sexta-feira, 16 de abril de 2010

Para se distinguir os gritos histéricos

O Clauze, meu falecido prof. de psicologia, dizia que os loucos são perfeitos. Queria dizer, com isso, que no pensamento da pessoa insana não há lugar para contingências, apenas necessidades. Ou seja, o louco guia-se por algo mais forte que a mais absoluta certeza: a imperiosidade. As pessoas comuns estão naturalmente mais dadas às incertezas, às imperfeições, às flutuações de humor, ou seja, às contingências. A pessoa saudável se entristece com a morte de um parente, se alegra ao ganhar na mega-sena. O doente é menos maleável. Neste sentido é mais perfeito. Como já escrevi algumas vezes, o animal faz somente o que lhe parece melhor num dado instante. De certa forma, é assim que age o louco, tamanha a perda de liberdade em seu pensamento - ele vive em um mundo próprio. Ainda que não tenha alucinações, ele interpreta as coisas deste mundo de modo a satisfazer as necessidades de seu imaginário. O louco procura deliberadamente sinais de que está certo, pois receia que o mundo não seja exatamente como ele imagina. A pessoa saudável é, de certo modo, mais acomodada. Contenta-se em fazer as coisas da melhor maneira possível. De fato, digam-me vocês, que mais ela pode fazer? Que mal há em dar o melhor de si em tudo o que faz? Por que é que o mundo valoriza cada vez mais a loucura? A cada dia que passa, parece mais forte a ideia de que o correto é ser louco, pois só assim se poderia mudar o mundo verdadeiramente. A cada dia que passa, parece diminuir o prestígio da pessoa mentalmente estável. O correto seria viver uma vida desregrada, dada a excessos de todo tipo, prazeres fantásticos, conquistas invejáveis. Onde está o gosto pela normalidade? Onde está o reconhecimento pelo esforço quotidiano? Propõe-se a todo instante soluções mágicas, risos histéricos. Ninguém parece mais admirar o trabalho silencioso, a discrição. Ninguém mais vê beleza na imperfeição de um sorriso gratuito. Todos parecem viver somente o desejo de gritar um prazer infinito que nunca vem. Todos nutrem a ilusão de viver uma completude irretocável, como se de algum modo pudessem obtê-la. É um mundo de cristais e espelhos: um labirinto onde se procura uma realidade que caiba com perfeição nos olhos. Ninguém parece disposto a encarar-se como de fato é. Todos nutrem um desejo de ser algo que não são. Eis o que as pessoas deste mundo vivem a todo instante: uma mentira infernal. É a ela somente que obedecem. Fazem dela a sua necessidade. Esquecem a beleza de uma vida feita de alvoradas e crepúsculos. Querem apenas o que é mais brilhante e imediato. Deixam-se enganar pela sereia. Abraçam a própria ruína. Recusam-se a pensar. Vivem o que a sociedade impõe. Fazem da voz alheia a própria voz. Antes vegetassem, pois estariam fazendo apenas o que lhes era próprio, mas como são gente, deixam-se conduzir ao mais triste engano que existe: aquele cometido contra si próprio.

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