista, agrônomo, arquiteto ou qualquer construtora ou empreiteiro foi afetado por causa desse assassinato, até na minha loja, se ela existisse na época não seria afetada. A única coisa afetada na prática foram algumas páginas de livros que precisaram ser reescritos, mas convenhamos novamente, isso ajuda vender mais livros e dar lucro às gráficas. Sempre aparece alguma coisa que se acreditava estar correto e depois tiveram que mudar; até os ditos fósseis dos nossos ancestrais sofrem mudanças, então um cientista a mais ou a menos não vai mudar o curso da História tanto assim.
No mês que vem, talvez, eu passe a fabricar esquadrias de alumínio e de pvc, e mais à frente telhas de cimento, daí já não sei se na hora de carculejar as cargas e resistências eu devo levar em consideração que o mundo tenha 10.000 anos ou se levar em consideração que ele tenha trilhões de anos eu consiga um material mais resistente que o dos concorrentes. Vou pensar direito no assunto, depois eu posto aqui os resultados obitidos pelo IPT e pelo Falcão Bauer; se os meus cálculos levando em consideração que a Terra só tenha 10 milanos for melhor continuo acreditando em D'us, mas se calcular com 10 trilhões de anos der resistencia melhor no material talvez eu mude de palpite.
"Convenhamos, que diferença faz descobrir que a órbita era circular, oval, quadrada, elíptica, em zigue-zague, tanto faz, naquela época ninguém poderia construir uma nave, um foguete, ou qualquer outra geringonça pra viajar pela galáxia mesmo"
como fala bosta. uma coisa leva a outra na ciencia, se voce mata um gigante, voce nao pode subir no ombro dele e enxergar mais longe, voce precisa esperar outro gigante aparecer. Se voce entende ciencia voce conhece a frase sobre os gigantes, mas obviamente nao conhece porra nenhuma. Levou mil anos pra alguem ter essa ideia novamente ( kepler, newton )e revolucionar a ciencia. Nao espero que voce entenda.
Ah, e desculpa pelo ATRAZO no post... duh. sô burru puque eu iscrivi com Z! ahahah!
só uma perguntinha senhor/a anônimo:
voce quem disse :
".não poderia ser quase a sensação da chassina dos OMATIKAI???"
chassina com 2 S? PUTAQUEOPARIU! pior que atrazo...
caso nao seja o mesmo anonimo, favor identificar-se para evitarmos problemas...
No mês que vem, talvez, eu passe a fabricar esquadrias de alumínio e de pvc, e mais à frente telhas de cimento, daí já não sei se na hora de carculejar as cargas e resistências eu devo levar em consideração que o mundo tenha 10.000 anos ou se levar em consideração que ele tenha trilhões de anos eu consiga um material mais resistente que o dos concorrentes. Vou pensar direito no assunto, depois eu posto aqui os resultados obitidos pelo IPT e pelo Falcão Bauer; se os meus cálculos levando em consideração que a Terra só tenha 10 milanos for melhor continuo acreditando em D'us, mas se calcular com 10 trilhões de anos der resistencia melhor no material talvez eu mude de palpite.
Quanta bobagem. Quer dizer que o valor de um determinado conhecimento se mede pela sua utilidade? E também que a única forma de parametrizar essa utilidade é uma aplicação prática na direção do que você considera, sei lá, como 'progresso'?
O conhecimento, o certo, a verdade, isso não são coisas que têm valor neles mesmos? Se você não concorda com isso, então acredite no que achar melhor, com certeza vai estar levando vantagem.
KKKKKKKKKK... Cha[ss]ina dos Omatioquê? Essa foi boa!
Fiz uma rápida procura pelo sáite a procura dessa tal chassina e, quiçá, encontrar os açaçinos, só que a loja tá me tomando bastante tempo, mas juro que ainda vou encontrar esses cara!
Só corringino o que vc escreveu, num é "iscrivi", o certo mesmo é "inscrivinhei"; é mais ilegante, tá boum?
Bom, continuemo!
Respondendo rápido ao seu Ariel e André:
Tudo o que eu estou fazendo é somente o 'CASTIGAT RIDENDO MORES'.
Assim que eu tiver um tempinho a mais, continuo a postar, por ora é só, abraços a todos!
Curiosamente, o anônimo acabou de postar justamente quando estava vindo neste campo de comentários para fazer uma correção necessária.
Por pressa e imprudência acabei deixando um comentário do Ariel com um baita palavrão desnecessário. Eu iria editar o comentário dele, retirando o palavrão. Já que o anônimo parece não ter se importado, por hora deixarei. Mas fica o aviso para o Ariel ou qualquer outro leitor. Palavrão não dá. Esse tipo de participação configura um "trolling".
Os que se interessarem em saber as propriedades exatas desta pobreza de espírito, podem checar o texto abaixo, que é bastante preciso:
http://en.wikipedia.org/wiki/Troll_(Internet)
Errado.
Este é um blog onde se discute idéias.
Se palavrões são assim tão "essenciais" ao pensamento, por que é que os livros de Dawkins são "tão bons" se não têm nenhum deles?
nao falei que sao essenciais.
Sabe Ariel, tem uma série de coisas que eu gostaria de te dizer mas que nunca consegui fazê-lo tão bem quanto no texto que acabei de publicar:
http://www.polimatico.com.br/2010/06/imposicao-unilateral-dos-radicais-da.html
Acho que você reconhece que fazer as pessoas à sua volta felizes nunca foi prioridade em sua vida. O que este texto pretende demonstrar são as consequências obtidas ao se provocar os outros constantemente, procurando o tempo todo fazê-los menos felizes e realizados.
Esta é, de fato, uma coisa que você deveria se perguntar: será que você é alguém minimamente capaz de fazer os outros à sua volta felizes ou todas as suas intervenções são sempre no sentido de desmerecer de maneira grosseira e intolerante tudo o que o seu próximo pensa?
Talvez você se devesse questionar a respeito das consequências do seu modo de agir. Será que ser extremamente crítico com todos o tempo inteiro fará deles pessoas felizes? Qual será a sua contribuição às pessoas que te rodeiam? Em que você as têm verdadeiramente ajudado? Será que você é capaz de enfrentar as conclusões inevitáveis destas perguntas?
Ah, tá, agora me liguei que o dito palavrão a que vossamercê se referiu no post do seu Ariel foi referente a situação só-ócio-educativa da mãe de alguém que não seja a minha...
Continuando sobre a tal "chassina", sempre que eu escrevo um disparate, o que não é seeeempre, costumo fazê-lo escancaradamente, não que isso impessa de que alguma coisa escape, né?
Pra não gerar confusão com os demais anônimos, costumo assinar Phd Ziriguidum nos meus posts, isso quando me alembro, ok.
Bom, e quando, porventura, me surge dúvida sobre alguma palavra, conto com a ajuda do meu pai, o "pai dos burros"...
Phd Ziriguidum, em tempos de Copa:
Mas esta é uma das principais características do ateísmo, seu Henrique: Não aceitar a opinião alheia quando esta vai de encontro às suas idéias. Procure alguma coisa sobre a "NOMENKLATURA".
"Mas esta é uma das principais características do ateísmo, seu Henrique: Não aceitar a opinião alheia quando esta vai de encontro às suas idéias. "
ué, achei que essa caracteristica era dos teístas... weird...
Em certo sentido você está muito certo, Ariel. Mas em outros talvez não esteja tão certo, afinal, a opinião dos teístas têm muitos pontos comuns: valorização da moral, ensinamento de respeito ao próximo, exaltação do esforço individual pelo bem comum, e, sobretudo, a prática contínua do reconhecimento humilde diante de uma "força" maior, conhecedora de todos os caminhos. Ou seja, ainda que muitos bobalhões tenham atrapalhado o respeito entre as diversas religiões (sem falar nos aproveitadores descarados), elas continuam se encontrando em muitos pontos e, no geral, o respeito mútuo é algo praticado continuamente. É assim o ensinamento dos líderes tradicionais. Tanto que foi e continua sendo possível um filme de natal como aquele veiculado pelo Itaú no ano passado:
http://www.polimatico.com.br/2009/12/o-perdao-foi-feito-pra-voce.html
kkkkkkkkkk..mais uma vez tenho que rir. lembra do nosso professor que não acredita em Deus e tal? Pois é..coloquei minhas mãos no ombro dele e disse: senhor Deus, traga toda infelicidade do mundo pra o G...que ele não consiga realizar nada daquilo que deseja e...ANTES DE EU TERMINAR ELE ME INTERROMPEU E DISSE: OOOOO ANDREA!!! AÍ PEGOU PESADO..eu falei: oras, mas vc não acredita, não é?
Resumo: deu certo!!!
beijos!!!
Andrea
Essa sua "intervenção terapêutica" realmente parece muito promissora. Até estive pensando em pedir a você que escreva um texto para o blog neste sentido. Eu mesmo tentei, mas não ficou muito bom. Habilita-se? :)
Beijos e boas férias!
Postar um comentário