Tenho gostado muito de comentar as instâncias que nos diferenciam dos animais. Darei continuidade a este raciocínio com o texto de hoje, sem, todavia, aprofundar-me muito. Digo-o assim porque o assunto que abordarei é muito, muito profundo. Vem lá das esferas mais escondidas do ser: a sua capacidade de entender o que não está presente através de comparações radicalmente estranhas - as maravilhosas metáforas. Como este assunto está mais para tratado de linguística ou filosofia do que para texto de blog, tenho de reconhecer minhas limitações. Mas não poderia deixar de dizê-lo diante da maravilhosa propaganda acima. Se o seu computador não a exibir em tamanho suficiente para que vocês possam compreendê-la corretamente, peço que a abram em uma janela à parte.
Fizeram-no? Caso vocês não entendam inglês, o texto diz: - Há lugares que um palito de dente jamais alcançará. E o que a imagem diz? É nela que se encontra a sofisticação metafórica. Vemos um brócoli humanizado como ganster afro-americano sentado tranquilamente em uma banheira jacuzzi ao lado de uma grande piscina. Lá atrás, na piscina, um pobre palito de dente colhe quinquilharias da água, mais exatamente um sutiã, que provavelmente está ali devido às estripulias do "gânsgter". Que dizer? Resta-nos aplaudir este trabalho fantástico. Vê-se, por essa e outras, como há publicitários extremamente competentes no mundo.
E por que tanto entusiasmo? Imaginem vocês que os profissionais da Prolam Y&R, do Chile, conseguiram transmitir a idéia de que os restos de alimentos vandalizam a boca que não é higienizada pelo fio dental sem sequer mostrar algo que lembre uma boca! Vejam que loucura! Um brócoli sentado em uma jacuzzi e um palito de dentes segurando um limpador de piscinas deram conta do recado! É certo que há também grande mérito da equipe de arte da agência, sem a qual o recado estaria em sérios apuros. Reparem a que requintes de construção mental se pode chegar sem que se prejudique a comunicação. Qualquer pessoa minimamente urbanizada pode compreender a mensagem extremamente abstrata.
Não foi necessário um grande código cultural comum para que se transmitisse a ideia radicalmente ousada de uma maneira descontraída. Pôde-se criar algo novo, imediato, inusitado e, ainda assim, comunicar com grande precisão ao grupo a que se destina. Vejam que isto só foi possível através de uma utilização muito inteligente dos sinuosos meandros da nossa mente. Na verdade, a quantidade de informações presente no quadro é gigantesca e, para minha grande surpresa, todas elas apontam para a mesma ideia: o alimento que não se limpa da boca com o fio dental não precisa se preocupar com nada, pois "seu lugar" está seguro. Alguém que saiba o dano que esses restos alimentares podem causar não fica imune à peça.
Ou seja, a propaganda superou facilmente a maior dificuldade do trabalho de um vendedor de fio-dental: criar humor. Vejam que um dos maiores problemas de toda atividade que não seja imediatista é convencer as pessoas de que a sua adoção, apesar do incômodo que causará, representa em verdade um progresso, uma melhoria. É muito mais fácil vender coisas que são usufruidas rapidamente e não exigem o menor sacrifício, como chocolate ou sexo, pois elas representam uma recompensa imediata, um reforçador instantâneo. Vender disciplina é difícil. Vender responsabilidade é difícil. Ninguém aceita sacríficio no mundo de hoje. Nossa sociedade está escravizada pela "obrigação de gozar". Convencer alguém a fazer algo difícil, complicado, que exija disciplina diária, é uma tarefa para gênios.
Só se admite sacrificios em função de conquistas que representem uma recompensa imediata. Dito assim parece complicado, mas vou exemplificar. São pouquíssimos os que aceitam se submeter a uma rotina de negações diárias, de constantes recusas a objetos de prazer. Quantos não se matriculam nas academias de ginástica às portas do verão e, no entanto, rapidamente desistem delas por se considerarem demasiadamente ineptos ao sacrifício diário? Quantos não preferem, no lugar do esforço e da disciplina, a preguiça e o desleixo, verdadeiros entorpecentes da vida intelectual? Todos preferem submeter-se a uma cirurgia estética para se fazer belo. E, no entanto, cirurgias continuam procedimentos radicais e perigosos, dos quais muito frequentemente se vai a óbito.
Ou seja, convencer as pessoas do mundo atual a fazer algo difícil, trabalhoso, sacrificado é uma verdadeira aventura. A maior parte dos trabalhos publicitários que se presta a esta tarefa simplesmente não consegue decolar. Não é verdade como o trabalho oposto, o de vender produtos de satisfação imediata, é muito mais fácil? Qual o esforço da equipe de criação para se vender chocolate ou sexo? Não é à toa, portanto, que se vendem produtos de higiene masculina com apelo sexual. Só assim para se convencer a maioria a utilizá-los. É uma triste verdade, eu sei, mas não fosse o apelo sexual das campanhas de desodorante, certamente muitos homens não se dariam ao trabalho de comprá-los, que dirá usá-los.
Todo o progresso nesta vida só é obtido através do sacrifício, do esforço, da abnegação das vontades imediatas em favor da vontade virtuosa. É, pois, através de um ato livre da consciência que alguém abre mão de um prazer imediato (ficar o dia inteiro na cama) em favor de um ideal maior (pôr a comida no prato). Construir, bem o sabemos, dá mais trabalho que destruir. Edificar uma instituição do porte de uma universidade é tarefa para gigantes acessorados por pessoas de grande competência. No entanto, para se destruir uma delas, basta um inconsequente descontrolado e a indiferença silenciosa da maioria inútil. Vencer essa tendência natural do homem ao menor esforço é verdadeiramente uma tarefa hercúlea.
Por isso essa propaganda comunica-se com o mundo da mais alta filosofia, pois já o enunciaram as mesmas coisas os sábios do passado. Torna-se mais agradável fazer o que requer esforço e sacrifício se tivermos em mente o bem que estamos realizando. Pode parecer exagero, mas não é. O maior antropólogo americano, Joseph Campbell, já enunciou com exatidão milimétrica que a virtude de toda narrativa está na exploração dos dramas de um herói sofredor que entrega a própria vida em favor do seu povo. É assim com Luke Skywalker em todos os filmes da série Guerra nas Estrelas. É assim com Frodo Bolseiro em todos os livros da série O Senhor dos anéis.
Verifica-se, em ambos casos, o mesmo princípio fundamental: um herói oferece a própria vida diversas vezes ao longo da narrativa em favor do seu povo. O herói expõe-se a perigos extremos que lhes custam diversos flertes com a morte pela defesa de um ideal de liberdade e virtude. Quantas vezes não estivemos absolutamente certos de que Luke e Frodo estavam mortos? "Desta ele não escapa!", pensamos nestas ocasiões enquanto consumíamos avidamente as narrativas de suas desventuras heróicas. E, no entanto, ao sobreviverem às armadilhas do mal, ao invés de abandonarem seus projetos beneméritos, eles se entregaram a eles com intenção renovada, num processo que descreve com exímia precisão o significado do termo "grandeza moral".
A pessoa capaz de sacrificar-se é um gigante, pois a maioria é egoísta e mesquinha, pensa apenas no prazer imediato. Vencer estas tendências imediatistas requer o esquecimento da própria vontade e a adesão a um ideal de virtude e grandeza, precisamente o que Frodo e Luke fizeram. Percebam que este valoramento dos atos heróicos é, de certa forma, um convite que se faz ao espectador, para que ele repita o gesto generoso. O maior objetivo de um contador de histórias é retirar as pessoas da sua indiferença costumeira, fazendo-as ver que o melhor é entregar-se todo à construção de um mundo melhor. Não sem razão, percebemos que este ciclo virtuoso deve começar no exercício diário da individualidade de cada um através da honesta aplicação dos compromissos assumidos.
Vocês percebem que o uso diário do fio dental é uma atividade que requer sacrifício e abnegação? É muito mais fácil não fazê-lo! Dá menos trabalho, exige menos. Mas como os heróis nos demonstram, a grandeza não está na política do "menos", não está em render-se. Pelo contrário, a grandeza está em vencer a tendência de se permanecer imóvel e indiferente. Não poderia estar mais equivocado quem considerasse suficiente a entrega a projetos grandiosos sem sacrificar-se por isso. As grandes entregas se fazem de pequenas entregas. A pretensão de colher os louros da fama através do menor esforço é justamente o que caracteriza o arquétipo contrário, o sombra, ou seja, o vilão. O herói o vence por virtude da entrega completa de si, concretizada através de pequenas negações quotidianas da própria vontade.
Esta propaganda maravilhosa foi excelente ocasião para discutir estes assuntos porque são como ela as histórias contadas pelos povos, como Campbell o demonstrou. Todas elas são construções metafóricas! Os universos de Guerras nas Estrelas e O Senhor dos anéis não existem. Eles foram criados com a intenção deliberadar de formar as consciências educando-as para o bem, incentivando a virtude e a disciplina. Quem quiser conferir estas ideias por si próprio poderá fazê-lo de maneira magistral lendo O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, sua tese de doutoramento em antropologia. Infelizmente, essa leitura não será possível àqueles não iniciados em antropologia e psicanálise.
Porém, há uma alternativa. Houve um grande mestre das artes cinematográficas entre os alunos de Campbell que, após a assimilação de seus ensinamentos, editou-os de modo a demonstrar as profundas raízes arquetípicas de todas as narrativas. Este volume se chama A jornada do escritor, e seu autor é Christopher Vogler. Como foi escrito para ser compreendido pelo público leigo, ainda que bastante desafiador, este é um texto que se faz entender, que não tem a pretensão de tratato sobre a alma do homem. Quem o vier a conhecê-lo terá outra ideia sobre o sacrifício constante de si através da tomada de consciência da própria responsabilidade e grandeza. Somente os derrotados que em nada contribuem deixam-se vencer pela preguiça e indiferença.
De fato, ainda que seja difícil expor ao homem moderno a profunda verdade encerrada no contínuo sacrifício de si, seja através de grandes gestos, ou ainda da contínua luta quotidiana por uma vida mais virtuosa nas pequenas coisas, todos compreendem facilmente que esta é a matéria de que se compõem os heróis, pois nenhum deles se deixou entregar à uma vida de consolações fáceis. Todos eles sempre estiveram determinados a fazer o que é certo, custe o que custar, a começar por eles mesmos! Os fortes levantam-se e forjam o futuro com os próprios braços, ainda que seja apenas para faxinar os dentes com fio dental. Para se vencer grandes batalhas é necessário vencer antes as pequenas - essa é a Lei.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O fio dental e a vida dos abnegados, ou
Um guia prático para a compreensão de Frodo Bolseiro e Luke Skywalker
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2 comentários:
Achei muito interesante o teu texto! Realmente, no mundo da propaganda existem informações que captamos até mesmo inconscientemente, sem nos dar conta! As formas abstratas e subliminares são as que mais surtem efeito. E elas movem nossas reações.
Trabalho de mestre, a propaganda e teu post!
Parabéns!
Muito obrigado!
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