Lembrei-me de uma história interessante. Alguns anos atrás eu ainda estudava cinema na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. De vez em quando eu tomava o Sampaio e vinha pra Taubaté, minha cidade natal, terra de meus familiares e amigos. Algums vezes eu perdia o último ônibus direto para Taubaté. Quando isso acontecia, eu pegava o Cometa que ia para São Paulo e descia no meio do caminho. Em uma dessas ocasiões havia um grupo de rapazes um pouco mais jovens que eu conversando animadamente. Não me lembro porque comecei a conversar com eles mas, alguns momentos depois, eu também participava daquela conversa. Gostava muito de arrumar alguém com quem conversar pois estas eram viagens muitos longas. Eram todos jovens de uma mesma denominação protestante. Viajavam para algum encontro da sua congregação. Um deles estudava para ser pastor. Não eram desses crentes radicais. Eram rapazes normais, entusiasmados e simpáticos. Depois de algumas horas de viagem um deles me perguntou se eu tinha religião. Mal ouvi esta pergunta e intui que eles não gostariam da minha resposta. Pensei comigo mesmo que bastaria dizer-me católico para a conversa mudar de rumo e eles começarem a tentar me converter. Para minha surpresa, reagiram alegremente quando me disse católico. O que estudava para ser pastor disse-me que o catolicismo era uma fé muito bonita, de muita coerência. Aquela resposta me surpreendeu pois o tempo todo me pareceram muito convictos. Todos sabemos que os protestantes bastante convictos são notadamente intolerantes, especialmente com o catolicismo. Mas eles não o foram. Depois que chegou minha parada e eu desci, fiquei pensativo sobre aquela conversa. Estava contente com a atitude respeitosa deles. De fato, acho que me lembrei dessa história porque tenho pensado muito nessa questão do respeito. Inicei o blog num momento muito conturbado da minha vida. Eu estava absolutamente revoltado com a atitude odiosa da imensa maioria dos professores do Anglo Taubaté. Estava estudando para o vestibular de medicina pois havia me decidido a mudar de área. Os professores desta escola foram os tipos mais intolerantes e desrespeitosos que já conheci em toda a minha vida. Posso afirmar sem exagero algum que conheci as piores pessoas de toda a minha vida no Anglo Taubaté. A maior preocupação deles é com a disseminação dos ideais revolucionários. Acreditem. Eu estava pagando para receber formação marxista, abortista, hedonista, ateia e, no pior dos casos, nazista. De fato, trata-se de um episódio sombrio. O lado bom foi a criação deste blog que, em pouco mais de 10 meses, recebe mais de 400 visitantes diários de todo o Brasil e temos até mesmo alguns amigos estrangeiros.
Notem a diferença central entre os dois episódios narratos. No primeiro, descobri-me respeitado e aceito na minha posição de católico. No segundo, senti-me vilipendiado pelo que de pior há no mundo em matéria ideológica. Imaginem a minha surpresa quando percebi que a motivação central dos professores é convencer os alunos a abraçar um estilo de vida que prega a destruição de pessoas como eu. Não conseguia esquecer os absurdos que eles diziam em sala de aula. Constantemente me desconcentrava nos estudos. Sentia raiva e vergonha. Fiquei muito triste ao perceber que ali havia uma massa de jovens despreparados e imaturos cujas cabeças eram feitas por profissionais da intolerância e do desrespeito. Portanto, quando comecei o blog estava tomado por uma grande agitação interna. Ao invés da minha serenidade característica, eu deixava transparecer nos meus textos um ponto de vista exageradamente preciso, muitas vezes ácido. Sabia que não estava sendo eu mesmo mas, como não conseguia conter minha revolta, permiti-me destilá-la ao máximo na tentativa de aliviar meu incômodo. Algumas vezes fui mal interpretado, mas qualquer um poderá verificar como jamais fui intolerante. Mesmo os textos mais mal-humorados tratam as diferenças respeitosamente. Já faz alguns meses que estou mais tranquilo. Continuo decidido a combater as odiosas ideologias intolerantes, mas agora o faço com minha atitude costumeira. Certamente me relembrei daquela viagem para Taubaté porque retomo em minha vida tudo que aquele episódio significou: tolerância, cordialidade, civilidade e, acima de tudo, respeito. Sinto que estas palavras estão na boca de muitas pessoas que não as praticam. O prof. de redação do Anglo falava muito que deveríamos sempre defender a tolerância em nossos textos mas diversas vezes o peguei falando radicalmente contra os príncipios morais que norteiam minha vida. Para ele, um amanhã melhor só será construído depois da destruição do cristianismo. Saibam que este episódio não foi nada perto dos outros. Ainda me pergunto como podem meus conterrâneos ignorar completamente a absurda e escandalosa situação de uma das escolas de maior prestígio em nossa cidade. Não sem dificuldade vemos quão longe o mais pérfido e daninho mal consegue estender seus tentáculos diante da ignorância ou pouco caso das pessoas de bem. De fato, fiz uma opção deliberada por não me abalar com tudo isso, mas falo do Anglo Taubaté com grande sinceridade todas as vezes que tenho a oportunidade. Não acredito que devamos nos silenciar diante do mal. Quanto mais nos calamos por mais longe ele se estende. Devemos trabalhar pela construção de uma sociedade cada vez mais tolerante, onde pessoas diferentes possam divergir civilizadamente. Muitas vezes o ser humano nos surpreende para o bem, como naquela animada viagem para São Paulo. Mas não podemos nos calar covardemente quando o ser humano nos surpreende para o mal, como experimentei a duras penas no Anglo Taubaté. Mesmo quando for impossível sorrir devemos continuar. O silêncio é a arma dos covardes.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Mesmo quando for impossível sorrir
Assinar:
Postar comentários (Atom)
5 comentários:
Aquela história do livro sobre o Rainha, aconteceu no colegio que meu sobrinho estudava. Quando meu cunhado leu aquilo ele ficou possesso, afinal o Rainha é um procurado da justiça, condenado e continua fazendo o que bem entende. Meu cunhado imediatamente pediu uma reunião com professores e coordenadores do colegio que ele gostava e até estudou durante toda a sua vida. Os professores falaram que o que estava escrito era aprovado e revisado por varios professores, mas meu cunhado não aceitou a explicação dada por eles, é claro!
Tirou meu sobrinho do colegio. Isso que ensinam é assustador, tudo que ensinamos em casa é jogado no lixo dentro de um colegio que vc acredita vai ser o melhor para os filhos. Até é bom aprender que não podemos deixar que as coisas tomem um rumo errado, mas ensinar que um bandido é ícone da revolução campesina brasileira, é demais, porque de longe o mst é algo para ser copiado, porque há muito tempo eles perderam o foco do objetivo verdadeiro, invadindo e destruindo fazendas produtivas. Alem disso, invadir NUNCA é certo, é o que penso!!
É isso!
Essa realidade parece cada vez mais comum. Enquanto a maioria dos pais não fizer nada, não reclamar, vai tudo continuar na mesma.
Obrigado pelo comentário!
No twitter eu errei, coloquei o nome do Stedile e na verdade é o Rainha. Desculpa a falha, mas efim, são todos iguais, não é?
Ô se são! :)
A verdade é sempre um remédio meio duro Ariel.
O rapaz que você mencionou ignora a mais simples realidade. É mesmo incrível como se podem fazer leituras equivocadas dos acontecimentos. Não fui desrespeitoso com a mãe dele. Essa alegação chega a ser cômica. São várias as pessoas ao redor dele que dizem que ele não sai de lá na tentativa deliberada de controlar a vida da mãe dele. De fato, não sei nada sobre a vida dela. Estava criticando ele que, inclusive, obrigou você, Ariel, a uma manifestação incisiva, radical e muitíssimo necessária, pois estava-lhe faltando o mais simples juízo e noção da realidade.
O que me deixa impressionado é essa tendenciosidade que sempre afirma o rapaz em questão correto. Você questiona os meus motivos, mas consegue relevar os dele, verdadeiros absurdos, com a maior naturalidade. Interessante como se pode ter dois pesos e duas medidas.
Postar um comentário