quarta-feira, 28 de abril de 2010

A ignorância praticada ativamente

Por acaso você acha que alguém nasce burro? Estou falando sério. Você é dessas pessoas que acham a burrice uma característica de pessoas pouco inteligentes? Para vocês o oposto da burrice, a inteligência, é uma característica inata que as pessoas possuem por pura sorte? Se a sua resposta é positiva para todas essas perguntas você está erradíssimo. Nem a burrice, nem a inteligência são inatas. Ninguém nasce destinado a brilhar em Harvard. Tampouco existe quem seja destinado a passar toda sua existência como se fosse personagem de propaganda de cerveja: obtuso, primário, rasteiro, simplista e imediatista. Ninguém nasce destinado a nada. Vamos nos tornando quem somos aos poucos através da conjugação de nossa liberdade irrestrita e o repertório que adquirimos no trato com as outras pessoas. Portanto, é a partir do que nos é oferecido que fazemos nossas escolhas. Deliberadamente vamos nos tornando de um tal jeito. Dito isso, pode parecer um contra-senso que haja pessoas estúpidas. Isto está correto. De fato, a existência de pessoas estúpidas é um contra-senso e a razão é simples: não existem pessoas estúpidas. Todas são capazes de tudo. A pessoa que se afirma burra tão somente procura a atenção alheia. Dizer-se incapaz é uma forma induzir o interlocutor a dizer que isso não é verdade. Mesmo a pessoa que aparenta ser estúpida está mentindo. Salvo a exceção de um transtorno neurológico, ninguém tem capacidades menores que ninguém. Fazer-se personagem de comercial de cerveja é um projeto de vida. A pessoa nega deliberadamente a procura pelo saber e abraça um estilo de vida inconsequente porque assim lhe parece melhor. Ou seja, se faz burra porque é inteligente. Portanto, quando você vir o sujeito estacionado a beira-mar, o som do automóvel no máximo, a barriga de chope à mostra, a cerveja na mão, saiba que, até aquele instante, somente este estilo de vida pareceu-lhe atraente. Alguém que repudia o saber simplesmente ignora suas virtudes, não vê beleza na capacidade de entender os fenômenos naturais. Ou seja, não basta abraçar um estilo de vida fútil para fazer-se burra, a pessoa também se nega a aprender. Más notas na escola são problema de psicólogo, não de inteligência. Más notas são uma forma da criança chamar a atenção do seus pais o que, aparentemente, não aconteceria se ela estivesse indo bem na escola. A criança que vai bem na escola geralmente é incentivada pelos pais, elogiada pelo bom desempenho, reforçado no comportamento positivo. A criança que vai mal torna-se viciada na atenção parental, ainda que negativa.

Tudo o que o ser humano faz é feito com liberdade. Ainda que alguém se engane dizendo que agiu de tal forma porque foi coagido, a verdade é que concordamos com tudo o que já fizemos em nossas vidas porque, veja bem, se não concordamos com algo simplesmente não o fazemos. Vocês ficaram sabendo do experimento psicológico francês que media a capacidade das pessoas de se colocar no lugar da outra? Isso foi notícia alguns dias atrás. A equipe de psicólogos montou um estúdio de TV falso onde se encenava um programa de auditório. Um ator fazia as vezes de parcipante que tinha de responder algumas perguntas. A pessoa estudada era colocada diante de um dispositivo com o qual deveria punir o ator com choques elétricos caso ele errasse alguma resposta. Pois bem, antes da gravação do programa a pessoa estudada era informada por um especialista que o grau máximo de choque poderia lesionar gravemente a pessoa que dava as respostas. A direção do programa, todavia, recomendava que a intensidade dos choques fosse sendo aumentada à medida que o falso participante errasse as respostas. Apesar desses dois avisos, a maioria das pessoas estudadas, adultos franceses alfabetizados, decidiu-se por utilizar a carga elétrica máxima no ator sob pressão da direção do programa. Como se tratava de um estudo, o ator não recebia choque elétrico algum. Oras, a maioria decidiu-se a agir de modo delinquente e perigoso. Apenas uma minoria pouco expressiva decidiu não aplicar a carga máxima do choque. Ou seja, quem não concordou em expor outra pessoa ao perigo de danos neurológicos simplesmente não aplicou o choque máximo. Não tem mistério. A maioria das pessoas mexe-se pelo sabor da pressão social. Imagine-se na situação de contrariar o diretor de um programa televisivo durante a sua gravação! Somente pessoas de muito caráter conseguiriam fazê-lo! Só pessoas muito decididas, de muita fibra moral, teriam altivez de dizer não ao aconselhamento perverso que lhe exigia a participação ativa em um ato fundamentalmente mal. Ou seja, requer-se muita coragem para ser bom, enquanto não se requer coragem alguma para fazer tudo o que os outros lhe dizem. Por isso, apesar da nossa completa autonomia psíquica, apesar de podermos decidir fazer somente o que nos dá na veneta, é tão difícil escolher ir contra a opinião da maioria. No caso brasileiro, todos os que se decidem por ser inteligentes estão indo contra a opinião da maioria das pessoas. Em nosso país valoriza-se as pessoas que parecem viver em um comercial de cerveja.

Portanto, mesmo sendo burros como um porta, mesmo odiando o saber e o estudo como tão avidamente o fazemos, mesmo transformando o personagem de comercial de cerveja no arquétipo máximo do que deve ser o bom comportamento, sentimo-nos no direito imundo de considerar os portugueses burros! Vá lá pra Portugal ver se têm favelas. Vá lá ver se têm as ruas imundas. Vá lá ver a taxa de analfabetismo deles. Burros somos nós! Somos nós, brasileiros, que achamos lindo o que frequentemente se expõe nos programas dominicais. Somos nós que não mudamos de canal quando expostos ao pior tipo de vilania e corrupção moral. Somos nós um dos povos menos afeitos à leitura no mundo. E não tem ninguém nos coagindo à burrice. Ninguém nos proibe de ler livros. Ninguém nos proibe de ser estudiosos. Somos nós que deliberadamente nos afastamos do saber, preferindo, em seu lugar, os estímulos mais imediatos e impulsivos. No meu ponto de vista, o mais triste é o fato de o escolhermos assim. Somos livres para escolher o máximo, mas o preterimos em função do mínimo. Pelo menos é assim que vejo esta questão. Imagino que a pessoa que se decidiu por um estilo de vida imediatista e inconsequente considere esta escolha mais sábia. Então vemos que, apesar do nosso pensamento ser radicalmente livre, o meio nos influencia. Quem sabe tivesse sido apresentado a esta pessoa um esquema de vida mais responsável e menos imediato ela o admirasse? Talvez ela tenha se decidido pela burrice por não ter visto atrativos na inteligência. Enquanto para ser burro basta a latinha de cerveja na mão, fazer-se inteligente demanda muito estudo. Vemos cada vez mais como esta questão é, no fundo, moral. Precisa-se de muitas qualidades morais para negar-se a fazer o mal. Precisa-se de muita fortaleza para contrariar a opinião da maioria. Precisa-se de muita sabedoria para escolher um estilo de vida que dê menos prazeres fugazes. Em suma, fazer-se uma pessoa inteligente tem um custo social alto. A maioria se decide por ser burra porque assim é mais fácil, dá menos trabalho, causa menos incômodo. Mas e quanto a você? Imagino que você não se queira burro(a). E para não sê-lo a primeira coisa a fazer é perder o medo de contrariar os outros. A isto chama-se autonomia. Você tem que se permitir ser dono do próprio nariz. Não se pode voar daqui pra lá e de lá pra cá como uma borboleta ao vento. Não preciso dizer que isto é para imbecis. Se você não se decidir por uma atitude firme e corajosa, sua vida até poderá ser bonita, mas será tão rasa e estúpida quanto um comercial de cerveja.

8 comentários:

Ricardo Novais disse...

Este seu texto é excelente, embora tenda as definições do "Imbecil Coletivo" do velho Olavão.

Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade tudo parece pessimista.

Se o sujeito começa refletir os pensamentos, vindo à ideia, e esta ligando a outra insurgente que vira axioma racional (ou não) e, talvez, chegue a uma conclusão plausível que, poderá, ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias que, no entanto, por certo fizeram o mesmo processo do pensar inteligente. Ou seja, constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa -como você disse. E é isto, quiçá, que acarrete na angústia e no decorrente pessimista.

É, meu caro amigo Henrique, é melhor ser burro mesmo. Cadê minha cerveja?

Henrique Rossi disse...

Ah, não diga isso! :)

Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia! rs..

Vê-se que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo! rs..

Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com forca em nossa terra (eita, meu teclado surtou), o atual avanço do cristianismo na televisao tera fortalecido a fe das classes medias baixas. O Portugal que existe em nos prosseguira depositario da fe verdadeira!

Ricardo Novais disse...

Sim, caro Henrique, foi mesmo uma ironia - talvez pouca refinada, rs.

Você tocou no ponto crucial: os nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...

Desgraçadamente não tenho este seu otimismo quanto ao futuro. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente "esvaziando" esta nossa sociedade... Aí fica fácil para um crente muçulmano tomar conta de tudo daqui algum tempo; poxa vida!

Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaíco-cristãos! Mas com moderação...

Henrique Rossi disse...

Mas deixa eles. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem um grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.

Mas não pense que sou muito otimista não! :) Acho que esse tro-lo-ló pseudo-científico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em um tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor! :)

Ricardo Novais disse...

Sinceramente, não percebo que o Brasil está atrasado com a 'ideologia' do mundo ocidental.

Vejamos a nossa Carta Magna, esta recente 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos nossos valores e identidade genuína (não copiada de algum francês irresponsável), renegamos como 'caretice' e ideia ultrapassada.

O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto - pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação; como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia".

Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma.

O ateísmo oarece problemática já superada. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...

Antes, embora também tenha problemas estruturais internos, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar e amparar o indivíduo - mesmo com quase dois séculos de pura superficialidade deste povo, sem que nenhuma criatividade original surgisse (e ainda não surgiu) nestas terras.

Perceba que não defendo religião - embora seja de orientação católico - nem o ateísmo; defendo os valores. A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria.

As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar - com seus dramas, comédias, reflexões... Mas "Estado laico" é tirar o direito do indivíduo (religioso ou ateu) de viver, e de um povo de formar seu alicerce para poder criar, enfim, uma cultura original.

Muda-se a roupa, mas a ideia permanece.

Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!

Henrique Rossi disse...

É, realmente estes srs. se superaram no quesito bobagens.

Já quanto às interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.

O Olavo também não curte a Constituição de 88?

Ricardo Novais disse...

Eu creio que não, mas por outros motivos. Acho que o professor Olavo vê o positivismo com outros olhos; talvez não dê a importância ao tema "francês".

Quando eu estudava matéria de Direito Constitucional, no segundo ano da simplória faculdade de direito da Unip - realmente este curso lá era ruim naquele tempo, creio que aina seja... - percebi que o mote do positivismo tornara.

Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.

Gostava de história, de boas histórias como as do "Prata Preta" e do "João do Rio", de modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado. Descobri o positivismo, que depois retomei desde a faculdade da Unip - como disse.

Não tenho nada contra a França, em absoluto. Mas entristece-me, no meu modo de perceber, que a culpa desta geração Y - já foi assim na X e com os Baby Boommers -, em quase toda a América, abraçou este pensamento cientificista e fútil.

O genial Machado de Assis foi um notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anso que o 'velho bruxo do Cosme Velho' e não consta que tenha mudado muito - o saldo parece pior, inclusive.

Caro Henrique, sem querer fazer propaganda em blogue alheio ou entediá-lo em demasia, mas indico um livro alojado na internet: O Boêmio (http://oboemioricardonovais.blogspot.com/).

É um romance, difícil dizer a qualidade literária, no entanto, é todo fundamentado na sociedade positivista deste pais, qual poderia ter sido, mas não foi; e pode ser, mas não é.

Abraço,

Henrique Rossi disse...

Ah, mas eu já estive no seu blog! Tanto que ele está indicado para os leitores do polimático. Já folheei O Boêmio, inclusive. Apenas não conclui a leitura.

Achei muito legal isso:

Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.

Eu também pensava a mesma coisa do positivismo! Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.

Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.

Veja, tenho em casa uns 4 vasinhos com o mato quebra-pedra, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o quebra-pedra pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho (não nos ouça o Ibama! rs..). Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o quebra-pedra. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos supreendendo! :)