segunda-feira, 26 de julho de 2010

Infelizmente, Marina Silva, a 'Obama' brasileira, já era

Apesar da generalidade com que se apresenta, sinto lá certa atração pela figura de Marina Silva, a Rainha das Selvas, defensora da flora e da fauna nacionais. Ascendente das camadas mais pobres do país, Marina alfabetizou-se adulta e, engajando-se posteriormente na política, firmou-se como filiada do PT acreano, pelo qual elejeu-se senadora diversas vezes. Foi Ministra do Meio Ambiente do governo Lula, do qual se desvinculou por considerá-lo desenvolvimentista demais, aderindo então ao PV, do qual é lançada à sua primeira disputa presidencial. Dos três candidatos principais, Marina tem-se destacado pela ausência de propostas concretas e pela fartura de intenções maravilhosas ou mirabolantes, fazendo-se, assim, uma espécia de Obama brasileira de saias. Muitas das vezes ela soa apenas vaga nas suas promessas fantásticas, outras vezes, comentando aspectos um pouco mais diretos de nossa realidade política, ela revela pensamentos um tanto incomuns e, em alguns casos, inaceitáveis.

Como não estranhar, por exemplo, que Marina defenda a atuação armada nos anos 60 e 70 da candidata Dilma Rousseff, a escolhida do presidente Lula? Em sabatina hoje ao portal Terra, Marina criticou que se considerasse a luta armada de Dilma e seus camaradas como terrorista (reportagem aqui), e não ficou só nisso. Disse também que a luta de Dilma era pela democracia. Ora, há aí um equívoco absurdo. Todos os documentos dos grupos armados dos quais Dilma pertenceu, e que estão ao alcance da imprensa, demostram claramente o seu inequívoco aspecto terrorista. Trata-se de colocação absolutamente incompreensível da parte de Marina. A luta de Dilma era pela substituição do regime miltar por uma ditadura de extrema esquerda. Que Marina esteja escondendo a inspiração extremista dos movimentos de luta armada das décadas de 60 e 70 não apenas surpreende como escandaliza, pois ela, como candidata ao Palácio do Planalto, deveria ser uma das primeiras a zelar pela verdade dos fatos a respeito da nossa recente história política.

Infelizmente, Marina Silva não se limitou a ignorar a clara inspiração ditatorial dos movimentos de guerrilha urbana dos quais Dilma Rousseff participou. Numa declaração sem precedentes, ela também defendeu a permanência no Brasil do terrorista italiano Cesare Battisti (reportagem aqui), condenado em seu país à prisão perpétua pelo assassinato cruel de quatro pessoas. O filho de uma das pessoas assassinadas também foi baleado e tornou-se paraplégico. Ele tinha 13 anos de idade quando Battisti atentou contra sua vida. Este terrorista cruel está no Brasil desde 2004, tendo sido preso em 2009 por solicitação da Itália que, posteriormente, solicitou sua extradição. O ministro da justiça de então era o petista Tarso Genro, que começou a batalhar nos bastidores pela permanência de Battisti no Brasil sob a justificativa de que o terrorista político sofria perseguição em seu país por causa de seus ideiais esquerdistas. Que Marina Silva secunde esta injustificável violência à nossa Constituição é um absurdo sem igual.

Pior ainda foram os motivos dados pela candidata do PV à permanência de Battisti no Brasil: "O Brasil já deu abrigo até a ditadores. Por que com ele seria diferente? Aí o Brasil tem uma tradição. Se o princípio é dar apoio e suporte, mantêm-se os princípios". Será mesmo que eu entendi bem? Segundo Marina, o Brasil tem de zelar pela tradição de apoiar ditadores e terroristas? Ora, o correto não seria garantir que terroristas e ditadores respondessem à Justiça dos países onde cometeram seus crimes? Não é assim que procedem os países sérios, cumpridores de suas respectivas constituições e tratados de extradição? A verdade é que Marina Silva está defendendo que o Brasil descumpra sua Constituição e os tratados de extradição que assinamos com diversas nações amigas. Será mesmo este o seu papel como candidata à Presidência da República? Como brasileiro que ama seu país, afirmo que, a menos que Marina Silva volte atrás nestas afirmações absurdas, ela tanto não terá meu voto quanto faz-me assumir comigo mesmo a promesa de combater a todo custo a sua eleição.

Para mim, esta é uma decisão triste e custosa. Ainda que José Serra esteja tendo um desempenho irrepreensível como candidato, acho que ele não seria minha opção de voto no primeiro turno das eleições deste ano. Honestamente, preferia Marina Silva. Até bem pouco tempo atrás, ela era a única candidata a se posicionar contra o aborto. José Serra, por sua vez, emitiu umas portarias um tanto ambiguas a este respeito quando foi Ministro da Saúde do governo FHC, razão pela qual ele nunca foi meu favorito. Porém, semana passada ele colocou-se contra a reformulação da lei que pune o aborto como crime, o que o favorece deveras em minha opinião. Diante deste novo fato e das absurdas colocações que Marina Silva fez hoje, estou cada vez mais obrigado a votar em José Serra já no primeiro turno das eleições. Devo fazê-lo não apenas para zelar pela coerência de minhas opiniões. Se José Serra é o único candidato a opor-se ao aborto e lutar pela nossa segurança institucional ao mesmo tempo, ele torna-se a única opção possível às pessoas que amam o Brasil.

4 comentários:

Ricardo Novais disse...

Eu vou perde meu título de eleitor para ser impedido de votar nas eleições de outubro; hahaha.

Este episódio da Marina Silva lembra-me um pouco os posicionamentos do nosso querido Monteiro Lobato - só que enquanto a 'rainha das selvas' utiliza argumentos de acordo com a sua formação marxista, o nosso literato se baseava no eugenismo para expressar o seu ponto de vista para cunhar uma nação desenvolvida e progressista. O caso é que ambos são escravos de suas próprias épocas.

Ai, Marina, só Jesus mesmo...

Um abraço, caro Henrique.

Henrique Rossi disse...

Muito bem lembrado, Ricardo!

Monteiro Lobato, meu conterrâneo, era um eugenista sim. Nossa, ele defendia cada bobagem positivista. Os livros infantis refletem pouco a ideologia dele, mas quem folhear sua literatura para adultos terá grandes surpresas neste sentido. Como Marina, ele acreditava em cada bobagem...

Um abraço pra ti também.

Ricardo Novais disse...

Sim, Henrique; disseste tudo neste teu comentário.

Ah, mas gostaria de deixar claro que gosto da literatura do Lobato, sobretudo a infantil - talvez por isto mesmo seja tão difícil para mim constatar que ele teve ideias repugnantes. Lobato foi capaz de escrever um conto maravilho como "Negrinha"; por outro lado, também deixou-se levar pelos interesses preconceituosos de seu tempo ao escrever o seu único romance: "Presidente Negro" - livro este, aliás, que excluindo o enredo mal composto e mal intencionado, antecipou muitos acontecimentos; por exemplo, Obama, a internet, os desastres ecológicos etc. estão todos lá em "Presidente Negro".

Às vezes penso que não somos totalmente livres e sofremos as influências, más e boas, do nosso tempo; mas também penso que temos capacidade suficiente para analisarmos os fatos de nossas vidas - e isto que me parece imperdoável. Ao menos em parte temos responsabilidade sobre o que pensamos e, sobretudo, caso de Lobato, Wells e outros, sobre o que deixaremos escrito ao povo futuro; pois me parece que é só o tempo o verdadeiro juiz das ideias de uma época passada - o problema é que muitas vezes o passado é o fundamento do futuro, embora eu sopese isto do tempo presente...

É sempre boa a reflexão aqui, caro Henrique.

Abraço.

Henrique Rossi disse...

Eu também sou bastante fã da literatura do Lobato para crianças. Talvez aquela qualidade toda advenha de certa despretensão. Já o Lobato para adultos é o oposto disso. Tem lá suas qualidades, mas nem eu nem a crítica especializada o colocamos na posição de grande artista das letras. Acho q o mundo vai bem sem ele! :)