terça-feira, 27 de abril de 2010

A bárbara negação do eu

O afã de afirmar todos os fenômenos sob os desígnios da ciência acaba de fazer mais uma vítima: o eu. Sempre defendi neste blog o correto entendimento entre humanidades e ciências naturais. A primeira versa sobre o nosso universo psíquico, independentemente das leis físicas. A segunda estuda as ocorrências materias da natureza. Então alguém ingênuo poderá perguntar: "Mas não estamos nós, os nossos eus e os nossos corpos, mergulhados no universo natural? Isso não obriga os nossos eus a obedecer certas leis físicas da mesma forma que os nossos corpos obedecem à lei da gravidade?" Claro que não! Imagine que absurdo! Dizer que nosso eu obedece leis físicas seria o mesmo que dizer que as nossas reações aos mais variados estímulos são necessárias, quando, na verdade, são contigentes. O que isso quer dizer? Quer dizer que nosso eu independe dos fenômenos físico-químicos quando decide fazer qualquer coisa. Estivesse o nosso eu dependente das ocorrências naturais não teríamos liberdade nenhuma. Tudo o que fizéssemos e pensássemos seria o simples reflexo dos estímulos que recebemos anteriormente. Oras! Dizer isso seria uma tolice sem tamanho. A todo tempo percebemos como nosso comportamento pode ser contraditório. Não somos de modo algum adestrados por eventos que nos aconteceram. Sempre agimos de forma absolutamente livre, tanto é que, diante dos desafios da vida, pessoas de um mesmo país podem ter reações completamente diferentes a um mesmo estímulo. Pessoas de um mesmo estado podem reagir de maneira ainda mais díspare entre si. Pessoas de uma mesma cidade poderiam discordar mortalmente sobre como se deveria agir diante de uma tal situação. Talvez pessoas de uma mesma família jamais chegassem a um acordo sobre a maneira correta de se agir. Irmãos gêmeos poderiam nunca mais falar um com outro dependendo dos motivos que os levassem a se desentender. Mesmo uma única pessoa pode se ver na situação conflituosa de não saber o que fazer. E, no entando, um chinês e um africano poderiam se entender perfeitamente um ao outro sem que precisem trocar um só palavra. Nós nos damos a contigências. Em relação a nós, seres humanos, as coisas podem não ser o que são. Podemos enganar-nos deliberadamente. Oras! Um cachorro sempre sabe o que fazer! Ele não tem dúvidas, não faz elucubrações, não tem como se enganar a si mesmo. Ele age conforme o adestramento que recebeu. Para um cão, as coisas sempre são o que são. Ele age conforme necessidades momentâneas. Nós não! Nós contrariamos a educação que recebemos. Nós reformulamos a história. Nós criamos coisas novas. Achar que tudo é determinado cientificamente é coisa de quem não tem o menor estudo em humanidades. É coisa de quem não sabe separar necessidade de contingência.

Se as decisões do eu fossem determinadas por fenômenos físico-químicos então não haveria individualidade alguma! Essa visão cientificista já está superada há muitos anos. Essa pretensão de que a ciência pode explicar todos os fenômenos é coisa do séc. XIX. Um pouco vencidinha pros dias de hoje, não é não? Vejam, nada do que afirmei até aqui são coisas que inventei da minha cabeça. Se as decisões humanas são determinadas por fenômenos naturais pode-se fazer uma enorme fogueira com todos os livros de antropologia, psicologia, filosofia e sociologia. A pesssoa em conflito não necessitaria mais do psicólogo ou do pajé, bastaria o psiquiatra. Ela iria ao psiquiatra, reportaria o seu problema, sairia dali com uma receita e nunca mais sofreria de medos e hesitações. Se o problema começasse a voltar, isso certamente seria culpa de uma mudança nos padrões bioquímocos. Então, ela retornaria ao consultório e o médico trocaria de remédio. Mas os nossos conflitos não são todos frutos de desequilíbrios químicos! É certo que há doenças que se encaixam nesta definição, mas a imensa maioria de transtornos psiquiátricos nasce dos conflitos psicológicos. A medicação é apenas um suporte momentâneo para a pessoa. Para resolver verdadeiramente os seus problemas ela não deverá apegar-se ao medicamento por toda a sua vida. Ela deverá ir ao psicólogo e conversar sobre eles. Mas meu Deus do céu! Eu estou impressionado que ainda haja quem considere que as operações mentais sejam ocorrências necessárias, ou seja, determinadas por princípios verificáveis cientificamente. Isso é um completo absurdo. Nenhum dos nossos pensamentos é determinado! Nenhum! Penso as coisas que quero diante da realidade. Imagine só: o pensamento determinado! Disse no texto anterior que o verdadeiro surgimento da televisão se deu quando alguém a imaginou. Portanto, não foi somente no primeiro momento em que se conseguiu transmitir imagens por ondas eletromagnéticas que se inventou a TV. Foi através de um longo processo de desenvolvimento tecnológico que se chegou ao aparelho que desempenhava corretamente a função desejada. Oras! A função que o televisor desempenha foi desejada antes do seu desenvolvimento. Ela não existia como sinapses. Ela existia como ideia! Ou seja, ela existia sem existir. Se vocês quiserem provar-me errado terão que gastar muito mais tutano. Não estou afirmando estas coisas pela primeira vez; foram os grandes nomes da humanidade que o fizeram séculos antes de mim! Então, eu fico aqui me perguntando como a descrição de meia-dúzia de fenômenos naturais convence essa galera de ideologia cientificista a achar que dois milênios de filosofia estão definitivamente superados. Você quer provar que Platão está errado? Vai ter que ser no mínimo tão bom quanto ele. Repetir as bobagens de Richard Dawkins simplesmente não vai colar comigo.

10 comentários:

FelKan disse...

Incrível!!! Você está agora a apenas um passo de alcançar a verdade das verdades!
Acrescente a tudo isso que você disse a necessidade do eu de aprender e evoluir através de incontáveis experiências na matéria! A certeza de que não dá pra fazer tudo numa existência só! E pronto! Pense, raciocine, reflita, acredite, aceite, agora!... AGORA, que esse seu texto ainda está fresco na memória!... e daí meu amigo,... ...e daí você mudará da água pro vinho...
ALELUIA!!!

Henrique Rossi disse...

Sim, vamos aproveitar este momento (aliás, devemos aproveitar todos os momentos). :)

Antes, vamos apenas rememorar que este texto é continuação imediata do anterior: Abaixo o pensamento pseudo-científico!

Neste primeiro texto, fiz a distinção entre pensamento e realidade material. O primeiro não segue nenhuma lei. O segundo é regido por leis imutáveis; princípios físico-químico que nunca se alteraram e jamais se alterarão. Pode-se dizer que, de certa forma, eles contém o "DNA" do Universo.

No entanto, como pode ser que o pensamento não siga nenhuma lei? Eu simplesmente não sei. Apenas constato em minha consciência o que aprendi com o Clauze, prof. de psicologia: penso o que eu quero. Minha razão não é determinada por absolutamente nada. Ela se faz a si mesma diariamente. Ela mesma constrói as leis que segue. No dia que bem lhe convier, ela troca essas leis por outras. A consciência segue somente a ela mesma; faz o que bem entender.

O que você está propondo é outra coisa. Quando você diz que há "a necessidade do eu de aprender e evoluir através de incontáveis experiências na matéria" você enuncia um preceito religioso. Princípios religiosos não fazem parte das leis materais do Universo. Eles compõem uma parte importante do pensamento da maioria das pessoas.

Como católico, penso de forma diferente. Acredito que, como a consciência é livre, a pessoa pode decidir-se por fazer o bem agora. Já que o pensamento é livre para escolher o que bem entender, penso que Deus nos cobrará a respeito do uso que fizemos dessa faculdade fantástica que não compartilhamos com nenhum outro ser.

Portanto, vejo a opção pelo bem como uma escolha deliberada que as pessoas fazem. Penso que, quem faz o mal, decidiu-se ativamente por fazê-lo. Não precisa de várias encarnações para se conscientizar disso. Por que haveria de escolher fazer as coisas de um modo diferente em outra vida se nesta já fez a sua escolha absolutamente livre?

Entende? Estou afirmando que não há coações de nenhum tipo quando fazemos nossas escolhas. E se não há coação alguma, somos absolutamente responsáveis pelas escolhas livres que fazemos. Portanto, nada mais justo que responder pelas coisas que fizemos.

Múltiplas encarnações só seriam necessárias caso eu não tivesse liberdade alguma em decidir-me pelo bem agora, neste exato instante! Já que posso decidir-me com absoluta liberdade pelo bem total com liberdade completa neste exato instante, basta uma vida.

Você pode pensar que Deus proveria múltiplas encarnações porque muitos de seus filhos são "cabeça-dura". Porém, nada mais justo que as pessoas de cabeça-dura paguem pelas consequências de suas atitudes intransigentes, pois, no momento em que se decidiram por elas, tinham liberdade completa de escolher o contrário. Portanto, nada mais justo!

FelKan disse...

Já imaginava que ia dizer que fugi do rumo ou da intenção do tópico... é que eu realmente o vi (ou assimilei) de uma maneira diferente, coisa de momento, deixa pra lá...

Mas você perdeu a chance heim,... mas outras virão...

Henrique Rossi disse...

hahaha Veja Felkan, minha resposta é bastante honesta! Como você responde às proposições que fiz? Será mesmo que sou eu perdendo a chance? :)

D disse...

Achei o parágrafo que demonstra confusão de sua parte dentro do contexto do seu texto:

"Achar que tudo é determinado cientificamente é coisa de quem não tem o menor estudo em humanidades" ...Se as decisões do eu fossem determinadas por fenômenos físico-químicos então não haveria individualidade alguma! Essa visão cientificista já está superada há muitos anos"


Você confunde ciência com determinismo. Ciência é uma forma de abordar o conhecimento. Determinismo é um conceito formado. A ciência não se aventurou na busca pelo espírito ainda, mas é inconcebível pensar que porque a ciência engatinha na abordagem da mente (suposto espírito) ela seja incapaz de fazê-lo.

HENRIQUE! VOCÊ ESTÁ CONFUNDINDO CIÊNCIA COM MATERIALISMO!!!

Henrique Rossi disse...

D,

Acho que as nossas colocações não se encontram porque estamos partindo de pressupostos completamente diferentes. Eu tenho conhecimento histórico. Eu não sigo uma religião que se afirma científica. Meu entendimento do que é a ciência vem dos estudiosos da área. A afirmação de que a ciência não é materialista é algo de um absurdo tão grande que não se pode comentar. Equivale a dizer que árvores se arracam do solo à noite e saem perambulando pela cidade. A ciência lida somente com o material, pois ela mede, analisa e quantifica a realidade material. Portanto, a ciência não faz elucubrações de nenhum tipo sobre o que não pode ser medido, analisado ou quantificado.
A sensação que tenho é que estamos diante de um algo, supomos um automóvel, e eu lhe digo: "Isto é um automóvel". E você me responde: "Isto é um cavalo". Eu lhe digo: "Isto é feito de metal, tem quatro rodas, as pessoas podem entrar nele, dirigi-lo para os mais diferentes locais, funciona à gasolina". E você me responde: "Não! Isso não funciona à gasolina. Isto come feno. Tem quatro patas. Cansa-se após muito exercício". Você está se negando a enxergar a realidade mais simples, óbvia e cristalina.

D disse...

Mais uma vez:

No seu sentido mais amplo, ciência (do Latim scientia, significando "conhecimento") refere-se a qualquer conhecimento ou prática sistemático. Num sentido mais restrito, ciência refere-se a um sistema de adquirir conhecimento baseado no método científico, assim como ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de tal pesquisa.[1]

A ciência é um método. Se ela só estuda a matéria hoje, é porque esse é o foco atual. O que impede que a ciência descubra outros níveis de matéria? Ou até mesmo o espírito?

Entenda. A ciência não é nem materialista e nem espiritualista, ela é um método de estudo.E evolui.

Henrique Rossi disse...

Chega a ser cômico! Sou eu que não estou entendendo!

Ciência não é qualquer conhecimento. Por isso os epistemologistas têm de separar corretamente o sentido das palavras para que não haja confusões. Por convenção, afirma-se que as descobertas científicas são do campo do conheciemnto. Também por convenção, diz-se que os estudos da mente, do pensamento e da razão são do campo do saber.

Portanto, as coisas verificáveis cientificamente, as coisas que podem ser demonstradas materialmente são do campo do conhecimento.

Já as coisas que não podem ser verificáveis, dado que são os próprios cientistas que assim o afirmam (vide, por exemplo, os behavioristas que afirmam que o pensamento não existe), são do campo do saber.

Portanto, por esta razão existem pessoas extremamente sábias que não possuem nenhum conhecimento. Elas dominam vastos saberes. Conhecem o ser humano a fundo, mas não fazem a menor ideia do que seja um átomo.

Da mesma forma, há pessoas que são profundos conhecedores dos processos e fenômenos naturais e que, no entanto, desconhecem completamente as faculdades do pensamento.

Você está dizendo que a ciência chegará ao ponto de afirmar a existência do espírito conforme os ensinamentos do espiritismo. Oras, não há nenhuma necessidade de ficar esperando! Por que é que nenhum espírita começa imediatamente a elaborar experimentos que demonstrem que as proposições espíritas estão corretas? Se as afirmações do espiritismo são tão corretas, se o saber que vocês propõem é tão verdadeiro e acessível que qualquer pessoa bem intencionada pode aprendê-lo em questão de minutos, por que não se começa logo a demonstração científica dos mesmos? Eis a pergunta inquietante: por que é que os próprios espíritas, grandes amantes da ciência que são, não começam logo a comprovar a absoluta veracidade científica do que ensinam? Como pode ser que até agora ninguém tenha montado um simples experimento que comprove as proposições do espiritismo?

D disse...

Você está misturando espiritismo na conversa. Isso significa que é hora de parar o diálogo.

Você acreditando que existam coisas que jamais conheceremos e eu acreditando que não há limites para o saber.

Espero que possamos conviver com essa diferença.

Abraço.
D.

Henrique Rossi disse...

você está se recusando ativamente a compreender a diferença entre saber e conhecimento.

Tudo o que tem uma existência material pode ser descrito cientificamente. Nomeia-se "conhecimento" o resultado destes estudos.

Nada que não possua existência material pode ser descrito cientificamente. Porém, sabemos que o pensamento existe. Nomeia-se "saber" ao resultado destes estudos.

Um campo não se mistura com o outro. A ciência afere quantitativamente as coisas materias. A filosofia, a psicologia, a sociologia, antropologia, especulam o que é o ser humano, o bem, a verdade, a justiça, a mansidão, o caráter, etc.

Além do mais, qualquer um pode ir para o seu blog e verificar por si próprio como estas suas colocações decorrem diretamente da sua interpretação de que tudo o que o espiritismo prega pode ser aferido e demonstrado cientificamente, o que é incorreto. Nada do que o espiritismo prega pode ser quantificado cientificamente. E isso não é demérito do espiritismo. Ele é só uma religião como todas as outras e, assim sendo, deve ser respeitado e tolerado como todas as outras.

Afirmar que as verdades do espiritismo não são confirmadas cientificamente é apenas correto. Da mesma forma, as verdades do catolicismo não são confirmadas cientificamente, à exceção dos milagres que, expostos ao escrutínio de cientistas, foram comprovados, mas não explicados. Ninguém consegue explicar como uma mulher com o defeito uterino da senhora Sandra Grossi de Almeida conseguiu ter um filho. Ela tem o útero bicorne, extremamente mal formado. Apesar disso, mediante a intercessão de Frei Galvão, conseguiu engravidar, o que não pode ser explicado cientificamente. Segundo os parâmetros científicos, um útero como o dela jamais suportaria uma gravidez. Ou seja, reconhece-se cientificamente um fenômeno que não pode ser explicado. Segundo as leis naturais, ela não poderia engravidar e, no entanto, conseguiu-o.

Aliás, não estou trazendo o espiritismo a este campo de comentários. Foi o Felkan que o abriu comentando justamente preceitos religiosos do espiritismo.