Stephen Hawking é um físico conceituado. Você provavelmente já o viu. Nos últimos anos, ele vive preso à uma cadeira de rodas devido à uma doença chamada esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada quando ainda tinha 20 anos de idade. Apesar de estar praticamente paralisado, necessitando do auxílio de um computador para se comunicar, suas faculdades mentais não foram afetadas. Sua cognição e inteligência permanecem intactas. Mas ele não se martirizou pela sua tragédia pessoal, nunca se tornou um sujeito recluso. Ele teve participações especiais em dezenas de filmes e programas de TV. A última das suas investidas na comunicação é o especial, pelo Discovery Channel, chamado Into The Universe With Stephen Hawking.
Não tinha ouvido falar neste programa até ver sua propaganda no próprio Discovery Channel. Mas, como o vi aqui no Brasil, não tive acesso à propaganda americana. Curiosamente, a redação em português ficou muito mais interessante e sugestiva que o texto original em inglês - o único que encontrei no YouTube para compartilhar com vocês. A edição de imagens é rigosamente a mesma, mas a versão brasileira sugere aspectos mais interessantes da vida de Hawking como, por exemplo, a afirmação de que, apesar da delicada constituição física, este renomado cientista tem a mente ocupada com muitas coisas da mais alta importância.
Vejam, portanto, o mérito enorme dele. Ao contrário do sentimento derrotista e trágico que se abateria sobre a maioria de nós, Hawking não se permitiu abalar ou, caso não o tenha podido evitar, procurou resolver-se de modo que sua vida intelectual pudesse continuar como se ele jamais tivesse recebido aquele diagnóstico tão fatídico. Ou seja, ele se colocou acima da situação tão difícil. Ele não deixou de prosseguir seus avançados estudos em física teórica apenas porque não tinha como se alimentar por si mesmo. Para mim, este é um exemplo extremo da grandeza moral e psicológica do ser humano. E pensar que há tantos outros!
São tantos elogios merecidos a quem consegue superar adversidades deste tipo que é uma pena meu objetivo hoje ser apenas comentar a dimensão intelectual do fenômeno. A mim, em virtude dos textos que andei escrevendo ultimamente, interessa no momento chamar a atenção de vocês para como Hawking conseguiu impedir sua cognição de desmoronar diante dos terríveis entraves que seu corpo começava a impor-lhe. Primeiro, percebam que estou fazendo uma distinção entre as faculdade cognitivas e as faculdades orgânicas. Apesar de precisar de alguém que o limpe após suas necessidades, a mente de Hawking dedica-se ao estudo dos mistérios do Universo.
Ou seja, tendo superado emocionalmente sua contínua deterioração física, Hawking continou se entregando quotidianamente àquilo que realmente lhe interessava. Bastou equacionar os meios para se manter na ativa, ele não hesitou em continuar sua agitada vida intelectual. Percebam que, não tendo a doença afetado sua mente, ao invés de entregá-la ao derrotismo, Hawking permitiu-se viver como se fosse uma pessoa normal, sem nenhuma deficiência. Ainda que estivesse preso à cadeira de rodas, este fato não impedia sua mente de raciocinar as mais difíceis proposições da física teórica contemporânea.
Hawking não se permitiu o abandono dos estudos. Já que sua mente estava intacta, ocupou-a com as coisas que considerou mais importantes. Notem que foi ele que determinou o que aconteceria em sua vida. Ele não permitiu que a doença assumisse o controle. Enquanto a enfermeira preocupava-se com suas necessidades fisiológicas, ele se preocupava com os problemas do Universo. Não foi a situação que o determinou. Foi ele que determinou a situação. Aí está sua grandeza moral: ele prova para nós todos que a mente é indeterminada. Com seu exemplo de vida fica demonstrado que todas as vezes que fugimos dos problemas da vida, nós o fazemos por covardia ou fraqueza, nunca porque esta é a melhor alternativa.
Nós escolhemos ativamente onde estamos e o que fazemos! As circunstâncias não têm esse poder sobre nós. Caso nos vejamos refém de uma situação, é porque não fomos moralmente fortes para encará-la de frente e combatê-la. São fracos os que se entregam, tornando-se, assim, reclamões infelizes. Somos livres para nos colocar onde bem desejarmos. Nosso corpo pode estar na mais árida prisão enquanto nossa mente repousa tranquila na mais doce consolação. Isso só é possível porque a realidade ao nosso redor é uma invenção nossa! Ou seja, ela não é dada. Somos nós que interpretamos os eventos da maneira que nos parece mais correta! A ciência os descrevem em seus aspectos materiais, mas somos nós que lhes atribuimos o sentido que possuem.
Nada é, em si, o que é. As coisas são conforme nós as explicamos. É através das nossas determinações internas que colorimos o mundo ao nosso redor. O que ele é materialmente interessa somente à ciência. A imensa maioria das pessoas anima a realidade que a circunda atribuindo-lhe qualidades positivas ou negativas. Para uma pessoa urbanizada, o mangue fedorento é algo que provoca asco. Para a pessoa que tira dele o seu sustento e que não conhece mais nada, ele é uma benção! Todos os turistas que visitam o Rio de Janeiro consideram a baía da Guanabara um cenário de beleza incomparável, mas para o famoso antropólogo Levi Strauss ela pareceu feia como "uma boca sem dentes". São muitas as evidências a favor da ideia de que não existe faculdade humana em que o pensamento não venha antes das conclusões materiais.
Que o diga Stephen Hawking! Como já afirmado, ele nos ensina que o pensamento vem antes dos acontecimentos naturais. Através de uma determinação muito forte somos capazes de resignificar até mesmo as maiores tragédias, colocando-as ao nosso favor! Já que não as podemos reduzir a pó, somos capazes de dar a elas uma nova dimensão. Enquanto nossa inteligência estiver desperta, podemos fazer o que bem entendemos da nossa vida. O corpo é como que um burro de carga a nosso serviço. É a mente que o comanda, não o contrário. Hoje isso é mal percebido por uma simples razão: vivemos em um tempo onde se aconselha a escravização da mente pelos caprichos do corpo. Ao contrário do mundo, eu prefiro elogiar a luz da razão e do reto entendimento. Não me preocupo com a opinião da maioria porque estou bem acompanhado, não é Hawking?
sábado, 8 de maio de 2010
Um físico tremendo e a mente sem fronteiras
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6 comentários:
Seguir nossos objetivos não importando o que aconteça. Muito Legal!! :)
Sim, afinal não vai faltar gente querendo nos colocar para baixo. Temos que confiar em nós mesmos.
"Breve História do Tempo" é um livro fantástico! Não entendi absolutamente nada. Mas que era impressionante, ah, isto era.
Porém agora, lendo este teu entusiasmado texto, depois de anos que li o tal livro e alguns outros estudos - confesso tudo, vá! Mais de assistir as produções cinematográficas ou documentários sobre o genial físico -, percebo a causa do sr. Hawking não precisar de Deus; ele "supera as adversidades somente com o poder extraordinário de suas faculdades intelectuais.
Desgraçadamente recordei de um aforismo notável do gênio, que, não achando jeito de recordar na íntegra, pesquisei e transcrevo aqui:
"O que eu fiz foi demonstrar que é possível determinar pelas leis da ciência o modo como o Universo começou. Neste caso, não é necessário apelar a Deus para explicar como começou o Universo. Se isto não prova que Deus não existe, pelo menos prova que Deus não é preciso para nada." - S. Hawking.
Contudo, um dia destes no sítio de um senhor de roça, também percebi que um burro de carga igualmente não necessitava de Deus. Ele saiu a esmo pela trilha do jeca e foi ter com suas vontades particulares. Asno que é, porém, esqueceu-se de tirar o equipamento que encobria-lhe a sua visão lateral, de modo que virou à esquerda e caiu num precipício.
De nada adiantaria o burro ser um gênio, àquela altura. Foi um acidente, pobre animal!
Se não me engano, e minha imaginação pode sim me enganar, o morto ainda relinchou uma sentença; a última, coitado! Ele disse: "Diga a meu dono (o senhor da roça) que sempre sorri-lhe à cara e descrente fui de suas lamentações; sempre fui ateu, graças a Deus!"
Você e os animais, hein? :)
Ai. Ficou parecendo auto-ajuda.
Também tive essa impressão! rs.. Mistérios da linguagem.. Afinal, a substância intelectual presente no texto é sólida, diretamente ligada às idéias contrárias às tentações deterministas do pensamento que andei combatendo nos últimos textos. Talvez o apelo direto à uma personalidade sofredora tenha causado esse efeito. Algumas vezes a verdade parece fácil demais.
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