terça-feira, 11 de maio de 2010

A beleza - mistificação ou realidade?

Será que não consideramos, todos nós, que algumas coisas são belas? Será que não notaremos um dramático contraste ao compararmos algo que consideramos belo a outra coisa a qual sejamos indiferente? Não se destacará o belo diante dos nossos olhos? Ao compararmos, por exemplo, um carro da última geração, desenhado pelo mais conceituado estúdio europeu, a um carro ordinário projetado por engenheiros do terceiro mundo não teremos diante de nós uma brutal diferença estética? Não é no mínimo curioso que automaticamente consigamos atribuir a este ou aquele design algumas características? Este é moderno, este é ultrapassado, este apela aos jovens, este apela às mulheres, este apela aos homens de meia-idade, este apela ao jovem adulto rico. Como pode se dar isso? Que estranho fenômeno de comunicação permite esta identificação tão rápida entre traço e intenção? E pensar que isto ocorre em absolutamente tudo que está ao nosso alcance. Atribuimos características não somente aos carros, mas também às roupas, aos objetos de uso doméstico, aos aspectos urbanísticos das cidades, etc. Simplesmente a tudo o que foi criado pelo homem podemos desvendar as intenções de autor.

Curiosamente, é tamanho o nosso expansionismo psicológico, que até mesmo às coisas que não foram criadas por nós atribuímos características psicológicas. Quem não sabe reconhecer facilmente a mulher mais bonita dentre um grupo de donzelas? É claro que ocorrem algumas discordâncias neste ponto, mas geralmente há um consenso bastante claro entre quais são as moças mais belas. E pensar que não ficamos apenas atrelados a estes aspectos físicos. Também atribuímos valores nossos a todo o resto da natureza. Categorizamos e simbolizamos todos os tipos de flores, por exemplo. Algumas são usadas para presentear alguém nos momentos de dor. Já outras são mais adequadas aos momentos alegres. Presentar uma mulher com flores inadequadas à circunstância momentânea pode render certo desconforto nas moças mais sensíveis. E, é evidente, não paramos nas flores. Até mesmo aos conjuntos de nebulosas interestelares podemos atribuir diferentes valores. Esta transmite paz, esta outra transmite inquietação e desconforto, etc. Notem que, ainda que ocorram algumas discordâncias por questões culturais, o consenso sobre quais coisas são mais belas em relação a outras parece bem estabelecido e, por que não dizê-lo?, natural.

Sim, sabemos diferenciar coisas belas de coisas menos belas sem problema algum. E só o fazemos porque podemos compará-las a um padrão, algo objetivo, que contém em si as características belas. Algo que é o belo por natureza. Ao que muito poderão argumentar: "Isto não existe! O belo é tão somente uma construção individual e/ou coletiva e, como tal, histórica, não sendo algo que tenha uma efetiva existência independente". De modo algum afirmaria que não há profundos aspectos históricos na nossa percepção estética. Conforme afirmei no texto Aletheia - da construção da verdade à sua implosão, o homem é fundamentalmente histórico. O tema principal daquele texto é a relação do homem com a noção de verdade, mas também lhe cabe a discussão da beleza, pois ambas têm aspectos históricos. Em ambos os casos, a compreensão do que é verdadeiro ou, neste caso, belo, sofre variações. Mas tanto lá quanto cá sou obrigado a afirmar que, além destas pequenas distorções históricas, paira sobre o homem a necessidade da verdade e da beleza que, caso fossem unicamente construções nossas, não poderiam em absoluto ser nem verdade e nem beleza. Seriam tão somente fantasias ou, melhor dizendo, pequenas mentiras que contaríamos a nós mesmos para nos agradar.

Em verdade, não é isso que experimentamos ao nosso redor. Se não houver uma verdade efetiva, nada pode ser efetivamente verdadeiro, o que legitimaria e validaria quaisquer atos já praticados. Sacrifícios humanos, por exemplo, não seriam naturalmente maus. Seriam apenas mais um modo de expressão cultural dentre vários. Bastaria que um determinado povo voltasse a praticá-lo para que eles se tornasse mais uma vez correntes entre os homens. Na questão da verdade, é evidente, se não há verdade absoluta, pode-se extinguir todo e qualquer sistema jurídico, pois todas as leis seriam apenas instrumentos de dominação através dos quais alguns homens impediriam outros de possuirem seus bens (aos que desejarem aprofundar-se nesta questão da verdade, recomenda-se a leitura do texto Doxa, a grande inimiga da verdade). Ora, não estamos verdadeiramente convencidos de que é o sistema legal que garante a institucionalidade estatal mínima sem a qual nenhum agrupamento social seria possível? Arrisco dizer que, assim como é evidente que há verdades absolutas objetivas, que podem ser conhecidas racionalmente, também há padrões estéticos fundamentais, com os quais qualificamos todas as coisas. Pode-se chamar o seu mínimo denominador comum de beleza, algo que, assim como a verdade, tem uma existência objetiva e está ao alcance dos homens em todos os momentos históricos, por mais diferentes que os agrupamentos humanos tenham sido entre si.

Portanto, assim como não podemos emitir nenhum juízo sobre o que é certo ou errado sem apelarmos ao conjunto de preceitos universais que devem reger a vida humana (a verdade), não podemos emitir nenhum juízo estético sobre o que é belo ou feio sem apelarmos ao conjunto de preceitos universais que regem nossa valoração da realidade (a beleza). Notem que todas estas colocações versam apenas sobre a existência efetiva destas qualidades. Não fiz até agora uma só afirmação sobre o tipo de existência que elas possuem. Não afirmei, por exemplo, se são apenas produto da seleção natural de nossa espécie após milhões de anos de evolução. Tampouco afirmei se são ideias imateriais a que somente o homem, por virtude da sua razão, é capaz de atingir. Afirmo-o deliberadamente que sou muito mais favorável à segunda hipótese, mas não estou escrevendo sobre a natureza da beleza ou da verdade. Essa discussão demandaria um texto muito maior. Percebam que apenas a constatação simples de que verdades e padrões estéticos universais já é absolutamente radical. O mundo contemporâneo advoga o relativismo completo fazendo dele uma verdade indiscutível. Mas, como tantas vezes perguntei, como se pode afirmar que algo é correto ao mesmo tempo em que se nega que qualquer coisa pode estar correta?

O mundo vive, portanto, uma contradição terrível, pois o pensamento de muitas pessoas de destaque na sociedade contemporânea foge da constatação simples e honesta de que há universais. Essas pessoas pretendem viver como lhes parece melhor, e têm horror à ideia de que o modo como vivem é objetivamente incorreto. Que alguém se arvore a desmascarar seus intentos e apontar-lhes sua incorreção é algo que elas não podem em absoluto admitir, mas muitas vezes isso é necessário. Como se negar a desmascarar a delinquência editorial do jornal O Estado de São Paulo conforme apontado no texto anterior? Certamente eu preferiria não precisar dizer que alguém está errado, mas se este alguém começa a advogar a destruição de virtudes que eu tenho como universalmente boas como poderei me calar? Infelizmente me vejo várias vezes na desconfortável posição de precisar apontar às pessoas os seus equívocos, mas nunca o faço quando elas agem mal na esfera pessoal. Manifesto-me apenas no momento em que elas começam a pregar a destruição das qualidades positivas do mundo que nos cerca. Nestas cirscunsâncias, ainda que muitas vezes eu sofra duras e injustas represálias, não me calarei, nunca foi do meu feitio agir de modo covarde.

De fato, não compreendo porque várias pessoas têm tanta má vontade em perceber a verdade e a beleza objetiva que nos cercam. Será que não conseguem perceber o conforto imenso que esta constatação proporciona? Senão, digam-me, qual situação é mais confortável? Saber-se movido por princípios fundamentalmente verdadeiros e belos ou, através da negação ativa dos mesmos, ver-se desprovido de qualquer certeza? Não é evidente que ao negar-se a verdade e a beleza universais tudo o que se têm são dúvidas? É certo que não se deve acreditar em nada apenas porque a maioria o faz, mas também não é sincero furtar-se ao estudo dos clássicos que nos legaram tamanho patrimônio cultural. Em ciência, seria o equivalente a negar-se a receber o remédio que nos salvaria a vida. Ora, negar-se a aprender as estupendas descobertas morais que nos antecederam é tão estúpido quanto negar-se a receber a medicação adequada para uma determinada doença. Em ambos os casos estaríamos diante de uma situação infeliz, onde a pessoa não se permite mover pela razão. Tanto que, conforme escrevi em muitos outros textos, as "filosofias" que negam verdades fundamentais pretendem-se deliberadamente irracionais. De fato, a constatação mesma da nossa razão permite-nos conclusões fantásticas.

Assim, é somente através da negação ativa da razão humana que se pode afirmar a inexistência de padrões de beleza e verdade. Somente seres irracionais não alcaçam o certo ou o errado. Logo, toda e qualquer conclusão racional feita a partir da realidade é negada por essas "filosofias" perturbadas. Elas advogam tão somente a bestialização do homem. Todo o resto deve ser combatido. Mas, perdoem-me a astúcia, como pode a bestialização do homem ser o correto se nada mais poderá sê-lo? Note que está vetada ao homem a negação de sua razão pois, mesmo quando pretendemos negá-la, só o fazemos afirmá-la! Portanto, dizer que não devemos viver segundo a razão não apenas está incorreto, como é também uma mentira intelectualmente desonesta. A razão nos precede, ela é uma faculdade fundamental do ser humano. Infelizmente, a sua negação surge como produto de equívocos fenomenais a que as pessoas se sujeitam quando se oferecem à desonestidade ativa destes autores inescrupulosos que querem fazer do homem só mais um animal. Notem como a verdade e a beleza são eficazes antídotos à essas armadilhas mal-intencionadas. O reconhecimento honesto da existência inequívoca destes universais favorece a inteligência, oxigenando sua atividade. O mais continua o que sempre foi: tormentos de pessoas que correm atrás do próprio rabo.

4 comentários:

D disse...

Seu texto está muito bom. No Twitter, você me ofereceu a chance de refutá-lo no que tange a verdade sobre padrões de beleza e cá estou eu. Creio que você tenha misturado óleo e água em uma mesma caneca. Explico.

A verdade é a realidade única. Aquela que por hora desconhecemos, mas podemos perceber através do comportamento. Certo e errado se mostram a nós através de causa e efeito. Moralmente falando acredito que o planeta tenha se movimentado com os prenúncios dos mestres, como Jesus, por exemplo. Então, sobre a verdade, há de haver aquela que nos rege os comportamentos ainda que possamos nos movimentar por ela devido ao nosso livre-arbítrio.

Já a beleza é uma definição abstrata. A beleza é o fator que nos proporciona prazer. E nossa individualidade nos permite encontrar beleza em inúmeros aspectos das coisas que nos rodeiam. A beleza é por si só subjetiva. Como apreciar um quadro abstrato? Porque uns vão gostar e outros não? Podemos dizer que existe harmonia num corpo esbelto ou num quadro de Reembrandt, mas como explicar a beleza de um rosto envelhecido? Ou uma obra de Picasso? Eu diria que a beleza está ligada à sensações mais etéreas ainda, como o amor.

A beleza é sentida não é determinada. E o sentir está atrelado a uma quantidade imensa de fatores variáveis que uni-los a um padrão pré-estabelecido seria apenas diminuir a capacidade humana de sentir.

Henrique Rossi disse...

Oi D,

Obrigado pelo comentário.

O que pretendi com este texto foi justamente demonstrar como a beleza não é exclusivamente subjetiva. Conforme reconheço no texto, ela tem aspectos indubitavelmente históricos (De modo algum afirmaria que não há profundos aspectos históricos na nossa percepção estética). Este é o seu caráter subjetivo, aquele que está sujeito às mudanças na percepção dos homens das diferentes eras.

Ocorre que, fosse a beleza unicamente histórica, não haveria uma beleza em si ( Se não houver uma verdade efetiva, nada pode ser efetivamente verdadeiro, o que legitimaria e validaria quaisquer atos já praticados). Como fiz questão de deixar explícito, esta mesma idéia referente à verdade aplica-se à beleza que, caso seja unicamente histórica, não teria nenhum padrão seu compartilhado pelos homens. No entanto, sabemos que não é assim. Ainda que vários valores sejam diferentes conforme as diferentes culturas, há toda uma ampla série de estranhas coincidências que evidenciam o patrimônio comum. Caso a beleza fosse unicamente subjetiva, não haveria a ideia de beleza com a qual comparamos todas as coisas. De fato, esta colocação não é nada original. Fiz tão somente uma síntese da compreensão metafísica da beleza.

D disse...

Eu penso que a beleza não está ligada ao objeto, mas ao obserador.

Henrique Rossi disse...

Bem...

O texto nunca afirmou, nem sequer insinuou, que a beleza é uma propriedade do objeto..