quinta-feira, 3 de junho de 2010

A ignorância de quem faz do homem um animal

Algumas coincidências são mesmo curiosas. Apesar de ter assistido praticamente todos os episódios da série House em seus reprises no Universal Channel, eu tinha perdido o episódio Aceitação, que foi ao ar hoje, feriado de Corpus Christi. Neste capítulo, somos apresentados ao paciente Clarence, um negão de força incomum, assassino confesso de quatro pessoas, três das quais na prisão. Usando de suas habilidades extremas, House percebe tratar-se de um raro tipo de tumor nas glândulas endócrinas suprarenais - o feocromocitoma - que as forçam a liberar subitamente enormes quantidades de adrenalina. O dr. Foreman, que a princípio estava muito reticente em relação a este paciente, ao saber da presença do tumor, mudou radicalmente sua opinião. Ao invés de considerar o paciente um assassino sem coração e louco, passou a considerá-lo um paciente de uma rara patologia que justificaria seus atos insandecidos. Eis o nó da questão para mim e o grande desafio que este episódio brilhante nos oferece: o feocromocitoma justifica mesmo os atos do paciente, desresponsabilizando-o por eles?

House discordou de Foreman e o disse sem meias palavras: - "Não concordo que o feocromocitoma justifique os atos do paciente pois ele não é a única pessoa que o teve. Assim como ele, muitas outras pessoas tiveram a mesma doença, médicos, advogados, empresários, e nem por isso sairam matando pessoas por aí, pois forçaram-se o domínio sobre a doença." Pois neste caso eu não poderia concordar mais com House. Assim como ele, sei muito bem que o ser humano não é determinado por fenômenos biológicos. Nosso juízo está acima das ocorrências materiais. Não somos determinados por coisa alguma. Estamos ativos e presentes em tudo o que fazemos e também em tudo o que não fazemos. Como, por exemplo, não atribuir responsabilidade à sociedade alemã da primeira metade do séc. XX à ascensão de Hitler? Como não responsabilizar os brasileiros pelo deplorável estado atual de nosso meio político, se foram eles que elegeram todos os atuais representantes? Ora, mesmo alguém que possua um feocromocitoma é livre diante dos ataques de adrenalina. Não fosse assim, este tipo de cancer tornaria assassinos todos os seus portadores.

Notem que esta é uma equação muito simples. Não estou fazendo nenhuma asserção fundamentalmente nova ou espetacular. Estou enunciando algo óbvio, primário e fundamental: as pessoas não são determinadas pelos fenômenos naturais. Ainda que a psicologia demonstre isto de modo absolutamente preciso, nem somente através dela se pode demonstrá-lo! Todos aqueles que já foram apresentados ao básico de sistema nervoso já ouviram falar dos reflexos medulares que, como o nome indica, são respostas involuntárias da medula que não passam pelo escrutínio do cérebro. Quando, por exemplo, um cão se queima em uma pequena fogueira, sua medula imediatamente contrai seus músculos na direção oposta ao estímulo aversivo sem que o cérebro precise ser consultado. No caso do ser humano, dá-se o mesmo, mas o homem, diferentemente do cão, consegue ter domínio sobre os atos reflexos, por mais aversivos que sejam os estímulos. Ao contrário dos animais, aceitamos a dor de uma injeção sem nos rebelarmos violentamente. Ao contrário dos animais, somos capazes de controlar nosso esfíncter e também nossa respiração.

Portanto, fique sabendo que um cachorro ou gatinho não é capaz de prender a respiração pois eles não têm controle algum sobre seu sistema nervoso autônomo. O homem, ao contrário deles, ainda que possua sistema nervoso autônomo, capaz controlar suas atividades biológicas fundamentais sem o seu consentimento, é capaz de dominá-las uma a uma, chegando até mesmo ao extremo de controlar os batimentos de seu coração, por mais indeterminados que eles pareçam. Estas coisas que estou dizendo são saberes reais, verdadeiros, demonstrados cientificamente. Neste blog não fico reproduzindo indiscriminadamente as tolices do politicamente correto (que gosta de humanizar os animais) tampouco os consensos aborrecidamente estúpidos da maioria das pessoas (que gosta de animalizar os homens). Desculpem-me os que se ofendem com estas verdades por eu ter estudado um pouco mais que vocês. Os que quiserem me convencer de que o ser humano é só um animal qualquer não apenas vão ter que estudar um pouco mais; terão de construir um conhecimento novo e radicalmente contrário a tudo o que a ciência já descreveu a respeito do ser humano. Relinchar não vai bastar. Vão ter de vencer a comunidade científica por argumentos.

O que me irrita mesmo em algumas pessoas ignorantes é que, inadvertidas a respeito da tolice profunda das coisas em que acreditam, procuram convencer a mim, um sujeito estudado e erudito, a acreditar nas mesmas imbecilidades ridículas que elas professam. Ora, nunca se me ofereceram argumentos contrários a quaisquer das ideias que defendo neste blog. Nunca houve um só comentário que demonstrasse o equívoco das minhas ideias. O máximo de inteligência externa que já passou por aqui foram os questionamentos legítimos do André T. que, de maneira muito inteligente, soube levantar pontos de vista oposto aos defendidos por mim. Nestes casos, gostei muito de conversar com ele e demonstrar-lhe porque as ideias que defendo, nenhuma delas de minha autoria, parecem-me mais coesas e justificáveis. Sempre que ocorre este tipo de debate inteligente, percebemos como o questionamento bem-intencionado favorece a construção do saber. Se não pudéssemos questionar nada não haveria nenhum progresso tecnológico ou filosófico. É, portanto, uma satisfação receber comentários inteligentes, ainda que contrários a minha opinião.

Seria ridículo um sujeito como eu, tão ciente da indeterminação do pensamento, achar-se dono da verdade. O problema é que para vencer-me em uma discussão é preciso apresentar ideias melhores, o que não ocorreu. E ideias se expressam através de frases semanticamente articuladas. Nem a filosofia, nem a ciência, se construíram sobre interjeições afetadas e estúpidas. Para os que não sabem, interjeições são as expressões que remetem ao passado animal de nossa fala. Várias das expressões comumente utilizadas na internet são exemplos de interjeições (kkk! haushaushaus! etc.) Para se defender uma ideia é preciso saber colocá-la em palavras. Goste-se ou não desta verdade: somente as pessoas capazes de se expressar semanticamente importam, o resto (neste caso concordo com a hipótese de que o homem pode ser um animal) não é muito superior a um macaco que aprendeu a segurar coisas e apertar botões. Sou da opinião de que, para se fazer verdadeiramente humano, para se superar realmente a herança biológica, a pessoa tem de ser capaz de expressar frases com sentido. Sentão ela não passa de um macaco apaixonado incapaz de controlar seus impulsos mais primitivos.

Portanto, humanizar-se é conscientizar-se da própria indeterminação. É conscientizar-se de que se é livre em tudo o que se faz. É perceber que mesmo nas situações de desequilíbrio químico mais angustiantes, como no caso de um paciente com feocromocitoma, é sim possível ter domínio sobre as próprias atitudes. A negação da humanidade do ser humano é algo que se faz com o intuito deliberado de se justificar atos tirânicos e autoritários. As pessoas conscientes de seu real valor reconhecem o valor dos outros. Só assim se pode conseguir analisar minimamente o que o ser humano é. Os que negam a indeterminação humana são uns imbecis que nada sabem sobre a própria humanidade. A nobreza humana está justamente no fato de que o homem pode fazer o que quiser. É precisamente esta característica sem par que o diferencia dos animais, que são apenas o que são. Ao contrário dos animais, ainda que os fenômenos químicos nos influenciem muito, não somos determinados por eles. Como House demonstrou tão precisamente, somos responsáveis e presentes em tudo o que fazemos. Quem o nega faz-se macaco, e burro.

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