sábado, 12 de junho de 2010

A imposição unilateral dos radicais da estupidez e a leveza

Como cineasta, sou incorrigivelmente apaixonado por belas imagens. Além disso, possuo uma visão tradicional de beleza. Portanto, sou dificilmente atraído por imagens "sujas". Tampouco admiro imagens pouco trabalhadas, de iluminação indecisa e de má qualidade. Por conta disto tudo, o que mais me salta à vista assistindo aos jogos da Copa do Mundo é a iluminação dos estádios, que é a verdadeira responsável pela nitidez da imagem e pela sensação de grande espetáculo transmitida. Se compararmos as imagens geradas nos estádios africanos, cujas iluminações foram "desenhadas" pelos engenheiros contratados pela FIFA, às imagens geradas nos estádios brasileiros, podemos nos envergonhar do que o futebol brasileiro tem produzido nesta matéria. As imagens geradas no campeonato brasileiro parecem captadas por crianças de 5 anos retardadas. Pra começar, não têm cores. As imagens são lavadas. Quando há luz demais nas partidas vespertinas, as câmeras utilizadas não suportam o constraste. De fato, a transmissão de futebol no Brasil como um todo é amadora.

Este problema decorre das milhares de invirtudes que imperam no futebol brasileiro, sobretudo a corrupção dos dirigentes, cuja incompetência cuidadosamente estudada é estimulada pelos amantes deste esporte como tradição valorosa e necessária. O resto dos torcedores, preocupados apenas com a transferência dos jogadores, é completamente alienada às coisas que se praticam nos bastidores. De fato, nada se faz pela melhoria do nosso futebol porque o momento atual de desordem parece favorecer as pessoas "certas". Para mim, o resultado mais desagradável desta situação infeliz é a iluminação dos estádios e a pífia cobertura dos jogos. Começo a contar os dias pela copa de 2014 na esperança de que ficaremos com imagens mais bonitas como legado. Mas será mesmo que isso irá ocorrer? Será que após o apito final da copa no Brasil estará disponibilizada ao torcedor brasileiro uma cobertura futebolística de melhor qualidade? Infelizmente, desconfio que não. Acredito que os dirigentes do nosso futebol rapidamente sucatearão o legado de 2014. E a primeira vítima será a iluminação dos estádios.

Explica-se: para a copa do mundo, a FIFA exige a concretização de certos padrões. Se os dirigentes e autoridades brasileiras não perderem a copa até 2014, podemos ficar tranquilos de que a FIFA garantirá uma imagem de alta qualidade. No jogo dos Estados Unidos contra a Inglaterra, que acaba de terminar em empate, viu-se que até mesmo o estádio menos favorecido do mundial estava esplendidademente iluminado. Se a copa ocorrer mesmo no Brasil, após o apito final num estádio com iluminação de primeiro mundo, haverá algum infeliz pregando a imediata substituição das lâmpadas. O argumento utilizado parecerá imbatível: economia de energia. Talvez esta afirmação esteja correta, mas tenho dois problemas com ela: 1 - como já enunciado, gosto de estádios bem iluminados; 2 - também há a chance de que a troca não seja necessária. Como o primeiro argumento é de natureza emotiva, tenho de reconhecer suas limitações junto aos torcedores brasileiros, geralmente orgulhosos de serem tão pouco exigentes em relação à qualidade dos estádios, aos quais nem mesmo o mais fedorento dos banheiros parece pertubar.

Portanto, vou ater-me à segundo questão: talvez a troca de lâmpadas não resulte em uma imediata economia de energia. E só há uma forma de estabelecer um juízo correto desta questão: o aferimento, por engenheiros ou físicos, do gasto efetivo das lâmpadas. O problema é que, no Brasil, tudo é feito na informalidade. As decisões são tomadas de modo apressado por pessoas despreparadas. É assim desde o tempo das captitanias hereditárias e, como bem o sabemos, hábitos antigos são difíceis de aniquilar. O Brasil sofre de uma completa desconsideração do mérito. Em nosso país vale mais o conchavo de compadres aliados em função do seu bem comum. Decidem-se as questões nas cúpulas, estejam elas certas ou não. Qualquer um que tenha trabalhado em uma grande empresa no Brasil sabe o quanto se faz sofrer os empregados com decisões estapafúrdias e desnecessárias. O futebol ainda é, em nosso país, reflexo perfeito dessa condição de completa desprofissionalização e amadorismo. Arrisco dizer que até mesmo as escolas de samba cariocas são mais organizadas que os clubes de futebol.

Portanto, desconfio que rapidamente se decidirá de maneira unilateral e autoritária pela troca da iluminação dos estádios após a copa de 2014, e se ignorará qualquer apelo contrário. Não se levará em conta qualquer comentário profissional. Como bons brasileiros que são os dirigente de futebol, esta será mais uma decisão apressada e desnecessária. Não se terá em consideração que este é um assunto a ser discutido com os melhores profissionais da área. Ou seja, na decisão do que se fazer com a iluminação dos estádios do pós-copa prevalecerá o modelo de decisões brasileiro. No que chego ao segundo e mais importante tema deste texto: como convencer as pessoas equivocadas a refletir sobre o que estão fazendo? Pois sabemos que, no geral, se alguém está convencido do seu erro nada o impedirá de continuá-lo caso ninguém reclame. Eis o problema central da vida neste mundo: como convencer as pessoas a modificar o modo com o qual já estão acostumadas a agir se já estão confortavelmente adaptadas aos equívocos consagrados pelo hábito?

As pessoas que já se dedicaram a esta complicada questão chegam a conclusões dramaticamente pessimistas. Sartre, por exemplo, vaticinou que "o inferno são os outros". Platão elaborou sua notável "Alegoria da Caverna", onde os habitantes da escuridão dilaceram seu colega que conseguiu ver a iluminada vida exterior e voltou para avisá-los. O sistema de crenças judaico-cristão propõe que o homem vive uma natureza decaída após o pecado original. O budismo propõe que se deve ensinar o próximo à superação dos seus karmas individuais. Em suma, a opinião geral indica que convencer as pessoas a agir bem é a coisa mais difícil de se alcançar neste mundo. Todos estes sábios ensinam que a maioria prefere viver de maneira acrítica, perpetudando, assim, os equívocos que aprenderam de seus pais. Decidir-se a aprender novas e melhores maneiras de viver parece ser coisa rara, de pessoas muito decididas e avançadas moralmente. A maioria prefere sempre o caminho mais fácil, e covarde.

Quem não prefere perpetuar as coisas erradas que aprendeu? Quem é humilde! O orgulhoso não suporta a idéia de que tudo aquilo a que se dedicou com afinco está errado. No geral, as pessoas preferem perpetuar o status quo que herdaram. Assim, agem de uma maneira totalmente indiferente à má sorte alheia. Contanto que elas próprias estejam em boa situação, isso lhes bastará. Em países atrasados com o Brasil, esta realidade parece duramente recrudescida. Aqui se parece batalhar de maneira ainda mais ferrenha contra os avanços em qualquer campo. A reprodução estúpida e inconsequente dos piores modelos de dominação política é constantemente reforçada pelo desejo absurdo de perpetuar-se no poder, como bem o demonstra as recentes carteiradas de Lula aos PTs mineiro e maranhense, onde absurdas alianças com o PMDB foram exigidas. As pessoas raramente dão a cara à tapa. No geral, agem de maneira a "tirar o seu da reta". Ninguém é capaz de, olhando para o seu próximo, sugerir uma melhor maneira de se fazer as coisas.

Diante deste quadro de radical indiferença e pouco caso, não se é de assustar a lentidão com que a sociedade brasileira progride. Desenvolveu-se no Brasil, aos poucos, a idéia de que o melhor a se fazer é evitar problemas com as autoridades. Surgem desta situação diversas sugestões infames: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo"; "Você sabe com quem está falando?" Ora, o que estas frases estão dizendo é que você ganhará problemas muito sérios se decidir enfrentar o status quo. Por isso, vê-se que uma das coisas mais em falta no mundo atual é gente cara-de-pau. Voltamos, assim, à questão central: qual o melhor modo de convencer os outros a mudar? Não basta apenas a cara-de-pau. Para que o mundo efetivamente melhore não basta brigar e impor, de modo unilateral, a sua própria opinião, ainda que correta. Essa atitude simplesmente exclue o "outro" da equação. Todas as vezes que se tentou isso os resultados foram terríveis banhos de sangue.

A melhora do mundo efetivamente acontecerá quando todos participarem dos avanços propostos. As pessoas devem ser, pois, convencidas a respeito do que é melhor. À pessoa cara-de-pau não bastará, portanto, a energia e a fibra moral para modificar o mundo. Ela precisará aprender o melhor modo de fazê-lo. E se ela ainda não aprendeu que a imposição unilateral e autoritária é uma péssima maneira de se melhorar o mundo, não cometemos nenhuma injustiça ao duvidar de tudo o que ela está propondo. Como acreditar em pessoas que não conseguem elaborar uma única frase desapaixonada? Em tudo o que dizem elas colocam hipérboles fanáticas, palavrões, afetações neuróticas de toda espécie. Ora, se a pessoa considera que a melhor forma de difundir sua ideologia é comunicar-se de maneira exagerada e passional, podemos concluir com muita razão que há diversos exageros e equívocos nas idéias propostas. Devemos notar que as pessoas que mais bem fizeram o mundo lutaram de maneira justa e equilibrada, muitas vezes entregando a própria vida pela causa que julgavam verdadeira.

Essa é a diferença fundamental entre as propostas que verdadeiramente edificam o mundo e aquelas que pretendem apenas a elevação de um novo tipo de autoritarismo: as pessoas que combatem os sistemas perversos não se importam em entregar a própria vida pela causa. Tem sido assim desde que o ser humano aprendeu a escrever. Como descrito no texto O fio dental e a vida dos abnegados, as histórias que verdadeiramente movem as pessoas são os relatos virtuosos de heróis que se esquecem de si para lutar pelo bem, muitas vezes à custa da própria vida. Por sua vez, para o vilão, aniquilar o herói é tudo o que importa, pois assim ele estabelecerá seu projeto egocêntrico e autoritário. Não há vilões entregando a vida, pois o único bem que possuem é ela própria. Já o herói não possui apenas a própria vida. Ele luta por ideais externos a ele, que continuarão depois que ele se for. Esta é a forma de se convencer os outros: dedicação contínua, desapaixonada, amorosa e, sobretudo, desinteressada. As pessoas comovem-se com o exemplo de quem faz o bem sem se preocupar consigo mesmo, pois se demonstra assim que a pessoa não está apenas procurando o próprio bem.

Portanto, a regra para se ser influente é agir de modo a demonstrar que não se luta por si mesmo. Temos o exemplo do Lula. Ele é extremamente habilidoso em convencer os outros de que a única coisa que lhe interessa é fazer o bem ao povo, e não a ele próprio. No meu entendimento, ele é um falso herói, pois considero que ele se move por interesses próprios e não por ser verdadeiramente benemérito. Mas o que importa aqui é a demonstração de que a idéia proposta funciona. A capacidade de alguém ser influente está diretamente ligada a sua capacidade de demonstrar gratuidade e desinteresse. Por isso somos tão mal-sucedidos quando tentamos convencer os outros de modo radical e intolerante. Ainda que estejamos cobertos de razão, o nosso interlocutor fica desconfiado por causa do modo com que defendemos nossas idéias. E como a reação do interlocutor é diferente quando o tratamos com um mínimo de cortesia e respeito! As pessoas normais costumam gostar de ser bem tratadas e ter suas opiniões levadas em consideração. Só os autoritários não percebem isso.

Concluo que a situação da pessoa estudada é bastante difícil. Imagine-se conhecedor de muitas coisas que indubitavelmente melhorariam o mundo. Agora imagine que ninguém lhe dá bola. Por isso tantos professores universitários apaixonados. Sabem o caminho, mas ninguém lhes dá ouvido. Ao longo dos anos tornam-se rancorosos e ranzinzas. De fato, é raro um mestre generoso e despreocupado, que tenha respeito efetivo pelas dificuldades e equívocos dos seus aprendizes. Ora, é muito fácil perceber que o mestre que não é ranzinza é menos radical que o anterior, que se leva muito a sério. Eis outra coisa muito importante nessa vida: não se levar a sério. Ainda que nos custe muito, pois sabemos que não nos levar a sério inevitavelmente nos fará pessoas menos apegadas às idéias de sempre, no fim esta atitude tornará nossas idéias ainda mais sedutoras e atraentes. É certamente um paradoxo: para que as idéias das quais estamos verdadeiramente persuadidos sejam difundidas, precisamos demonstrar desinteresse e desapego delas.

Ou seja, ainda que me custe muito assistir ininterruptamente a estupidez de muitos de meus conterrâneos, ainda que o status quo brasileiro seja extremamente injusto e premie tantas vezes a incompetência e a falta de mérito, irritar-me com isso só ajudaria esta situação a continuar! Derrotá-la começa com uma atitude despreocupada em relação a ela. Não se trata de parar de atacá-la. Pelo contrário! Para se derrotar algo é necessário atacá-lo ininterruptamente. Mas é o modo com que se o faz que determinará nossa vitória ou nossa derrota. Reparem que todos os sistemas ideológicos campeões sempre se impuseram pelo amor, enquanto todos os sistemas derrotados se impuseram de maneira autoritária. De fato, não adianta nada irritar-se com qualquer coisa! Não é à toa que se diz que a pessoa irritada "perdeu a cabeça". Ora, só poderá fazer algo útil de depois de acalmar-se e recuperá-la, a menos que não se preocupe em agir sem ela, o que seria uma temeridade. Ora, só poderemos persuadir alguém de que estamos certos se estivermos no nosso pleno juízo.

Então, só resta à pessoa estudada não se preocupar com a ignorância alheia, ainda que seja ela a governar-nos, ensinar-nos, influenciar-nos na maior parte do tempo. Nunca nos dobraremos a ela, mas também não arrancaremos os cabelos como os afetados profetas do autoritarismo costumam fazer. É muito frequente o registro de que agentes de governos autoritários, tanto de esquerda quanto de direita, surpreendiam-se quando encontravam pessoas capazes de enfrentar contrariedades atrozes em suas prisões com atitude leve e, em alguns casos, até mesmo bem humorada. Imaginem a surpresa dos carcereiros cubanos quando, após vários anos atrás das grades, o famoso escritor conseguia conversar com eles de maneira desapaixonada. Em escala muito menor, todos nós enfretamos situações que desafiam nossa paciência e nosso bom humor, assim comigo em relação aos dirigentes de futebol. Espero que você se tenha convencido de que a melhor saída é não se irritar e ir em frente. Só assim extrairemos algo de nosso interlocutor, como procurei extrair algo de você: o seu melhor, aquilo que é capaz de fazer os outros felizes.

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