Já escrevi toda uma vasta gama de textos que demonstram, sem grandes dificuldades, que o homem não é um animal. Ainda que nossos fenômenos biológicos sejam extremamente semelhantes aos dos animais, o homem, diferentemente deles, significa o mundo ao seu redor, atribuindo às coisas um sentido que elas não possuem em si. Além do mais, o homem é capaz de atuar na natureza, sempre desenvolvendo modos de melhorar sua vida. Reconheço, porém, que para uma pessoa não iniciada em filosofia este é um conceito muito sofisticado, pois a maioria das pessoas simplesmente ignora que, no centro das suas decisões, elas estiveram absolutamente livres para escolher qualquer rumo. A maioria prefere responsabilizar os outros pelas suas decisões. Mantém-se escondidas, assim, muitas coisas que ela, a maioria, prefere que nunca vejam a luz do dia. São os famosos recalques, as sublimações de verdades muito profundas que, por sensibilidade, a maioria prefere não enfrentar, pois encarar-se de frente, com todos os seus defeitos, é um gesto de grandeza moral do qual somente pouquíssimos são corajosos o bastante para fazê-lo. A maioria é covarde, prefere a mentira à verdade.
Atribuindo, pois, a outros a responsabilidade por suas decisões livres, a maioria das pessoas mascara o assentimento que deram à escolhas de gosto extremamente duvidoso que fizeram. Recusando-se a ver a verdade simples de que foram elas mesmas as grandes responsáveis pelos eventos dramáticos de suas vidas, a maioria acaba achando-se refém de situações difíceis que, se não deveriam estar sob o seu controle, certamente sempre estiveram sob a sua responsabilidade imediata. Eis o nó central da questão. A maioria não quer reconhecer a responsabilidade de suas escolhas. É mais fácil, então, achar que tudo o que se fez é culpa de circunstâncias terríveis que a forçou a tomar decisões extremas. Qual a consequência mais funesta desse ponto de vista extremamente equivocado? Certamente, o maior desastre intelectual decorrente dessa irresponsabilidade ativa é achar que não se teve liberdade quando se decidiu tomar uma decisão questionável. Agindo desta forma, a maioria procura se eximir das consequências de seu atos medonhos. Sendo, portanto, mais fácil esconder a real responsabilidade de suas atitudes, a maioria acaba concluindo que não foi livre em muito do que fez ao longo de sua vida.
Então, a maioria logo acha que não costuma agir de maneira muito diferente dos animais, pois eles também não têm liberdade nenhuma. Eles também são reféns das coisas que outros decidiram por eles. Ora, esta é uma conclusão absurda! Ainda que não se possa fazer tudo o que se deseja fazer, é certo que se tem responsabilidade por tudo aquilo que se fez. Como negar a liberdade de que qualquer um está efetivamente presente em tudo de que participa? Seria, e é, uma mentira horrorosa. Estaria-se escondendo deliberadamente uma grande verdade: a de que o homem é capaz de dar às coisas a sua volta o sentido que bem entender, pois os significados que elas possuem não são uma consequência de sua natureza material, em si indistinta, mas uma propriedade das escolhas libérrimas do homem. Portanto, é somente através da negação deliberada de que o homem não é livre em sua atuação no mundo que se chega à conclusão absurda de que o homem é só mais um animal como outro qualquer. Ora, ao contrário dos animais, o homem é livre. Ele faz o que quer. Ele dá as coisas o sentido que bem desejar. Ainda que a natureza o influencie, é ele que lhe dá o sentido que ela tem, e não o contrário.
O homem está em tudo o que faz. É capaz de agir com premeditação. Um cachorro nunca premedita nada. Ele sempre decide o que fazer a cada momento através dos seus instintos. O homem, ainda que possua instintos, é capaz de dominá-los. Quem negue esta faculdade evidente e primária é apenas um ignorante. Mas não é somente isso. O homem é ainda capaz de inventar coisas que nunca existiram, pois, deformando os elementos naturais, o homem cria instrumentos que lhe permitem tornar sua vida mais fácil e conveniente. Mais uma vez, quem o negar está apenas negando verdades fundamentais, o que é sempre lamentável. Senão, como seria possível o fenômeno dos esportes? Ora, nada menos natural que preparar-se para uma competição desportiva. Contrariam-se todos os princípios biológicos fundamentais: come-se menos (ou mais), exercita-se de um modo evidentemente contrário ao metabolismo natural do organismo, contraem-se lesões gravíssimas o tempo todo. Ora, que animal atua desta forma contra si próprio? Nenhum! Não há sobre a terra um só animal capaz de comer menos (ou mais) que o indicado pelas suas faculdades instintivas, exercitar-se mais que suas necessidades imediatas ou ainda fazer deliberadamente algo que lhe cause dor.
Pois o homem é capaz de abraçar a dor! O homem é capaz de contrariar ativamente os impulsos mais primários e imediatos de seu sistema fisiológio. É capaz de ser monogâmico quando seu instinto de preservação da espécie parece recomendar-lhe o contrário. É capaz de ficar sem comer diante de um prato de sua comida favorita após muitas horas em jejum. É capaz de negar seu impulso sexual. É capaz de controlar seu esfíncter para não defecar em qualquer lugar, como, bem o sabemos, os animais sempre fazem. É capaz de ficar acordado após muitas horas sem dormir. Ora, tudo isso nos leva a concluir que o homem não é um ser natural, mas artificial, capaz de construir-se a si próprio como bem o quiser! É o homem que decide o que e quando fazer. Animais não tomam decisões alguma. Agem somente conforme seus impulsos naturais imediatos. O homem, ao contrário deles, é capaz de negar todos os seus impulsos naturais imediatos! Não é determinado, portanto, por nenhum deles, ainda que eles possam influenciá-lo bastante. É pelo contário, ele, homem, que os determina conforme seu livre juízo e sua inteligência.
Não importa, portanto, o que a maioria pensa. Ainda que em alguns casos ela possa estar certa, ela geralmente está errada. Como não se indignar diante de pessoas que, para justificar suas atitudes animalescas, afirmam-se semelhantes a animais irracionais? Como não considerar uma vileza sem comparação alguém que se faça equivalente a uma cadela no cio? Ora, o animal não pode fazer diferente. Ele é extremamente correto em todas as suas atitudes. Note que o animal é simplesmente incapaz de contrariar a própria natureza. O homem, porém, sendo capaz de afirmar-se como bem entender, é capaz de negar a sua própria natureza fazendo-se semelhante a um bicho sem razão. Ora, se o homem não for um ser racional, já o disse algumas vezes, pode-se descriminalizar imediatamente o estupro. Pode-se ainda recomendar a descriminalização da pedofilia e do homicídio, pois os animais que possuem estas coisas em seus instintos fazem-nas sem o menor constrangimento. Parece-me que o homem também as possuem, logo, se o homem é um animal qualquer, por que criminalizá-las? Ora, essas coisas são crimes porque assim o decidimos livremente. Se não quiséssemos criminalizá-las poderíamos fazê-lo sem problema algum.
Tanto é assim que as leis dos diferentes países são diferentes entre si. O que é crime nos EUA talvez não seja crime no Brasil, ou o contrário. Nos EUA, o Estado reserva-se o direito de condenar as pessoas à morte, prática que foi abolida no Brasil no fim do Império, mas que pode retornar assim que, conforme o sistema legal estabelecido, os brasileiros o decidirem. Será que vocês estão vendo que nós podemos nos inventar a nós mesmo conforme o desejarmos? Não são as circunstâncias que nos determimam, mas o contrário. Transformar o homem em um ser natural, refém das circunstâncias, não é somente vitimizá-lo, mas é construir sobre ele um saber que não é confirmado pelas evidências, pois, como demonstrado, o homem é diretamente responsável por tudo o que faz. Não somente! Ele é também irremediavelmente livre para fazer as coisas como lhe parecer melhor. Eximir-se das responsabilidades sobre os próprio atos é o primeiro passo para se considerar o homem um animal sem razão - uma grande injustiça com o animal que, como já afirmado, não contraria a própria natureza. Afirmo-o com todas as palavras: negar a própria natureza é uma indignidade, uma vilania terrível da qual só o homem é capaz.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O homem que se considera bicho: uma besta!
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