sexta-feira, 25 de junho de 2010

Uma importante questão em Freud e Foucault

Este será um breve texto especulativo. Pretendo apenas ressaltar um questionamento de importância central para o reto entendimento do que é o homem segundo dois pensadores extremamente influentes da contemporaneidade: Freud e Foucault. Não entrarei agora em particularidades e detalhes. Apenas traçarei linhas gerais que me permitirão um aprofundamento posterior. O assunto que irei abordar é também de enorme importância para o pensamento de ambos. Trata-se da efetiva noção de liberdade individual.

Para Freud, estamos indefinidamente presos numa intricada trama de neuroses (somatizações de conflitos emocionais) decorrentes de nossos relacionamentos familiares mais próximos. Segundo o pai da psicanálise, estas neuroses aprofundam-se tanto que se tornam parte constitutiva do nosso ser, a tal ponto que não se pode mais separá-la de um eu pretensamente livre. Freud acreditava que não se podia dissociar a neurose do eu sem destruí-lo por completo. Atentem para o profundo pessimismo desta idéia, tão revelador de uma profunda descrença no homem.

Já Foucault era mais instruído em filosofia. Esse conhecimento poupou-o de algumas asneiras freudianas. Foucault sabia que o homem se faz a si mesmo como quiser, ou seja, não é determinado por nenhuma experiência anterior, pode-se construir como lhe parecer mais adequado. Através de profundas análises históricas, o francês demonstrou a evolução das idéias, o que revela o seu caráter de criação. Portanto, Foucault não caia na ingenuidade de achar que o homem é natural, ou seja, sabia que o homem é uma construção de si.

Pelo que disse até agora, parece que Freud é um determinista e Foucault é um radical mentalista. Isso não estaria propriamente correto, pois, ainda que estas breves frases revelem em síntese o que Foucault pensava, Freud está mal representado nelas, pois ele acreditava que o homem se pode transformar a si mesmo. Freud apenas não compartilhava da idéia de que há liberdade total no processo, por isso acreditava que o homem não consegue se libertar totalmente das neuroses. Uma pena, porque os filósofos clássicos já tinham demonstrado a liberdade total há milênios.

Por sua vez, Foucault também não está plenamente correto, pois a infância marca impressões profundas na mente humana. Pode-se demonstrá-lo através dos padrões de comportamento adquiridos, comprovados pelas neurociências. Caso uma pessoa seja educada de maneira muito disfuncional em sua infância, a reparação dos danos levará tempo e exigirá muita paciência e determinação. Porém, ao contrário do que Freud ensina, ainda que nunca nos tornemos perfeitos, é possível uma superação efetiva das neuroses, com evidente melhora na qualidade de vida.

Isso só é possível porque as interconexões entre nossos neurônios podem ser remodeladas conforme um treinamento que podemos nos impor. Aí se vê como a liberdade é total, pois podemos modificar absolutamente tudo em nossa personalidade. Não importa que tenhamos sido, por exemplo, educados dentro do protestantismo mais radical. Podemos nos fazer o mais corrosivo tipo de ateu, como Marx ou Nietzsche, ambos filhos de pastores. Tampouco importa a lascívia que tenhamos vivido. Podemos nos converter como Santo Agostinho ou São Francisco.

Portanto, percebam que estou bem mais próximo de Foucault do que de Freud, pois, como afirmado, não apenas a filosofia clássica afirma a completa construção das crenças humanas, mas também a medicina têm demonstrado que o homem pode se fazer como quiser. O interessante é que, mais uma vez, a melhor solução do problema parece estar no meio-termo. Só não se pode corroborar com o erro grosseiro de que o homem é determinado pelas suas experiências anteriores, pois nem Freud concordava com isso. Essa idéia é defendida apenas por pessoas ignorantes em filosofia e psicologia.

Tenho a sensação de que este texto simples e despretensioso me ajudará a organizar certos raciocínios. Pretendo desenvolver maiores detalhes aos poucos, entrando nas várias particularidades. Provavelmente a primeira delas será uma tentativa de compreensão do mecanismo com que elegemos nossas prioridades, pois o modo como escolhemos é, de fato, a melhor maneira para analisar o que somos, visto que muitos agem de maneira vergonhosamente oposta ao que dizem. O desvendamento desta imoralidade absurda (irei prová-la) é importantíssimo para se compreender o homem.

8 comentários:

Márcia Luz disse...

Oi, Henrique

Só é preciso lembrar que Freud, ao falar do homem, aproxima seu conceito da noção de individualidade (Eu = Ego, na luta com o Id e o Superego). Já Foucault pensa no ser humano social, construído em suas práticas discursivas (na verdade, não um Eu, mas vários Eus, resultantes dos embates de poder entre o Eu e o Alter).

Confesso que ao ler o seu texto, senti-me confusa - será que não entendi Foucault direito? - até conseguir perceber que eu precisava resgatar essa diferença para entender a oposição que você expressa entre o segundo e o terceiro parágrafo.

Um abraço

Henrique Rossi disse...

Isso. Você está certa. Mas estas suas colocações já entram um pouco em méritos mais aprofundados, o que pretendi evitar porque, nos próximos textos, farei outro caminho (imagino). O Foucault é, a princípio, mais sociólogo e historiador que psicológo, mas garanto que ele tem como colaborar nesta questão. Aguarde! rs..

Por sinal que me bateu uma dúvida: você já viu meus outros textos sobre Freud e Foucault? Agora não dá pra selecioná-los pq estou de saída (ficarei fora para o fim de semana), mas tem coisa interessante neles! hehe

Obrigado pelo comentário.

Adao Braga disse...

Nunca gostei da visão de ambos. Para mim, tanto um Freud, quanto Foucault partem de conceitos:

- individuo e atributos;
- individuo e raizes,

Eu prefiro ver todos juntos. Individuo, atributos e raizes

Henrique Rossi disse...

Ah, legal, Adão,

Mas você pode entrar em maiores detalhes?

Leonardo S. disse...

Asneiras freudianas? Precisa-se ler algo para falar sobre. Parace-me que não passou da 2 página das obras de Freud. Medicina HÁ.

Henrique Rossi disse...

Leonardo,

De fato, tenho uma relação de amor e ódio com Freud.

A continuação dos apontamentos levantados nesse texto em que você comentou pode ser encontrada neste outro:

http://www.polimatico.com.br/2010/08/perspectiva-mentalista-psicanalise-e.html

Só mais uma coisa, se ficou descontente com minha opinião, procurando desmerecê-la como equivocada, porque não demonstrou, em seu comentário, onde estava o meu equívoco? Prove-me errado, se puder.

Sandra MAFL SILVA disse...

eU TAMBÉM VIVO UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO COM FREUD DESDE O COMEÇO DA MINHA FACULDADE DE PSICOLOGIA, ESTOU ENTRANDO NA RETA FINAL E AINDA RELUTO EM ACEITAR TAIS QUESTÕÕES SOBRE AS EXPERIENCIAS ANTERIORES TEREM UM PAPEL TÃO DECISIVO EM NOSSAS VIDAS, AINDA MAIS AGORA APAIXONADA POR SKINNER E SUAS IDEIAS, MEU DEUS!ACREDITO QUE PODEMOS MUDAR NOSSO AMBIENTE E PORTANTO NOSSO COMPORTAMENTO!! GOSTEI DO TEU TEXTO!

Henrique Rossi disse...

Obrigado Sandra.