Tem gente que acha que, para um filme ser bom, ele precisa ser necessariamente revolucionário. Ou seja, para estas pessoas, ainda que um filme "feijão com arroz" (aquele que não introduz novidades estéticas) tenha sido feito com muito esmero, contando uma história pertinente e significante, se ele não se presta à tarefa de "renovar a linguagem cinematográfica" então ele é uma porcaria descartável. Já faz um tempo que enjoei desse trololó. O povinho que idolatra filmes de arte nunca para de dizer estas mesmas coisas. Ao contrário deles, para mim, qualquer filme pode ser bom. Afinal, já vi filmes de arte que foram, na minha opinião, muito bons, e outros que foram muito ruins. O mesmo se aplica ao cinema narrativo: já vi filmes bons e ruins. Quem parece não perceber isso são os idólatras do cinema experimental. Eu não tenho nada contra os filmes de linguagem "avançada". Até gosto de muito deles. Admiro com especial intensidade os cineastas que conseguiram mesclar ambas correntes, fundindo filmes narrativos com linguagem revolucionária. O problema está na obrigação de gostar somente de filmes de arte que muitos admiradores do cinema experimental obrigam sobre seus colegas cineastas. Para essa gente, o cinema narrativo nada mais é que um dos braços ideológicos do capitalismo.
De fato, não sei nem por onde começar a responder a uma asneira deste tipo. Somente idiotas completos poderiam defender uma tremenda injustiça como esta. A narração de histórias edificantes acompanha a humanidade desde que ela existe, assim o têm registrado os antropólogos. Se o capitalismo tem feito uso "perverso" de uma nobre faculdade humana isso não é problema meu. Essa arte nobilíssima não deve ser abandonada por isso. Se estivéssemos obrigados a abdicar de tudo o que o capitalismo influencia então deveríamos parar de comer, pois é o capitalismo o sistema que melhor produziu comida boa e barata. Oras, assim como não preciso parar de comer para criticar o capitalismo que produz a comida da qual me alimento, não há necessidade de parar de assistir filmes narrativos apenas para não colaborar com o regime "perverso" que a tudo "destrói". No entanto, ainda que se possa refutar todos os argumentos dos defensores do filme de arte com poucas palavras, são eles que pautam o que se deve pensar em termos artísticos na atualidade. São eles que dominam os cadernos de arte dos grandes jornais. São eles que aplaudem quase que exclusivamente os filmes que fazem aventuras de linguagem cinematográfica. São eles que defenestram todos os filmes excelentes que, do ponto de vista estético, não introduzem novidades.
Mas as pessoas que gostam verdadeiramente de cinema não são assim! No coração do amante do cinema sempre há espaço para um bom filme "café-com-leite", da mesma forma que há sempre espaço para filmes mais inteligentes e esteticamente dotados. Por que, então, a lei besta que obriga a idolatrar somente os filmes inovadores? Porque o capitalismo, visando lucro, apropriou-se do cinema narrativo - só por isso. A mesma atitude de rebeldia que obriga o moderno a gostar somente de bandas de rock alternativas que não cederam ao "sistema" obriga que se ame filmes que não visam o lucro. Agora eu pergunto: quanto custa a manutenção de uma banda amadora de rock e quanto custa a realização de um filme? Se é o povo brasileiro que sustenta o nosso cinema com seus impostos por que é que se deve fazer com seu dinheiro somente filmes que ele, em absoluto, não quer ver? Afinal, vocês sabem que, para uma pessoa sem instrução artística, o filme de arte é um verdadeiro tapa na cara! A pessoa ignorante em termos artísticos repudia o filme de arte violentamente. Considera-o confuso, intrincado, hermético - e isso só prova como ela é capaz de entendê-lo, pois, no geral , o filme de arte é sim confuso, intrincado e hermético. São justamente estas as características que o cineasta "ambicioso" procura.
E é ambicioso o cineasta que as procura porque deseja, com isso, escrever o seu nome na história. É exatamente isso que vocês leram: porque desejam entrar para a história como "grandes artistas" que vários cineastas procuram ativamente fazer filmes de arte, visto que contar histórias é tido, por eles, como arte inferior. E é por isso que eles não vão entrar para a história. Porque transformaram a sua revoluçãozinho burguesa em um cânon, um dogma, quando, na verdade, o que se procura em arte na contemporaneidade é a ruptura dos dogmas. São apenas chatos. Quem honestamente gosta dos filmes do Glauber Rocha? Quem é que pode assistir um destes embrulhos altamente indigestos e dizer ao fim da sessão que se divertiu? Ainda que os filmes tenham o propósito declarado de incomodar, ele poderia fazê-lo sem abandonar o intuito de seduzir o espectador. Já vi filmes experimentais extremamente sedutores. Filmes de arte e sedução não são coisas que se excluem necessariamente. Pode-se perfeitamente seduzir enquanto se lança os mais sérios e profundos questionamentos, como a obra de Ingmar Bergmam magistralmente o demonstra. É através da sedução que se prende a atenção do espectador, forçando-o a conhecer o seu ponto de vista. A elevação de filmes incapazes de sedução à estatura de grande arte foi o que tornou o cinema brasileiro insuportável.
O que foi um verdadeiro desastre, porque o nosso cinema já era tradicional antes das rebeldias que começaram na década de 60. O cinema brasileiro movia multidões antes de se tornar infinitamente aborrecido. A obrigatoriedade de se criticar o capitalismo simplesmente aniquilou o cinema narrativo no território nacional. O gênero narrativo acabou relegado a artistas de menor talento estético, o que tornou o cinema brasileiro duplamente ruim: por um lado, artistas competentes fazendo filmes obrigatoriamente chatos, por outro, artistas menores maltratando uma arte milenar com sua falta de talento. Vê-se que se trata, no fundo, de um imbrólio surgido da mistura de disputas ideológicas e estéticas. Então proponho um exercício que desconsidere a disputa ideológica, afinal, não é do meu feitio considerar o marxismo rabugento um interlocutor legítimo. Para mim todas as tentativas totalitárias precisam ser destruídas. Não reconheço, pois, a autoridade de ninguém que queira me dizer o que fazer. Reconheço menos ainda a autoridade de quem queira destruir-me, como se eu fosse um mal-feitor que estivesse escravizando as camadas mais pobres da população pois, no meu entender, elas são escravas da cachaça e do analfabetismo. Se elas nada produzem é porque não o querem, não porque há um capitalista malvado sugando-lhes o sangue e a "alma".
Vendo a questão somente do ponto de vista estético simplifica-se tremendamente a questão, pois notamos que o centro da disputa é o embate entre "o quê dizer" versus "como dizer". O problema é que, de agora em diante, precisarei utilizar diversas vezes ambos os termos, então se faz necessário adequá-lo ao tipo de comentário que pretendo realizar. "O quê dizer" torna-se significado, "como dizer" torna-se significante. Pois então, não é muito difícil perceber que, no cinema brasileiro a partir da déc. de 60, privilegiou-se quase que exclusivamente o significante. O quê dizer, ou significado, tinha praticamente nenhuma importância - qual é, pois, a história de Deus e o Diabo na Terra do Sol? O que importa neste filme são as suas qualidades estéticas pois interessava mais ao seu diretor, Glauber Rocha, a fundação de um novo modo de enxergar a realidade, completamente oposto a que ele considerava a estética "burguesa". Não sem razão, chamava-se esta novo modo de enxergar a realidade de estética "revolucionária", pois se pretendia com ela a criação de um novo estado mental. Eles imaginavam que o casal burguesinho entraria no cinema num domingo à tarde para ver o filme em questão e sairia de lá com a camisa do Che Guevara no corpo, um megafone na mão e muitas ideias maldosas na cabeça. Mas como convencer os outros do que se devia fazer se ninguém conseguia depreender um significado da sua obra? Como estimular alguém a adotar esta ou aquela política se elas sequer entendiam quais políticas o artista recomendava?
Não à toa este modo "revolucionário" de cinema serviu apenas para destruir e afundar a já combalida indústria cinematográfica brasileira. Imaginem a reação das pessoas diante daquela "obra"! Dado o seu "produto", não sem exagero podemos chamá-la de "cinema de estômago". Mais uma vez acho necessário dizer que não sou contra avanços estéticos, pelo contrário, eles são extremamente bem-vindos. O problema é quando somente eles são levados em consideração, como se o significado não tive importância alguma. Como se o quê se pretendia dizer devesse estar exclusivamente na estética. É uma burrice sem fim. Não surpreende que ninguém goste destes filmes. Nem mesmo os mentirosos que afirmam admirá-los gostam verdadeiramente deles. Ninguém põe um filme de Glauber Rocha para curtir com os amigos ou com a namorada. Se o faz é um louco que mente aos outros e, principalmente, e mais tristemente, a si mesmo. Não há nestes filmes a menor concessão ao espectador. O cineasta não se julga um artista. Ele tem a certeza de ser uma divindade com uma mensagem. Como sequer conversar com alguém que pensa assim? Cinema é, sobretudo, diálogo com o imaginário de cada um dos espectadores. Apela-se o tempo todo a um patrimônio comum a todos - só assim se constrói o significado, só assim a obra pode ser inteligível.
Portanto, como se pode chamar quem não se preocupa em torrar milhares, milhões de reais, com uma obra que só fala ao próprio eu? Ainda que imbuído de um grande espírito altruísta, pois deseja melhorar o mundo com o seu filme, trata-se de um grande egoísta. Donde perguntamos: qual a contribuição de um egoísta? Decerto a imposição unilateral do seu ponto de vista! Pode-se, então, perceber que há, em arte, a necessidade de comunicação, de diálogo com o receptor. Imaginem, pois, como é difícil a situação do cinema nacional: a um só tempo ele aniquilou sua herança comunicativa, satanizando-a com a elevação da exigência do filme de arte, como também não se ressente em gastar milhões de reais do contribuinte para a realização de algo que será visto por não mais que 100 mil pessoas. Para se resolver esse imbrólio necessita-se somente de bom senso. Pode parecer uma receita absurda para um problema tão complicado mas, de fato, espero ter demonstrado que se trata apenas um problema de arrogância artística. Antes de elevar a sua arte com obras "difíceis", se o faz por gratuitade o artista egocêntrico a diminui. Arroubos de destempero ficam bonitos em gênios verdadeiros como Beethoven. Nos outros é apenas loucura, medo, desespero e alienação. Dinheiro do contribuinte é algo que precisa ser tratado com respeito e carinho. Se o artista em questão é um milionário independente, ele que faça seus filmes herméticos e descaradamente absurdos, mas se é o dinheiro do povo que será usado, que o seja com responsabilidade e parcimônia.
domingo, 11 de abril de 2010
A arrogância e a estupidez do cineasta "arrojado"
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2 comentários:
Amei esta passagem: "A narração de histórias edificantes acompanha a humanidade desde que ela existe, assim o têm registrado os antropólogos.". Entendo muito pouco de cinema, mas posso falar pela literatura. E no meu parco entendimento de cinema, sinto o problema que você tão bem expôs. Parabéns!
Obrigado Márcia,
Em literatura as únicas correntes que se desapegaram totalmente do significado foram os experimentalismos do séc. XX: o futurismo, o surrealismo, etc. Hoje em dia a questão parece-me bem mais resolvida. Esta "gratuidade" semântica foi abandonada pois teve-se de reconhecer que quando falta o sentido falta uma percentagem considerável de qualquer história. A linguagem avançada de vanguarda não está necessariamente oposta à narração de histórias. Esse é um debate já um tanto ultrapassado. Pena que no cinema ele ainda persista tão vivo. Torna-se, assim, responsável por salas de exibição às minguas quando se exibem filmes brasileiros..
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