Lembram-se das aulas de português do ensino médio? Lembram-se do que significa o termo ambiguidade? Nós o utilizamos para designar as coisas que têm mais de um sentido e que, por isso, não podem ser compreendidas corretamente. A frase título deste texto é, pois, propositadamente ambígua. Pretendo demonstrar os seus dois sentidos separadamente e, assim, deixar claro como um deles é verdadeiro e o outro falso. Para evitarmos a angústia das pessoas que se declaram amantes da ciência, tratemos primeiramente do sentido falso. A frase em questão, "a ciência não significa nada", pode ser dita com o intuito incorreto de afirmar que a ciência é algo desimportante. Mais uma vez vou afirmá-lo explicitamente: isto está incorreto. A ciência é muito importante. Foi com o seu desenvolvimento que se tornou possível o florescimento ininterrupto da humanidade. Através do seu contínuo aprimoramento nossa relação com este belo planeta que habitamos será cada vez mais harmônica. Foi através da descoberta de vários fenômenos fantásticos enunciados pelos cientistas que a expectativa média de vida no mundo só faz subir. A minha opinião sempre foi de confirmar, portanto, que a ciência é arte nobilíssima e precisa sempre ser fomentada e estimulada. A razão principal do atraso do Brasil em relação às demais nações se deve ao seu atraso tecnológico e científico, assim dizem os geógrafos.
Por outro lado, a frase "a ciência não significa nada" está corretíssima. Porém, este segundo sentido não é compreendido se a pessoa desconhece os múltiplos entendimentos do verbo significar, pois é nele que está a polissemia da frase. O sentido que o verbo significar tem na frase incorreta é, como já afirmado, o de que a ciência não tem importância. Toda a sua colaboração à humanidade ao longo de muitos séculos poderia ser desconsiderada pois nada significariam, ou seja, não teriam promovido nenhuma melhora verdadeira. Por razões óbvias, devemos desconsiderar e refutar este tipo de colocação incorreta. Mas o verbo significar, além deste sentido mais próximo da linguagem quotidiana, possui, entre os eruditos, um sentido mais complexo, que é o de ser capaz de dar sentido a algo. Portanto, se substituirmos esta expressão na frase título teremos a correção da ambiguidade e a afirmação de uma grande verdade: "a ciência não é capaz de dar sentido a nada". Isto está corretíssimo, pois a ciência tão somente analisa, mede e quantifica as coisas materiais que, tendo uma existência comprovada por leis físico-químicas, podem ter suas propriedades estudadas. Tudo o que não pode ser cientificamente aferido está, por definição, de fora do campo de estudos científicos. Estão excluídos, portanto, todos os fenômenos que não podem ser quantificados e descritos.
Então se pergunta: o que é que dá sentido às coisas? Quais fenômenos são capazes de estimular nossas paixões, atiçar nossos medos, reforçar nossos bons modos, etc? Oras, todos sabemos que somos nós mesmos que damos sentido às coisas através das ideias correntes em nossa cabeça. O que é, então, uma ideia? Eu não faço a menor ideia! (sem trocadilhos). Sei apenas que não há instrumento no mundo capaz de medi-las. Alguns textos atrás menciono a criação da televisão para se comprovar a inexistência das ideias. Perguntei em que momento o televisor fora inventado. Teria sido apenas no momento em que se conseguiu a primeira transmissão de imagens por ondas eletro-magnéticas? É certo que não! Montou-se um consórcio gigantesco com vários cientistas das mais diferentes especialidades para o desenvolvimento da televisão. Ou seja, a ideia do que um televisor deveria ser existiu muito antes da sua concretização efetiva. Note, portanto, que a TV existiu antes de existir. Havia uma imagem bastante aproximada do televisor antes que sua efetivação fosse concluída. A essa imagem mental chama-se ideia. E quantas não são as imagens em nossa cabeça! O tempo todo recorremos a elas. Inclusive, já comentei algumas vezes que as coisas ao nosso redor também são ideias! Mas como seria isso possível? Um automóvel não é algo objetivo que tem verdadeiramente existência material? Como pode ser ele também uma ideia?
Oras, é porque nós nunca vemos automóveis propriamente ditos. Não existe um automóvel. Existe a ideia do que um automóvel é. A ela recorremos quando vemos um objeto qualquer que a ela se assemelha. Perceberam? Em nossos processos mentais a imagem, ou ideia, vem muito antes da coisa objetiva. Todos os carros do mundo apenas são carros porque evocam a imagem mental que as pessoas têm do que um carro deva ser. Não existe carro em si. Não existe algo que seja verdadeiramente um carro. Posso pegar o metal que compõe um carro e fazer com ele uma cadeira, uma janela, uma caixa de ferramentas. Ou seja o metal que compõe um automóvel não é ele próprio um automóvel. Para ser possível a observação de algo a que se chama carro, nossa mente retoma a imagem mental do que um carro deva ser quando vê algo semelhante. Notem que este carro mental não pode ser cientificamente aferido. Como extrair uma ideia da cabeça de alguém? Em nossa cabeça existem apenas sinapses. Nossas células nervosas, os neurônios, trocam impulsos elétricos entre si. Estes impulsos elétricos efetivamente existem, pode-se medir-lhes a intensidade, a duração, o sentido, etc. Se eu abrir uma cachola não encontro pensamentos lá dentro, eu encontro miolo! Portanto, nossa visão de mundo não depende de algo que a ciência descreva. Depende tão somente das nossas escolhas voluntárias e libérrimas.
Caso nosso pensamento fosse determinado pelos mais variados estímulos externos que nos cercam, não teríamos liberdade alguma. Sabemos, por experiência própria e intransferível, que temos a escolha livre de fazer as coisas de um modo ou de outro. Um cachorro não tem essa escolha. Ele não desobedece um treinador por escolha, mas por imperícia do treinador. Basta aproximar-se de um cão com algo que ele goste de comer para se começar o treinamento dos mais variados truques que eles podem aprender. O ser humano não é assim. Mesmo diante dos estímulos mais positivos podemos agir negativamente. Da mesma forma podemos agir positivamente diante dos mais negativos estímulos. Nossas ações não são determinadas por estímulos externos. Somos nós que decidimos o que fazer livremente. Portanto, damos às coisas o significado que desejamos. A ciência tão somente explica os fenômenos naturais. O juízo que fazemos a partir daí é propriedade nossa, não do fenômeno! Se consideramos algo bom ou ruim é devido ao nosso imaginário, não às faculdades físicas de um determinado objeto. Elaboramos mentalmente o nosso mundo conforme o nosso aprendizado ativo, ou seja, as coisas que vemos ao nosso redor são nossas invenções. Relegar à ciência a demonstração do sentido da vida é tão infantil quanto acreditar em Papai Noel. O sentido da vida é tão somente aquele que para ela escolhemos. Pintamos o mundo com as cores do nosso interior.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
A ciência não significa nada
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